07 maio 2021

Uma heroína no mar da Laguna

 
Um navio a vapor com destino ao Rio Grande do Sul sofre naufrágio nas águas do litoral do Farol de Santa Marta, na Laguna. 
A bordo o desespero e a angústia tomam conta dos oficiais, tripulantes e marinheiros e do idoso comandante e sua filha em busca da sobrevivência. É uma jovem mulher, 18 anos, inteligente, bonita, pianista, solteira, determinada e de muita fé.
Amália Bainha é seu nome e vai entrar para a história da navegação brasileira como a heroína do mar.
Amália Bainha em desenho publicado na Revista Fon-Fon de 5 de julho de 1947.
Seu feito vai ganhar as páginas de jornais e revistas pelo Brasil. Poesias e crônicas serão escritas em sua homenagem. Será citada como exemplo de uma mulher de coragem, determinação e fé. Uma guerreira como hoje se diz.
A viagem, o acidente, a salvação e resgate dariam um documentário, até roteiro de filme, com altos efeitos especiais.
É o relato pungente de mais uma mulher destemida, corajosa, em ação, buscando o salvamento de vidas.
Heróis e heroínas, muitas vezes anônimas, que povoam os rincões do nosso Brasil, cujas vidas e atos não são contados e muitas vezes nem conhecidos.
Bem se diz que o Brasil é um país sem memória, que cultua e exalta, principalmente nos dias atuais, personagens medíocres, sem valores humanos. Ao contrário, péssimos exemplos de vivência.
O exemplo e a coragem de Amália Bainha ficaram registrados em nossa imprensa.
Jornais como A Regeneração e O Despertador, de Nossa Senhora do Desterro; Jornal O Cruzeiro e as Revistas Ilustrada e Fon-Fon, do Rio de Janeiro, deram destaque ao naufrágio e ao salvamento. Desenhos da heroína foram publicados, inclusive nas capas dos periódicos.
Jornal A Regeneração de 1º de agosto de 1878.
Depois tudo passou, gerações se sucederam e a história ficou guardada nos arquivos empoeirados das bibliotecas.
Vale a pena relembrar Amália Bainha e sua luta, coragem e fé em busca da sobrevivência.
 
Muitos foram os naufrágios acontecidos no litoral sul catarinense.
Este Blog tem trazido histórias de vários deles.
Grande parte das embarcações que naufragou aconteceu no inverno, devido às péssimas condições do mar, tempestades repentinas com fortes ventos soprando do sudeste/lestadas ou acidentes das embarcações contra a traiçoeira pedra (laje) de Campo Bom, entre Jaguaruna e Laguna. 

A viagem do vapor Proteção
Manhã de 17 de julho de 1878. O Vapor “Proteção” preparava-se para zarpar do Porto de Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis), em direção ao Rio Grande do Sul.
No dia anterior o navio havia sido abastecido com mantimentos e mercadorias. Em seus porões levava café, arroz, sal, farinha de trigo e querosene.  Também transportava 3 mil sacas de farinha de mandioca. 

Tripulantes do navio:
Alexandre José de Souza Bainha (comandante)
Amália de Souza Bainha (passageira)
Antônio José de Almeida (maquinista)
José Dias Cassulho
Augusto Arustro
Manoel Victor da Silva
Bernardo Antônio Teixeira
João Gomes da Cunha
Antônio Alves do Sacramento
Manoel Maria Sallazar e
Manoel, Thomaz e Cândido (marinheiros). 

São em número de treze, mas algumas reportagens da época falam em dezesseis tripulantes.
Era mais uma rotineira viagem que o vapor fazia para o vizinho estado do sul. Em outras ocasiões fez escala no porto da Laguna para embarque/desembarque de mercadorias. Mas desta vez a viagem era direta, porto a porto, com breve parada ao largo dos recifes de Torres.
Já era noite quando o Vapor “Proteção” chegou ao litoral da Laguna e o tempo rapidamente começou a mudar. Fortes ventos, uma chuva torrencial e cerração atingiram a embarcação nas imediações do Farol de Santa Marta, na chamada esquina do Atlântico. O navio perdeu seu rumo. 

O naufrágio
Às 2 horas da manhã de 18 de julho de 1878 o Vapor “Proteção” bateu em algo, restos do casco de outra embarcação, submersos e abandonados que pareciam ser do navio Bornéo, ali afundado em 1870.
O velho casco já teria provocado outros acidentes com embarcações, porém, sem danos fatais. Providências para sua remoção ou destruição já haviam sido feitas às autoridades, mas sem solução.
Mais tarde soube-se que o “Proteção” foi a pique a 18 quilômetros da costa, em 18 braças de profundidade.
Com as águas invadindo rapidamente os porões, o comandante Alexandre Bainha deu as ordens para abandonar o navio, antes que afundasse por completo, e entrar nos barcos salva-vidas, os escalares.
Remaram eles durante horas na escuridão, ondas levantavam os dois pequenos e frágeis barcos, enquanto raios riscavam o céu escuro. Uma imagem assustadora.
O vento soprava forte e a chuva era torrencial. Os dois barcos acabaram se distanciando um do outro.
Exaustos, ao nascer do sol observaram longínquas terras do litoral, mas as ondas continuavam violentas à medida que se aproximavam. No barco em que estavam Amália, seu pai Alexandre e os outros marinheiros, o silêncio era geral. Todos emudecidos.
Minutos depois o outro barco havia sumido de vista. Teria afundado levando para as profundezas do mar gelado, escuro e revolto os demais companheiros?
Eram dúvidas a rodar na mente de cada um, a angústia no coração e o provável destino cruel que lhes aguardava a qualquer momento. E fazia frio. Muito frio.
Em algumas centenas de metros da praia, da bendita terra que lhes salvaria, o bote encheu-se d’água das volumosas ondas. Parecia ser o fim.
No desespero se agarravam a alguns destroços que boiavam ao redor.
Remos, pedaços de caixotes e madeiras, tudo servia à sobrevivência desesperadora.
Capa da Revista Ilustrada (RJ), nº 134 de 1878, traz desenho de Amália e reconstitui a cena do naufrágio e salvamento.
Amália segurou-se a uma boia que, na última hora, no embarque em Desterro, mandou trazer para bordo. Sábia e providencial decisão.
Mas as forças físicas os extenuavam e todos se esgotavam.
A luta contra os vergalhões parecia ser inglória para todos. Novamente parecia o fim.
Neste momento Amália sai de sua mudez exclamando a todos:
- Deus é grande! Não desanimem que Ele não nos deixará morrer!...
E com sua crença e fé, em nenhum momento deixa de transmitir aos demais a esperança no Deus Maior e na salvação.
Era como uma voz celestial de ânimo em momentos tão trágicos, à espera da morte infalível.
As horas passam nessa luta pela sobrevivência. Já era dia e o sol brilhava.
O comandante, o velho lobo do mar Bainha, já sem forças para lutar por mais tempo, dá a sua filha um adeus e diz, soltando as mãos congeladas da boia e já afundando:
- Eu morro!
- Não, papai, não morre! Deus nos há de salvar!
E dizendo isso estende a mão com uma força excepcional, até então inexistente numa moça frágil, de pequeno físico, agarra seu pai pela gola do paletó e coloca novamente suas mãos no salva-vidas e em si.
Em instantes eles avistam o primeiro bote já nas areias da praia com marinheiros extenuados, mas vivos.
Com isso um novo alento surge e usando suas últimas forças o grupo nada em direção aos seus companheiros na praia deserta de Campo Bom. 

Chegada nas areias da praia
Alguns chegam já sem sentidos, moribundos, quase nus.
Amália em suas primeiras palavras indaga:
- Morreu alguém? E diante das respostas negativas exclama aos céus:
- Graças à Providência Divina!

 Abaixo, um pequeno trecho de seu relato na carta que enviou posteriormente a sua mãe: 

“Alguns marinheiros já se achavam na praia. Eu e papai lutando ainda com os mares!
Fui ao fundo duas vezes, bebi muita água, porém, nunca perdi os sentidos, sempre com esperança de nos salvarmos.
Depois de havermos lutado bem duas horas, chegamos à praia onde fomos ajudados por dois marinheiros. Estávamos endurecidos como se fossemos pedras e sem poder sequer dar um passo.
Felizmente, encontramos na praia um cavaleiro, que me ofereceu o cavalo para eu montar e roupa para me cobrir”. 

Na verdade foram dois viajantes que ali passavam: Porfírio de Aguiar e Antônio Bernardo de Oliveira.
Testemunhando a horrível cena em que se depararam, apearam de seus cavalos e despojaram-se de algumas de suas roupas.
Depois conduziram os náufragos à casa de João Francisco Bernardino que, juntamente com sua esposa, receberam a todos com hospitalidade, fornecendo mais agasalhos e refeições.
Em cartas publicadas posteriormente nos jornais da Capital, os náufragos agradecerão a todos os seus benfeitores, citando-os nominalmente.
 
Náufragos são acolhidos na Laguna
Após o recolhimento dos náufragos na casa de João Francisco Bernardino, no Campo Bom (hoje Jaguaruna), todos eles foram transportados para o Porto da Laguna, no centro da cidade.
Aqui foram recepcionados carinhosamente por lagunenses e hospedados em suas casas.
Amália com o pai Alexandre José de Souza Bainha ficou na residência do major Custódio José de Bessa e sua esposa Maria José da Silva Bessa. Era um chalé na esquina da rua que futuramente levará seu nome, no bairro Magalhães.
Custódio Bessa era negociante, armador,  dono de armazéns, importador e exportador, proprietário de iates e patachos. Uma figura de destaque no alto comércio lagunense.
Os demais tripulantes foram alocados nas casas de Antônio de Sousa Matos, Domingos Tomás Fragoso, Manoel Dalmácio de Oliveira Fragoso e Bento Monteiro Cabral, todos eles prósperos comerciantes em nossa cidade.
Em sua obra “Nossa Senhora do Desterro”, Vol. 1, Oswaldo Rodrigues Cabral dedicou algumas linhas sobre o caso:
“Amália tornou-se famosa na Laguna, cuja sociedade conquistou pela sua modéstia e beleza, tendo Maria Emília Bessa dedicado à heroína alguns versos sinceros”. 
Versos que foram publicados em jornais.

De fato, Maria Emília, a jovem filha do major Custódio José de Bessa logo fez amizade com Amália. Vão se corresponder durante muitos anos depois de se conhecerem. As duas jovens se identificaram nos gostos em comum e, principalmente, pela música. Eram pianistas.
Dois anos antes do naufrágio, em 17 de outubro de 1876, Amália tinha se apresentado no Clube Euterpe 4 de março, de Desterro, onde realizou um concerto vocal e instrumental, executando Lysberg – Capricho para piano a 4 mãos, em parceria com o senhor Hantz, conforme noticiou o jornal O Despertador.
A esposa de Custódio Bessa, dª Maria José da Silva Bessa também vai dedicar a Amália alguns versos, estes narrando o naufrágio.
Os versos de mãe e filha dedicados a Amália estão reproduzidos mais abaixo.
Como se vê, o triste episódio do naufrágio abalou a todos e o gesto de salvamento, coragem e fé e o jeito natural e modesto de ser de Amália conquistaram os corações de novos amigos.
Uma semana após o acontecido, os sobreviventes ainda estavam por aqui e assistiram uma missa em ação de graças na matriz Santo Antônio dos Anjos celebrada pelo nosso vigário Pe. Manoel João Luiz da Silva.
Diz Cabral: “A cerimônia, como era de praxe, os náufragos assistiram com as roupas que haviam sido salvos, as que usavam no momento do resgate. Era uso, também, os tripulantes carregarem, quando isto fosse possível, o mastro grande do navio e irem ofertá-lo à Nª Sª dos Navegantes – o que, dessa vez, não pode ser feito, por ter o “Proteção” afundado totalmente”. 

A carta de Amália Bainha a sua mãe
Dois dias depois do incidente quase fatal, já recuperada do susto, e ainda hospedada em nossa cidade, Amália escreveu uma carta a sua mãe dª Prudência de Abreu Bainha que estava - e não era para menos - preocupadíssima em Desterro.
Dias depois, o jornal Regeneração teve acesso ao conteúdo da carta e publicou um trecho na edição do dia 25 do mesmo mês:

Laguna, 20 de julho de 1878

Minha mãe,
(...)
“Na quarta-feira, que foi o dia em que partimos daí às 2 horas da noite tivemos que sair do vapor em dois botes e andamos todo o resto da noite nessas ondas imensas e medonhas.
No bote em que ia o sr. Figueira e mais 6 chegaram todos a praia sem novidade.
Porém, papai, eu e mais 7 marinheiros fomos muito infelizes. Quando íamos chegando à praia, rebentou o mar no bote e atirou-nos n’água.
Felizmente a coragem nunca me abandonou; valeu-nos um salva-vidas que mandei por no bote quando saímos de bordo, onde eu e papai nos agarramos e também o maquinista.
Mas passado algum tempo, papai disse que morria, que já estava sem forças e já se ia aprofundando, quando eu então peguei-lhe pela gola do paletó e fiz ele agarrar-se a mim e ao salva-vidas.
O maquinista chegou a terra quase morto, sem fala e todo duro.
Todos os marinheiros já se achavam na praia e eu e papai a sós, lutando com os mares. Fui ao fundo duas vezes, bebi muita água, porém nunca perdi os sentidos sempre com esperança de nos salvarmos.
Depois de haver lutado bem duas horas, chegamos à praia onde fomos agarrados por dois marinheiros. Estávamos endurecidos como se fossemos pedras e sem poder sequer dar um passo: levaram-nos ao colo.
Felizmente encontramos na praia um cavalheiro que me ofereceu o cavalo para eu montar e roupa para me cobrir”.
(...)
Amália

********

A heroína do mar
Por Maria José da Silva Bessa
Laguna, 25 de julho de 1878.

"Era alta noite! Baixel afoito
As águas atlânticas rompia,
Veloz e garboso prosseguia
Ao sopro bonançoso do norte.
- Avante! Prossigamos! Em breve
Teremos a viagem terminada
Dizia a tripulação animada,
Julgando feliz a sua sorte.

Eis que de súbito, as tais dez horas,
Estremece o navio! Fatal momento!
Gritam todos! Mas foi violento
O sucesso de tão negros instantes!
De joelhos prostrados, os infelizes
Bradaram com ardor, agonizados:
- Valei aos náufragos desgraçados,
- Oh! Virgem Senhora dos Navegantes!

- Coragem! Coragem! Marinheiros!
- Pois Deus protege os desgraçados;
- Vinde comigo! Vinde animados!
Amália, de bordo, assim gritava.
- Escaleres ao mar! Depressa! Vamos!
- Busquemos a terra
E toda a gente
Cumpriu seu mando ardentemente,
Já que o navio perdido estava.

E ela, a heroína invencível,
De tão triste quadro agonizante,
Parecia zombar a cada instante
Da feia morte que a ameaçava!
E à mercê das vagas furiosas
Do mar encapelado prosseguia,
Contra as tormentas combatia
Com tanto valor, que admirava!

Seu pai já quase desfalecido,
A morrer entre as ondas se destina,
Mas ah! Ela ainda o reanima:
- Meu pai! Meu pai! Foge da morte!...
E o pobre velho entre soluços
Responde à heroína, com emoção:
- Salva teu pai e a tripulação,
Filha bendita, meu guia e norte!

Ei-los chegados à praia extensa
Salvos do perigo, salvos da morte,
Embora vítimas de aflição tão forte,
Curvados ao peso de ingrata sina.
Um voto de louvor à catarinense
Tão brava que jamais outra se viu;
Desse drama que tanto compungiu
Foi ela, e só ela, a heroína”.

 ********

Adeus, Amália
(Oferecida por sua amiga Maria Emília Bessa)
Laguna, 26 de julho de 1878

 “Adeus, Amália! Tu partes
Destes para outros lares,
A tua amiga sincera
Deixando cruéis pesares.

Esta nossa amizade,
Se quer por um momento,
Ah! Nunca, Amália bela,
Condenes ao esquecimento. 

Sofreste mil perigos,
Nesses mares de além,
Que até a própria morte
Tu encaraste com desdém.

Volta aos lares pátrios,
Deixando cruel saudade
A quem soube dedicar-te
Tão sincera amizade”.

Retorno ao lar
Em 28 de julho, portanto dez dias depois do naufrágio, o jornal A Regeneração, do Desterro, anunciava numa pequena nota a chegada dos náufragos à capital do estado a bordo do Vapor Itapirubá. 

Homenagens, casamento e falecimento
Amália foi homenageada pelo presidente da Província de Santa Catarina, Lourenço Cavalcanti de Albuquerque com o título de “Marinheira Imperial”.
Lucas Alexandre Boiteux em sua obra “A Vida Marítima Catarinense”, diz que Amália Bainha é o símbolo de amor filial, na luta desesperada que sustenta contra as ondas revoltas para salvar a vida preciosa de seu pai”.
A poetisa feminista Delminda Silveira a chamou de “Heroína do Mar”. 
Já em Desterro cada sobrevivente do naufrágio, evidentemente, tomou o seu destino. O de nossa heroína já estava traçado.
Amália Bainha, em desenho publicado no jornal O Arauto, de 30/06/1879.
Em 10 de maio de 1879, portanto menos de um ano posterior ao incidente, Amália casou com José Custódio de Oliveira Setúbal, negociante na cidade do Rio Grande, no Rio Grande do Sul.
Diz Cabral que tão logo foi divulgado pela imprensa o consórcio e quem era a noiva, “A mais bela homenagem lhe foi reservada pelos homens do mar: no dia do enlace, todas as embarcações ancoradas no Porto do Rio Grande amanheceram embandeiradas em arco, como se fora um feriado nacional.
Era a homenagem e a gratidão dos homens do mar, companheiros daqueles que viveram o drama do “Proteção”.
“O ato foi celebrado na casa de Alexandre José da Silva, grande amigo do pai da noiva, e duas bandas de música fizeram as honras da festa”.
Em 29 de abril de 1885 o jornal A Federação, do RS, noticiava que Amália desde 1883 já residia em Campinas, São Paulo.
Amália Bainha, nascida em Desterro em 1860, náufraga e heroína nas águas do litoral da Laguna aos 18 anos, faleceu aos 73 de idade em abril de 1933, em São Paulo, conforme o jornal A República de 30 de abril de 1933. 
Conforme sua bisneta Cris Palombo em comentário deixado neste post, Amália deixou dois filhos: Alexandre Correa e Raul Correa (avô de Cris), além de netos e bisnetos.

29 abril 2021

Uma Praça, sete nomes

 
O número sete é considerado místico. Sete são as cores do arco-íris. Sete os Pecados Capitais. Sete as notas musicais. Sete os dias da semana. Sete sepultamentos teve Anita Garibaldi.
Número da Perfeição Divina: No sétimo dia Deus descansou de todas as suas obras, diz a Bíblia.
Sete também já foram os nomes de uma Praça no Centro Histórico da Laguna.
Praça República Juliana nos dias atuais.
No começo ela nem poderia ser chamada de praça. Pelo menos não como a conhecemos hoje. Era um mero descampado coberto de relva. Uma área em forma de triângulo sem qualquer tipo de infraestrutura.
Mas seu espaço era o centro nevrálgico da Vila da Laguna que depois virou cidade.

A então Praça Conselheiro Mafra (hoje República Juliana), à direita, em cartão-postal colorizado de 1910.

Num prédio na cor branca ali situado, de dois andares, eram feitas as leis municipais que regiam a comunidade.
Era também local do Tribunal de Audiências e do Júri, e do Paço da Câmara Municipal.
Notícias eram divulgadas. Decisões tomadas e proclamadas ao povo das sacadas e escadaria, após toques de um sino situado num arco, que também anunciava as horas das audiências, as chamadas dos jurados e horário de fechamento dos estabelecimentos comerciais.
O povo ali embaixo, aguardando, ouvindo, a obedecer a ordens nem sempre do seu agrado ou em seu benefício. Determinações às vezes visando outros interesses, de poderosos, influentes, mandões. Como sempre.

Da sacada foi proclamada uma República
Da sacada do prédio, historicamente foi proclamada a República Catarinense em 29 de julho de 1839. Ali David Canabarro esteve com os demais farroupilhas e simpatizantes da Revolução, entre eles o general Giuseppe Garibaldi.
Ao redor de uma mesa em seu piso superior vereadores lagunenses aceitaram o novo regime e Laguna como capital, chamada Cidade Juliana, e transcreveram em ata a histórica sessão.

Nesse mesmo prédio, em seu térreo foi instalado pelo lado norte o Corpo da Guarda. No lado sul as celas da cadeia, as úmidas enxovias onde ficavam os acusados e/ou condenados a cumprir suas penas determinadas pela Justiça.
Bem por isso o povo a chamou, primeiramente, e popularmente ficou conhecida, como Praça da Cadeia.
Sábio o povo em suas denominações de logradouros públicos na nossa Laguna: Rua das Cozinhas, Rua da Banca, Rua do Fogo, Rua Direita, Rua da Fonte, Rua da Igreja, Rua do Teatro, Rua da Praia...
Simples, direto, sem imerecidas homenagens, sem puxa-saquismo, hipocrisia e demagogia barata.
Linguagem popular, conhecida, geográfica, referencial.

Ao redor da então Praça da Cadeia, além de residências, se instalaram ao longo do tempo inúmeros estabelecimentos comerciais, como armazéns, escritórios de advocacia, barbearias, alfaiatarias, farmácias, clubes, associações, bibliotecas, ateliê fotográfico, panificadoras, restaurantes, bares, fábricas, livrarias, cartório, órgãos públicos...
A Praça, então Conselheiro Mafra, em cartão-postal colorizado em 1910. Observem que no início da Rua Raulino Horn, à esquerda, a Estação Telegráfica; logo depois a Agência dos Correios. Na esquina a casa da família Bessa (depois derrubada).
No vértice do triângulo do início da Rua Raulino Horn funcionavam em fins do século XIX e primeiras décadas do século XX, as agências do Telégrafo e do Correio. 

Nome da Praça alterado ao longo do tempo
Nossos governantes representantes, ao sabor dos acontecimentos que se sucediam, alteravam a nomenclatura do local.
Os nomes variavam conforme o regime vigente, pelo falecimento de alguma autoridade mais eminente, ou por sugestões e leis que partiam de membros do Legislativo ou Executivo Municipal.
Sete nomes teve a Praça. Uma Praça na Laguna e seus sete nomes:

1)  Praça da Cadeia
Diz Saul Ulysséa em seu livro “Laguna de 1880”, que era assim conhecida no passado. Com esse mesmo nome, Praça da Cadeia, a ela se referem outros historiadores e viajantes que por aqui passaram pelo século XIX.
Foto da Praça da Cadeia entre os séculos XIX e XX. Um dos registros mais antigos de nossa cidade. Observem que existia o sineiro no alto da escadaria, retirado na década de 1940 e que retornou com a inauguração do Museu em 1956. Nos fundos do prédio um muro (entrada?) em terras do coronel Francisco Fernandes Martins. Na esquina, à direita, ainda não havia o sobrado atual.
Como já antecipado, o nome faz ligação com o prédio no local, um dos primeiros em nossa cidade, construído em sua primeira etapa mais baixa em 1747 (informa Ulysséa), local onde funcionava o Tribunal de Audiências e do Júri, e do Paço da Câmara Municipal.
Nesse mesmo prédio, em seu térreo, foi instalado pelo lado norte o Corpo da Guarda. No lado sul as celas da cadeia. Bem por isso a denominação popular da praça.

2) Praça Conde D'Eu
Em 1881, em sua “Descrição do Município”, Francisco Isidoro Rodrigues da Costa, que foi juiz de Direito da nossa Comarca, cita o local como já sendo Praça Conde D’Eu. Mas a alteração do nome se deu alguns anos antes.
O Príncipe Imperial Luís Filipe Maria Fernando Gastão, o Conde D’Eu, marido da Princesa Isabel foi convocado, após muito insistir, para liderar como comandante-em-chefe os exércitos aliados em 1869, na Guerra do Paraguai, também denominada de Guerra da Tríplice Aliança.
Pela grande habilidade estratégica, coragem e sangue-frio que demonstrou no conflito, ao retornar ao Brasil em 1870, foi recebido como herói e realizadas grandes manifestações populares.
As homenagens se sucederam pelo Brasil com diversos logradouros públicos recebendo o seu nome.
Foi o caso da Laguna que alterou a então Praça da Cadeia para Praça Conde D’Eu.
Publicidade do advogado Luiz Vianna citando a Praça Conde D'Eu. Jornal O Município de 12 de janeiro de 1879.
Em 1884 o Conde aqui esteve, de passagem, vistoriando as obras da Estrada de Ferro e a Ponte de Laranjeiras, em Cabeçuda, que estava em construção.
Anos depois o município de Orleans foi assim denominado porque colonizado em terras pertencentes à Princesa Isabel e seu príncipe consorte.

3) Praça da República
Com a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889, foram substituídos pelo Brasil praticamente em sua totalidade, nomes de logradouros públicos, associações e entidades que lembravam a Monarquia ou denominações a ela vinculadas. 
Outros nomes pelo país que apoiaram e agora serviam ao novo regime implantado passaram a receber homenagens dali em diante.
Em Santa Catarina podemos citar diversos exemplos, sendo o mais destacado (e emblemático) o da nossa capital que de Nossa Senhora do Desterro passou a chamar-se Florianópolis em homenagem ao segundo presidente republicano, o marechal Floriano Peixoto. Aliás, nome que o nosso Campo do Manejo (hoje Praça Vidal Ramos) também recebeu.
O Jornal O Futuro de 26 de dezembro de 1891, editado em nossa cidade, já faz referência à nova Praça da República.
E foram milhares de Praças, ruas, associações, clubes, etc., denominados XV de Novembro, em homenagem à data.
Na Laguna foram trocadas as nomenclaturas de muitos logradouros, dentre eles:
Rua Bragança (virou 16 de abril e mais tarde João Pessoa); Travessa do Império (hoje Rua Custódio Bessa); Rua dos Andradas (hoje Voluntário Benevides); Rua do Teatro (depois Rua do Império e hoje Rua XV de Novembro).
A nossa Praça Conde D’Eu passou a denominar-se Praça da República. 

4)  Praça Conselheiro Mafra
Em novembro de 1904 foi aprovado pelo Conselho Municipal da Laguna e sancionado pelo superintendente (prefeito) José Maurício dos Santos um projeto de lei alterando o nome de Praça da República para Praça Conselheiro Mafra.
O jornal O Albor de 2 de dezembro daquele ano registrou a mudança, salientando que “Era uma homenagem ao ilustre jurisconsulto catarinense que, com tanta erudição e brilho, tem patrocinado a causa do nosso estado na questão dos limites com o Paraná”.
Jornal O Albor de 2 de dezembro de 1904.
Era a Guerra do Contestado que teve solução judicial graças ao dossiê elaborado por Manuel da Silva Mafra.
Um município do oeste catarinense recebeu seu nome, assim como uma rua em Florianópolis que teve sua denominação alterada de Rua do Príncipe para  Conselheiro Mafra.
Laguna se aliou às homenagens e também alterou o nome de nossa praça.
 
5)  Praça da Bandeira
Desde a Revolução de 1930 o Brasil vivia o tempo do getulismo, onde os símbolos pátrios tomavam proporção de verdadeira veneração, através do nacionalismo.
Desfiles cívico-militares tinham a Bandeira Nacional como símbolo máximo de um povo e seu território.
Inauguração do Obelisco na Praça da Bandeira em 29 de julho de 1939.
O prefeito da Laguna Giocondo Tasso, nomeado pelo Interventor em Santa Catarina Aristiliano Ramos em 1933 e alguns anos depois eleito ao mesmo cargo por voto direto, não fugiu à regra.
Uma solenidade na Praça. Ao fundo, à esquerda, a construção chamada Potreiro, que deu nome à praça vizinha.
Bem por isso, novamente a nossa Praça teve seu nome alterado, passando a ser denominada Praça da Bandeira, com a construção de um grande suporte para hasteamento de três bandeiras: a nacional, a estadual e a municipal; e a edificação no fim da década de 1930 de um Obelisco no centro daquela área em homenagem à República Juliana em seu centenário comemorado festivamente em 29 de julho de 1939.
O Obelisco na Praça da Bandeira em 1939.
A denominação “Praça da Bandeira” foi a que mais se fixou na memória de gerações e até hoje citada pelos mais idosos. 

6)  Praça Anita Garibaldi
Durante a gestão do prefeito Juaci Ungaretti (31/01/66) a 31/01/70), novamente foi alterada a nomenclatura da praça.
Com a inauguração da Estátua da nossa heroína no centro daquela área em 20 de setembro de 1964, o povo começou a se referir ao local, numa espécie de geolocalização, num referencial, como Praça de Anita.
A Estátua de Anita Garibaldi. Foto: Elvis Palma.
Com o nome de Anita já mais consolidado no cenário histórico lagunense, catarinense e brasileiro, com pesquisas, estudos e livros sendo publicados, principalmente de autoria de Wolfgang Ludwig Rau, o local passou a se consolidar como um ponto turístico atrativo, trazendo mais visitantes.
O prefeito Juaci com sua visão progressista, vendo no turismo histórico e de veraneio uma mola propulsora para o desenvolvimento de nossa cidade, alterou, com apoio dos vereadores, a nomenclatura da Praça.
Utilizou-se do personagem de Anita Garibaldi como chamariz, um atrativo, utilizando-se duma ferramenta que seria conhecida anos depois como “marketing turístico e histórico”.
Penso que foi o nome mais acertado, mais adequado e valoroso dos sete utilizados ao longo do tempo para denominar a Praça, sem demérito algum sobre os demais. 

7)  Praça República Juliana
Na gestão seguinte, os vereadores lagunenses aprovaram a Lei nº 14/71 e o prefeito Saul Baião (31/01/70 a 31/01/73) a sancionou, alterando pela sétima vez o nome da Praça.
De Praça Anita Garibaldi para Praça República Juliana, nome que se perpetua até os dias atuais.
Houve algumas críticas pela mudança, inclusive pela imprensa catarinense.
Mas a troca se dava por determinação da Agência dos Correios.
Praça República Juliana no início da década de 1970. Suporte e mastro para hasteamento da Bandeira.
Além disso, a prefeitura e vereadores se defenderam dizendo que “Foi justamente do Movimento Farroupilha, nesta cidade, que emergiu o nome de Anita. A República Juliana, proclamada em 1839, deu ensejo a que Anita se projetasse por sua coragem e bravura.
A nova denominação daquela Praça, embora chamando-se agora “Praça República Juliana”, continua sendo, ainda que indiretamente, uma homenagem a Ana de Jesus Ribeiro – Anita Garibaldi.
Sabemos cultuar a memória de nossos heróis, talvez, como poucos o saibam.
Nossas tradições históricas datam de trezentos anos e nos ensinaram a assim proceder”. 

Troca atendeu determinação dos Correios
Mas a mudança tinha sua razão de ser, um motivo básico. Pelo menos foi o alegado na época.
Conforme as justificativas dos vereadores e prefeito, a troca de nomes atendia “recente determinação, ou melhor, solicitação da Empresa Brasileira dos Correios e Telégrafos, que em uma mesma cidade não era aconselhável existir dois logradouros públicos com a mesma denominação”.
Explique-se:
No município da Laguna já existia uma Avenida Anita Garibaldi.
Onde se localizava?
Ela iniciava onde hoje é a rótula defronte ao Centro Administrativo Tordesilhas, nas proximidades do Ceal, em direção ao hoje Sambódromo, à Avenida Castelo Branco (atual João Marronzinho).
Da citada rótula em direção ao centro e bairro Magalhães, finalizando ao lado do Colégio Stella Maris, ela se chamava Avenida Brito Peixoto.
Anos depois, por volta de 1975, novos representantes municipais querendo homenagear o governador de Santa Catarina, lagunense Colombo Machado Salles (1971-1975), deram seu nome à avenida em toda a sua extensão, mesmo porque foi quase toda ela lajotada com recursos estaduais.
Para compensar, o fundador da Laguna Domingos de Brito Peixoto e seu filho Francisco ganharam um monumento em 1982 na pequena Praça defronte ao Cine Mussi; e Anita Garibaldi ganhou o nome de uma curta rua, de alguns metros de extensão, paralela à antiga avenida que levava seu nome, ali defronte à Rodoviária.
Além disso, só para lembrar, já existiam o Clube Anita Garibaldi, a Árvore de Anita Garibaldi, a Rádio Garibaldi, o Museu Anita Garibaldi, a Estátua de Anita Garibaldi e a Casa de Anita Garibaldi.
Depois surgiu o Aeroporto Anita Garibaldi na Praia do Sol, que recebeu esta denominação a partir de 2009, e, nos dias atuais, a beleza da Ponte Anita Garibaldi, inaugurada em 2015. Além de casas comerciais, produtos, fundações e institutos.