30 junho 2026

A jangada que veio do Norte e passou por Laguna

 
Entre o último trimestre de 1951 e os primeiros meses de 1952, uma viagem marítima movimentou o Brasil e foi acompanhada atentamente pela imprensa e população.
Cinco pescadores partiram de Fortaleza no Ceará a bordo de uma pequena jangada, num rally pela costa brasileira. Tinham como destino a cidade de Porto Alegre no Rio Grande do Sul.
No longo trajeto de quase 5 mil quilômetros vão adentrar à Barra da Laguna e navegar até às águas da Lagoa Santo Antônio dos Anjos, em frente ao cais do centro da cidade.

Acompanhe essa interessante história, a partir de agora:

A jangada que veio do Norte. Revista Eco de 15 de março de 1952.

      
A partida
Alvorecer de 14 de outubro de 1951, um domingo, Praia do Meirelles, Fortaleza, Ceará.
Cinco pescadores partem numa expedição de cerca de 5 mil quilômetros pelo litoral brasileiro, a bordo de uma pequena jangada com dois metros de largura por seis de comprimento.
Uma embarcação frágil, cujo “casco” é composto por cinco toras de madeira (piúba), unidas lado a lado, com um pequeno mastro para sustentar a vela com 60 metros de pano. Uma rede estirada servia como cama onde os tripulantes se revezavam.
A alimentação durante a longa viagem era formada por rapadura, carne seca, farinha de mandioca e peixe pescado, além de alguns galões d’água potável.
Detalhe: viajavam sem qualquer instrumento de navegação, como bússola ou uma carta náutica.
Eram guiados pelas estrelas, coloração das águas, ventos e sol.
O nome da jangada é Nossa Senhora da Assunção, padroeira do Ceará.
O projeto da viagem foi de Stênio de Azevedo, redator do jornal Correio do Ceará e patrocinado pelo O Globo, do Rio de Janeiro.
Um avião fretado especialmente pelo O Globo acompanhava por via aérea o percurso, pilotado pelo comandante Bonifácio Piechock, tendo a bordo o redator do daquele jornal, José Maria Neves.

Deu no New York Times
A façanha ganhou destaque na imprensa internacional. O sisudo jornal New York Times trouxe matéria.
O cineasta Orson Welles por causa da audaciosa aventura, produzirá um inacabado documentário intitulado É Tudo Verdade, sobre os personagens.
A tripulação da jangada era composta pelo mestre Jerônimo André de Souza, 49 anos, comandante.
Manoel Lopes da Silva (Mané Preto), 49 anos.
Raymundo Correia Lima (Tatá) 62 anos.
Manoel Lopes Martins (Frade) 61 anos e
João Batista de Oliveira (Trinta e um) 31 anos.

Os cinco jangadeiros. Jornal Imprensa Popular (RJ), de 20 de dezembro de 1951.

A travessia era uma forma inusitada de denunciar a precária situação dos pescadores do Ceará e de outros estados.
A jornada era uma aventura marítima transformada em ação política.
Traziam um memorial onde reivindicavam direitos sociais, como aposentadoria e criação de um sindicato para a categoria.
Pediam uma assistência mais concreta e eficiente aos pescadores de todo o Brasil.
O documento era para ser entregue ao presidente Getúlio Vargas.

As escalas pelo litoral
Fizeram várias escalas: Natal, Cabedelo, Recife, Maceió, Salvador, Vitória, Macaé.
Em cada porto eram recebidos como heróis por verdadeiras multidões. Eram entrevistados, fotografados e convidados para passeios e jantares.
No Rio de Janeiro chegaram em 16 de dezembro de 1951 no Posto 6 de Copacabana, após 63 dias de viagem. Desfilaram pela avenida Rio Branco sobre um caminhão. Por cortesia, hospedaram-se no Grande Hotel Presidente.
Foram recepcionados por Vargas no Salão de Despachos do Palácio do Catete, a quem entregaram em audiência o memorial com as reivindicações.

“O trecho sul é muito perigoso, até navios têm por ali desaparecido
Após a solenidade, foram aconselhados a não prosseguir a jornada, encerrá-la na então Capital Federal, afinal a tarefa estava cumprida.

Jornal O Estado - SC de 5 de fevereiro de 1952.

O Almirante da Marinha Frederico Vilar, experiente nas lides do mar, profundo conhecedor de toda a costa brasileira foi um dos que fizeram o pedido, justificando que de Santa Catarina até o Rio Grande do Sul o litoral era muito perigoso. Sobre o trecho sul realçou: 

“Até navios têm por ali desaparecido sem que se saiba o que lhes ocorreu. É muita temeridade enfrentar esses mares do sul com uma jangada. E essas vidas são preciosas. São valentes brasileiros que bem representam o espírito de arrojo e de patriotismo de tal classe”.

Mesmo com os insistentes apelos, a viagem prosseguiu. Mas um dos pescadores, Raymundo Correa Lima (Tatá) ficou para trás, internado num hospital da cidade maravilhosa, por ter contraído malária.
Em seu lugar, para cumprir a etapa final, embarcou Vinicius Lima, jornalista de O Globo.

Do Rio de Janeiro até Paranaguá
Partiram do Rio de Janeiro, da Praia de Copacabana às 12 horas do dia 3 de janeiro de 1952 em direção ao porto de Santos. Concluíram o trajeto em 72 horas chegando em Santos no dia 6 de janeiro.
Durante dez dias receberão inúmeras homenagens, participarão de jantares e visitarão outras cidades, como Campinas e a capital do estado.
Em 16 de janeiro partirão de Santos às 9 horas em direção ao porto de Paranaguá, no litoral do Paraná, aonde chegarão dois dias depois, em 18 de janeiro.
Novas homenagens e visitas, recebimentos de medalhas. Visitarão Curitiba, para onde a jangada será transportada via terrestre e ficará em exposição na Praça Tiradentes.
Partirão em 25 de janeiro em direção a Florianópolis.

Os jangadeiros em sua embarcação. Revista Eco RS, de 15 de março de 1952.

De Paranaguá até Florianópolis
Apesar dos ventos, chuvas e trovoadas, a jangada chegará na Baía Norte de Florianópolis ao meio-dia de 31 de janeiro de 1952, defronte ao Clube Náutico Aldo Luz.
Uma multidão calculada em 15 mil pessoas aguardava a embarcação e seus tripulantes, conforme cálculos da imprensa da época.
 A jangada foi retirada das águas pelos braços do povo, levada e depositada em frente ao Hotel La Porta, na Praça XV de Novembro onde ficou exposta.
Os pescadores e mais o jornalista foram recepcionados pelo prefeito Paulo Fontes e ficaram hospedados na cidade por oito dias.
A jangada só vai partir de Florianópolis no sábado, dia 8 de fevereiro, às 13h40
Por determinação do Almirante Carlos da Silveira Carneiro, comandante do 5º Distrito Naval sediado na capital catarinense, a partir de Florianópolis a jangada será acompanhada pelo Rebocador Tritão (R-21) até o Rio Grande do Sul.
O navio era comandado pelo capitão de Corveta Hélio Leôncio Martins.
O mesmo rebocador do Malteza's
Um detalhe curioso: este Rebocador Tritão (R-21) da nossa Marinha Brasileira será o mesmo que, muitos anos depois, em 26 de maio de 1979, atendendo pedido de SOS, tentará socorrer primeiramente o navio grego Malteza S quando este for encalhado na praia do Gy, na Laguna.

Jornal O Albor anunciou a previsão de chegada da jangada na Laguna
O jornal lagunense O Albor de 9 de fevereiro de 1952 noticiou a previsão de chegada da embarcação em águas da terra juliana, com o título: 

Jangadeiros Cearenses
“Conforme comunicação de Florianópolis, deverão ter saído esta madrugada daquele porto, os Jangadeiros nordestinos, cuja chegada é aguardada aqui às últimas horas da tarde de hoje.
Providências estão sendo tomadas pelas autoridades naval e municipal, no sentido de ser a jangada rebocada das proximidades da Ilha dos Lobos até o ancoradouro da Capitania do Porto local, e assim facilitar a entrada da Barra.
Caso contrário deverá abicar na praia do Mar Grosso.
Os Jangadeiros aguardarão neste porto a chegada do Rebocador Tritão da nossa Marinha de Guerra, especialmente enviado do Rio Grande do Sul, por determinação do Comando do 5º Distrito Naval para comboiá-los durante todo o trajeto deste Porto ao do Rio Grande”.

Jornal lagunense O Albor de 9 de fevereiro de 1952.

   Como já vimos, o Rebocador Tritão já se encontrava em Florianópolis e acompanhou a embarcação até o porto do Rio Grande, passando por Laguna.

De Florianópolis para o sul, passando por Laguna
Após mais de uma semana na Capital catarinense, em 8 de fevereiro de 1952, uma sexta-feira, às 7 horas partiram da Barra Sul de Florianópolis.
Passaram por Imbituba às 23 horas do mesmo dia.
No dia seguinte (9), sábado pela manhã, rebocados pelo Tritão, adentraram a Barra da Laguna até à Lagoa Santo Antônio dos Anjos, proximidades da Agência da Capitania dos Portos.

À direita na foto, a jangada com a vela arriada, junto ao cais da Laguna no fundo dos armazéns, ali na Paixão, imediações da Capitania dos Portos.

O povo lagunense vibrou de entusiasmo, se postando ao longo do cais do centro da cidade (como se pode observar na foto) para receber os pescadores e sua jangada, rebocada pelo Tritão da entrada da barra até as águas calmas da lagoa no centro.

No recorte da foto, pode-se observar melhor a Jangada.

Foram bastante aplaudidos em seu feito, com os lagunenses dando mais uma vez mostras de seu espírito fraterno.
A parada foi curta e na mesma manhã reiniciaram a jornada para o sul.
Em poucas horas já se encontravam passando pela Barra de Araranguá, viajando normalmente com ventos favoráveis.
No fim de tarde daquele mesmo sábado (9), por volta das 18 horas, passaram por Torres.
No dia 11 (segunda-feira), no começo da tarde foram avistados a três quilômetros da Barra do Rio Grande.
Por causa de um temporal, se abrigaram num trecho próximo à Barra, para no dia seguinte (12) adentrá-la.

Enfim, Porto Alegre
No dia 18 de fevereiro, e ainda acompanhado pelo Rebocador Tritão, os pescadores partiram do porto do Rio Grande em direção a Porto Alegre.

Jornal do Dia - RS, de 13 de fevereiro de 1952.

Após alguns percalços na Lagoa dos Patos, a jangada chegou à Praia de Belas às 15 horas do dia 19, comboiada por muitas embarcações e onde uma multidão os esperava.
Às margens do Guaíba o prefeito Ildo Meneghetti fez entrega simbolicamente das chaves da cidade e o governador Ernesto Dornelles discursou, dando boas-vindas.
Raymundo Correia Lima (Tatá) já aguardava para se juntar ao grupo, vindo do Rio de Janeiro dias antes em viagem aérea.
Os jangadeiros visitarão várias cidades gaúchas, numa outra maratona, desta vez terrestre e aérea.
Além de Rio Grande e Porto Alegre, foram a Caxias do Sul, São Borja, Uruguaiana, Santana do Livramento, Bagé, Santa Maria e Cruz Alta, entre outras. Um avião da FAB foi colocado à disposição.

Retornando para casa
Após todos esses dias no Rio Grande do Sul, partiram no dia 10 de março em avião da Cruzeiro do Sul de retorno ao Ceará, com escalas em Santos (SP) e Rio de Janeiro.
Na Capital Federal ainda ficarão por cerca de 20 dias, recuperando-se, recebendo mais homenagens e encontrando-se novamente com o presidente Getúlio Vargas.
Finalmente, no dia 31 de março de 1952 chegaram de volta ao Ceará.
Em Fortaleza foram recepcionados no aeroporto por uma multidão, além de diversas autoridades, entre elas o prefeito Paulo Cabral e o governador do estado. Desfilaram em cortejo pelas ruas da cidade.
Num palanque especialmente montado, foram condecorados com medalhas de ouro.

A jangada ficou no Museu Júlio de Castilhos
A jangada ficou para trás, doada para compor o acervo do Museu Júlio de Castilhos, do Estado do Rio Grande do Sul 
Numa solenidade realizada no dia 9 de março de 1952, com a presença dos jangadeiros, o prefeito de Porto Alegre, Ildo Meneghetti fez a entrega da embarcação cearense ao diretor do Museu, professor Dante de Laytano.

Benefícios sociais e econômicos conseguidos para a classe
Após vários meses, o Governo Federal acenou com algumas poucas medidas que visavam beneficiar os pescadores.
Entre elas estavam a criação de uma cooperativa de produção e consumo, fixação de um salário-mínimo base para a categoria, filiação dos pescadores a um instituto social, instalação de oficinas e construção de embarcações motorizadas em substituição às precárias jangadas.

27 junho 2026

Parabéns, Salete, pelo seu aniversário

Aniversariou na última segunda-feira (22) seus 80 anos de vida, Maria Salete Folchini Barreiros, esposa do procurador de Justiça aposentado, Sidnei Bandarra Barreiros.
O níver foi devidamente comemorado neste sábado (27) ao lado de familiares, amigas e amigos com um almoço no Restaurante Mix Lagoa no Mercado Público da Laguna.
Convidados, lá estivemos para dar nosso abraço à aniversariante.
Daqui deste espaço nossos mais sinceros parabéns, desejando muita saúde e felicidades a Salete, de espírito jovem, pessoa do bem, exemplo de superação e de força de vontade.
Cobertura fotográfica: Elvis Palma.

        
       
       

Padre Marcos Herdt grande amigo da família, junto à aniversariante.




        
       
        
       


22 junho 2026

A noite que o leão fugiu do circo e o pânico tomou conta das ruas da Laguna

 Essa história aconteceu na Laguna há muitos e muitos anos, em meados da década de 1940.
Um circo se instalou na cidade, dentre tantos que aqui passavam regularmente. Sua lona foi montada numa vasta área gramada onde hoje está edificado o Cine Teatro Mussi.

O leão escondido na soleira de uma porta, aguardando para dar o bote. Imagem criada por Inteligência Artificial.

     Era um sábado à noite, casa cheia. Após uma apresentação com seu domador, um leão se recusou a retornar à jaula e entre mil rugidos fugiu pelos fundos do circo. 
Alguém mais apavorado na plateia deu um tiro para o alto e a partir daí instalou-se o pânico. Fuga e correria pelas ruas do centro da cidade com gritos alarmantes de: 
- O leão vem aí, o leão vem aí!

Muitos circos visitavam Laguna
Antigamente na Laguna, muito mais que hoje, instalavam-se vários circos.
Cidade portuária, polo econômico, com uma estrada de ferro interligando várias regiões do sul do estado, a cidade juliana atraía muita gente para o seu centro comercial.
Bem por isso, para aproveitar esse intenso movimento, obrigatoriamente parques e circos por aqui se instalavam.
Um dos locais preferidos era o descampado onde hoje se situa o prédio do Cine Teatro Mussi, inaugurado em 1950. Local privilegiado por se situar junto ao comércio e ao velho porto.
Outra área utilizada era a praça Lauro Muller, defronte à Carioca, local ainda sem qualquer infraestrutura.
O espaço onde hoje funciona um supermercado, no centro, durante muitos anos também recebeu circos e parques.

O circo chegou, vamos todos até lá...
Pois lá pela década de 1940, um famoso circo chegou na Laguna e depois de um breve desfile de apresentação pelas ruas do centro, como de praxe, armou sua lona na área do futuro Cine Teatro Mussi.

Circo 9 Irmãos também se apresentou na Laguna.

Naquela época, além de trapezistas, malabaristas, mágicos, palhaços, todo circo trazia muitos bichos amestrados. Elefantes, leões, chipanzés, cachorros, pôneis, zebras, ursos, leopardos...

Circo Cubano trazia feras e outros animais amestrados.

Na falta de outros divertimentos, os espetáculos tinham garantia de casa lotada. Eram sempre um sucesso, principalmente as sessões dos finais de semana em suas concorridas matinês.

Circo 12 Irmãos com mais de 50 artistas e muitosd animais amestrados. Também esteve na Laguna.

Dentre os circos mais famosos da época, que atravessaram décadas se apresentando pelo Brasil e incluíram Laguna em seus roteiros, estavam o Circo Americano, Circo Riograndense, Circo Cubano, Circo Robbatini, Circo Olympico, Circo Stevanovich, Circo Romano, Circo Nelson, Circo Teatro Bibi, Circo Garcia, Grande Circo 9 Irmãos, Circo Irmãos Marcovich, Grande Circo 12 Irmãos e Circo Missioneiro, entre tantos outros famosos e não tão conhecidos.

O Circo Irmãos Marcovich foi um dos que se apresentaram ao público lagunense, nas décadas de 1930 e 40. Jornal lagunense Correio do Sul de 7 de outubro de 1937.

Naqueles tempos a segurança era precária, não havia redes, nem grades separando o público do picadeiro.

A fuga
Pois aconteceu num sábado à noite. Por um descuido do domador após a apresentação do seu número, o leão não retornou à cela como previsto. Escapuliu pelos fundos, rugindo, mas sem atacar. E sumiu de cena.
Alguém deu o alarme, gritando que o leão havia fugido. O aviso foi repetido por outros. Foi o que bastou para apavorar todo mundo.

 O tiro do Ludovico
Um sujeito na plateia, de nome Joca Ludovico, tirou o revólver da cintura e deu um tiro para o alto ou mirou na direção do chamado Rei das Selvas, isso nunca ficou bem esclarecido.
Deu-se o estouro. Uma correria geral, tremenda confusão, com gente se jogando pelas arquibancadas, pulando cadeiras, levantando a lona e saindo por debaixo, partindo em grupos em várias direções.
A ordem era fugir porque o leão estava vindo atrás.

Com um leão à solta, a fuga do circo, no pânico que tomou conta do público. Imagem gerada por Inteligência Artificial.

E a partir daí começou um vai-e-vem, um esconde-esconde, uma gritaria infernal num episódio que entrou para a história, para o rol lagunense dos casos raros.
Desorientadas, as turmas em alvoroço se dividiram pelas vias públicas.
Uma delas subiu a rua Jerônimo Coelho em direção à Igreja Matriz, virando à esquerda na Praça Vidal Ramos.
Outro grupo tomou à esquerda na rua Raulino Horn e depois à segunda à direita na rua Tenente Bessa, em direção à Carioca.
Havia ainda uma terceira turma, formada por muitas mulheres levando crianças pelas mãos, entre gritos e choros e que seguiram pela Gustavo Richard, depois subindo pela Barão do Rio Branco.

"Bolos" de gente pra lá e pra cá
E os “bolos” de gente vão se encontrando pelas esquinas, se esbarrando nas estreitas ruas mal iluminadas da Laguna. O medo estampado em cada face, outros levando tudo na gozação ou rindo de nervosos.
Havia quem gritasse que o leão estava vindo naquela direção, que estava perto, postado ali na esquina, escondido, só esperando atrás de um muro para dar o bote.
E os grupos se esbarravam, se separavam, recuavam, corriam juntos.
E ficaram nesse desce e sobe, no vai e volta, assustados, apavorados, uma confusão.

E onde estava o leão?
Mas, afinal, onde se encontrava o leão enquanto essas cenas transcorriam?
Estava tranquilamente em sua jaula, ressonando.

Leão dormindo. Imagem criada por Inteligência Artificial.

Para entender o que aconteceu, voltemos algumas cenas para o exato momento que o leão escapuliu e provocou toda a correria.
O pessoal do circo, com o domador à frente, logo partiu no encalço do chamado rei das feras e o encontrou deitado, atrás de uns caixotes, mais assustado que todo mundo.
Rapidamente foi capturado com as redes e conduzido para sua jaula, ganhando até um bife de presente.

Sem olhar para trás
O problema é que com a fuga e o estampido do tiro, o alvoroço já estava feito. Em debandada correria o pessoal nem olhou para trás para testemunhar a captura.
Afinal, quem teria coragem de retornar ao local?
E durante muitos anos, nos cafés, bares, boticas e nos encontros sociais de famílias lagunenses, essa história era contada pelos que a vivenciaram, entre risos dos adultos e os olhos arregalados das crianças.

16 junho 2026

Renato Ulysséa foi exemplo de cidadania em defesa da Laguna

 
Ele foi um lagunense apaixonado por nossa terra. Um lutador pelas causas da Laguna, principalmente por nosso porto.
Quando o conheci pessoalmente era eu um adolescente e ele já um senhor octogenário.
Foi em 1977, quando eu trabalhava na Agência da Receita Federal da Laguna e seu Renato Cabral Ulysséa foi solicitar uma explicação sobre Imposto de Renda.

Renato Ulysséa. Foto álbum de família de Rosa Simplício Grandemagne.

Sanada a dúvida, falamos um pouco sobre Laguna, indaguei algo sobre o nosso porto, ele logo respondeu. 
Vendo meu interesse sobre o tema me convidou para ir em sua casa ao lado do Clube Congresso Lagunense. Queria me mostrar algumas fotos, documentos, recortes de jornais. Já me conhecia por algumas crônicas publicadas no jornal Semanário de Noticias.
No sábado fui lhe visitar. Passamos a tarde toda conversando, eu anotando o que podia sobre seus conhecimentos, olhando fotografias. E indagando muito.
Seu Renato era um homem que acompanhava atentamente o noticiário. Assinava vários jornais, entre eles o Semanário de Notícias (LG), O Estado (SC), o sisudo Correio do Povo (RS) e recebia via postal, o centenário Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro. Era um leitor voraz. 

O memorial sobre o Porto e Barra da Laguna e a Monografia classificada na FGV
Me entregou cópia (que guardo comigo até hoje) de um importante Memorial sobre a Barra e Porto, de sua autoria e que havia enviado muitos anos antes, em 14 de agosto de 1964, a Juarez Távora, então ministro da Viação e Obras Públicas.
Semanas depois, uma sexta-feira, me procurou e me "intimou" a participar de um concurso de monografias promovido pela Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro. O tema era meios de transportes, estradas, ferrovias e portos.
Dez ou quinze páginas datilografadas sobre o tema. Ele mesmo se encarregaria de postar nos Correios. Bastava eu escrever.
O prazo se esgotava já na segunda-feira, data obrigatória para a última postagem. Passei o fim de semana escrevendo e datilografando os originais.
Na segunda-feira, como combinado, lá estava seu Renato, envelope nas mãos para levar o material aos Correios.
Meses depois saiu o resultado. Com a monografia sobre o porto da Laguna se classificando entre as dez finalistas.
Se não estou enganado, foram mais de cinco mil trabalhos inscritos de todo o Brasil.
Não, não fiquei entre os três primeiros lugares, infelizmente. Mas era de notar a alegria do seu Renato com o resultado. E a minha também.
-Entre os dez primeiros, está muito bom para primeira vez, dizia ele, entusiasmado. 

Um livro dedicado a ele
Pois foram essas páginas da monografia que serviram de embrião para o meu primeiro livro: Porto da Laguna – A Luta de um povo traído, lançado alguns anos depois, em 1995.
Mas, aí seu Renato já não estava mais entre nós.
Meses antes de seu falecimento, em 1993, lhe entreguei em mãos o esboço do livro.
Com problemas de visão motivado pela catarata, o trabalho foi lido integralmente para ele por sua dileta filha Elisabeth (dª Betinha) Ulysséa Arantes.
Aliás, minha professora no então Conjunto Educacional Almirante Lamego-Ceal, casada com o também meu mestre, José Paulo Arantes. Dois professores de gerações.
Quando o livro sobre o porto foi publicado, dediquei a obra a ele, numa homenagem póstuma a quem acompanhou as marchas e contramarchas do porto da Laguna, conversando, escrevendo às autoridades e políticos, cobrando promessas e providências, guardando farto material sobre o assunto.
Era o mínimo que eu poderia fazer.
Sei que no seu íntimo sempre acalentou a esperança de um dia rever o nosso porto funcionando, carro chefe da economia local, redenção do povo lagunense.
Até hoje daquela época guardo com carinho nos meus arquivos, uma pequena anotação escrita em seu cartão de visitas endereçada a mim onde anexou cópia de uma foto da nossa Barra. Ele carinhosamente escreveu com sua letra já trêmula:
 
“Ao prezado Valmir, o Renato encaminha anexo ao presente, o xerox da foto da nossa Barra, conforme combinado, dia 23 último, em sua agradável visita. Laguna 1º dez (1977)”. Renato.
 
Lamentação pela derrubada de um palacete
Renato Ulysséa, morando vizinho ao palacete de João Tomaz de Souza, foi um dos inconformados com a derrubada do imóvel. Sempre dizia que chorou muito na esquina do Clube Congresso Lagunense quando da demolição para construção daquele feioso caixote do Banco do Brasil.
“Era um patrimônio arquitetônico que ia embora e eu me sentia impotente para evitar tal disparate”, lamentava-se nas conversas com familiares e amigos.

Quem foi Renato Cabral Ulysséa
Renato Cabral Ulysséa nasceu na Laguna em 16 de agosto de 1897, filho do dr. Ismael Pinto de Ulysséa e dª Anna Guimarães Cabral de Ulysséa. (d. Santa).
Teve 18 irmãos (nem todos aqui nominados): Julieta, Heitor, Gilberto, Leonor, Romeu, Ramiro, Otília, Juracy, Nicanor e Modeno, além de Laura, Tobias, Jandira, Aurora e Murilo. Esses cinco últimos faleceram em tenra idade.

Quatro irmãos reunidos no aniversário de um século de Romeu Ulysséa, em 15 de julho de 1990. Da esquerda p/direita: Romeu Ulysséa, Renato Ulysséa, Ramiro Ulysséa e Otília Ulysséa Ungaretti. Foto: Miriam Massignani Glasenapp Ulysséa. Arquivo: Rogério Ulysséa.


Seu pai foi o primeiro lagunense e o primeiro no sul catarinense formado em Medicina e sempre exerceu a profissão aqui na Laguna.
Concluídos os estudos secundários em nossa cidade, Renato Ulysséa seguiu para o Rio de Janeiro para prosseguir em curso superior. Mas mudou de planos e retornou à terra natal.
Foi o primeiro funcionário da filial da empresa comercial (firma) Carlos Hoepcke S.A., também proprietária de navios, onde trabalhou como chefe do escritório durante cinquenta anos.
Aqui casou-se com Dorah Grandemagne Ulysséa e tiveram sua única filha Elisabeth Ulysséa Arantes, dª Betinha.
Por cerca de dezoito anos seu Renato foi tesoureiro da Comissão Administrativa do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos.
Foi também tesoureiro da chamada Caixa de Esmolas, entidade filantrópica que existiu na Laguna.
Colaborou e muito com a Associação Espírita Berço de Jesus, entidade filantrópica dirigida por sua esposa Dorah, que fornecia enxovais aos recém-nascidos de mães necessitadas.
Em diversas gestões fez parte da diretoria do Clube Congresso Lagunense, tradicional sociedade em que seu pai, Ismael Ulysséa foi um dos fundadores e presidente.
Foi secretário da hoje extinta Sociedade dos Amigos da Laguna, de tantos serviços prestados à nossa cidade.
Durante a 2ª Guerra Mundial, Renato Ulysséa integrou a comissão local da Cruz Vermelha Brasileira. Sua filha, dª Betinha foi uma das integrantes como auxiliar de enfermagem.
Realmente foi um homem afeito à prática do bem, espiritualizado, de inabalável fé. Homem bom, digno e íntegro.
Nos últimos anos, com problemas de visão causados pela catarata, pedia que familiares e amigos que o visitavam lessem para ele passagens do livro Ave Luz, de João Nunes Maia pelo espírito Shaolin, Editora Espírita Fonte Viva, lançado em 1984 e que contém lições de Jesus aos seus discípulos.
E foi assim, ouvindo esses ensinamentos, que Renato Ulysséa empreendeu o grande retorno à pátria espiritual, falecendo em 20 de maio de 1993, aos 95 anos, três meses antes de mais um aniversário.

O sobrinho Norberto Ungaretti assim escreveu sobre o seu tio:
Numa crônica publicada em meu jornal Tribuna Lagunense, de 22 de agosto de 1997, seu sobrinho o lagunense de saudosa memória Norberto Ulysséa Ungaretti escreveu sobre o seu tio Renato, em seus 100 anos de nascimento, transcorridos naquele ano na semana anterior. 
Eis um trecho:

Renato Ulysséa: cem anos
“Na memória de minha infância e da minha adolescência, na memória da minha vida inteira, já ultrapassada de seis décadas, guardo do meu tio Renato a mais carinhosa lembrança.
Devo-lhe incontáveis demonstrações de afeto e bem querer, sempre solidário, sempre amigo, sempre carinhoso e solícito, sempre generoso e desprendido.
Cultivou exemplarmente as relações de família. Honrou a cidadania. Amou como poucos a terra em que nasceu. Serviu desinteressadamente aos seus semelhantes. Foi e continua a ser uma criatura luminosa e iluminadora”.

Merece ter seu nome perpetuado numa via pública
Quem sabe algum nobre vereador da Laguna apresente Projeto de Lei dando o nome de Renato Cabral Ulysséa a alguma via pública de nossa cidade, ainda sem denominação oficial, como homenagem pelos serviços que prestou à Laguna e como exemplo de cidadania.
Ele era avesso à política partidária, sem dúvida. Mas foi um político no sentido clássico da palavra.
Era preocupado com o bem comum e com os interesses da Laguna, terra onde nasceu e viveu por toda sua longa vida.