Tarde de verão de um mês de março. Um barco, como tantos outros rotineiramente faziam, se aproxima da embocadura da Barra da Laguna. Em seu porão transporta uma locomotiva. A travessia pelo canal é para ser rápida, cinco a dez minutos de duração. Após esse tempo chega-se a um porto franco, seguro e abrigado. De repente a embarcação vai em direção às pedras do Morro do Tamborete. O que teria acontecido?
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Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA). |
Domingo, 18 de
março de 1917. O relógio ia marcar pontualmente 16 horas. Tarde quente daquele
verão.
O Iate Dente
de Coelho oriundo do Porto de Paranaguá, no Paraná, trazia em seu porão uma
locomotiva e vinte e três volumes de ferragens diversas destinadas à Estrada de
Ferro D. Teresa Cristina.
Era sua primeira
viagem com destino ao Porto da Laguna. Além de velas era movido por um motor a
gasolina de 70 cavalos.
Seis homens
compunham sua tripulação.
Os
Molhes da Barra estavam em construção
Iniciadas em 1903, continuavam as
obras de construção dos molhes do Porto da Laguna com o intuito de maior vazão e aumento do calado.
Em 1917 o guia
do Molhe Norte estava com 700 metros de extensão já implantados. Já o guia do
Molhe Sul ainda não havia sido iniciado.
O choque com as pedras do Morro do Tamborete
Procurando
entrar no canal através da boca da Barra, o navio perdeu seu rumo e minutos
depois chocou-se às pedras de granito róseo do Morro do Tamborete, fazendo
água. Logo a seguir, arrastado pela vazante, naufragou parcialmente sua proa e
encalhou nos baixios.
Algumas
testemunhas que estavam pescando nos costões próximos ao local, disseram que o
navio parecia ter perdido o leme.
Os tripulantes
conseguiram descer o escaler. Com muita dificuldade chegaram nas areias de uma
pequena enseada situada ali perto, onde desembarcaram. Estavam assustados, mas são
e salvos.
A capatazia do
porto foi logo avisada e um rebocador da Alfândega de Florianópolis foi chamado
pelo telégrafo. Poucas horas depois ao chegar ao local do acidente, nada mais
podia ser feito.
A bordo do
rebocador veio João Sanford, guarda-mor da repartição.
Uma jangada para salvar a locomotiva
Chamado às
pressas nos escritórios da Estrada de Ferro, em Tubarão, o diretor Roberto
Helling se dirigiu ao local.
Visando salvar a
locomotiva deu ordens para construção de uma jangada com um guindaste a bordo
para içar a máquina.
Mas, com o
passar das horas e a força das ondas que batiam em seu costado, o navio adernou
demasiado.
Foram
infrutíferos todos os esforços de salvamento.
A chegada de ferragens e maquinários como locomotivas em porões de navios para a Estrada de Ferro D. Teresa Cristina vai se tornar rotina, principalmente a partir da década de 1940 com a criação do porto carvoeiro da Laguna. Como se pode observar na foto abaixo:
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Cais do Porto Carvoeiro da Laguna, década de 1940. Uma locomotiva é içada do porão de um navio. Autor desconhecido. |
Um inquérito
marítimo para apurar o sinistro foi aberto pela Capitania dos Portos e Mesa de
Rendas da cidade. Naquela época as duas repartições federais participavam
conjuntamente quando de sinistros marítimos.
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Jornal lagunense O Albor de 24 de março de 1917.
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Problemas mecânicos e imperícia
Foram realizadas
as oitivas das testemunhas, dos tripulantes da embarcação e do Prático da
Barra.
Constatou-se em
averiguação técnica na embarcação, que o leme apresentava defeitos, sem
condições de segurança e resistência. “A parte superior da peça era embutida
numa cavidade insuficiente e não se achava fixada à respectiva base por pinos
que o varassem”, registrou o relatório.
Além do problema
mecânico, o inquérito concluiu que o mestre do navio, Joaquim Antunes colaborou
para o incidente “por haver efetuado as manobras com imperícia ao faltar o
governo do navio, não utilizando-se das âncoras e motor da embarcação para
evitar, pelo menos, o desastre total".
Como penalidade
o mestre foi suspenso por três meses de suas funções.
A carcaça de um navio junto com uma locomotiva repousam no fundo do mar
Com essas
informações, ficamos sabendo que em frente aos rochedos de granito róseo da
Ponta do Tamborete, situados poucos metros depois da entrada do Molhe Sul da
Barra da Laguna, repousa a carcaça do navio Dente de Coelho, tendo em
seu interior uma locomotiva e suas ferragens.
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A foto aérea de Elvis Palma mostra bem o local onde está sepultado o navio Dente de Coelho com a locomotiva em seu porão. No centro da foto estão as pedras rosadas da Ponta do Tamborete. Mais à esquerda, depois do costão, a Praia de Gravatá. À direita, a Barra da Laguna. Na época dos fatos ainda não existia o Molhe Sul. |
A embarcação não
estava no seguro, conforme noticiou a imprensa da época.
O prejuízo foi
calculado em 80:000$000 (Oitenta contos de réis), moeda de 1917.
Utilizando-se parâmetros
hipotéticos de atualização, como critério de compra (numa proporção histórica)
daria atualmente um valor estimado de R$ 4 milhões e meio de reais.
No cálculo, cada
conto de réis da época convertido para os dias de hoje valeria R$ 56 mil reais.
O proprietário era norte-americano e morava no Paraná
O iate Dente
de Coelho era de propriedade de Réo Benett, fazendeiro no município de
Guaratuba no litoral paranaense.
Benett foi um
empreendedor norte-americano que emigrou para o Brasil no início do século XX.
Ficou conhecido por atuar como concessionário de grandes obras de
infraestrutura e exploração mineral no Sul e Centro-Oeste do Brasil.
Juntamente com
sua esposa Catarine Benett fixaram residência na região de Cubatão, no Paraná e
iniciaram plantação de banana caturra com sementes oriundas de Santa Catarinas,
além de outros empreendimentos.