O Monumento em homenagem aos Trabalhadores do
carvão, situado entre os bairros Magalhães e Mar Grosso, bem na rótula de
entrada ao Porto lagunense foi inaugurado no começo de 1944.
A homenagem foi também ao presidente Getúlio
Vargas, que havia assinado em 16 de setembro de 1939, através do
Decreto nº 4.676, a criação do Porto Carvoeiro
da Laguna.
1945 - O Monumento ao Trabalhador. À esquerda é a via de acesso ao Porto. Ao fundo pequenas casas dos primeiros moradores, onde hoje é a região do acesso à Balsa. |
Da festa de inauguração do Monumento não ficaram
registros nos jornais lagunenses da época. Não encontrei fotos nos arquivos públicos
da cidade ou em mãos de particulares. O mundo vivia então os turbulentos anos
da IIª Guerra Mundial, mas o Brasil, apesar de já ter declarado guerra ao eixo,
ainda não tinha entrado no conflito através da Força Expedicionária Brasileira
(FEB).
Se houve divulgação do evento ele aconteceu de
maneira discreta. Mas não era o usual naqueles tempos, onde tudo acontecia com
grandiosidade. Vivíamos então o Getulismo, de obras faraônicas, tempos do
Brasil Grande.
O prefeito Giocondo Tasso
Na vinda do presidente Getúlio Vargas ao estado
catarinense em 12 de março de 1940, em
Florianópolis, o então prefeito da Laguna Giocondo Tasso juntamente com
outras autoridades, expôs a necessidade de acelerar a construção do porto
lagunense.
O decreto de criação já havia sido assinado, como já informado. Aliás,
uma reivindicação das chamadas forças vivas da Laguna, com o prefeito Giocondo Tasso à
frente, juntamente com representantes do comércio e da política lagunense.
Com a chamada Revolução de 1930, Giocondo Tasso foi
nomeado prefeito da Laguna logo depois da posse do Interventor em Santa
Catarina, Aristiliano Ramos, em abril de 1933.
Antes dele, três nomes haviam sido nomeados
prefeitos da Laguna pelo primeiro Interventor no estado, Ptolomeu de Assis
Brasil:
Gil Ungaretti (De 14/10/1930 a 24/10/1930);
José Fernandes Martins (De 30/10/1930 a
28/10/1932); e Antônio Baptista da Silva (De 29/10/1932 a 25/04/1933).
Em maio de 1935, o governador eleito Nereu Ramos,
que havia assumido o nosso estado, conservou Tasso como prefeito de nossa
cidade.
Logo a seguir, Giocondo Tasso no pleito realizado no
ano seguinte, em 1º de março de 1936, foi eleito prefeito da Laguna por grande
maioria de votos dos eleitores lagunenses. Com isso ficava demonstrado o
reconhecimento pelos bons serviços prestados que vinha realizando à nossa
sociedade.
Assumiu a prefeitura, de onde estava licenciado
para concorrer, em 16 de abril do mesmo ano e exerceu o cargo até novembro de 1945.
O porto carvoeiro
As obras do novo porto foram iniciadas nos primeiros meses de 1940, mas
andavam em ritmo lento desde a assinatura do documento pelo presidente em 1939.
Basta ver que a primeira estaca de aço do cais do Porto Carvoeiro só foi fincada em 15
de fevereiro de 1941, conforme noticiaram os jornais da época.
Feita a reivindicação, dali em diante houve aceleramento do
empreendimento, com a construção do cais acostável de 300 metros, aquisição de guindastes elétricos, construção de armazéns, duas
carvoeiras, usina elétrica própria, extensão dos trilhos da Estrada de Ferro
até o bairro Magalhães, etc.
Durante a Guerra foi através do porto lagunense que
os navios da Democracia na luta contra o nazifacismo vinham abastecer-se com a
hulha negra que alimentava suas caldeiras.
Era o escoamento pelo porto lagunense, em caráter
industrial, em novo padrão produtivo, do carvão retirado às minas do sul do
estado.
O transporte já vinha acontecendo de forma
rudimentar pelo velho porto situado no centro na cidade, mas este não oferecia
mais condições por causa do baixo calado de sua lagoa.
Com o surgimento de navios carvoeiros maiores (Guararema,
Guaratuba, Guarapuava, Guaratan e Guaraú, os famoso “Guarás”, ligados
principalmente à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), de Volta Redonda, houve
necessidade de levar as instalações para perto da entrada/saída da Barra da
Laguna.
Os trilhos da Estrada de Ferro também para lá foram
estendidos, modificando a malha viária e ferroviária urbana e produzindo o
desenvolvimento urbanístico do bairro Magalhães.
Com a inauguração oficialmente do porto, o
Interventor no estado de Santa Catarina, Nereu de Oliveira Ramos, sugeriu ao
prefeito da Laguna uma homenagem a Vargas, ideia logo abraçada.
Em reunião promovida pelo prefeito Tasso junto a
outros prefeitos e empresários da região sul, decidiu-se pela criação, com
recursos de todos, de um monumento à entrada do nosso porto em homenagem a
Vargas, então denominado “Pai dos Pobres” e “Pai dos Trabalhadores”.
O
corte das pedras
O empreiteiro Íris Luz, proprietário de uma empresa
de prestação de serviços, foi contratado para, juntamente com seus operários,
efetuar o corte de pedras em granito rosado que serviriam para a base do
monumento.
Assim foi feito. Utilizando-se de caibros com
talha para 5 toneladas, e mais de uma dezena de operários, as pedras rosadas
foram cortadas milimetricamente ali na própria encosta da Praia do Iró, abrindo
assim caminho para a futura via feita em curvas, denominada posteriormente Rua Luiz
Severino Duarte, à época presidente da Associação Comercial da Laguna.
Datas constantes nos versos das fotos registram os
primeiros trabalhos como sendo efetuados em 3 de maio de 1943.
Íris Luz, além de empreiteiro, em muito contribuiu
com o carnaval lagunense, através do bloco O Cacareco, da rua João Henrique (do
Valo), no Magalhães, local onde residia.
Mas isso é outra história que merece ainda ser
contada num futuro.
O artista Leão
Veloso
As estátuas e painéis do Monumento são obras de
arte trabalhadas pelo artista plástico e escultor Hildegardo Leão Velloso, em
bronze aplicada e mostram homens dedicando toda a sua
força e vigor ao trabalho.
Ano e assinatura do artista no trabalho registram sua confecção: “Rio,
1944”.
Velloso nasceu em São Paulo em 1899, estudou escultura e modelagem com
Rodolfo Bernardelli. De reconhecido valor artístico, exerceu a livre-docência
da cadeira de escultura da antiga Escola Nacional de Belas Artes a partir de
1950.
Executou diversas obras pelo Brasil e Argentina, entre elas as
esculturas em mármore de Carrara que adornam os túmulos de D. Pedro II e da
Imperatriz Teresa Cristina, na Catedral de Petrópolis.
O Monumento ao senador Pinheiro Machado, em Ipanema, no Rio de Janeiro.
É dele também a estátua equestre do General Osório, na Praça da
Alfândega, em Porto Alegre, em 1933.
Faleceu no Rio de Janeiro em 1966.
O Monumento
na Laguna
Na Laguna o Monumento aos Trabalhadores tem ao todo 11,50 metros de
altura, com o perfil do presidente Vargas gravado em bronze em uma das
laterais, com os dizeres:
“Ao presidente Getúlio Vargas, o Estado de Santa Catarina”.
Logo abaixo, uma frase retirada de um de seus discursos:
“Habituei-me a ver a Pátria como um todo sem fronteiras internas,
formando perfeita unidade moral e material”.
O Monumento tem em sua parte central a forma de um obelisco, figura
geométrica retilínea muito em voga na época, mas lembra chaminé de fábrica,
mesmo em sua forma quadrada.
Os trabalhadores estão representados em sua forma de trabalho
rudimentar, rústicos, desnudos e descalços, extraindo pedras de carvão
utilizando-se de bastões de ferro e alavancas e transportando o material nos
ombros, em grande esforço.
Essas figuras contrastam com o representado em dois painéis laterais, do
mesmo artista, que já demonstram a utilização de equipamentos, vagões,
tratores, pás e botas. Um navio ao fundo faz a analogia ao transporte marítimo
do minério, escoado através dos vagões da Estrada de Ferro Tereza Cristina,
pelo porto lagunense.
São dicotomias que demonstram um novo tempo, o progresso tecnológico e
melhores condições de trabalho, tão apregoadas e implementadas na Era Vargas.
A principal via do bairro Magalhães, onde se situa o Monumento e aberta
naquela mesma época, também recebeu o nome do então presidente do Brasil.
Curta
redenção e início da estagnação
A construção do Porto Carvoeiro parecia ser a redenção da Laguna. De
fato o foi no primeiro momento. Viveu a nossa cidade nos primeiros anos um
período de progresso com a expansão da indústria carbonífera do sul
catarinense.
Mas os problemas começaram a surgir. Estudos encomendados mostravam a
precariedade da entrada da Barra em forma de tenaz e obstaculizada por bancos
de areia, provocando o baixo calado. Havia até quem afirmasse que existiria uma
pedra (uma laje) atrapalhando a navegação.
Outros fatores também contribuíram, como o desenvolvimento do transporte
rodoviário e da agricultura.
Pouco a pouco o transporte de carvão, em grande volume, começou a ser
escoado pelo Porto de Imbituba, particular.
Era o início da estagnação econômica de nossa cidade já no começo dos
anos 1950.
E foram nos primeiros anos dessa mesma década de 50 que surgiu uma nova
esperança -mais uma- no seio da comunidade lagunense, fomentada por políticos e
autoridades em vários níveis: a construção de uma siderúrgica na Laguna, a
famosa Sidesc.
Mas este é outro capítulo de lutas e esperanças de um povo traído, ainda
a ser abordado futuramente.
PS: O Monumento ao Trabalhador precisa de manutenção, melhor iluminação e limpeza. Suas esculturas precisam de um "banho" de cera de carnaúba.
Alô, alô Fundação Lagunense de Cultura e Secretaria de Turismo.
Ótimo resgate histórico. Desconhecia o escultor. Eis um Monumento que deveria ser melhor preservado.
ResponderExcluirAgradeço a leitura Geraldo. Realmente, acho esse Monumento grandioso, lindo. Inclusive seu entorno. Àquela rótula entre o Magalhães e Mar Grosso é um espetáculo. Quer ver bem iluminado.
ExcluirValmir, um giro histórico em torno do Monumento aos Trabalhadores, a nossa famosa e querida Estátua, para alguns, Estáuta. Ponto de referência, um marco para muitos, um símbolo do passado, cenário para fotografias, um ícone, uma obra de arte a céu aberto. O teu trabalho de pesquisa e de divulgação trouxe à tona detalhes que poucos lagunenses conhecem. Estás de parabéns pelo resgate. Também reforço o teu apelo por um olhar mais cuidadoso e perene ao monumento, contra o descuido já histórico. Adolfo PV da Silva
ResponderExcluirRealmente Adolfo, uma obra de arte a céu aberto. Não existe um painel no local contando o contexto histórico em que foi construído, com nome do escultor, prefeito, etc.
ExcluirAgradeço tua leitura sempre atenta. Abraço.
Realmente conhecemos pouco sobre a história da 'estatua".
ResponderExcluirEstá precisando mesmo de um olhar atento .Uma revitalização no local, irá causar curiosidade e despertar o interesse pela história de Laguna!
Muito bom, parabéns Valmir por mais uma publicação que nos faz refletir.
Nidia
Agradeço Nidia tua assídua e inteligente leitura. Abraço.
ExcluirFui parcial, me penitencio: deixei de comentar sobre o acervo fotográfico. Fantástico. Adolfo PV da Silva
ResponderExcluirQue legal Valmir. Sempre achei este Monumento fantástico, não valorizado. Agora conheci o seu contexto. A gente passa por ali rapido5, de carro e bem presta nos detalhes em sua história desde a Segunda Guerra. Matéria para se ler nas escolas e propor visita in loco dos alunos ao local. Depois da pandemia, claro. Parabéns por maus essa Valmir.
ResponderExcluirTambém acho Rosangela. Aulas de campo no local seriam bastante interessantes a escolares. Agradeço a leitura. Grande abraço.
ExcluirPoucas cidades tem um monumento tão bonito ao trabalhador como a Laguna. Deveria ser melhor lembrado e cuidado. Além de homenagens anuais no dia 1 de Maio.
ResponderExcluirGostei da reportagem. Aprendi muito.
Abraços Valmir
Também acho bonito o Monumento. E anualmente, como símbolo, sindicatos de trabalhadores deveriam aproveitar o local para homenagens, eventos manifestações. Abraço.
ExcluirBom dia!
ResponderExcluirSem dúvida, mais uma aula de história em sua totalidade e eficiência.
Muito bom expressar nossa história que é de grande valia a todos nós cidadãos lagunenses. Obrigada!
Fatima Martins - Blumenau -SC
Verdade Fátima, como a nossa Laguna é rica em sua história. Agradeço a leitura.
ExcluirObrigada Valmir por resgatar mais esse momento da História de Laguna. Já era do conhecimento dos descendentes do Nono Giocondo Tasso, fico feliz pelo reconhecimento dos Lagunenses. Turqueza Tasso
ResponderExcluirAgradeço a leitura, Turqueza. Temos sempre que resgatar nossos valores, nossos antepassados que tanto fizeram por nossa terra. Abraço.
ExcluirMeu querido Valmir, foi uma aula e tanto. Continuas sendo, meu historiador preferido.
ResponderExcluirForte abraço.
Agradeço a leitura nosso eterno radialista Luiz Nery. Abraço.
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