07 agosto 2026

O navio Dente de Coelho naufragou na Laguna e levou com ele uma locomotiva

 
Tarde de verão de um mês de março. Um barco, como tantos outros rotineiramente faziam, se aproxima da embocadura da Barra da Laguna. Em seu porão transporta uma locomotiva. A travessia pelo canal é para ser rápida, cinco a dez minutos de duração. Após esse tempo chega-se a um porto franco, seguro e abrigado. De repente a embarcação vai em direção às pedras do Morro do Tamborete.  O que teria acontecido?

Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA).

Domingo, 18 de março de 1917. O relógio ia marcar pontualmente 16 horas. Tarde quente daquele verão.
O Iate Dente de Coelho oriundo do Porto de Paranaguá, no Paraná, trazia em seu porão uma locomotiva e vinte e três volumes de ferragens diversas destinadas à Estrada de Ferro D. Teresa Cristina.
Era sua primeira viagem com destino ao Porto da Laguna. Além de velas era movido por um motor a gasolina de 70 cavalos.
Seis homens compunham sua tripulação.

Os Molhes da Barra estavam em construção
Iniciadas em 1903, continuavam as obras de construção dos molhes do Porto da Laguna com o intuito de maior vazão e aumento do calado.
Em 1917 o guia do Molhe Norte estava com 700 metros de extensão já implantados. Já o guia do Molhe Sul ainda não havia sido iniciado.

O choque com as pedras do Morro do Tamborete
Procurando entrar no canal através da boca da Barra, o navio perdeu seu rumo e minutos depois chocou-se às pedras de granito róseo do Morro do Tamborete, fazendo água. Logo a seguir, arrastado pela vazante, naufragou parcialmente sua proa e encalhou nos baixios.
Algumas testemunhas que estavam pescando nos costões próximos ao local, disseram que o navio parecia ter perdido o leme.
Os tripulantes conseguiram descer o escaler. Com muita dificuldade chegaram nas areias de uma pequena enseada situada ali perto, onde desembarcaram. Estavam assustados, mas são e salvos.
A capatazia do porto foi logo avisada e um rebocador da Alfândega de Florianópolis foi chamado pelo telégrafo. Poucas horas depois ao chegar ao local do acidente, nada mais podia ser feito.
A bordo do rebocador veio João Sanford, guarda-mor da repartição.

Uma jangada para salvar a locomotiva
Chamado às pressas nos escritórios da Estrada de Ferro, em Tubarão, o diretor Roberto Helling se dirigiu ao local.
Visando salvar a locomotiva deu ordens para construção de uma jangada com um guindaste a bordo para içar a máquina.
Mas, com o passar das horas e a força das ondas que batiam em seu costado, o navio adernou demasiado.
Foram infrutíferos todos os esforços de salvamento.
A chegada de ferragens e maquinários como locomotivas em porões de navios para a Estrada de Ferro D. Teresa Cristina vai se tornar rotina, principalmente a partir da década de 1940 com a criação do porto carvoeiro da Laguna. Como se pode observar na foto abaixo:

Cais do Porto Carvoeiro da Laguna, década de 1940.  Uma locomotiva é içada do porão de um navio. Autor desconhecido.

Um inquérito marítimo para apurar o sinistro foi aberto pela Capitania dos Portos e Mesa de Rendas da cidade. Naquela época as duas repartições federais participavam conjuntamente quando de sinistros marítimos.

Jornal lagunense O Albor de 24 de março de 1917.


Problemas mecânicos e imperícia
Foram realizadas as oitivas das testemunhas, dos tripulantes da embarcação e do Prático da Barra.
Constatou-se em averiguação técnica na embarcação, que o leme apresentava defeitos, sem condições de segurança e resistência. “A parte superior da peça era embutida numa cavidade insuficiente e não se achava fixada à respectiva base por pinos que o varassem”, registrou o relatório.
Além do problema mecânico, o inquérito concluiu que o mestre do navio, Joaquim Antunes colaborou para o incidente “por haver efetuado as manobras com imperícia ao faltar o governo do navio, não utilizando-se das âncoras e motor da embarcação para evitar, pelo menos, o desastre total".
Como penalidade o mestre foi suspenso por três meses de suas funções.

A carcaça de um navio junto com uma locomotiva repousam no fundo do mar
Com essas informações, ficamos sabendo que em frente aos rochedos de granito róseo da Ponta do Tamborete, situados poucos metros depois da entrada do Molhe Sul da Barra da Laguna, repousa a carcaça do navio Dente de Coelho, tendo em seu interior uma locomotiva e suas ferragens.

A foto aérea de Elvis Palma mostra bem o local onde está sepultado o navio Dente de Coelho com a locomotiva em seu porão. No centro da foto estão as pedras rosadas da Ponta do Tamborete. Mais à esquerda, depois do costão, a Praia de Gravatá. À direita, a Barra da Laguna. Na época dos fatos ainda não existia o Molhe Sul.

A embarcação não estava no seguro, conforme noticiou a imprensa da época.
O prejuízo foi calculado em 80:000$000 (Oitenta contos de réis), moeda de 1917.
Utilizando-se parâmetros hipotéticos de atualização, como critério de compra (numa proporção histórica) daria atualmente um valor estimado de R$ 4 milhões e meio de reais.
No cálculo, cada conto de réis da época convertido para os dias de hoje valeria R$ 56 mil reais.

O proprietário era norte-americano e morava no Paraná
O iate Dente de Coelho era de propriedade de Réo Benett, fazendeiro no município de Guaratuba no litoral paranaense.
Benett foi um empreendedor norte-americano que emigrou para o Brasil no início do século XX. Ficou conhecido por atuar como concessionário de grandes obras de infraestrutura e exploração mineral no Sul e Centro-Oeste do Brasil.
Juntamente com sua esposa Catarine Benett fixaram residência na região de Cubatão, no Paraná e iniciaram plantação de banana caturra com sementes oriundas de Santa Catarinas, além de outros empreendimentos.

2 comentários:

  1. Não sabia desse naufrágio. E afundou com uma locomotiva. Será que ainda resta as ferragens ali no fundo?
    Laguna de tantas histórias .

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  2. Valmir... grato por mais uma história envolvendo nossa terra e o mar... no caso, o mar costeiro que na época (1917) tinha uma geografia bem diferente da atual por conta dos molhes que foram finalizados no início dos anos 40. Também, hão existia o grande "aterro" efetuado na ponta da barra a partir da dragagem (lembra da história da draga que veio da Holanda... onde um dos tripulantes acabou casando com uma lagunense e a levou para sua terra (uma versão de Anita na metade do século XX), mas isto já é outra história. Bem, a tal draga tirou areia do canal do porto até a entrada da barra e depositou o material no local onde depois teve início a construção de casas e os restaurantes hoje conhecidos como Geraldo, Boião e outros... além de prolongar o aterro até onde hoje atraca a balsa. Daí o tal navio sem seguro da carga, certamente com problemas de manutenção e outros... veio a bater e afundar encostado as pedras. O resto a sua excelente matéria nos apresenta demonstrando o amadorismo já existente naquela época onde o transporte foi contratado "por preço" e não "competência". Muito importante: a locomotiva era da Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina... uma empresa pública que contava seguramente com gestores qualificados por critérios distantes da competência.
    Grande abraço do Adolfo Bez Filho - Joinville / SC.

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