21 maio 2026

Um Príncipe na Laguna (Parte II) - Adendo

Em se tratando de pesquisas históricas, o assunto nunca se encerra e sempre podem surgir novas informações, através de documentos, jornais, fotos, depoimentos, diários...
A edição do jornal lagunense A Verdade de 4 de janeiro de 1885, conforme divulgado em seu número anterior, traria ampla cobertura sobre a visita do Conde d’Eu à Laguna.

O Conde d'Eu. Imagem: Alberto Henschel/wikipédia/Domínio público

O problema é que exatamente esta edição da cobertura da viagem não existe no acervo da Biblioteca Pública de Santa Catarina que é compartilhada pela Biblioteca Nacional em sua Hemeroteca Digital.
Por isso ficamos sem maiores detalhes da viagem e de como foi o dia passado em nossa cidade.
Baseado nas poucas informações publicadas no dia e em edições anteriores do jornal A Verdade foi que deduzi e informei que o Conde teria visitado prédios públicos, entre eles o Paço Municipal e a Agência Telegráfica, almoçado em casa de alguma autoridade ou comerciante abastado.
Após o post publicado no Blog, o jornalista Luiz Cláudio Abreu descobriu e me remeteu a edição de 15 de janeiro de 1885 do jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, que através de seu correspondente, veja só, estava presente na comitiva imperial e trouxe maiores e importantes dados sobre a viagem.
Lamenta-se que o nome do correspondente não tenha ficado registrado para a história.

Conde d’Eu chegou pelo porto da Laguna, diz jornal
O jornal carioca inicia trazendo uma novidade para nós, ao informar que o Conde deixou o porto de Desterro e desembarcou no porto da Laguna.
Outros jornais consultados, como o Jornal do Commércio de 27 de dezembro de 1884, informam, erroneamente, que partindo de Desterro o Conde teria chegado ao porto de Imbituba e dele partiu com sua comitiva nos vagões de passageiros da Estrada de Ferro Teresa Cristina para a Estação da Laguna. 

O desembarque na Laguna: “pessoas curiosas de ver o Conde”
“Eram 5 ½ da manhã de hoje quando o vapor chegou a Laguna, tendo feito uma excelente viagem”. 

É importante transcrever aqui para o leitor essa chegada, conforme narra o correspondente da Gazeta de Notícias: 

“Esta cidade, de que falei em outra carta, estava elegantemente preparada para receber a visita do ilustre príncipe.
O movimento era enorme, e no porto de desembarque, além de grande número de pessoas curiosas de ver, o sr. Conde d’Eu, digno esposo da herdeira do trono, achavam-se o presidente e vereadores da Câmara Municipal da cidade, o juiz de direito da comarca, o conselheiro Mafra, deputado pelo 2º distrito da província, o superintendente da estrada de ferro Thereza Christina, o sr. Warren Robert e o Dr. Brant de Carvalho incumbido da exploração das minas de carvão do vale de Tubarão, e grande número de pessoas gradas. No porto havia cerca de 60 navios todos embandeirados.
A recepção feita a Sua Alteza o sr. Conde d’Eu, na cidade da Laguna, foi espontânea, e via-se o contentamento em que exultava a população”.

Gazeta de Notícias do RJ, de 19 de janeiro de 1885.

Percorreu a pé a cidade
A Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro também informa que o Conde percorreu a cidade a pé, visitando a repartição telegráfica, o edifício da Câmara Municipal e depois foi à Igreja Matriz para ouvir e assistir um Te-Deum, uma missa em Ação de Graças pela viagem.
Minhas deduções estavam corretas quanto aos prédios públicos visitados e os navios embandeirados no porto. Ficamos sabendo que eram em número de 60. Uau!
Depois surge a segunda novidade: logo após a missa ele foi ao nosso Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos, que teve parte de suas instalações inauguradas em 4 de setembro de 1884, portanto, três meses antes da visita.

Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos nos últimos anos do século XIX visitado pelo Conde d'Eu.

Assim escreve o correspondente que estava junto à comitiva: 

“Depois da cerimônia religiosa, foi Sua Alteza visitar o hospital de caridade, que é uma bela instituição e cujos serviços à humanidade são incalculáveis.
Sua Alteza o Conde d’Eu ao retirar-se significou o seu contentamento, assim como os cavalheiros que o acompanhavam, pela ordem, asseio e bom tratamento que ali encontrou os enfermos”.
 
Banquete
E na reportagem surge a terceira novidade quando informa o nome do anfitrião que recebeu o príncipe e sua comitiva para um banquete.
Trata-se do cidadão Francisco Fernandes Martins.
 
Quem era Francisco Fernandes Martins?
De acordo com o que nos informa o ilustre e saudoso lagunense Norberto Ulysséa Ungaretti em seu livro “Laguna um pouco do Passado”, era conhecido como Chico Fernandes, da família Martins ali do Siqueiro.
Era comerciante, exportador e industrial. Casado com d. Francisca Torres Fernandes Martins e deixou numerosa descendência.
“Na década de 1880 construiu para sua residência o imponente prédio em que vai funcionar mais tarde (a partir de 1926 n.e.), o Colégio Stella Maris, no início do Magalhães. Era na época, a melhor casa residencial da cidade”.

Ao fundo o Palacete de Francisco Fernandes Martins onde o Conde d'Eu almoçou. O local hoje é o Colégio Stella Maris. Pode-se observar na foto que ainda não havia sido construído o cais em pedra granítica. À direita, o estaleiro.

Segundo informação do historiador Saul Ulysséa, Francisco Fernandes Martins “estabeleceu o primeiro engenho a vapor de beneficiar arroz em toda a zona Sul da Provincia, engenho em que funcionava em um de seus depósitos no Magalhães”.
Aliás, todo aquele extremo que hoje conhecemos como Ponta das Pedras era de sua propriedade, chamada na época de “Ponta dos Martins”.
Ainda conforme Norberto, “muito deve Laguna a seu espírito empreendedor”. Foi um grande doador para as obras do nosso hospital de caridade. 

Conde visitou um sambaqui
Após o farto almoço, do qual não ficaram registrados quais pratos servidos, o relato informa que o Conde d’Eu visitou um sambaqui.
Provavelmente, até por comodidade porque era passagem obrigatória, teria sido o “Sambaqui das Alminhas”, citado por Saul Ulysséa em seu livro “A Laguna de 1880.
Era situado justamente defronte ao palacete de Francisco Fernandes Martins, nas encostas do Morro da Paixão, onde décadas depois foi construído o prédio da Telesc, nas franjas do Morro do Peralta.

Prosseguindo viagem pelos trilhos
Depois o Conde d’Eu e sua comitiva seguiram para a Estação da Estrada de Ferro, situada no Campo de Fora “a qual achava-se enfeitada e apinhada de povo, que, ao partir o trem especial, deu muitas vivas correspondidos sempre com entusiasmo”.
Na Ponte Ferroviária das Laranjeiras, então denominada de “Viaduto”, na Cabeçuda, o Conde “fez parar o trem para examiná-la, e como ele todos ficaram satisfeitos vendo a maneira de fazer girar o vão móvel e dar passagem aos navios e outras embarcações”.
A viagem prosseguiu para Tubarão com admiração da comitiva pelos “importantes trabalhos de engenharia, e entre eles, cortes feitos em rocha viva, de cinco a seis metros de altura, no lugar denominado Laranjeiras e o grande aterro da Estiva dos Pregos, cujo volume vai além de 50.000 metros cúbicos de terra e a Ponte da Passagem”.
 
Embarque de retorno pelo porto de Imbituba
E assim se encerra a passagem do Conde d’Eu por Laguna. No dia 28 de dezembro de 1884, no retorno de Tubarão seguiu direto com sua comitiva para Imbituba.
Aí sim, embarcou às 17 horas no vapor Humaytá “que já o esperava e que havia saído da Laguna ao meio-dia com destino a Desterro”, onde todos chegaram às 23h30m.

Painéis contando a viagem
Se Laguna prezasse mais a história e o turismo histórico além de Anita Garibaldi, painéis contando num breve resumo a viagem e a passagem por aqui do Conde d'Eu deveriam ser instalados nesses prédios: Casa da Câmara (hoje Museu), Agência do Telégrafo (antigo Sine), Matriz Santo Antônio dos Anjos, Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos e Colégio Stella Maris.
Mas sei que é pedir demais aos nossos governantes, tão ocupados com outras questões.

18 maio 2026

FOTO-RETRÔ

 

No ano de 1987 o pessoal conferia mais uma edição do polêmico jornal lagunense O Palanque
Da esquerda p/direita: jornalista Richard Calil Bulos (Chachá); vereador Leandro José (Juca) Crippa (ficou encoberto na foto); o corretor de Imóveis Alvino José Júnior com seu filho; Dagoberto da Silva Martins, arquiteto e então chefe do escritório do Iphan da Laguna e o jornalista Valmir Guedes Júnior.
Uma foto de 39 anos atrás.
O jornal O Palanque, semanário crítico, mordaz, sarcástico, humorístico e político, durou cerca de cinco anos e tinha em seu corpo redacional Richard Calil Bulos (Chachá - fundador), Alvino José Júnior e Valmir Guedes Júnior.
O Palanque marcou época no jornalismo lagunense com inúmeras denúncias e sempre trazendo os bastidores da política. Era xerocado, com oito páginas, às vezes doze. Seus 300 ou 500 exemplares esgotavam-se rapidamente nas bancas do Chico e do Deca.
Quer ler mais sobre o jornal O Palanque? Clique Aqui

16 maio 2026

Blocos de pedras cedem nas Docas do cais

 
Dois blocos de pedra granítica do centenário cais das Docas, no Centro Histórico da Laguna, estão cedendo.

Bem provável que a causa tenha sido os calços de pedra que se deslocaram, com isso provocando a abertura de um vão onde se infiltram as águas da chuva.
Lembro que durante muitos anos, periodicamente, era providenciada a manutenção dessa muralha do cais em toda sua extensão, com a colocação de cimento entre esses vãos para evitar justamente a infiltração das águas de chuva e das ondas que se formavam quando de vento sul.
E agora, quem vai providenciar o conserto? Quem os colocará no lugar antes que desabem nas águas da Lagoa Santo Antônio? Afinal é uma área tombada e das mais belas da cidade, verdadeiro cartão-postal.
Alô, alô secretaria de Obras, Planejamento, Iphan.
 
Um pouco de história
Em 17 de novembro de 1909, em cerimônia efetuada pontualmente ao meio-dia, teve início a construção propriamente dita do cais do antigo porto da Laguna, com a colocação das primeiras pedras da muralha.
O empreiteiro (tarefeiro) encarregado dos serviços (1ª seção) foi Antônio Zamparetti, que já havia trabalhado em extração de pedras em estradas de Blumenau e São Paulo.

Em 1921 o cais ainda estava em construção, como mostra a foto. Ao fundo, o antigo Mercado Público que sofreu incêndio em 20 de agosto de 1939.

As pedras de granito róseo foram extraídas do Morro de Nª Sª do Rosário e talhadas no próprio local, abrindo assim passagem para os trilhos da Estrada de Ferro Teresa Cristina.
Quando chegou na 2ª seção, em forma de elipse que ia do antigo mercado público até as imediações do atual Iate Clube, aí incluído as docas do mercado, Arcângelo Bianchini substituiu o empreiteiro Zamparetti na continuação dos trabalhos. 
Imigrantes italianos trabalharam nas obras.
A construção do cais continuou e adentrou os anos e décadas seguintes, até o seu término, conforme previa o projeto.
Laguna entrava num novo tempo nas primeiras décadas do século XX.
Quer ler mais sobre a construção do cais? Clique Aqui

15 maio 2026

Faleceu José dos Santos Silva (Zé Calão) +

 

José dos Santos Silva (Zé Calão). Foto: Elvis Palma

Faleceu na noite desta sexta-feira (15) no Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos, onde estava internado, José dos Santos Silva (Zé Calão) aos 91 anos, um dos mais antigos moradores do bairro Magalhães e tronco que foi, com dª Ziza, já falecida e de saudosa memória, de numerosa, honrada e querida família.
Durante muitos anos foi proprietário de um armazém (venda) nas proximidades do Clube Xavante. Também trabalhou na pesca no Rio Grande do Sul.
Sentimentos a todos os familiares e amigos.
Velório acontece na Sala Mortuária da Casa Funerária Comsan, das 9h às 15h30m deste sábado (16/05) e sepultamento logo após no Cemitério da Glória.

Ranúzia Lopes Barreiros: 95 anos de vida

 
Ontem (14) foi dia de comemorar o aniversário da dª Ranúzia Lopes Barreiros em seus 95 anos de vida.

Ranúzia Lopes Barreiros

Dª Ranúzia, viúva do saudoso Aliatar da Silva Barreiros, recebeu familiares para um jantar no Restaurante & Pizzaria Chedão, onde foi muito cumprimentada pela passagem da data tão especial.
E completa essa idade com disposição, amor e alegria, além do carisma que servem de exemplo para todos nós, demonstrando como a vida pode ser simples, basta a gente querer e dar o nosso melhor.
Parabéns dª Ránuzia.




Recalçamento

 
Lembra daquela matéria que fiz Aqui há algumas semanas falando sobre o estado calamitoso que havia ficado o pavimento em paralelepípedos de um grande trecho da rua Raulino Horn?
Trecho que ficou mal feito, cheio de calombos após obras de uma empresa terceirizada pela Casan?
Pois nesta semana o trecho foi novamente refeito, tipo retrabalho. Fica aqui o registro.

 


09 maio 2026

Da série: Laguna também é assim...florida (Parte II)

 Vento de maio

(...)
Vento de maio rainha dos raios de sol
Vá no teu pique estrela cadente até nunca mais
Não te maltrates nem tentes voltar o que não tem mais vez
Nem lembro teu nome nem sei
Estrela qualquer lá no fundo do mar
Vento de maio rainha dos raios de sol
(...)
(Lô Borges e Márcio Borges)

A floração dos Bouganvilles...


Residência da d. Selma Fortunato Ávila, no Magalhães.


Residência no Mar Grosso do Dr. Márcio José Rodrigues e d. Graça

Residência no Mar Grosso da d. Zulma Brandão Delgado


05 maio 2026

Um Príncipe na Laguna (Parte I)

 
Além de D. Pedro I que esteve na Laguna, aqui pernoitou e assistiu missa em dezembro de 1826, história já publicada Aqui neste Blog em 2012, outro membro da família imperial do Brasil visitou a nossa cidade.
Trata-se do Príncipe Luís Felipe Maria Fernando Gastão de Orleans, marido da Princesa Isabel, mais conhecido por nós e nos livros escolares de história como Conde d’Eu.
O Príncipe chegou na Laguna um dia após o Natal de 1884. 

O Conde d'Eu. Imagem: Alberto Henschel/Wikipédia/Domínio público 

Desde os primeiros meses daquele ano do século XIX o Conde d’Eu já era ansiosamente aguardado por aqui, conforme anunciou o jornal lagunense A Verdade em sua edição de 25 de maio de 1884.

Hóspede ilustre – Corre como certo que brevemente teremos entre nós S.A. o Sr. Conde d’Eu, que vem assistir a inauguração da estrada de ferro D. Theresa Christina, seguindo depois para o Rio Grande do Sul, onde irá em comissão do ministério da Guerra”.

Jornal lagunense A Verdade de 25 de maio de 1884.

A Estrada de Ferro Teresa Cristina foi inaugurada em 1º de setembro de 1884, sem as presenças do Conde d’Eu e da Princesa Isabel.
Mas quando chegou dezembro daquele mesmo ano, aí sim foi confirmada a viagem do ilustre Casal Real à diversas cidades do sul do Brasil, inclusive Laguna.
O Conde d’Eu nascido francês em 28 de abril de 1842 era filho de Luís de Orlean e da Princesa Vitória de Saxe-Coburgo Koháry. Fazia parte da Casa Orléans, ramo cadete dos Bourbon. Seus avós paternos eram o rei Luís Filipe I da França, e a Princesa Maria Amélia de Nápoles e Sicília.
Portanto, Gastão era príncipe francês de nascimento e recebeu o título de Conde d’Eu.
Aos 13 anos iniciou sua carreira militar, cursou artilharia e obteve a patente de capitão.
Participou de várias batalhas, inclusive da Guerra do Paraguai, também chamada de Tríplice Aliança.
Em 15 de outubro de 1864 se casou com a Princesa Isabel, herdeira do trono brasileiro, tornando-se assim “Príncipe Imperial Consorte do Brasil”.
A título de curiosidade o nome completo da princesa Isabel é Isabel Cristina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança.

 Anúncio oficial e convite aos cidadãos lagunenses
Com o anúncio oficial da vinda, o jornal lagunense A Verdade em sua edição de 23 de novembro de 1884, já convidava os cidadãos para os festejos no mês seguinte de recepção ao casal Imperial:

 “Constando que SS. AA., o Senhor Conde e Condessa D’Eu, n. p. mês, chegarão a esta cidade, a Câmara Municipal convidou à diversos cidadãos para os festejos de recepção de SS. AA.”

O redator do jornal aproveitava a ocasião e na mesma nota pedia: 

 “Aplaudindo este ato da Câmara Municipal, por nossa vez, também pedimos aos senhores proprietários que mandem passar uma caiação, na frente de seus prédios, especialmente na Rua da Praia (atual rua Gustavo Richard) que, na maior parte, se acham em estado lamentável”.

Jornal lagunense A Verdade de 23 de novembro de 1884.

Limpeza e embelezamento sempre na véspera
Eita Laguna! No século XIX já deixava tudo para última hora, procurando limpar e embelezar a cidade somente ao receber visitantes ilustres e por onde passa o santo, como se diz. Alguma diferença dos dias atuais?
Era tipo um pedido de mutirão para dar um “tapa” no visual da cidade. E tem político ainda hoje que acha mutirão uma novidade.
Afinal, era o genro e a filha de D. Pedro II que chegavam. Ela a herdeira do trono brasileiro! Futura Imperatriz do Brasil.

Cais da Laguna no começo do século XX ainda sem o cais em granito em forma de elipse.

O jornal também criticava o péssimo estado das cercas de tábuas ao redor de terrenos em pleno centro da cidade e pedia providências.
Cá para nós, devia ter muita cerca podre, quebrada, encarunchada. Uma vergonha!

“Aos sr. Fiscal chamamos sua atenção para as cercas de tábuas e paus, que fecham diversos terrenos dentro da cidade que, além de estarem foram do alinhamento, devem seus proprietários ser obrigados a reformá-los, a bem do aformoseamento da cidade”.

 Não sei se os proprietários mandaram pintar suas casas, se houve fiscalização e se os melhoramentos solicitados foram efetuados como alinhamento, conserto e pintura das cercas.
Nas edições seguintes e até a chegada das visitas o jornal nada fala sobre isso.
O Conde d’Eu visitou grande parte do Brasil, quase sempre acompanhado de sua esposa a Princesa Isabel.
Nessa viagem, partiu do Rio de Janeiro em 8 de dezembro de 1884 acompanhado da esposa e visitou as três Províncias do Sul.
Depois do Paraná, esteve em São Francisco do Sul, Joinville (dia 12), Itajaí (16) e Blumenau (17).

O Conde d'Eu com a princesa Isabel e os filhos D. Pedro, D. Luiz e D. Antônio. Imagem: Alberto Henschel/Wikipédia/Domínio público

A Princesa Isabel não se sentindo bem de saúde, embarcou direto de São Francisco do Sul para Nossa Senhora de Desterro (atual Florianópolis) para onde o marido depois também se deslocaria para prosseguir viagem.
Com a herdeira do trono brasileiro estavam os filhos príncipes D. Pedro, D. Luíz e D. Antônio.

A viagem para Laguna
Em 25 de dezembro de 1884 o Conde embarcou às 21 horas em Desterro no vapor Humaytá cujo comandante chamava-se Natividade e partiu com destino ao Sul às 22 horas.

Jornal do Commércio, de Desterro de 25 de dezembro de 1884.

O Humaytá era um vapor - olha só que luxo, isso em 1884! - que fazia viagens regulares entre Rio de Janeiro-São Francisco do Sul-Itajaí-Desterro e Laguna.
Naqueles dias a Barra da Laguna estava impraticável, com maré baixa e o banco de areia atrapalhando a entrada e saída de navios.
Conforme noticiava a imprensa, várias embarcações estavam em nosso porto, então situado no centro da cidade, aguardando melhores condições para partirem.
Fosse esse o motivo ou porque o Conde desejava iniciar sua viagem pelo Sul no ponto inicial da Estrada de Ferro Teresa Cristina, o Conde d’Eu desembarcou do vapor Humaytá em Imbituba com toda a sua comitiva, com exceção da princesa Isabel e os filhos que ficaram em Desterro lhe aguardando o retorno, conforme informa o jornal do Commércio.
Não esquecendo que Imbituba naquela época ainda pertencia à Laguna tornando-se município somente em 30 de agosto de 1923 e instalado de fato em 1º de janeiro de 1924.
O Conde com toda sua comitiva nos vagões de passageiros pelos trilhos da Teresa Cristina após o desembarque no porto seguiu para Laguna.
Entre os membros que o acompanhavam estavam o comendador José Carlos de Carvalho, Manoel Moreira da Silva, general Miranda Reis, além de seu secretário particular major Oliveira Santos.
Na Bifurcação (Barbacena) o trem virou à esquerda em direção à Estação Ferroviária situada no Campo de Fora.
Saul Ulysséa em seu livro “Coisas Velhas” (pág. 20) referindo-se ao marido da Princesa Isabel, assim escreveu: 

“No início do tráfego da Estrada de Ferro D. Teresa Cristina, esteve o Conde D’Eu em Laguna e no interior servido pela via férrea”.

Chegada na Laguna do Conde d’Eu no amanhecer de 26 de dezembro de 1884
O jornal lagunense A Verdade em sua edição de 28 de dezembro de 1884 noticiou a chegada:
 
Visita honrosa – Às 5h e 30 minutos de sexta-feira (26) tivemos a honrosa visita de S.A. o sr. Conde d'Eu.
Depois de pequena demora, suficiente para visitar os edifícios públicos, assistir ao “Te-Deum” e fazer uma refeição, seguiu S. A. para o Tubarão, em trem especial que pôs à sua disposição o sr. Charles W. Roberts, superintendente da “D. Theresa Christina”.

Jornal lagunense A Verdade de 28 de dezembro de 1884.

Como ainda não havia os trilhos até o centro da Laguna, o que vai acontecer somente em 1º de setembro de 1908, o Conde desembarcou na Estação Ferroviária do Campo de Fora.
Ele e sua comitiva podem ter vindo de lá a cavalo pela rua Almirante Lamego. Mas o mais provável é que tenham tomado “carros” (carruagens) puxadas a bestas (burros).
E esses veículos já existiam nessa época em linha regular. Com a inauguração da Estação Ferroviária três meses antes, em setembro, ficando distante do comércio do centro, houve necessidade de se criar esse tipo de serviço.
A rua até lá (a Almirante Lamego) ainda não calçada, era um lamaçal em dias de chuvas e com muita poeira nos dias quentes com sol.
Quem explorava o serviço de transporte era Manoel Antônio Amante da Silva. Eram carroças e carruagens puxadas a duas bestas, com capacidade para até 4 pessoas cada uma, além das malas de viagem.
O embarque e desembarque no centro da cidade se dava defronte ao Hotel Lagunense, na rua Santo Antônio, de propriedade do próprio Amante. Prédio assobradado e que será adquirido dali a algumas décadas pela Sociedade Recreativa União Operária.

Visita aos prédios públicos
E como vimos na nota acima do jornal, o Conde visitou os edifícios públicos da Laguna.
Dentre os mais importantes prédios públicos da época estava o do Paço Municipal, onde funcionavam a Câmara, a Cadeia e o Tribunal de Júri e que é o atual Museu Histórico Anita Garibaldi.
O famoso sino do povo no alto da escadaria deve ter sido bastante tocado avisando a todos da chegada da ilustre visita.
A título de informação, era presidente da Câmara de vereadores naquela época e exercendo a chefia do Executivo, João Thomaz de Oliveira.
Mais alguns nomes?
Entre os vereadores podemos citar Marcolino Monteiro Cabral, Francisco Josephino Maria da Silva, Manoel Pinho, Francisco Cabral, Thomaz Netto e João Thomaz de Oliveira Júnior (secretário da Mesa Legislativa e filho do presidente, notaram o nepotismo?), entre outros.
O juiz de Direito era Manoel do Nascimento da Fonseca Galvão e Ernesto Galvão de Moura Lacerda o Promotor Público.
Além dos civis havia também autoridades militares, todas elas perfiladas para as obrigatórias continências.
Outra tradição eram os navios fundeados no porto que embandeiravam-se em regozijo aos ilustres visitantes.
Nosso historiador Oswaldo Cabral diz que essas visitas de gente importante sempre faziam a alegria do povo:
“Eram animadas, eram concorridas, havia sempre novidades, caras novas, correrias para comentar depois o porte, o traje, a barba, o que fosse...”.
Os olhos provincianos deviam brilhar de admiração por tão Augusta visita, afinal, era um príncipe, genro do imperador, marido da princesa Isabel.

Laguna já havia homenageado o Conde com o nome da principal praça
A Praça em frente ao Paço Municipal (hoje República Juliana) naquela época levava o nome de Conde d’Eu em homenagem a sua participação na Guerra do Paraguai.
Na verdade, o local era um mero descampado em forma de triângulo, coberto de relva. Mas era o centro nevrálgico da Laguna.

Praça Conde d'Eu no século XIX, hoje Praça República Juliana, com o prédio do Paço Municipal e Cadeia à esquerda, com a escadaria e o sino no alto.

Em seu entorno funcionavam, além dos serviços públicos já mencionados, inúmeros estabelecimentos comerciais, como armazéns, escritórios de advocacia, barbearias, alfaiatarias, boticas, clubes, associações, biblioteca, ateliê fotográfico, panificadora, fábricas, cartório e Correios, este último tinha como agente José Caetano Teixeira.
Além de várias residências.
Na região também funcionava a Agência Telegráfica, fundada em 4 de janeiro de 1867, situada na esquina da rua Direita (Raulino Horn), com 1º de Março (Barão do Rio Branco), que conhecemos hoje popularmente como prédio do SINE, que ali funcionou durante anos.
Era através do Telégrafo, tendo como Agente José Goulart Rollin na época, que chegavam e partiam as notícias, os avisos da Corte, as matérias para os jornais.
O local foi um “senadinho” dos mais famosos, o primeiro em nossa cidade, chamado pelo povo de “Esquina do ABC”.
Havia ainda a Mesa de Rendas (não sei o local em que funcionava, bem provável que na rua Raulino Horn), cujo Administrador era Francisco Maria da Silva.

“Te Deum” na Matriz
O Conde d’Eu, trajando uma pala de seda finíssima, diz o jornal, ainda assistiu um “Te-Deum” na Matriz Santo Antônio dos Anjos, mandado celebrar pela ilustríssima Câmara Municipal em Ação de Graças pela chegada do príncipe.
Os sinos bimbalhavam.
Imaginemos nós que a igreja deveria estar adornada com gosto. À entrada o Conde e comitiva foran recebidos pelo pároco lagunense Padre Manoel João Luiz da Silva. A assistência deve ter sido numerosa, todos em pé. Ainda não havia bancos, só instalados em 1912.
O jornal não diz, mas certamente o cortejo pela cidade contou com as presenças das Bandas Musicais União dos Artistas (fundada em 1860) e Santa Cecília, fundada em 1882, esta última a atual Banda Carlos Gomes.
E muitos foguetes devem ter espocado no ar, afinal a cidade, como sabemos, foi fogueteira desde sempre.
Por essa ilustre visita, bem que a Fundação Lagunense de Cultura poderia providenciar a instalação de pelo menos três placas (painéis) registrando a visita do Conde d'Eu: no Museu, na Igreja Matriz e no prédio do então Correios e Telégrafos.
É delirar, eu sei.

Almoço e partida para Tubarão e região
Depois de uma refeição ser servida aos membros da comitiva e autoridades locais (onde terá sido? O jornal não informa, mas provavelmente na casa de alguma autoridade municipal ou influente comerciante/armador), o Conde d’Eu partiu para a Vila de Nossa Senhora da Piedade do Tubarão.
Foi em trem especial colocado à disposição pelo superintendente da Estrada de Ferro Teresa Cristina, engenheiro Charles W. Roberts.

Colônia Grão-Pará: um dote de terras no casamento
Na vizinha cidade foi recebido pelo major Luiz Martins Collaço, chefe do Partido Conservador, que lhe ofereceu e aos seus convidados um jantar e o pernoite em seu solar.
No dia seguinte o Conde e comitiva partiram para visitar a colônia Grão Pará, criada em 1882 e que visava ser ocupada com imigrantes, principalmente italianos, alemães e poloneses.
A Colônia havia nascido no contexto do casamento entre a princesa Isabel e o Conde d’Eu, através de um dote de terras determinado pelo Imperador D. Pedro II.
A gleba de terras sugerida e aprovada no sul do Brasil abrangia 12 léguas entre os Rios Tubarão e Braço do Norte, onde hoje se situam os municípios de Orleans, parte de São Ludgero, Grão-Pará, Rio Fortuna, Santa Rosa de Lima, além de abranger parte de Anitápolis, Armazém, São Martinho e São Bonifácio.

 Orleans nasce em homenagem à família do Conde d’Eu
O Conde e comitiva visitaram o canteiro de obras do trecho da Estrada de Ferro que estava sendo construído em terras da Colônia Grão-Pará e lhe foi mostrada a região mais segura para sede da Colônia.
Sobre o local, o Conde d’Eu disse: “Aqui nascerá a sede da parte meridional da Colônia Grão-Pará e terá o nome de Orleans em homenagem à minha família na França”.

Monumento ao Conde d'Eu em Orleans. Foto: Wikipédia

E é esta frase que está registrada na base da estátua do Conde, executada pelo escultor Paulo Afonso Pereira e inaugurada em 30 de agosto de 2003 no centro da cidade de Orleans, em Santa Catarina.

Retornando à Desterro
No dia 28 de dezembro de 1884, retornando, o Conde e comitiva embarcaram em Imbituba com destino à Desterro aonde chegaram por volta das 23h30.

Jornal do Comércio, de Desterro, de 30 de dezembro de 1884.

E no dia 29 de dezembro às 19 horas, o Conde d’Eu com toda sua comitiva, incluindo sua família partiu de Desterro no paquete Rio Pardo com destino ao Rio Grande do Sul, a terceira Província do Sul a ser visitada.
De lá retornou somente dia 3 de março direto para o Rio de Janeiro, tendo feito uma parada forçada em Desterro por conta de temporais e partido no dia 8.

Exílio e morte
Após a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889 toda a família imperial foi exilada na Europa.
Em 1921 o Conde d'Eu veio ao Brasil e visitou Joinville acompanhado de seu filho, o príncipe D. Pedro, ocasião em que deixaram suas assinaturas num cardápio, reproduzido no jornal O Estado de 10 de fevereiro de 1921:

Assinaturas num cardápio do Conde d'Eu e de seu filho o príncipe Pedro quando ambos visitaram Joinville em 1921. Reprodução Jornal O Estado de 10 de fevereiro de 1921.

Em agosto de 1922, já bastante adoentado, falecia o Conde d’Eu aos 80 anos a bordo do navio Massilia com destino ao Rio de Janeiro.
Sua esposa, a princesa Isabel, já havia falecido na França um ano antes, em 14 de novembro de 1921, aos 75 anos.
Desde 1920 o banimento do Brasil da família imperial havia sido cancelado pelo governo republicano brasileiro, através do presidente Epitácio Pessoa.
Os restos mortais do casal foram repatriados para o Brasil em 1953 e reenterrados em 1971 na Catedral de Petrópolis, ao lado de D. Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina.

Para ler a Parte II (adendo) dessa viagem, clique Aqui