14 setembro 2026

Maria Macarini: Parteira de gerações de lagunenses

 

Nascida em 1905 em Nova Veneza, no sul do estado, Maria Macarini ainda jovem veio morar na Laguna. Aprendeu o ofício de parteira e durante décadas, a partir de 1936, atuou em nossa cidade. Foram mais de 14 mil partos realizados de lagunenses. Todos os nascimentos devidamente anotados em cadernos, com as respectivas datas, nomes das crianças e pais. Nunca perdeu um só bebê, ela dizia.

Maria Macarini Ferreira (1905-1995).

A parteira Maria Macarini nasceu no então Distrito de Nova Veneza, no sul catarinense, em 1905, filha de imigrantes italianos.
Os pioneiros do sobrenome “Macarini”, integraram as levas de imigrantes que chegaram à antiga Colônia de Nova Veneza na década de 1891. Vieram de Bérgamo, na região de Lombardia, norte da Itália.
Em sua juventude, Maria Macarini, em busca de melhores condições de vida, veio para Laguna, hóspede de Catarina de Bona Crippa e de seu marido Leandro Crippa. 
Macarini continuou seus estudos em nossa cidade e cedo aprendeu o ofício de parteira, passando a atuar na comunidade lagunense atendendo parturientes em suas próprias residências, inclusive em localidades do interior do município onde só se chegava a bordo de canoas.
Depois, a partir da década de 1940, passou a atuar no Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos, auxiliando o corpo clínico daquela casa hospitalar.

Construção da Maternidade
Em 1954 Maria Macarini foi nomeada para exercer a função de enfermeira-obstetra pelo Departamento de Saúde Pública Estadual.
Em setembro de 1955 foi inaugurada a Maternidade do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos com dez quartos.

Fachada do prédio do antigo Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos, em 1905.

Lembrando que o nosso hospital recebeu essa denominação pela Lei nº 1017, de 10 de maio de 1883.

A parteira Maria Macarini, em pé na foto, na ala da Maternidade do Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos, Laguna - SC.

Estranha-se que atualmente a palavra “Senhor” tenha sido retirada de sua denominação histórica.
Maria Macarini também exerceu o cargo, a partir de 1960, no Posto de Puericultura da Laguna.

O enfermeiro e marido João
Aqui na Laguna Maria Macarini conheceu o enfermeiro João Ferreira, com quem se casou.
João era uma pessoa muito popular na cidade, bondoso, sorridente, simpático. Atendia a todos que o procuravam com alegria e responsabilidade. Aplicava injeções e trabalhava em Institutos de Previdência.
Mais tarde, com a junção de todos os Institutos, irá trabalhar no Instituto Nacional de Seguridade Social (INPS).

João Ferreira.

O casal também trabalhou no Serviço de Atendimento Médico Domiciliar de Urgência (SAMDU), na gestão do prefeito Walmor de Oliveira na década de 1950.
João Ferreira foi membro do Coral Santo Antônio dos Anjos, reorganizado na década de 1970 pelo padre e maestro Antônio Gerônimo Herdt. Inclusive João está na foto junto aos demais coralistas do primeiro LP gravado pelo Coral, em 1979.
O casal mantinha cadernos onde anotavam todos os nascimentos em que Maria Macarini participou como parteira. E foram mais de 14 mil atendimentos.

Também nasci pelas mãos de Maria Macarini em 22 de janeiro de 1960.
Um trabalho de parto difícil, demorado, iniciado lá em casa, na rua Voluntário Benevides e finalizado em nosso hospital com o auxílio do doutor Aurélio Pinho Rótolo, conforme narrava minha mãe.
O registro de nascimento consta, entre milhares de outros lagunenses, nos livros da parteira Maria Macarini.

Lembranças da dª Selma Ávila
Dª Selma Ávila foi vizinha do casal Maria Macarini e João Ferreira durante muitos anos na rua Oswaldo Aranha, no Centro Histórico.
Selma, viúva do saudoso músico Orgel Ávila, conta que Maria e João formavam um casal harmonioso e muito trabalhador.

“Maria Macarini, devido às muitas dificuldades que passou na vida era de uma personalidade muito forte, mas tinha um coração brando e bom. Era sincera ao extremo”.
Dª Selma diz que foi muito feliz tendo eles como vizinhos. Inclusive Maria Macarini foi a parteira de seus filhos.
Ela relembra:
“Depois da aposentadoria dos dois eles viajaram muito. Ela gostava muito dos nossos vizinhos, do seu Pedro Bascherotto e família, do seu Claudimiro Rosa e da filha Tereza Oliveira.
Quando ficou enferma e foi internada no hospital, lhe fiz companhia em várias ocasiões.
Temos que sempre nos lembrar dessas pessoas valorosas que passaram por nossa Laguna, para que elas nunca fiquem no esquecimento”. 

Frases fatídicas sobre a morte e que se cumpriram
Em outubro de 1959, quando chegou em sua casa pela manhã após ter feito um show e participado de festas no Rio de Janeiro, a cantora e compositora Dolores Duran disse brincando e sorrindo para sua empregada:
- Não me acorde. Estou cansada. Vou dormir até morrer.
E assim se despediu do mundo, vítima de infarto enquanto dormia para nunca mais acordar.
Uma variação dessa fatídica frase e desfecho trágico, também aconteceu aqui na Laguna com João Ferreira, o João da Macarini, como era mais conhecido.
E quem nos conta o fato é novamente dª Selma Ávila que, como já informei, foi amiga e vizinha:

“Era uma quinta-feira, 3 de maio de 1984, o dia estava ensolarado, muito bonito e quente.
Por volta das 10 da manhã o João apareceu à porta da minha cozinha, deu bom-dia e disse:
- Selma, tenho que falar contigo, contar um segredo. Eu estava toda atarefada, preparando o almoço, meu irmão Luiz estava conversando comigo. Respondi indagando se a conversa não podia ser mais tarde. Ele respondeu que sim e ao sair pelo corredor disse bem alto:
- Que dia lindo para morrer.
Dali a alguns minutos ouvi a Arina, sobrinha deles, que morava com eles, correndo e gritando pelo corredor ao lado, que seu tio João havia caído na varanda".

João faleceu naquele exato momento, vítima de infarto fulminante. E levou seus segredos que tanto queria contar.
Assim como Dolores Duran, João também se despediu do mundo, mas não da memória de muitos que o conheceram e que com ele conviveram.

Agraciada com a Comenda Domingos de Brito Peixoto
Em 29 de julho de 1992, numa sessão solene realizada no Centro Cultural Santo Antônio dos Anjos, o município da Laguna homenageou Maria Macarini Ferreira com a Comenda Domingos de Brito Peixoto.

Maria Macarini Ferreira em 29 de julho de 1992, aos 87 anos, quando foi homenageada com a Comenda Domingos de Brito Peixoto.

Era a última noite da Semana Cultural daquele ano, gestão de Nelson Abrahão Neto-Zeno Alano Vieira (1989-1992).

Os homenageados com a Comenda Domingos de Brito Peixoto em 1992: Agenor dos Santos Bessa, representado pelo seu sobrinho Marianto Bessa Fernandes. Empresários Emilio Batistella e Santos Guglielmi. Atrás: Walter Baumgarten Júnior, representado por sua filha Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião,  Maria Macarini Ferreira e o jogador Mengálvio Figueiró. Foto: Álbum de família de Fernando Lopes Fernandes.

   Os demais homenageados foram o jogador de futebol Mengálvio Figueiró, o maestro e músico Agenor dos Santos Bessa, representado na ocasião por seu sobrinho Marianto Bessa Fernandes; Walter Baumgarten Júnior, representado por sua filha Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião e os empresários Santos Guglielmi e Emilio Batistella.
Sobre a homenagem à parteira lagunense o colunista Munir Soares, fiel ao seu estilo escreveu:

“Quem disser que não acredita na cegonha, jamais ouviu falar de Maria Macarini.
Por suas mãos, 14 mil seres vieram ao mundo. Macarini, a parteira de mãos de fada. Seus dedos, movidos por fios divinos, buscavam no interior de cada mulher, o sagrado fruto do seu ventre. Nunca perdeu um só nenê.
Com os próprios ouvidos, colados à mãe, ela estudava e analisava cada som, cada movimento acontecido no útero.
Macarini fazia como ninguém, a ultrassonografia de ouvido.
Ironicamente, Maria Macarini, mãe de 14 mil filhos, dos outros, nunca teve seus próprios filhos.
Este é o destino da Cegonha, parceira do Criador no supremo ato da concepção, do amor, como fonte de vida.
Maria Macarini, meus filhos também vieram ao mundo por tuas mãos e com a graça de Deus”.

Falecimento de Maria Macarini
Maria Macarini Ferreira depois de vários períodos enferma na Laguna, foi morar com familiares em Caravaggio, Nova Veneza, sua cidade natal, onde faleceu em 29 de abril de 1995, aos 90 anos e foi sepultada no cemitério municipal daquela cidade.
Com ela partiam milhares de histórias sobre partos e nascimentos de lagunenses que atravessaram gerações.
Deixou um legado através de cada um dos 14 mil lagunenses que nasceram com ajuda de suas mãos e seus conhecimentos.

04 setembro 2026

A derrubada do Consistório da igreja Matriz e a procissão com todos os santos pelas ruas da Laguna

 Foram muitas as reformas físicas, alterações e ampliações efetuadas na nossa igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos ao longo dos tempos.
Uma das grandes obras aconteceu entre os anos de 1945 a 1947. Foi trocada toda a armação do prédio, forros, pisos e derrubado o chamado “Consistório” da igreja. Ao fim das obras uma grande procissão com todas as imagens de santos e santas da nossa igreja foi realizada pelas ruas da Laguna.

Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos - Laguna - SC em fins da década de 1920. A seta indica onde ficava o Consistório da igreja que foi derrubado quando das obras na década de 1940.

As obras
A Igreja Matriz da Laguna foi construída em etapas. A primeira delas em 1696 que hoje constituí a parte do altar-mor em substituição a primeira capela de pau-a-pique.
A segunda etapa de construção foi terminada em 1735 ou 1738, que incluiu o corpo principal e o espaço dos altares laterais. Anos depois foram construídas a Capela do Santíssimo Sacramento, Capela de Nosso Senhor Morto e a Capela Sagrado Coração de Jesus, além das chamadas tribunas.
Grandes obras aconteceram em 1894, 1904, 1911, 1933, 1945, 1970 e 2000.
As reformas de 1894 alteraram a parte frontal da igreja, com o erguimento de duas torres feitas pelos mestres de obras Marcos Gazolla e Batista Uliano. Gazolla mais tarde, em 1915, vai construir o chafariz bem ao centro do Jardim Calheiros da Graça.
As obras de 1904 constaram da reforma do telhado pela firma Bianchini & Irmão, assoalho do adro e pintura.
Em 1911 todo o piso da nave principal foi ladrilhado. Piso que foi retirado nas obras efetuadas em 2000, restando alguns poucos metros à entrada.
Em 1912, pela primeira vez a igreja recebeu bancos para os fiéis se sentarem, conforme matéria já divulgada neste Blog.
Em 1935 foi instalado o relógio entre as duas torres da igreja, matéria já publicada neste Blog. 
Nos primeiros anos da década de 1970 a Matriz foi restaurada e pintados nichos, colunas e altares pelo mestre entalhador e pintor, artista João Rodrigues, o Português, que também desenhou e pintou anjos e arabescos no forro da nave central da igreja, além de restaurar algumas imagens. É dessa época que todo o dourado da igreja foi feito com aplicações de lâminas de ouro baixo.
As obras realizadas no ano de 2000 constaram de substituição do piso por tábuas de madeira, refazimento do reboco, pintura, telhado...

 Os obreiros
Pelas informações que constam nos jornais da época, ficamos sabendo que em 1945 o antigo telhado da igreja tinha mais de 60 anos e que foi substituído, ainda no século XIX pelo mestre de obras Cipriano Lucidônio.
Nos anos de 1945 a 1947 foram trocadas todas as linhas, os caibros, ripas e telhas.
Um pedreiro de nome José Alano com 67 anos na época e ainda prestando serviços no retelho em meados da década de 1940, havia trabalhado no levantamento das duas torres em 1894, quando tinha 16 anos.
E informa O Albor, a título de curiosidade, que José Alano, com 67 anos em 1945, era “o pedreiro mais velho que hoje vive em Laguna”.
Lembrando que a expectativa de vida no Brasil naquele ano de 1945 era de aproximadamente 45 anos.
Luciano Zukoski “administrou os principais serviços sem remuneração”.
Uma comissão de engenheiros formada por Luciano Bertazzi, Haroldo Cintra e Enéas Vasconcelos de Queiroz acompanhou as obras, conferindo detalhadamente os trabalhos e resistência do material empregado.
Padre Bernardo Phillippi era quem dirigia a paróquia e que aqui esteve de fevereiro de 1933 a 25 de janeiro de 1948. 
Sim, sim naqueles tempos eles costumavam ficar muitos anos.

Os benfeitores
Para realização das obras buscava-se ajuda entre os fiéis. E havia, como ainda hoje os que, além de arrecadar os valores doavam objetos particulares para serem vendidos em quermesses e rifas.
Para angariar donativos para essas obras específicas de meados da década de 1940, foi nomeada uma Comissão Auxiliadora formada por Turqueza Teixeira Tasso, Lilita Soares Bento, Joana Mussi, Diva Neto Cardoso, Letícia Remor Teldo, Alice Petreli e Vera Ulysséa Nunes.
Listas de subscrições foram remetidas a lagunenses residentes em outros municípios e estados.
Uma barraca foi montada ao lado da Matriz para aos sábados, domingos e feriados vender prendas doadas por colaboradores. A quermesse ficou a cargo de Francisco Pestana e Eliziário Fernandes.
Dª Ludinira Fonseca Carneiro promoveu bailes e festas no tradicional Clube Blondin (cuja nova sede foi inaugurada em 13 de junho de 1943), sociedade em que seu marido, o médico e futuro prefeito da Laguna, Paulo Carneiro era presidente.
Comandava todo o financeiro, o comerciante Adelino Waterkemper, dos mais atuantes, ilibados e honrados que existiu em nossa cidade. Prestava contas de cada centavo que entrava e saía, apresentando todos os comprovantes. Aliás, como necessariamente, obrigatoriamente deve ser.
Alguns fiéis doavam valores altos para a época, como Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros) ou Cr$ 10,00 (dez cruzeiros), conforme as condições financeiras de cada um.
Os jornais da época, como O Albor, publicavam quase que semanalmente relação com os nomes dos doadores e os respectivos valores.
Outra benemérita lagunense foi Joana Mussi, que se desdobrava em busca de recursos.
O futuro governador Irineu Bornhausen doou toda a madeira compensada para o forro.
E tem mais: Odete Pinho ofereceu 200 flores artificiais de sua autoria para serem vendidas. A senhora Elisa Mussi ofereceu uma pintura a óleo com a imagem de Cristo para ser leiloada.
Um cordão de ouro foi oferecido à Comissão de Obras pela senhora Margarida Remor e posto à venda. Foi adquirido pela quantia de Cr$ 500 (quinhentos cruzeiros) por Francisco Vieira, proprietário da Padaria Santo Antônio, no bairro Magalhães.
A firma Miranda & Abrahão (leia-se Otávio Miranda e Batista Abrahão) proprietários da Casa Popular doou 13 metros de ladrilhos. Oito metros do mesmo material foram doados pela firma A Principal, de Tancredo (Donga) Mattos.

O Consistório foi ao chão
As obras realizadas por dois anos a partir de 1945 foram das mais grandiosas. Foi trocada toda a armação do prédio, forros, pisos e derrubado o chamado “Consistório” da igreja.
E o que é um Consistório?
No vocabulário da arquitetura religiosa, é um espaço existente para reuniões, assembleias, encontros de conselhos e irmandades. Em geral, fica anexo ao corpo principal do templo.

Um desfile de 7 de Setembro pouco antes de 1947. Ao fundo, à esquerda, o Consistório junto à parede da Igreja. À direita, o Clube Blondin em sua nova sede, inaugurada em 13 de junho de 1943.

Era o caso do Consistório da nossa igreja. Ver foto acima.
Nail Ulysséa em seu escrito “Três Séculos na Matriz”, informa: 

“Havia, ainda, junto à parede do corpo da igreja, do lado norte, uma meia-água, com uma sala, em que se realizavam as reuniões e que denominavam pomposamente de “consistório”. Possuía uma porta e duas janelas para a rua e era ligada à igreja por uma porta interior para a Capela do Santíssimo. Foi demolida em 1944”.

Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos, Laguna -SC nos dias atuais.

Houve um pequeno engano quanto à data em que o Consistório foi demolido, pois ainda em março de 1945, portanto um ano depois do informado, o jornal O Albor registrava o início das obras e sugeria a derrubada do Consistório: 

“Devido ao mau estado da armação da Matriz, está sendo completamente reformada.
A nossa igreja construída em 1737 é internamente um dos mais belos templos do estado.
Seus altares trabalhados por entalhadores portugueses daquela afastada época, ainda hoje despertam admiração pelas suas belezas artísticas.
O edifício de estilo toscano, apresenta harmonioso aspecto, entretanto na estética de seu conjunto, nota-se uma falha, oriunda, talvez, da conveniência do serviço interno, refiro-me ao chamado Consistório, construído ao lado direito do Templo.
Seria de grande vantagem para a sua beleza externa, a demolição do Consistório, aproveitando a ocasião em que se procede as obras.
Há ideia de ali ser feito um pequeno jardim moderno o que daria à nossa Matriz aspecto externo mais belo e de harmonia com o seu estilo”. 

A nota é assinada pelas iniciais S.U. Trata-se de Saul Ulysséa, colaborador do jornal. O jardim chegou a ser implantado, mas anos depois toda aquela área lateral foi cimentada.

Uma procissão pelas ruas da Laguna com todos os santos
Para a realização das obras na igreja a partir de 1945 e que levaram dois anos, todas as imagens de santos e santas foram retiradas do prédio.
Imagens como Senhor Morto, Nossa Senhora do Parto, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora das Dores, São Miguel, São João, foram remanejadas para as salas térreas do Prédio da Associação São Vicente de Paula (Vicentinos), situado ao lado da Matriz.

Procissão com todos os santos e santas. Imagem gerada por IA.

Já a imagem do padroeiro da Laguna, Santo Antônio dos Anjos foi transferida e guardada na Capela do Hospital, junto à imagem do Senhor dos Passos, que batiza aquele nosocômio.
Com as obras concluídas, na tarde de domingo, 6 de abril de 1947, uma grandiosa procissão partiu do prédio dos Vicentinos com todas as imagens que ali estavam depositadas.
O préstito, acompanhado por numerosa multidão de fiéis, Banda Musical União dos Artistas e de todas as irmandades existentes na época, foi em direção à rua Voluntário Carpes.
Ao dobrar à direita na esquina com a rua Oswaldo Aranha fez ligeira parada aguardando pela imagem de Santo Antônio dos Anjos que partiu da Capela do Hospital, descendo a ladeira.
A procissão fez seu trajeto tradicional pelas ruas da cidade, mas no sentido inverso.
E o cortejo deu entrada na Matriz que foi reaberta com benção e com todas as imagens. Uma missa solene foi realizada e Te Deum (A ti, Deus nós louvamos) e mais tarde as imagens foram devidamente instaladas em seus respectivos altares.
Deve ter sido uma tarde de domingo com muita emoção, fė e orações.


28 agosto 2026

Zavério Eghert, o mago do visual do carnaval lagunense

 
Foram dezenas de pessoas que podemos chamar de baluartes do carnaval lagunense ao longo da nossa história.
Dentre os nomes de carnavalescos, alguns já destacados neste Blog, está o de Zavério Eghert.

Zavério Bergamini Eghert, em foto de 1955.

Em 3 de agosto de 1921, nasceu na Laguna, na casa de nº 73 na rua Voluntário Fermiano, no Centro Histórico, Zavério Bergamini Eghert.
Filho de Beatriz Bergamini Eghert e Franz Eghert.
Seus avós maternos foram dos primeiros imigrantes italianos que se estabeleceram no sul de Santa Catarina.
Seus nomes? Giácomo Bergamini e Luigia Frontini Bergamini, que tiveram duas filhas nascidas no Brasil: Beatriz e Ida.
Beatriz casou-se com o alemão Franz Eghert que veio para Laguna trabalhar como mecânico na Companhia de Mineração e Metalurgia do Brasil (Cobrasil), responsável pela construção dos Molhes da Barra da Laguna.
Foram irmãos de Zavério, hoje já falecidos: Fernando, Orestes (Mestre), Sinalda, Rinalda, Humberto e Helaine.

Família de veia artística
Todos eles dotados de veia artística. Fernando foi músico, compositor e coralista na Matriz Santo Antônio dos Anjos. Compôs muitos sambas e marchas de carnaval. Pertenceu à Sociedade Musical União dos Artistas.
Rinalda foi atuante durante muitos anos em peças teatrais exibidas em nossa cidade.
Orestes Bergamini Eghert, chamado Mestre, foi folião do nosso carnaval, sempre compondo personagens críticos, satíricos.
Do Mestre, o radialista e colunista João Carlos Wilke certa vez escreveu:
 
“O Mestre era criador de frases absolutamente espirituosas, as quais caíam como uma luva no gosto popular.
Sabia como ninguém fazer pilhérias do gênero, divertindo e encantando a todos, contrapondo às mais sérias e céticas situações do nosso cotidiano”.

Cordão Carnavalesco Bola Branca
Zavério entrou para o Cordão Carnavalesco Bola Branca em 1953, quando assumiu como responsável pela Comissão de Fantasia. Seu irmão Orestes já havia pertencido à diretoria, como 2º tesoureiro por alguns mandatos no início da década de 1940.
As décadas de 1950 e 1960 foram a época de ouro do carnaval de salão lagunense.
O Bloco Bola Branca rivalizava com o Bola Preta e as belezas de suas fantasias, luxuosas, ultrapassavam fronteiras.
Enquanto os componentes às entradas e nos desfiles nos salões recebiam os aplausos, Zavério assistia de longe, modesto, a glória dos vitoriosos.
E foram muitas as fantasias de Zavério que entraram para a história do carnaval lagunense do Bola Branca, entre outras
Barba Azul (1953), Fidalgos de Verona (1954), Adoradores do Sol (1955), Caudilhos de Cuba (1957), Tártaros (1958), Rigoletto (1959), Guerreiros Astecas (1961), Rei da Folia (1962), Satã o Rei do Inferno (1963), Cigano Rico (1964), Balumbas (1966), Maracatu Dourado (1967), Kon-Tiki (1968)...

Cordão Carnavalesco Bola Branca - Fantasia Cigano Rico - Ano 1964. Componentes fila superior da esquerda p/direita: José E. Fonseca, Miscelau Speck, João Carlos Pacheco, João Oliveira Neto, Juarez Fonseca de Medeiros, Hamilton Goulart e Norberto Pinho. Fila abaixo, da esquerda p/direita: Ivan Vieira, Pedro Tasso Oliveira, Nivaldo Ulysséa Mattos, a rainha Maria da Graça Silva, Oclândio Siqueira, Alberto Prudêncio e João Batista S. Pereira.

Zavério era muito inteligente. Leitor voraz, autodidata, dominava muitos assuntos, principalmente artes e história. Mas falava sobre óperas e até geologia.
Desenhava suas fantasias estilizadas baseadas em figurinos de filmes assistidos, em páginas de revistas e livros que estampavam povos, origens, costumes, vestimentas.

Na Vila Isabel e Os Bem Amados
Mais tarde, com o declínio dos cordões carnavalescos, tendo com principal motivo os altos custos das fantasias, Zavério se transferiu para a Escola de Samba Vila Isabel.
Foi um período auge da “Escola do Morro”, com muito luxo e brilho em suas fantasias.
E, ainda, a partir de meados da década de 1970, Zavério colaborou nas fantasias da Escola de Samba Os Bem Amados, trazendo cores e luxo para a rua Conselheiro Jerônimo Coelho, a então nossa passarela do carnaval.

Falecimento
Zavério Bergamini Eghert faleceu na madrugada de 11 de julho de 1983 aos 61 anos em hospital de Florianópolis, onde estava internado.
Seu corpo foi transladado para Laguna e sepultado no dia seguinte às 11 horas.
É nome de via pública no bairro Portinho.

Rua Zavério Bergamini Eghert, no bairro Portinho.

Quando do falecimento de Zavério, o saudoso colunista Munir Soares escreveu: 

“Lidava com as cores como ninguém, era um misto de Morubixaba e Pagé. Era o que já se chamou de “Mago do visual”.
Morreu Zavério, o mágico das cores, foi levado numa urna escura, fria, sem nenhuma combinação de cores, para um túmulo cinzento. Se a morte, como afirmam as religiões, é a passagem para uma vida melhor, então porque se usam nos enterros cores tão tétricas.”

Quando do seu funeral, um velho sambista cantarolou um antigo samba do seu irmão Fernando Eghert que fez muito sucesso anos antes:

“Vesti a camisa amarela,
E fui para a avenida sambar
Por acaso encontrei-me com ela,
A mulher que não soube amar
Você não quis...você não quer...”
(silêncio)

Já Ivaldo Roque, músico e compositor, também de saudosa memória, escreveu em sua coluna de jornal:

“Quem é carnavalesco sabe que morre um folião, mas sempre surge outro dando ênfase à alegria. Mas o falecimento do Zavério desanima nossa folia”.

O legado de Zavério Bergamini Eghert o tempo não apagará. Seu nome continua na galeria dos notáveis, dos grandes baluartes do carnaval lagunense.

24 agosto 2026

Nos tempos da datilografia - Me respeitem, porque fiz o curso

 “Batidas na porta da frente. É o tempo...”
(Aldir Blanc)

- Me respeitem, porque fiz o curso de datilografia. 
Antigamente, saber datilografia era obrigatório para se obter um emprego. Concursos públicos assim o exigiam. Era necessário para confecção de cartas, ofícios, petições, tabelas...
A datilografia era feita nas chamadas máquinas de escrever. Não existia o silêncio dos suaves e anatômicos teclados atuais feitos de plástico. Era um barulhão, um trovejar de sons ecoando nas salas abafadas de escritórios e redações de jornais.
Um antigo e valioso certificado
Em uma antiga pasta que pertenceu ao meu pai, encontro um documento que imaginava há muito tempo perdido.
Ao lê-lo mergulho em lembranças e passo a folhear algumas páginas do livro das memórias.
Foi em meados de 1975. Tinha eu quinze anos e querendo comprar uma máquina de escrever havia a necessidade de primeiro cursar datilografia. Era obrigatório.
Tinha aulas pela manhã no Científico no então Conjunto Educacional Almirante Lamego (Ceal) e à noite Ciências Contábeis no Colégio Comercial Lagunense (CCL), no mesmo prédio.
Com as tardes vagas me matriculei na Escola de Datilografia Stella Maris, no Colégio do mesmo nome. Duas ou três aulas por semana, uma hora cada.
Fim de ano, em dezembro, recebi o tão almejado Certificado de Habilitação em Datilografia. Irmã Blandina Theis foi quem assinou o documento e me entregou em pequena solenidade. Era a diretora e professora das aulas.
Austera, atenciosa, rígida nos horários, bondosa com todos os alunos. Ótima com os bons alunos.
Meses depois, com as aulas e o Certificado em mãos, estava contratado na Agência da Receita Federal da Laguna. Aos 16 anos, carteira profissional assinada, CLT. Meu primeiro emprego.

Remington 25

Com o primeiro salário comprei a tão sonhada máquina de escrever. Uma Remington 25, design moderno, revestimento em plástico na cor laranja. Um luxo!
Três anos depois, já com 18 anos e prova de datilografia em uma das duas etapas, fui aprovado em meus dois primeiros e únicos concursos. Para o INSS e Eletrosul. Optei pela última e me transferi para Florianópolis para trabalhar e estudar. 
Mas isso é outra história pessoal, sem qualquer interesse.

TEC-TEC-TEC, DINNNG, VRUMMMMM...
Escrever antigamente em enormes máquinas de datilografia era onomatopeico.
Não existia o silêncio dos suaves e anatômicos teclados modernos feitos de plástico. Ou toques sensíveis em telas touch screen de celulares e tablets. Era um barulhão, um trovejar de sons ecoando nas salas abafadas de escritórios, nas redações de jornais.
Som metálico. Ferro batendo no ferro. Ou melhor: letras e caracteres de chumbo marcando a folha virgem de papel. Entre os dois uma frágil fita de seda bicolor. Sim, duas cores, preto e vermelho.

Máquinas de escrever quando eram expostas no Museu Anita Garibaldi. Ano 2004. Foto: Valmir Guedes Júnior

E o som tinha cheiro. Cheiro de óleo de máquina, de tinta-carbono, cheiro de corretivo.
As frases iam sendo escritas na cadência das pontas dos dedos. Todos eles devidamente, exaustivamente utilizados. Os dez, incluindo o mindinho. Principalmente o mindinho.
Dinnng... era o barulho da sineta embutida na máquina avisando o fim da margem. Havia que se separar as sílabas, rapidamente, corretamente.
Aliás, frases devidamente tabuladas e com parágrafos. Escala zerocêntrica, marginadores visíveis. 

Os raízes, como se diz hoje, devem lembrar
Manualmente você puxava o carrinho com uma pequena haste torta para o lado e reiniciava ou continuava a frase em nova linha. E sem qualquer letra trocada, do contrário tinha que recomeçar em nova folha de papel.
Só mais tarde vão surgir umas fitas corretoras ou um líquido branco em minúsculos recipientes de vidro passado a pincel no papel. Era necessário precisão e soprar para secar. Depois, retornar uma casa e datilografar por cima com a letra correta. Mesmo assim ficava feio o resultado.
O raciocínio e a memória com o tempo e a prática acompanhavam o ritmo das batidas.
Era assim que antigamente se escrevia a máquina. Sim, se dizia respeitosamente: Máquina de Escrever, com iniciais maiúsculas. Marcas Remington, Olivetti, Olympia, Underwood...

Anúncio da máquina de escrever Remington no Jornal lagunense O Albor de 7 de julho de 1956.

E quem nelas escrevia chamava-se datilógrafo. Havia escolas, aulas práticas e teóricas. E exames. No final de meses, os formandos recebiam certificados de conclusão. Como o meu aí de cima.
Não antes dos alunos serem submetidos à prova final, eliminatória, de memorização do teclado. Olhos vendados só ouvindo o ditado da professora. 
Ali era a prova dos nove. Quem aprendeu, aprendeu, quem não aprendeu...
Quanto mais velocidade melhor. Um bom datilógrafo conseguia a média de 100 palavras por minuto.
Havia até o dia 24 de maio em  homenagem ao Datilógrafo.
Datilografia era obrigatória para se obter um emprego. Concursos públicos a exigiam. Era necessária para as cartas, ofícios petições, tabelas...

Os cata-milhos
Os cata-milhos dificilmente tinham vez. Não eram aprovados.
Cata-milhos? Sim, era como chamavam com depreciação os que datilografavam usando um ou dois dedos das mãos, procurando meio que perdidos as letras no teclado.
Não se falava em bullying naquela época. Já existia, claro, mas a gente é que não sabia o seu significado.

Uma sala de aula de datilografia na década de 1970. Imagem gerada por Inteligência Artificial.

   Com a datilografia você aprendia disciplina, destreza, paciência, coordenação, o tal foco, como hoje chamamos.
E havia a postura. Ahhh a postura...
Ainda hoje, quando fico mais à vontade ao digitar, cervical torta, ombros desalinhados, pés sobre um puf, cotovelos apoiados sobre à mesa, tenho a impressão de ouvir uma voz.
Deve ser a Irmã Blandina lá dos céus com seu sotaque carregado de erres dizendo às minhas costas:
- Seu Guedes, olha a posssturrrra...
Evidentemente que logo me recomponho, ereto, disciplinado, obediente.
Certas lembranças da gente não há tecla moderna de delete que apague dos recantos da nossa memória.
 
A máquina de escrever saiu de cena
A máquina de escrever saiu de cena com a popularização do computador nas décadas de 80 e 90. Aulas de datilografia viraram aulas de informática. Tudo o que tinha na máquina de escrever foi para o editor Word. Moderno, eficaz, funcional.
Tudo digital e agora com reconhecimento de voz e Inteligência Artificial.
E pensar que tudo começou com a máquina de escrever, uma invenção das mais importantes da história.
Hoje, olhando para trás, passado mais de meio século, agradeço ter aprendido o charme da datilografia. Tempo em que escrever era quase uma arte.
E daí, leitor, leitora, conta para nós sua experiência com a datilografia. Fez curso também?

19 agosto 2026

Faleceu Antônio Carlos Marega +

Faleceu na manhã de hoje (19), em Porto Alegre, onde estava residindo, o ex-bancário, artista plástico, colecionador, professor e memorialista lagunense Antônio Carlos Marega, aos 79 anos.

Antônio Carlos Marega. Foto: Geraldo Luiz da Cunha-Gê.

Nascido em 7 de julho de 1947, Marega estudou na icônica Escola da dª Mimi, Grupo Escolar Jerônimo Coelho e Conjunto Educacional Almirante Lamego.
Aprovado em Concurso para o Banco do Brasil, trabalhou em Caçador e depois solicitou sua transferência para Laguna, onde se aposentou.
Lecionou Contabilidade Bancária no Colégio Comercial Lagunense (CCL), foi presidente da Associação de Assistência e Defesa contra Lepra.
Foi sócio e membro da diretoria do Clube Blondin. Foi sócio do Cordão Carnavalesco Bola Branca e junto com Zavério Erght desenharam muitas fantasias dessa entidade carnavalesca de salão.
Foi Irmão da Loja Maçônica Fraternidade Lagunense e depois da Loja Maçônica Tordesilhas onde foi Venerável.

Antônio Carlos Marega - Foto: Valmir Guedes Júnior

Devoto de Santo Antônio dos Anjos, colecionava tudo o que podia sobre o taumaturgo, além de imagens e lembranças das Festas anuais.
Colecionava motos em miniaturas, álbuns com figurinhas das Copas do Mundo e também dos "santinhos" de candidatos políticos.
Em 2023 foi homenageado na 41ª Semana Cultural da Laguna com a Comenda Domingos de Brito Peixoto.
Tornou-se fonte de pesquisas das mais variadas sobre a história e personagens da nossa Laguna colaborando com seus conhecimentos com professores, estudantes, pesquisadores, historiadores, jornalistas e escritores.
Era dotado de uma memória prodigiosa. Para quem apreciava era uma grande prazer ouvir o Marega, principalmente as histórias não oficiais, os causos que não se encontram registrados nas páginas de livros e jornais antigos.
Quando o encontrava e o visitava tornava-me ouvinte atento, a absorver tantas histórias. Trocamos opiniões e materiais, abordamos reminiscências e curiosidades. Aprendi muito. Sou e serei sempre credor de todas as suas valiosas informações e materiais que me cedeu.

Antônio Carlos Marega pelo cartunista José Custódio Rosa Filho.

Por minha sugestão criou em 2012 um Blog intitulado Baú do Marega, com interessantes matérias iniciais, mas pouco depois, interrompido.
Um adendo: Marega também produzia homeopatia, principalmente para doenças respiratórias como bronquites. Muita gente se curou com seus remédios.
Foi casado com Solange Remor Marega, de saudosa memória, com quem teve cinco filhos: Graziela, Gabriel, Gláucia, Giovana e Gabriela.
Sentimentos aos amigos e familiares.

Cerimônia de velório vai ocorrer amanhã, quinta-feira (20) das 8 horas às 16h na Sala Mortuária Santo Antônio da Casa Funerária Gomsan, com cerimônia de despedida logo após, no Crematório São Matheus, em Capivari de Baixo.