Muita gente
desconhece, principalmente as novas gerações, que em um dos velhos prédios
situados no centro da cidade já funcionou uma pujante indústria da Laguna.
Ali na avenida
Colombo Machado Salles nº 84, defronte à Lagoa Santo Antônio dos Anjos, ao lado
da atual sede da Polícia Militar Ambiental, uma empresa do ramo pesqueiro gerou
centenas de empregos e incrementou a economia do nosso município.
Hoje seus muros
e paredes frontais servem somente para ostentar a chamada arte do grafite e a
empresa entrou para o extenso rol do “Laguna já teve”.
O cenário era bem diferente há 43 anos
Cinco de maio
de 1977. Um dia de festa na Laguna. Nesta data aconteceu em nossa cidade a cerimônia
oficial de instalação da filial da Cooperativa Mista de Pesca Nipo Brasileira, que
tinha sua sede em Santos (SP), fundada em 1953.
Capa do jornal Semanário de Notícias de 7 de maio de 1977.
A Nipo havia
adquirido os controles acionários de duas empresas de pesca que, meses antes,
haviam encerrado suas atividades na Laguna: a Santa Marta Pescados e a
Codipesca. Tornava-se assim a principal indústria pesqueira do município.
Um coquetel em
sua sede às 16 horas e um jantar às 20 horas no Clube Blondin, reunindo
autoridades, políticos, membros de clubes de serviço e representantes de
pescadores e armadores de Santa Catarina, consolidaram o ato.
Que ainda teve
palestra sobre cooperativismo e sua importância no desenvolvimento econômico e
na emancipação social.
Centenas de empregos
Centenas de
empregos criados, direta e indiretamente, incrementaram a renda de muitas
famílias, aumentando a receita do município, através dos impostos e taxas
recolhidos.
Os barcos
traziam o pescado, que era processado, embalado e congelado e em caminhões
frigoríficos eram enviados aos mercados consumidores.
Novamente
abastecidos com combustível e gelo, as embarcações rapidamente retornavam à
lide no oceano.
O prédio em 1977.
No auge da
produção, a Nipo chegou a receber vinte barcos por semana, que descarregavam
200 toneladas de camarão vermelho, tipo exportação, além de outros tipos de
pescados.
Entre as
embarcações, a “Brilhante”, dirigida pelo mestre João José; e “Chimarrão”, do
mestre Antoninho.
Seu Nézio era
o prático encarregado de orientar os mestres das embarcações.
Como
encarregada geral da filial da Laguna a senhora Zair Corrêa. O gerente de
indústria era Celestino de Jesus Antônio. Encarregada das funcionárias de
manipulação de pescado, dª Alaíde.
A empresa
chegou a ter em média 200 funcionários, entre motoristas, produção, manipulação
e escritório.
Possuía refeitório, servindo café da manhã e almoço.
Tenho uma
irmã, Kátia Guedes, que trabalhou de 1982 a 1992 no escritório, junto com Tânia
Roslindo e dª Zair e até hoje relembra a grandiosidade da empresa e do que
representou para Laguna.
A peixaria da Nipo
Em 1983,
atendendo apelos da população lagunense, a Nipo criou o chamado varejão do
pescado, uma peixaria instalada em seu prédio, com portas abertas à avenida, atendendo o consumidor.
Os preços do
pescado eram atrativos, bem abaixo do mercado e logo a iniciativa tornou-se um
sucesso na região.
Um dos
responsáveis pelo local era Agenor (Bibio) Cereja, progenitor do nosso colega, radialista
Paulo Cereja.
O Natal da Nipo
Até hoje,
antigos funcionários da Cooperativa lembram que o Natal da Nipo era uma
verdadeira festa em família.
Da matriz em
Santos, em dezembro, vinham caminhões trazendo presentes para os funcionários e seus
dependentes, comemorações eram feitas num clima de confraternização e alegria,
assim como na Páscoa.
O aviso
Menos de dez
anos depois, em 10 de agosto de 1984, uma importante reunião aconteceu tendo
como local o Iate Clube da Laguna. O evento reuniu autoridades da cidade, entre
prefeito, vereadores, comerciantes e empresários ligados ao setor.
A direção da
Nipo Brasileira avisava que iria deixar Laguna tendo em vista a falta de
infraestrutura portuária.
O principal
empecilho era o baixo calado da barra e da nossa Lagoa Santo Antônio dos Anjos
que estava dificultando a chegada de dezenas de barcos até o cais de atracação
da empresa. Outros motivos alegados eram a redução da produção e a falta de
incentivo por parte do governo ao setor pesqueiro.
Mas o
fechamento, apesar dos inúmeros problemas enfrentados, ainda vai levar oito
anos para se concretizar. E neste período não se registraram medidas concretas por parte de nossas autoridades e representantes políticos para que o fechamento não acontecesse. E a sociedade lagunense, de modo geral, estava alheia a perda.
O fechamento
Em 17 de
outubro de 1992 a manchete do jornal O
Renovador trazia a triste notícia: “Nipo
fecha e demite 90”.
Era o capítulo
final de uma história de sucesso.
O prédio nos dias atuais.
Posteriormente
o imóvel foi adquirido pela Unisul e nele passou a funcionar o seu Laboratório
de Ciências Marinhas (LCM), (hoje desativado), e que através de projetos
realizados buscava planos de ações locais visando uma pesca sustentável.
Hoje o prédio, de propriedade particular, que se situa num local nobre da cidade, encontra-se completamente abandonado.
Em 20 de janeiro de 1996, no Centro
Cultural Santo Antônio dos Anjos, quando do lançamento do livro “De
Laguna a Brasília”, do médico Antônio Paulo Filomeno.
Presenças de seus amigos de infância e
juventude:
Caio (??),
Carlos da Silva Rollin, Alberto (Beto) Prudêncio, Jorge Abrahão, Sérgio (Naina) Mattos, Antônio Paulo
Filomeno (Filó), Carlos Prudêncio, Pedro (Pepê) Floriano Júnior, Jairo Nicolazzi Reis e José Carlos Natividade
(Buju).
Há alguns anos, como já informei em post
anterior, pesquisando documentos no
Arquivo Público de nossa cidade, me deparei com um Livro de Registros da
Prefeitura da Laguna.
Na capa da publicação os dizeres “Para Termos de Suficiência – Exame
de Condutores da Laguna - 1933”.
Willy Strack na direção do Ford T, 1915, pertencente a Júlio Berger. Primeiro
automóvel da Laguna.
A publicação estava empoeirada e meio comida pelas traças em suas beiradas,
mas traz os registros oficiais dos primeiros motoristas da Laguna, de carroças
e automóveis. E melhor: com fotos ¾ de todos eles. Uma preciosidade para
qualquer pesquisador/historiador.
O Têrmo de Abertura com a assinatura do prefeito da Laguna Giocondo Tasso.
O Livro, e único exemplar que encontrei, abrange os anos de 1933,
administração do prefeito Giocondo Tasso, a 1956, já dirigindo o Paço Municipal
o prefeito Walmor de Oliveira.
Fotografei por inteiro o documento.
Para melhor
entendimento dos nossos leitores, antigamente era a prefeitura quem organizava
e realizava os exames de direção, contratando os examinadores e expedindo a
Carteira de Habilitação.
Pelas
anotações fica-se sabendo que o primeiro a se registrar em nossa cidade,
em 25 de maio de 1933, foi Oscar Bergler, 28 anos, Carteira nº 1, sendo seu
exame de habilitação prestado alguns anos antes, em 9 de maio de 1923 em
Tubarão. Testemunhas do registro? Dr. Paulo Carneiro e Mário Bianchini.
Assinam
ainda o documento o secretário da prefeitura José (Zeca) Freitas e o então
prefeito-provisório Giocondo Tasso.
Oscar Bergler motorista com registro nº 1.
Oscar Bergler
era filho de Júlio Bergler e Luíza Pires Bergler, residentes em nossa cidade.
Em 13 janeiro
de 1915, conforme registro do Jornal OAlborde 17 de janeiro daquele ano, chegava
a nossa cidade, no convés do vapor Anna,
o primeiro automóvel da Laguna, de propriedade de Júlio Bergler, progenitor de
Oscar Bergler.
"Está de
hoje em diante, à disposição do público", conforme noticiou o periódico,
registrando a grande atração.
Os pioneiros chauffeurs da Laguna
Como Júlio
Bergler, proprietário, ainda não dirigia automóvel, quem tomou a boleia do
veículo foi Willy Strack, que por sinal foi também motorista do
primeiro caminhão, pertencente a Jacinto Tasso.
1º caminhão da Laguna. Um
Ford 1913 pertencente a Jacinto Tasso. Na direção, Willy Strack.
O primeiro
caminhão da Laguna foi adquirido em 1913 pela empresa Rovaris & Tasso e
serviu para o comércio “entre esta praça e o município de Urussanga e as
colônias de Azambuja, Pedras Grandes, Braço do Norte e, provavelmente,
Araranguá”.
Veja abaixo, na íntegra, a notícia publicada no jornal O Albor de 31 de agosto de 1913:
Strack é
considerado o primeiro motorista de automóvel/caminhão na Laguna, mas sua
carteira foi registrada no município de Brusque.
Foi também um dos pioneiros em transportes coletivos em nossa cidade.
Quem foi Willy Strack
Willybaldo
Ferdinando Strack era seu nome, mas ficou conhecido entre nós como Willy
Strack. Personagem que está a merecer uma rica biografia.
Nascido na
Áustria em 3 de setembro de 1890, filho de Felipe e Cristina Strack, veio recém-nascido
para o Brasil junto com seus progenitores, passando a residir em Brusque.
Em 1914, aos
24 anos, buscando novas oportunidades, Willy veio para Laguna.
Aqui exerceu
diversas atividades, entre elas a de músico nas projeções do cinema mudo no
Cine Central no prédio do Teatro 7 de Setembro, pintor, mecânico, fotógrafo,
motorista e instrutor de direção de automóveis.
Montou uma
oficina de consertos e venda de autopeças e materiais elétricos situada no
bairro Campo de Fora.
Foi
representante comercial em nossa cidade dos aparelhos de rádio Zenith, valvulado, caixa de baquelite. E também dos aparelhos receptores Philips.
E aqui dou um
testemunho pessoal. Muitas vezes, década de 70, a pedido do meu pai, fui até a sua casa
comprar válvulas e outras peças para esses modelos de rádio, suprindo assim material de reposição que meu progenitor em sua oficina no Largo do Rosário necessitava para consertar aparelhos
de seus clientes.
Publicidade da Oficina de Willy Strack.
Willy Strack
foi tornado cidadão lagunense em 1975.
Faleceu aos 93
anos na madrugada de sábado, 19 de março de 1983. A rua no bairro Campo de Fora
onde tinha sua residência, oficina e garagens foi denominada com seu nome em sua homenagem.
Dele disse em
editorial o jornal O Renovador de 26
daquele mês:
“Willy Strack,
como lagunista, foi mais lagunense, em toda acepção da palavra, que a maior
parte dos aqui nascidos.
Para semear
essas qualidades, não precisou dos recursos da política. Ao contrário, Willy
Strack preferiu os atalhos da harmonia. E sem deixar qualquer respingo de
animosidade, aqui viveu, no anonimato, ensinando a alunos a arte de bem viver e
servir ao próximo”.
Bessa foi testemunha ocular: "Lá vem o bicho de fogo"!
Numa crônica
publicada no jornal O Renovador de 27
de setembro de 1980, o saudoso músico e colunista Agenor Bessa com sua prodigiosa
memória, e contemporâneo dos acontecimentos, relembrou a chegada dos primeiros automóveis
e neófitos motoristas:
“Em dezembro
de 1914 (O Albor registra a chegada em
janeiro de 1915 N.A.) aqui eram desembarcados onde está edificado o atual
Mercado Municipal, três automóveis, sendo que dois eram de cor preta e um de
cor vermelha.
Para pilotar
aqueles veículos, vieram também na mesma viagem, os srs. Júlio Bergler, Willy
Strack e Juvenal, que, infelizmente esqueci o seu sobrenome. O primeiro, era o
proprietário da frota e os dois últimos, empregados.
Durante o dia
em que esses carros desembarcaram ninguém sabia como chamar ditas máquinas, mas
eram vistas com o mesmo espanto como se hoje chegassem à Laguna três discos
voadores. Todos olhavam para eles, não digo assustados, mas admirados, porém, à
noite, quando acenderam os faróis, já se dizia: Lá vem o bicho de fogo!
A garotada
passou a dar às diversas peças os nomes que achava que deveria dar e, lembro-me
bem que o volante era chamado de “orça”.
Passado algum
tempo, o sr. Júlio Bergler, que logo foi apelidado de "Júlio Polaco” trouxe
também, para o serviço de motorista, os srs. Aurélio Gomes, irmão do
inesquecível amigo João Rodolfo Gomes, o “Joca Moreira”, e um outro Aurélio que
não guardei seu nome completo e, apenas sei que veio de Brusque.
Dentro de
certo tempo, o sr. Willy Strack, homem de senso prático e talhado para vencer,
comprou os carros e contratou o sr. Júlio Bergler com os filhos José e Oscar,
para atender o serviço de táxis na Laguna.
Tempos depois,
outro filho do sr. Bergler, Júlio Bergler Júnior também prestou por certo
período, os mesmos serviços”.
Os pioneiros motoristas
E assim transcorre o mencionado livro da prefeitura, página a página,
enumerando os nossos pioneiros chauffeurs de automóveis e carroças,
ainda grafando este termo em francês como então usual. Entre eles:
Dr. Paulo Carneiro, Carteira nº 3;
Mário Bianchini, Carteira nº 4;
Pedro
Rocha, Carteira nº 8;
Dr. Aurélio Rótolo, Carteira nº 13;
Humberto Zanela, nº
17;
Francisco Fernandes Pinho, nº 19;
Mário Remor, nº 30.
Antônio Dib Mussi, nº 67.
Registro nº 3 do médico Paulo Carneiro, aos 26 anos, tendo como Perito Examinador Willy Strack.
Registro de Mário Bianchini, Carteira nº 4
Dos mais antigos e conhecidos motoristas da nossa Laguna, destacam-se
João (Salame) Juvêncio Martins, que
depois foi instrutor de gerações de alunos, com a Carteira nº 63; e Vitório Paladini, Carteira nº 75, motorista (ou chauffeur de praça, como queiram) durante décadas.
E quem terá sido o primeiro carroceiro cadastrado?
Lá está, para todo o sempre: Celestino dos Santos, 31 anos, casado,
filho de João Maria dos Santos. Celestino recebeu a Carteira nº 2.
Eram dezenas de Cocheiros e Carroceiros em virtude do grande movimento do nosso comércio, porto e estrada de ferro.
Quem assina a rogo é Júlio Marcondes. Testemunhas: Oscar Bergler e
Hilarião Pacheco. O exame foi prestado bem antes, em 7 de julho de 1923, na
delegacia de Polícia, conforme caderneta apresentada.
No Clube
Congresso Lagunense, numa noite qualquer do passado, saboreando umas geladas e
batendo um bom papo, presenças de Batista Abrahão, João Alfredo Dias (Babá), Jupi Viana de Oliveira, Carlos da Silva Rollin, Batistinha Abrahão e
Edilo Kfuri.
A foto é de dezembro de 1965, palco do Cine Teatro Mussi, Cerimônia de Colação de Grau da primeira
turma do Curso Científico do então Conjunto Educacional Almirante Lamego - Ceal.
Da esquerda
p/direita, na foto:
Professores: Jairo
Ulysséa Baião, Ruben de Lima Ulysséa, Sérgio Martins Nacif e Maria Isabel
Bellaguarda.
Alunos: José Paulo Pereira Lopes, Pedro Paulo Mendonça
Mendes, Volnei Carvalho da Rosa, Jair Souza, Juarez Fonseca de Medeiros e
Antônio Fernando Salles da Rosa
Neste domingo,
4 de outubro, aniversaria seus 72 anos de vida uma grande lutadora pelo
trabalhador do comércio da Laguna.
Lenita Luíza Lindermann
foi por mais de quinze anos presidente do Sindicato dos Comerciários de nossa
cidade, entre as décadas de 80 e 90.
Um início difícil,
de conquistas da categoria, palmilhando passo a passo cada vitória, enfrentando
obstáculos os mais diversos, reações, caras feias e um status quo que até então tudo podia.
Através do
sindicato dos comerciários lagunenses Lenita conseguiu implantar horários de atendimento para
o nosso comércio, saídas e entradas pré-estabelecidas dos empregados, fixadas em acordos de categoria, antes não cumpridos por muitos
membros da classe patronal.
Lutas por pisos salariais, melhores condições de trabalho e diversas outras conquistas trabalhistas foram uma constante.
Foi
perseverante no trabalho e na mudança de mentalidades e juntamente com sua diretoria batalhou para
instalação de um escritório para realizações de reuniões e propostas de pautas e receber as reivindicações dos membros da
classe. A sede do sindicato situava-se entre as ruas Voluntário Benevides e Fernando Machado (Rincão).
Honesta,
correta em suas atitudes e decisões, até porque foi também comerciária, oriunda
da base da categoria, conhecia profundamente os problemas encontrados. E os enfrentou com galhardia e coragem.
Muitas das
conquistas hoje desfrutadas pela categoria dos comerciários da Laguna são oriundas
de lutas da época de sua gestão.
Infelizmente
muita gente que lutou e luta por essa terra e pelo seu povo ao longo de nossa história, em todas as áreas e setores, não é lembrada para uma homenagem pelo seu trabalho e dedicação.
Outros que
nada ou pouco fizeram, que chegaram ontem e já “pegaram janelinha”, recebem louvores
imerecidos, títulos, medalhas, diplomas, elogios gratuitos e fortuitos porque meramente interesseiros, politiqueiros, calcados
simplesmente no toma-lá-da-cá ou no mero puxa-saquismo.
Mas o que vale é a consciência de cada um, o trabalho sonhado e realizado, o bem produzido. É isso verdadeiramente que é anotado no livro da existência de cada um de nós. Essas páginas é que serão lidas em nosso julgamento final.
Daqui deste
pequeno espaço dou um salve-salve a uma grande mulher que sempre colaborou com
seu trabalho e dedicação em prol do ser humano.
Parabéns
Lenita pelo teu aniversário e pelas conquistas e lutas por uma categoria de
trabalhadores que muita representa sócio-economicamente para nossa cidade.
Ela era inteligente, dinâmica e bonita, afirmam os que a conheceram. Casada, três filhos, trinta anos. Córa Magalhães Rocha foi a primeira
mulher lagunense aprovada em exame de direção e a obter carteira de motorista
de automóvel em nossa cidade. O ano? 1937.
Córa Magalhães Rocha, primeira mulher a tirar carteira de motorista de automóvel na Laguna.
Alguns anos antes, em 1928, outra mulher catarinense, Otília Garofallis
Fialho foi também a primeira a obter o almejado documento em Florianópolis. E
em grande estilo atravessou dirigindo um veículo pela Ponte Hercílio Luz,
inaugurada dois anos antes.
Era a mulher conquistando espaço numa sociedade ainda extremamente
machista e patriarcal.
Dª Otília faleceu no último sábado (19) na capital do estado aos 109
anos.
Duas mulheres de fibra, corajosas, desbravadoras.
Preconceitos na época? Certamente. Mas nada impediu que Córa e Otília
fossem pioneiras como motoristas de automóveis.
Pioneirismo
feminino sobre quatro rodas
Há uns cinco anos, pesquisando documentos no Arquivo Público de nossa cidade, encontrei um antigo Livro de Registros da Prefeitura
da Laguna.
Na capa os dizeres “Para Termos de Suficiência – Exame de Condutores
da Laguna - 1933”.
A publicação estava empoeirada e meio comida pelas traças em suas
beiradas.
Mas traz os registros oficiais dos primeiros motoristas (condutores) da Laguna, de
carroças e automóveis. E melhor: com fotos ¾ de todos eles. Uma preciosidade
para qualquer pesquisador/historiador. Fotografei por inteiro o documento.
O Livro abrange os anos de 1933, administração do prefeito Giocondo
Tasso, a 1956, já dirigindo o Paço Municipal o prefeito Walmor de Oliveira.
Para melhor entendimento dos nossos leitores, antigamente era
a prefeitura quem organizava e realizava os exames de direção, contratando os
examinadores e expedindo a Carteira de Habilitação.
Lá está registrado. A pioneira a aventurar-se oficialmente sobre quatro
rodas chama-se Córa Magalhães Rocha, nascida lagunense em 1907, filha de Luíza
Rollin Magalhães e Eugênio Magalhães.
Casada em 4 de julho de 1925 com Pedro Rocha, comerciante na
Laguna, (Rocha & Cia - Exportadores das acreditadas marcas de farinha Selecta e Sulina, situada na rua Gustavo Richard).
Córa foi habilitada para dirigir automóvel em 16 de setembro de 1937.
Córa fez os exames de direção e foi aprovada pelo perito examinador José
Bergler. Recebeu a Carteira de Habilitação de nº 103, em 16 de setembro de 1937,
portanto aos 30 anos de idade, documento assinado pelo prefeito Giocondo Tasso.
O marido de Córa, Pedro Rocha, possuía a carteira de nº 8.
Até 1956, último ano dos Registros que constam no Livro, Córa Magalhães
Rocha foi a única mulher autorizada a dirigir automóvel na Laguna.
Pelas minhas pesquisas complementares, soube que era uma
mulher decidida, de opinião, além de bonita, e que pelo seu pioneirismo,
certamente enfrentou preconceitos.
Córa, a filha Adail, o marido Pedro Rocha, e Lincoln Magalhães com o Fort T.
À época, mulheres viviam para o lar, não comandavam negócios
nem tinham o peso social que só vão começar a adquirir em meados do século XX.
O voto feminino no Brasil, por exemplo, só foi assegurado em
24 de fevereiro de 1932, quando as mulheres adquiriram o direito de votar e serem
votadas para o Executivo e Legislativo. E mesmo assim parcialmente. Somente as
casadas e com autorização dos maridos, as viúvas, e as solteiras que tivessem
renda própria.
Córa Magalhães aos 15 anos, capa da Revista Santelmo nº 15, de agosto de 1922, de Lucas Bainha.
Córa morou numa casa (onde hoje é um Bar/Café desativado) na
então chamada Praça da Bandeira (atual República Juliana), teve três filhas
(Adail, Maria Luíza e Abgail) e depois se mudou para o Rio de Janeiro.
Anos depois voltou a residir em nossa cidade, na segunda casa
da rua Ângelo Novi (ao lado do Clube Blondin) depois retornando ao Rio de
Janeiro.
Posteriormente, viúva, retornou à Laguna, residindo num
imóvel de dois andares onde funcionou o consultório do dr. Carpes, na rua
Tenente Bessa, defronte ao Sesc.
Faleceu no Rio de Janeiro aos 102 anos. Foi também até hoje a
única pessoa por quatro vezes Festeira de Santo Antônio dos Anjos.
Curiosidades sobre automóveis e
motoristas
A primeira mulher a dirigir um carro no mundo foi a alemã Berta
Benz em 5 de agosto de 1888, esposa de Karl Benz, fundador de uma montadora de
carros alemã, a Mercedes-Benz.
Berta Benz em seu veículo. Foto: Wikipédia.
Era um Benz Patent-Motorwagen, primeiro modelo de automóvel da História
o “veículo com motor a gás” foi patenteado em 29 de janeiro de 1886.
O primeiro exemplar do Benz Patent-Motorwagen, de 1886, hoje está no
Deutsches Museum, em Munique. Berta Benz dirigiu o terceiro exemplar
produzido.
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A primeira mulher a conseguir uma carteira
de motorista foi a francesa e Duquesa d’ Uzès, no ano de 1899.
Dois meses depois ela foi aos tribunais
responder por excesso de velocidade. A velocidade máxima era de 12km/h e ela
dirigiu o automóvel a 15 km/h.
Nem imagino como foi calculada essa
diferença.
**********
As primeiras mulheres a terem habilitação
para dirigir no Brasil foram Maria José Pereira Barbosa Lima, viúva do
jornalista Alexandre Barbosa Lima Sobrinho; e Rosa Helena Schorling, que
aprendeu a dirigir aos 12 anos, no automóvel de seu pai, um Opel 1895, com
direção do lado direito e câmbio e freio do lado de fora.
Ano 1999. Diretores e colaboradores da S.R. 3 de Maio do bairro Magalhães. Alguns deles
de saudosa memória. Fiz esta foto na rampa da tradicional sociedade.
Ivaldo Roque em recorte de foto da Capa do LP Pentagrama, de 1976, Gravadora Continental.
“Existem pessoas que merecem elogios. Não elogios
com interesses mesquinhos. Falo com sinceridade.
Conheci Ivaldo Roque há alguns anos. Tenho
acompanhado seu trabalho, compositor e músico nato que é.
Bom papo, conhece tudo de música. Não é de se
admirar o sucesso alcançado em Porto Alegre, onde mantêm bons amigos.
Dizem que aos oito anos já tinha composto um samba
e colocado até melodia. Ele não confirma, modesto que é.
Com seus conhecimentos, aconselha, participa e nos
mostra o agudo senso musical de que é possuidor.
Está entre nós (seu maior desejo) espero que não
seja passageiro.
Continue Ivaldo mostrando os ótimos dotes dessa
sua arte”.
Em 17 de junho
de 1983, tinha eu 23 anos quando escrevi o texto acima sobre Ivaldo Roque em
minha coluna “Telescópio” publicada no jornal O Renovador, semanário de nossa cidade.
Foi uma singela homenagem
que fiz ao músico lagunense, ainda em vida.
Algumas vezes tínhamos nossas colunas compostas lado a lado no jornal:
Nasceu na Laguna
Ivaldo Roque
nasceu na Laguna, no bairro Roseta (hoje Progresso), em 12 de fevereiro de
1939, filho de Nair Maria de Jesus e Hercílio Roque.
O pai exercia
a profissão de barbeiro e nas horas vagas, músico violinista. Autodidata, tocou
bombardino na Banda União dos Artistas. A mãe, do lar, lavava roupas pra fora
para ajudar no sustento familiar.
Numa de suas crônicas, Ivaldo conta que quando criança gostava muito de brincar de rádio com seu irmão Idevaldo. Um fazia o papel do rádio e o outro de ouvinte. Se revezavam atrás de uma grande bacia de zinco. Uma batidinha na bacia e o outro tinha que falar, cantar, apresentar notícias e músicas. Duas batidinhas desligava-se o rádio. Passavam horas nisso.
Cedo, na
pré-adolescência, Ivaldo começou a trabalhar, empregando-se como mensageiro
(estafeta) na Companhia Telefônica Catarinense, em prédio não mais existente,
situado na rua Gustavo Richard.
Em paralelo,
estudava no Grupo Escolar Jerônimo Coelho e herdando o talento musical do pai, já
na adolescência começou a tocar violão e cavaquinho, em sambas e choros.
Aos 12 anos, e
é ele mesmo quem conta, desfilou pela primeira vez na Escola de Samba Brinca Quem Pode.
Vou pra Porto Alegre, tchau!
Antes de completar
18 anos, em 1957, e seguindo o exemplo de tantos outros jovens lagunenses,
Ivaldo partiu de nossa terra natal em busca de um emprego e melhores condições
de vida. Seu destino foi a capital do Rio Grande do Sul.
Em Porto
Alegre trabalhou como pedreiro, tornando-se interno do Colégio Pão dos Pobres,
onde cursou linotipia.
Logo em
seguida começou a trabalhar na empresa Caldas Júnior, que editava o jornal Correio do Povo.
Estudou violão
clássico na Escola de Música de José Gomes. Com o professor ao violino e
Wladimir Latuada na flauta, formou um trio que se apresentava em bares,
concertos, festas e shows na capital gaúcha.
Em 1967
integrou o “Grupo Cantapovo”, apresentando-se no 1º Festival Sulbrasileiro da
Canção, realizado no Teatro Leopoldina. Torna-se um requisitado professor de
violão.
Retorna a
trabalhar na Caldas Júnior como linotipista, que tinha abandonado.
Participa em
1971 do show “Rio Grande do Som”, no Teatro São Pedro, ao lado de Luiz Coronel,
Mutinho e Jerônimo Jardim, este último será seu parceiro em várias canções
pelos anos seguintes, entre elas “Moda de Sangue”, gravada por Elis Regina.
Envolve-se na
criação de sambas-enredos e como componente da Academia de Samba Praiana.
É dessa época
o surgimento do “Grupo Pentagrama”.
Em 1972, com o
samba “Exaltação à Praiana”, em parceria com Pedro Mattos, ganha o prêmio de
melhor música do carnaval daquele ano.
No ano
seguinte Ivaldo começa a lecionar no Liceu Palestrina.
Na noite
porto-alegrense Ivaldo se desdobra tocando em bares e restaurantes. No
tradicional e famoso restaurante Vilha d’Alho, situado na rua Bento Gonçalves,
dividia o palco com Planto Cruz e a cantora Loma.
Ali conhecerá
músicos e cantores já famosos no Brasil e outros que iniciavam suas carreiras musicais.
Em 1976 o
Grupo Pentagrama, formado por Ivaldo Roque, Tenisom Ramos, Loma Pereira, Yioli e
Jerônimo Jardim grava seu único LP, Gravadora Continental.
“Um disco que
se tornou referência fundamental para entender os rumos da moderna música do
Rio Grande do Sul”, no dizer de Gilmar Eitelwein. O Grupo pouco depois se
dissolve.
É autor, em
parceria com Jerônimo Jardim da música oficial da Festa de Nª Senhora dos
Navegantes, padroeira de Porto Alegre.
Ivaldo assina
a coluna “Ala do Roxo” no jornal Zero Hora, abordando assuntos do carnaval e
colabora aos domingos à noite com o programa “Gaúcha dá Samba”, na Rádio
Gaúcha.
Retorno para Laguna
Apesar de
alguns autores escreverem que Ivaldo Roque retornou à Laguna somente em meados
da década de 1980, em 1977 já estava entre nós. Se bem verdade que entre vindas
e idas à capital gaúcha, passando longas temporadas de meses por aqui.
Se não
vejamos: Em 1º de outubro de 1977, a convite do redator-chefe do jornal
“Semanário de Notícias”, Richard Calil Bulos, nosso saudoso Xaxá, Ivaldo
começou a escrever artigos para este jornal com o título de “Coluna do Roque”.
O proprietário
do “Semanário de Notícias” era o cartorário Luiz Paulo Carneiro.
Ivaldo registra o convite feito por Xaxá em seu
primeiro artigo.
Vai atravessar
os anos de 1977, 1978 e 1979 escrevendo e em 1980 se instala definitivamente na
nossa terra natal, conforme consta ao final de um de seus artigos publicados.
Em 3 de maio
de 1981 já fazia parte da diretoria da S. M. União dos Artistas, no cargo de
Relações Públicas.
Sambas enredos
No carnaval
lagunense de 1977, Ivaldo em parceria com André dos Reis e João (Dão) de Sousa
Júnior compôs para a Escola de Samba Brinca Quem Pode o samba-enredo “Lendas e
Mistérios do Negro no Brasil Império”.
Em 1978 para a mesma Escola o samba
“Exaltação ao Mártir da Inconfidência”.
“Festa Colorida e Dança da Deusa
Vodum”, em 1984, samba-enredo que tirou em primeiro lugar em concurso realizado
naquele ano.
Em 1985, Ivaldo em parceria com Mauro Candemil (sim, sim, naquele ano o atual prefeito não estava na Vila Isabel por, digamos, divergências carnavalescas...), compôs o samba-enredo “Com
Baeta, vamos lá”. Mas o samba no concurso não se classificou entre os três primeiros, mas até hoje é lembrado pelos foliões lagunenses.
Abaixo as
letras dos sambas-enredos, num valioso resgate histórico:
LENDAS E MISTÉRIOS DO NEGRO NO BRASIL IMPÉRIO –
1977
Autores:
Ivaldo Roque, João André dos Reis e João de Sousa Júnior
A onde o milongueiro mora
A onde o milongueiro mora
A onde o galo não canta
O pinto não pia
Criança não chora
A onde o milongueiro mora
A onde o milongueiro mora
O Brinca Quem Pode apresenta
Uma grande passagem da nossa história
Vieram de além-mar
Os primeiros escravos
Pra trabalhar, pra sofrer
Pra ajudar a fazer a riqueza do Brasil
E os negros
Os negros desembarcavam em São Vicente
E se espalhavam pelo país
Pra nascer cana de açúcar, fumo e algodão
Batuque, samba, congada
Quilombos e devoção
Até que um dia Oxalá iluminou a Princesa Isabel
Que aboliu a escravidão
Não existe mais senzala
Negro não é mais escravo
Negro ama todo mundo
E também quer ser amado
EXALTAÇÃO AO MÁRTIR DA INCONFIDÊNCIA – 1978
Autor: Ivaldo
Roque
A riqueza nossa
E a liberdade do nosso povo
Tiradentes batalhou
Mas deu no que se viu
A Inconfidência Mineira Silvério dos Reis traiu
Na morte de um homem
Começa o seu amanhã
Se dez vidas tivesse
Todas eu daria
Liberdade, liberdade
Ainda que tarde
Aconteceu o que o grande herói queria
Ora, pois, pois
Que genial
O grande herói é tema do meu carnaval
FESTA COLORIDA E DANÇA DA DEUSA VODUM - 1984
Autor: Ivaldo Roque
Ôi lelê Ôi lelê Ôi lalá
Canta povo meu
Na festa colorida
A dança da deusa Vodum
Animando nossa vida
Saravá, Ogum
O Brinca Quem Pode
Homenageia a influência
Dos imigrantes africanos
Na cultura brasileira
Iorubás, jejês, nagôs
Pretos originários de Daomé
Contribuíram na nossa formação racial
Lendas e costumes
Cultos e religiões
Que atingiram também
O nosso carnaval
Pelo bastão de Xangô
E o caxangá de Oxalá
Filho Brasil pede a benção
Mãe África
COM BAETA, VAMOS LÁ – 1985
Autores:
Ivaldo Roque e Mauro Candemil
Eu sou do Brinca Quem Pode
Pois ele mesmo é o tal
No samba
No frevo
Na marcha
Nas coisas de carnaval
Hoje vou cantar com alegria
E mostrar em fantasia
Um personagem popular
Do morro da Roseta
Oh! Baeta vem brilhar
Do carnaval, és cheio de glória
Teu nome ficará na história
Tua vida é nosso enredo
Que cantamos com gratidão
Com tua escola querida
Do bairro que te abraçou
Com o povão a sambar
Vem, Baeta, vem brilhar
Quem pode, pode
Quem não pode se sacode
Brinca Quem Pode
Brinca quem quiser brincar
Em 1981,
juntamente com Robson Barenho, Ivaldo compôs para a Escola de Samba Mocidade
Independente, fundada um ano antes, em 18 de julho de 1980, o samba-enredo “No
mundo do faz de Conta”, uma homenagem às crianças.
NO MUNDO DO FAZ-DE-CONTA – 1981
Autores:
Ivaldo Roque e Robson Barenho
Se a vida
Todo dia desaponta
Venha sonhar comigo
Vem pra folia
No Mundo do Faz-de-Conta
País das flores
Tema universal
Fadas Emília
A maravilha
Do sonho do carnaval
País dos sonhos
Rodas infantil
Bruxas folias
Reinam três dias
Os foliões
Do Brasil
Deixa vir o dia
Não te desaponta
Com sol ou lua
Faz desta rua
O Mundo do Faz-de-Conta
Entre as
inúmeras composições suas e/ou em parcerias, destacam-se “Porto Seguro”,
gravado por Eliana Pitman; “O Rancho convida” por Peri Ribeiro; e “Moda de
Sangue”, dele e Jerônimo Jardim, gravada por Elis Regina e uma das trilhas sonoras de duas novelas da TV
Globo: Coração Alado (1980) e Torre de Babel (1998).
Ivaldo fala sobre a canção “Moda de Sangue”
gravada por Elis Regina
Quando do
falecimento de Elis Regina em 19 de janeiro de 1982, Ivaldo Roque quatro dias
depois escreve sobre a morte da cantora em sua coluna “Toques do Roque” do jornal O Renovador de 23 de janeiro.
No artigo ele conta como conheceu Elis e
da canção “Moda de Sangue”, de autoria de Ivaldo e de seu
parceiro Jerônimo Jardim, gravada por ela no disco Saudade do Brasil, de 1980.
Eis seu depoimento:
“O ritmo da
vida tem compassos que até maestro é capaz de surpreender.
Assim como,
mortais que somos, que muito apreciamos músicas, além de tudo ficamos
consternados e inapelavelmente surpreendidos com as primeiras notas sobre o
passamento da intérprete Elis Regina, cantora de méritos reconhecidos em muitos
países.
Figura
importantíssima, primorosamente inserida no contexto da atual música popular
brasileira desde o advento da Bossa-Nova.
Conheci Elis
no auditório da Rádio Farroupilha, na rua 7 de Setembro em Porto Alegre.
Algumas vezes
a acompanhei ao cavaquinho com Paulo Coelho (violão), Planto Cruz (flauta),
Azeitona (pandeiro), Paulinho (acordeon) e no revezamento de violões, os
grandes Zico e Hermínio, às vezes, Cauby.
Ultimamente,
sempre que Elis se apresentava em teatros na capital gaúcha, jantava no
Restaurante Vinha D’Alho, onde atuei durante três anos tocando violão,
harmonizando os sons da flauta do Planto, vinte anos depois.
No “Vinha”,
meu bom parceiro Jerônimo Jardim, na hora da “canja” sempre cantava a nossa
“Moda de Sangue”. Elis gostou, Jerônimo gravou e fez chegar à cantora que
lançou nossa música no LP álbum “Saudade do Brasil” que acabou sendo parte da
trilha sonora da novela “Coração Alado”, em 1980, quando decidi de vez morar em
Laguna.
Deus protege
tua alma, Elis. O Brasil tem saudade de você”.
MODA DE SANGUE
Composição: Ivaldo Roque/Jeronimo Jardim
Quando te prendo
Na cadeia dos abraços
E te torturo
E te sufoco entre meus braços
E te fuzilo
Com os olhos do desejo
Te mordendo
No gosto do meu beijo
Quando te arranho
Te lanho de delícia
Vertendo sangue
Do teu corpo de malícia
Quando te xingo
Com palavras obscenas
Como jurasse
As juras mais serenas
Quando me vingo
Dos males que me fazes
Com frases
De maldade e veneno
Sinto meu amor
Que o amor é isso
Essas coisas
Muito fora de juízo
Outra despedida
Em 29 de maio
de 1982 Ivaldo Roque se despede da Laguna escrevendo sua última coluna denominada
“Toques do Roque”, no jornal O Renovador,
que havia encampado o Semanário de
Notícias em 1979.
Retorna triste
a Porto Alegre porque não haviam cumprido com a promessa feita por alguns
políticos de apoio na área musical e um cargo na prefeitura de sua terra natal.
Um novo retorno à Laguna
Mas vai
retornar à Laguna já no ano seguinte, em 1983, assinando a partir do mês de
maio a coluna “Opinião”, no mesmo jornal O
Renovador.
Escrevia que
queria viver e envelhecer em sua terra natal, ao lado de parentes e amigos na
“suavidade da paz de espírito”.
Pela Rádio
Garibaldi apresenta o programa “Garibaldi Faixa Aberta”, de grande audiência.
Apresenta-se
em concertos com certa frequência em vários municípios do estado, como Tubarão,
Criciúma e Florianópolis.
Integra-se ao
Regional do Zizinho, apresentando-se nas Semanas Culturais realizadas em nossa
cidade, e também no Teatro Álvaro de Carvalho, em Florianópolis, sempre com
grande sucesso.
Em 25 de
fevereiro de 1983 o Regional Lagunense (do Zizinho), com Ivaldo Roque, é a atração especial
do 1º Festival da Nova Música Catarinense, que aconteceu no palco do Cine
Teatro Mussi.
Neste
Festival, promovido pelo Grupo Coisas da Terra, foi vencedora a canção “Apenas
um Canto”, apresentada por João Rodrigues Júnior e Rogério Perito.
Casa cheia, um
sucesso, com o evento transmitido pela TV Eldorado e Catarinense.
No mês de maio
seguinte acontecem em nossa cidade o “Laguna Samba Show” e o “Canta Laguna”.
Eventos organizados pelo Grupo Coisas da Terra que tinha como organizador dos shows o irrequieto Silvério de Jesus, que também dublava,
fazendo o maior sucesso, o cantor Ney Matogrosso do Grupo Secos & Molhados.
Outros tempos,
como se percebe, onde a música era valorizada em nossa cidade, com diversas
promoções nesta área.
Nomeado Assessor de Imprensa
Na nova gestão
municipal que havia iniciado naquele ano de 1983, comandada pelo prefeito João
Gualberto Pereira, Ivaldo Roque logo é contratado para ministrar aulas de
violão, realizadas no Clube 3 de Maio, no bairro Magalhães, às segundas,
quartas e sextas-feiras.
Em junho
assume como assessor de imprensa da Secretaria de Cultura, Turismo e Esporte do
município.
O titular da
pasta era o advogado lagunense Rogério Carvalho da Rosa.
Com seu
prestígio junto aos jornalistas do Rio Grande do Sul, emplacava diversas
reportagens nos jornais Correio do Povo
e Zero Hora sobre o carnaval, pontos
turísticos, pesca e gastronomia lagunense. Além de Festivais de Música e Teatro
aqui realizados.
Em janeiro de
1984 o bancário aposentado e também colunista do O Renovador Munir Soares de Souza assume a titularidade da
Secretaria de Cultura, Turismo e Esporte no lugar de Rogério, que solicita sua exoneração. Ivaldo é convidado a continuar no
cargo de assessor de imprensa da pasta.
Eventos e participações
Em 27 de
fevereiro de 1984, no IIIº Festival de Sambas Enredos, realizado no Ginásio de
Esportes Bertholdo Werner, Ivaldo vence com o samba “Festa Colorida e Dança da
Deusa Vodum”, representando a Escola de Samba Brinca Quem Pode.
Regional Lagunense: Nereu Sousa no cavaquinho e Ivaldo Roque ao violão.
No final
daquele mesmo mês aconteceu no Centro Integrado de Cultura (CIC) em Florianópolis,
numa promoção da secretaria de Cultura, Esporte e Turismo de Santa Catarina, o “Choro
Bem Chorado”.
Entre os
conjuntos Regionais que se apresentaram, destaque para o “Regional Lagunense”,
com Ivaldo Roque e Nereu Souza, entre outros músicos.
De 23 a 29 de
junho do mesmo ano de 1984, Ivaldo se apresentou em São Paulo, na “Semana da
Gastronomia Catarinense”, evento acontecido naquela cidade. Foi a convite
da Citur/SC, que era presidida por Artenir Werner.
Em agosto, a
convite do presidente Gercino Pacheco Bonifácio, Ivaldo assume o cargo de 1º
secretário da S. R. União Operária.
Em janeiro de 1985 Munir Soares solicita exoneração da secretaria de Turismo que fica sem titular até maio, quando assume Ézio Heleodoro de Souza.
Ivaldo continua na assessoria de imprensa mas sua saúde já não é mais a mesma, intercalando períodos de internações hospitalares e melhoras.
Últimos escritos
Num dos últimos escritos para o jornal O Renovador no começo da primavera de 1985, Ivaldo fala de saudade e das águas e dos ventos e do sol e das cores da nossa Laguna:
Banzo
"Está querendo surgir a primavera e, assim como quando vibramos a ponto de o coração trepidar, sigo rubro como o roxo fica junto à rosa mais querida, nesta Laguna repleta de belezas que vivemos a exaltar.
Meus primeiros encantos foram aqui.
Longe da Laguna por muito tempo estava me sentindo infeliz e, um banzo danado me apertava no peito cada vez mais forte, lá na cidade grande.
Aprendi muitas coisas nestes longos anos vividos fora daqui, mas ultimamente eu vinha me deixando violentar devido a compromissos assumidos com trabalhos que não mais compensavam o esforço, a dedicação e a enorme saudade que chegou a me por nervoso por algum tempo; eu estava querendo me desligar de tudo e voltar à Laguna.
Estive meio amargurado ao sentir que não seria fácil me livrar de tudo o que a cidade grande me ensinou... Mas, cá estamos, comunicando com letra e música. Agora, remoçado e impregnado dos ventos, das águas, do sol e das cores que respiro tranquilamente na Laguna".
Último evento na Laguna
No feriado de 7 de Setembro de 1985 foi publicada na imprensa lagunense a última notícia sobre uma apresentação sua.
Foi um evento beneficente do Grupo Terra na boate do Laguna Tourist Hotel.
Uma das atrações foi a apresentação de Ivaldo Roque ao violão com o juiz da Comarca Erwin Rubi Peressoni Teixeira ao piano.
Ivaldo vai se
afastar do cargo já doente, meses antes do seu falecimento.
Em novembro daquele ano é internado em hospital de Porto Alegre, mas recupera-se e retorna à Laguna.
Em 3 de abril é internado novamente e logo pela manhã de
segunda-feira, 7 de abril de 1986, no Hospital Nª Sª da Conceição, em Tubarão, o coração de Ivaldo Roque aos 47 anos parou de bater. Foi sepultado em nossa cidade.
Deixou esposa
e quatro filhos.
Ivaldo Roque. Foto: Jornal Sul do Estado de 17 de abril de 1984.
“Um artista, antes de tudo”, disse Munir Soares
Munir Soares
assim se despediu do músico e amigo em sua tradicional coluna “Comunidade” no jornal
O Renovador de 12 de abril:
“Num canto, o
violão mudo, fechado, sem vida. Na sala, ao lado, jaz o grande artista. Ivaldo
Roque está morto.
Fixo meus olhos
em suas mãos, cruzadas sobre o ventre, já sem alma e mergulho em meus próprios
pensamentos.
Eu o vejo, com
o Regional do Zizinho, tocando lá em casa, só para nós. Sinto-me ainda
arrepiado, ao relembrar sua performance ao lado do Nereu, no Teatro Álvaro de
Carvalho.
Ivaldo Roque,
violonista e compositor, deixa um acervo considerável. A música popular ou
erudita sempre fizeram parte de sua bagagem musical.
Ivaldo Roque
foi, antes de tudo um artista, um homem incompreendido por viver, quem sabe,
numa outra dimensão, na constelação dos músicos, onde a sensibilidade faz a
arte e a alma, canta e dança nas cordas de um violão.
Os violões
tocam em funeral – réquiem para Ivaldo Roque, um artista”.
“Ivaldo juntava tudo numa só pessoa”
“Ivaldo Roque
juntava numa só pessoa o ser catarinense e o ser gaúcho, o músico clássico, o
popular, o vanguardista e o jazzman, o sambista de botequim e o professor
universitário, o pedreiro e o linotipista dos primeiros anos, quando da sua
chegada a Porto Alegre”.
Assim iniciou
Gilmar Eitelwein seu artigo sobre o músico lagunense Ivaldo Roque, constante do
14º fascículo da Coleção Ceee/Som do Sul – História da Música do Rio Grande do
Sul no Século XX, editado em 2002.
Homenagens
Em 2004,
através da Lei Municipal nº 9.518/04, de 29/06/2004, Ivaldo Roque foi
homenageado com nome de uma rua localizada no bairro Chapéu do Sol, em Porto
Alegre.
Na Laguna,
através da Lei Municipal Ivaldo Roque teve seu nome batizado em uma via situada no
bairro Esperança.
Em 2009 Ivaldo
Roque foi homenageado na Semana Cultural da Laguna. Sua canção “Perfume de
Praia”, na voz de João Rodrigues Júnior, fez parte da trilha sonora da peça
teatral “A República em Laguna”.
O nosso Grupo Musical Opus 4, formado por Rogério Perito, Neusa Maria Preuss Custódio, Fernando Ilíbio e Handel Silveira executa lindamente "Perfume de Praia", de Ivaldo Roque e Robson Barenho; e a inédita de Ivaldo "Ao voltar de ontem".
O vídeo foi postado no Youtube e o reproduzo aqui nesta página: