05 agosto 2026

Faleceu a professora Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião+

 
Faleceu nesta quarta-feira (5) em hospital de Tubarão onde estava internada, nossa eterna Orientadora Educacional, professora Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião, aos 91 anos.

Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião. Foto: Divulgação CEE/SC-Ano 2016.

Nascida em 11 de fevereiro de 1935, filha de Yvonne Cabral Baumgarten e Walter Baumgarten Júnior. Irmã de Lúcia Baumgarten.
Fez os estudos primários no então Grupo Escolar Jerônimo Coelho. O Ginasial e a Escola Normal no Ginásio Lagunense.
Formou-se em Pedagogia, com Especialização Escolar na antiga Feesc, em Tubarão.
Em 1957 casou-se com Jairo Ulysséa Baião, de saudosa memória (faleceu em 17 de dezembro de 2020). Aliás, seu professor no Ginásio Lagunense. 
Da feliz união nasceram os filhos Sílvia, Maurício, Antônio José (Dedô) e Vera.
Há muitos anos era moradora no entorno da Praça República Juliana número 53, no Centro Histórico da Laguna.
Estudou em sua infância piano e balé. Mas foi na Educação que encontrou seus objetivos de vida e profissionais. 
Era adepta de um viver saudável. Mesmo com já certa idade pedalava sua inseparável bicicleta todas as manhãs até o Mar Grosso para banhar-se.
Foi professora primária, depois secundária e Orientadora Educacional no Conjunto Educacional Almirante Lamego (Ceal) e Colégio Comercial Lagunense (CCL). Aliás, sendo precursora na Laguna nessa última atividade.
Em muitas solenidades culturais esteve presente com seus inteligentes discursos que pregavam o amor, falavam em Educação e na Laguna e emocionavam os presentes.
Acompanhava atentamente o noticiário, inclusive o local, ouvindo as emissoras de rádio e assinando os jornais da nossa cidade.
Foi Voluntária da Caixa de Socorro aos Tuberculosos, e da Rede Feminina de Combate ao Câncer.

Em 7 de setembro de 1999 fotografei dª Amélia Baumgarten Baião quando desfilava, juntamente com as demais Voluntárias da Rede Feminina de Combate ao Câncer, no Dia em Homenagem à Independência do Brasil. Foto: Valmir Guedes Júnior.

A partir do ano de 1983, e por seis anos consecutivos na gestão de João Gualberto Pereira-Rogério Wendhausen (1983-1988), dª Amelinha, como era conhecida carinhosamente, foi Secretária Municipal de Educação, Saúde e Promoção Social.
Na gestão Jorge Zanini-Nazil Bento Júnior (1993-1996), assumiu a titularidade da Secretaria de Educação e Esportes.
Foi oradora da Creche Padre Agostinho (1998).

No ano de 1999 recebeu uma série de homenagens
Foi agraciada com a Medalha de Mérito Domingos de Brito Peixoto, na segunda gestão do prefeito João Gualberto Perera-Rogério Wendhausen (1997-2000).
Em Sessão Solene realizada na Laguna pelo Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC), recebeu a Medalha Celebrativa do Sesquicentenário da morte de Anita Garibaldi.
Foi homenageada pela diretoria do Asilo Santa Isabel, de nossa cidade, quando das comemorações do cinquentenário dessa entidade filantrópica, em que muito contribuiu.
Foi uma das homenageadas pelo, hoje extinto, Colégio Comercial Lagunense (CCL), quando das comemorações do cinquentenário desta instituição de ensino. Era diretor na ocasião, o professor Danilo Prudêncio Costa.

Discursando num solenidade de 7 de Setembro na Praça República Juliana. Foto: Divulgação/PML.

Ainda em 1999, pelos relevantes serviços prestados à Educação, foi homenageada com o Troféu O Pyrilampo, organizado e promovido pelo cronista social Thiago Santiago do jornal O Correio.
Em 2008, na gestão do prefeito Célio Antônio-Aderbal Zapelini Mendes (2005-2008) assumiu a presidência da Fundação Irmã Vera.
Em 2016, em Sessão Plenária do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina (CEE-SC), recebeu o Diploma Mérito Educacional, como símbolo de reconhecimento dos membros do Colegiado pelo trabalho voltado à educação catarinense. A indicação partiu do lagunense, professor Maurício Fernandes Pereira, integrante do Colegiado.
Quando de seu discurso como homenageada, dª Amélia assim se manifestou em suas palavras finais:

“O ser humano tem condições de armazenar conhecimentos, muitas vezes inúteis e sem conexão com a vida. E essa conexão precisa existir, obrigatoriamente.
Estamos tentando! Claro que sim…. Mas ainda vivemos esse dilema. O importante é continuarmos tentando sempre, até um dia em que viveremos o triunfo da educação! E o Brasil será rico verdadeiramente”.

Ainda em 25 de março de 2026, foi homenageada pela Câmara de Vereadores da Laguna, juntamente com outras trinta e nove mulheres de nossa cidade, com a Medalha Professora Júlia Nascimento.
A honraria valoriza trajetórias inspiradoras e reconhece o papel fundamental das mulheres no desenvolvimento da Laguna, destacando atuações nas áreas social, cultural, econômica e comunitárias.
Representando dª Amelinha, sua filha Vera recebeu a homenagem em plenário especial instalado no Cine Teatro Mussi.

Nossos sentimentos aos amigos e familiares pelo falecimento. 

PS: Com a divulgação do horário, local de velório e de sepultamento, atualizo este texto.

29 julho 2026

Parabéns, Laguna pelos teus 350 anos!

A Laguna de todos nós comemora seu 350º aniversário na data de hoje. Uma quarta-feira úmida, chuvosa.
Uma Laguna de valores e vultos notáveis, berço de heróis da pátria. Uma terra abençoada por Deus em suas belezas naturais.
Laguna das tradições do seu povo, da religiosidade, da cultura, gastronomia, das praias, de seus casarios, do carnaval, dos botos, do Farol de Santa Marta, da Pedra do Frade, de Anita Garibaldi, de Nossa Senhora da Glória, de Santo Antônio dos Anjos. Laguna o lugar de nossas vidas.
Em depoimentos orais, nas nossas memórias e de nossos antepassados, na leitura de livros e jornais que marcaram época, a constatação da pujança de uma cidade que foi pioneira no sul do estado nas mais diversas áreas.
Tantas histórias...

 "Laguna que de tanto ser esquecida aprendeu a não esquecer", no dizer primoroso, verdadeiro, do saudoso deputado por esta terra, Armando Calil Bulos. 

Laguna foi tudo!
Mas também uma Laguna há muito tempo maltratada pela incúria dos homens, traída em seus ideais, negociada em suas aspirações.
Uma Laguna que já perdeu tanto, inclusive grande parte de seu território.
Uma Laguna do já teve e que sonha em voltar a ter.
Laguna que a tudo resiste, teimosa, impávida, única.
Porque os homens passam e alguns ficam nos rodapés da história, enquanto outros são esquecidos para todo o sempre.
Laguna de esperanças...
Parabéns, Laguna de todos nós que amamos essa terra, em seus 350 anos.

28 julho 2026

Resultados do IIIº Concurso Cultural promovido pela ALBSC - Laguna

Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina–Seccional Laguna (ALBSC-Laguna), divulgou o resultado do IIIº Concurso Cultural que promoveu dentro das Comemorações dos 350 anos do Aniversário de Fundação da Laguna. (Leia o resultado abaixo).
           
Eis um Concurso de muita importância em prol da Cultura.
Tive a oportunidade de participar com o Conto Sertanejo, um barco à deriva nos Mares do Sul classificado em primeiro lugar.
Parabéns a todos os participantes pelos trabalhos apresentados nas categorias Conto, Poesia, História em Quadrinhos, Desenho e Roteiro de Teatro.
E parabéns a todos os organizadores do evento, aos confrades e confreiras da nossa Academia de Letras nas pessoas do presidente da ALBSC Maurício de Oliveira Silva e da secretária Karmensita da Rocha Cardoso, grandes baluartes dessa entidade de Letras.

Participantes e classificados no Concurso Cultural com integrantes da Academia de Letras do Brasil, de Santa Catarina - Seccional Laguna. Foto: Julita da Silva Barreiros Guedes.

Nesta noite de terça-feira (28), em solenidade no Clube Blondin durante o Café e Sarau Literário da ALBSC, foram entregues Medalhas e Certificados aos participantes e classificados. 
O evento contou com uma linda homenagem ao saudoso Comendador Leamir Antunes da Rocha, apresentação das cantoras do Grupo Cantoria do Sesc e do cantor Joãozinho Rodrigues.
Mestre de Cerimônia foi o radialista Paulo Cereja, sempre com competência e humor.
         

Presidente da Academia de Letras do Brasil - Seccional Laguna quando da entrega do Certificado de Participação e Medalha pelo Terceiro Lugar na Categoria Contos a este autor. Fotos: Elvis Palma.



         

Mestre de Cerimônias radialista Paulo Cereja, sempre com competência e bom humor.


Resultados:






23 julho 2026

O padre assassinado na Laguna, durante a República Catharinense em 1839

     22 de julho de 1839. Após vencer as forças legais do Império, os farroupilhas-republicanos vindos do Sul tomam a Vila da Laguna.
Sete dias depois, em 29, é proclamada a República Catharinense, tendo Laguna como primeira capital, denominada Cidade Juliana.
O povo exulta em festas pelas ruas. O pároco local, Francisco Villela de Araújo reza missa em Ação de Graças na matriz Santo Antônio dos Anjos. Faz brilhante oração. É adepto fervoroso da nova forma de governo.
Quase quatro meses depois o cenário será outro. Desmandos, violência e o saque de Imaruí, entre outros fatores, põem em xeque o sistema implantado.
Há contestações, protestos, revoltas, conspirações e perseguições aos descontentes com os rumos.

O padre lagunense Villela, preso e posteriormente morto pelos farrapos-republicanos na República Catharinense em 1839. Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA).

A Laguna que antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Por isso, cerca de 60 pessoas serão encarceradas nos porões de navios. Dentre elas o padre Villela, que ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos.
O vigário será morto na véspera da Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, na Barra da Laguna, onde os republicanos serão derrotados pelas forças legais marítimas lideradas pelo Almirante Frederico Mariath.
Um processo de Inventário da nossa Comarca comprova o assassinato do sacerdote lagunense. (Veja abaixo foto da Capa do Processo de Inventário).

“Um mártir da verdade”, diz Bispo
No começo deste ano, em 18 de janeiro de 2026, um domingo, aconteceu a posse canônica dos novos padres da igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos.
A acolhida dos novos sacerdotes em suas novas missões foi durante a Missa das dezenove horas presidida pelo Bispo Diocesano Dom Adilson Pedro Busin.
Antes de abençoar a todos os presentes, Bispo Adilson lembrou de um padre que foi morto aqui na Laguna.
 “Li sua história, ele foi um mártir da verdade”, ressaltou Busin.
O sacerdote referido foi o padre Francisco Villela de Araújo, trucidado pelas tropas farroupilhas em 1839.

Um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes
Após 117 dias da Tomada da Laguna em 22 de julho de 1839 e da Proclamação da República Catharinense em 29 do mesmo mês, tendo com capital provisória a Cidade Juliana da Laguna, os farrapos bateram em retirada pelos campos da Passagem da Barra e do Camacho em direção ao Sul, onde tomaram rumos diferentes.
A fuga deveu-se à derrota na Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, à entrada da Barra da Laguna.
Deixaram no passado as esperanças liberais de uma nova forma de governo, o republicano.
Ficaram também para trás um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes.
Mesmo antes de os farroupilhas aparecerem por aqui, já haviam muitos adeptos de doutrinas liberais vivendo em nossa região, inclusive os que faziam parte do clero que exerciam enorme poder sobre a população.
 Basta dizer que o primeiro padre a presidir a República Catharinense foi Vicente Ferreira dos Santos, vigário da Enseada de Brito.

Villela: “Um padre cheio de patriotismo e fervor republicano”
Outro padre que se destacou naqueles tempos foi o vigário da Paróquia da Laguna, Francisco Villela de Araújo. Republicano de primeira hora, recebeu de braços abertos a chegada dos farroupilhas.
“Um dos mais entusiasmados, que rezou missa em Ação de Graças em vibrante oração, cheia de patriotismo e de fervor republicano”, escreveu o historiador Henrique Boiteux.

Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos em foto do século XIX, ainda sem as duas torres, erguidas em 1894. Foi nesta igreja que o Vigário da Laguna Francisco Villela de Araújo rezou missa em Ação de Graças quando da chegada dos Farrapos-Republicanos. Quase quatro meses depois seria preso e morto pelos mesmos revolucionários.

“O sonho converteu-se em pesadelo”
Passados os primeiros meses o ambiente mudou radicalmente. Com a barra fechada à navegação comercial, nada saía nem entrava pelo porto lagunense. O comércio ficou estagnado.
Comerciantes e armadores começaram a se queixar por não conseguirem movimentar seus negócios pelo porto e ainda terem que sustentar toda uma estrutura militar e civil instalada.
Ninguém apoia um movimento, uma revolução para ver piorar sua vida e a vida da população.
“O sonho converteu-se em pesadelo”, no dizer do historiador Oswaldo Cabral.

Da alegria ao desespero
A população lagunense da alegria dos primeiros dias passou à preocupação e ao desespero pela falta de alimentação e outros gêneros. Além do mais, o general David Canabarro ordenou o confisco de gêneros alimentícios que porventura ainda existissem.
E aí desordens de todo tipo e perseguições aos descontentes e aos que não aceitavam os atos do novo governo começaram a acontecer.
A Laguna, que antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Tudo isso culminou com o Massacre de Imaruí, nos dias 9 e 10 de novembro de 1839, que abalou de vez a República recém-criada.
A Freguesia de São João Batista de Imaruí foi criada em 1833. No mesmo ano, em 23 de março, passou a ser Distrito da Laguna. Somente em 27 de agosto de 1890 foi desmembrada da Laguna.

“Essa freguesia muito sofreu”
Francisco Isidoro Rodrigues da Costa, que foi juiz de Direito na Laguna, deixou um precioso manuscrito datado de 1881 onde descreve Laguna e região.
Sobre o saque a Imaruí escreveu: 

“Essa Freguesia muito sofreu por ocasião da guerra civil dos Farrapos ou rebeldes do Rio Grande, entrando estes nela de assalto, saquearam as casas de negócio e de moradia. Isso em 1839”.

“O saque e massacre foram terríveis”
Sobre o saque (massacre) de Imaruí, o padre, pesquisador e historiador João Leonir Dall Alba registrou em sua obra Laguna Antes de 1880:

“O saque foi ordenado por David Canabarro, em represália à revolta da povoação contra a prepotência do Governo da República da Cidade Juliana da Laguna. Garibaldi em suas memórias lamentou sua participação no episódio. O saque e massacre foram terríveis”.

“Olhos arrancados e punhaladas”
Padre Villela ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos e, por isso, enfrentou a força do General Canabarro.
Lindolfo Collor em sua obra o descreveu: “Canabarro era prepotente, áspero, caráter intolerante, não captava simpatia, não agremiava dedicações, nem semeava entusiasmos”.
Aliás, o próprio Garibaldi em suas memórias a Alexandre Dumas sobre Canabarro disse: “O instinto de ódio e de vingança se aninhava na alma daquele chefe farroupilha”.
Sua fúria se fez sentir na Laguna, onde foi impiedoso contra os revolucionários, agora desiludidos.
Por sua ordem sessenta lagunenses foram presos nos porões dos navios, tendo quinze deles morridos carbonizados no porão da escuna Itaparica que voou pelos ares na Batalha de 15 de novembro de 1839, conforme Boiteux.

Sobre a morte do padre Villela, o já citado Henrique Boiteux registrou em sua grandiosa obra A República Catharinense Notas para sua história - Imprensa Naval, 1927:

 “Quando se viram perdidos os republicanos viraram-se os soldados rio-grandenses contra os filhos da província com inaudita brutalidade. O padre Villela e o major da Guarda Nacional da Laguna, Francisco Gonçalves Barreiros, autores de uma reação e que se achavam presos foram assassinados.
O cadáver do padre Villela, foi encontrado na barra junto à fortaleza com os olhos arrancados e crivado de punhaladas. Conduzido para a Vila ali foi enterrado.
O do major Barreiros que foi castrado também teve idêntico enterramento”.

Barreiros preso na corveta Itaparica
O maior pesquisador sobre a lagunense Anita, Wolfgang Ludwig Rau em sua grandiosa obra Anita Garibaldi O Perfil de uma Heroína Brasileira não abordou o assassinato do padre Villela.
Sobre a prisão do major Barreiros, Rau escreveu:

“Também em Laguna houve excessos e vinganças de última hora, praticadas por maus elementos componentes dos retirantes farroupilhas.
Francisco Gonçalves Barreiros, legalista, tinha um navio pronto no estaleiro quando entraram os farrapos, que tomaram conta da embarcação. Ao chegarem as forças legais, Barreiros foi conduzido preso para bordo da Itaparica”.

Exclusivo: O Inventário do padre Villela
Alguns historiadores e pesquisadores duvidam do assassinato do padre Villela pelos farrapos-republicanos. Tanto que nem abordam essa morte em suas obras e pesquisas.
Mas o processo de Inventário existe e ele mostra que o padre deixou poucos bens. Na foto abaixo da capa do processo está escrito: "Assassinado pelos rebeldes da Província do Sul".
         

Arquivo da Comarca da Laguna - Ano de 1839 - Foto da Capa do Inventário do Vigário Francisco Villela de Araújo "assassinado pelos rebeldes da Província do Sul".

Uma cômoda e dois aparadores de jacarandá, doze cadeiras de palha da mesma madeira, uma mesa de abas com gavetas, uma marquesa armada de cama, uma mesa de jantar, de cedro, um selim, manta e freio.
Como só restaram as peças de montaria, certamente o cavalo pertencente ao padre foi confiscado pelos farrapos.
O padre Villela possuía um escravizado de nome João. Conforme anotação na própria Capa do Inventário, João “fugiu com os rebeldes” (farroupilhas).
É bem provável que tenha partido livre com a tropa dos Lanceiros Negros, do general Antônio de Souza Neto.
Nos autos do processo emitido pela nossa Comarca, ainda no próprio ano de 1839, no mês de dezembro, ficamos sabendo que consta o Requerimento de João Villela residente em Portugal se apresentando como único herdeiro.
Assinam o Inventário: como Curador dos Bens Arrecadados: Manoel José Garcia. Juiz de Paz: Bento José da Silva. Juiz de Órfãos Interino: Pedro Francisco da Silva. Escrivão Interino: Francisco Pacheco dos Reis. Escrivão dos Órfãos: Manoel Joaquim da Costa. Escrivão: Vicente José Góes Rebelo.
 
“Metade das casas em ruínas ou abandonadas”
Laguna vai levar muitos anos para se recuperar daqueles quase quatro meses da tomada republicana.
O engenheiro e pesquisador belga Charles Van Lede que aqui esteve em 1843, portanto, apenas quatro anos depois dos acontecimentos em nossa cidade, dedicou em sua obra Colonização do Brasil, algumas linhas:

 “A Vila da Laguna tem perdido muito de sua importância desde a invasão dos Farrapos em 1839. A metade de suas casas estava em ruínas ou abandonadas.
Na verdade, ela começava a se refazer dos desastres de então, e algumas novas construções com mais cuidado e elegância tinham já substituído as antigas.
Mas, no entretanto ela não estava inteiramente restabelecida da rude prova que acabava de resistir”.
 
Nem tudo foi paz e amor
Como vemos, nem tudo foi paz e amor como alguns romantizam a violência daquele período da nossa história.
A paixão de Anita e Garibaldi foi um capítulo à parte. Gloriosas páginas de amor, coragem e superação, não restam dúvidas e que devem ser sempre valorizadas, mostradas e contadas às novas gerações.
Exatos cinquenta anos depois, em 15 de novembro de 1889 a República no Brasil foi proclamada também pela força das armas.
Mas desta vez os agentes foram militares. Não houve guerra civil e a República não esperou o amanhecer para nascer. 

16 julho 2026

“Laguna, filha do mar...”

 
Eis um verso histórico do Hino do Coral Santo Antônio dos Anjos: “Laguna, filha do mar”, de autoria de Archimedes de Castro Faria.
Nada mais verdadeiro. Nossas ligações com o mar não são apenas físicas, geográficas. São também, e sobretudo, históricas, econômicas e sentimentais.

Porto da Laguna - Centro da cidade - Década de 1920. À direita o antigo Mercado Público e no alto da foto a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Duas edificações não mais existentes. O porto continuava sendo de carga mas já recebia o carvão nos vagões da Estrada de Ferro Teresa Cristina para o transporte marítimo. 

Foi pelo mar que aqui chegaram os primeiros colonizadores. Foi pelo cais do porto da Laguna que desembarcaram os imigrantes para povoar as colônias do Sul do Estado.
Pela sua barra vinham e partiam as riquezas. Escoadouro da lavoura e pecuária da região. Chegada de produtos manufaturados.
Pelo seu velho porto passavam os gêneros de exportação: banha, carne de porco, peixe e camarão secos, feijão, farinha de mandioca... E de importação: querosene, enlatados, ferro, cimento...
Aqui aportavam os viajantes de todo o país a bordo de navios diretamente vindos de distantes portos do Brasil. Viajar ao Rio de Janeiro, então capital federal, era rotina.
Viagens de negócios, contatos políticos e com autoridades, passeios, buscas de melhores tratamentos e profissionais médicos para a saúde debilitada.
Laguna-Desterro-São Francisco do Sul-Paranaguá-Santos-Rio de Janeiro. E vice-versa. Esta era a rota. Linha regular que singraram nossos antepassados.

Movimento de Importação e Exportação pelo Porto da Laguna em setembro de 1938.

Laguna vivia então sua pujança econômico-social. Tempos de empreendedorismo, luxuosas construções, comércio ativo, indústrias. Pioneirismo nas áreas educacional e cultural.
Mas, um dia afastaram a Laguna do mar. Do mar que a fez crescer e prosperar.

Porto Carvoeiro da Laguna - Década de 1950, já utilizando guindastes.

O porto de mercadorias tornou-se carvoeiro, acenaram na década de 1950 com uma siderúrgica, depois inventaram o porto ser pesqueiro. E mais tarde simples terminal de pesca. Retiraram os guindastes e os trilhos.
Era o início do declínio econômico do município.

Em primeiro plano pescadores artesanais com suas tarrafas à espera dos botos. Em segundo plano o prédio do então Porto Pesqueiro da Laguna. Ano 1998. Foto: Valmir Guedes Júnior

O porto da Laguna continua lá, esquecido. Vez ou outra, principalmente em ano de eleições, surgem as promessas miraculosas. Acenam estudos, novos projetos, análises técnicas, salvação. 
Tudo fumaça.
Eternos estudos que atravessam os séculos. Nunca na história um porto foi tão estudado.
Batimetrias, diagnósticos analíticos de viabilidade, sondagens, pesquisas hidroviárias, levantamentos topo hidrográficos...
Os primeiros deles foram realizados ainda no século XIX, no recuado ano de 1864 pelo Barão de Teffé, diretor geral da Repartição Hidrográfica, sediada no Rio de Janeiro. Ainda tempos do Brasil Império.
Em 1886 novos estudos efetuados, desta vez pelo capitão-tenente Francisco Calheiros da Graça.
E esses mesmos estudos e projetos continuaram e se repetiram pelos anos seguintes de:
1891,1924,1926,1953,1957,1969,1970,1971,1985,1989,1990,1993,1994...
Passam-se os anos, gerações se sucedem e nada acontece. E ainda hoje, por incrível que pareça, depois de 162 anos dos primeiros levantamentos e pesquisas, novos estudos da nossa barra e porto são encomendados.

Porto da Laguna em 2026. Foto: Adolfo Pedro Veiga da Silva.

E a barra, canal e porto continuam lá. A barra obstaculizada em suas pedras submersas do molhe sul sem o conserto que ninguém faz.
O canal e lagoa cada vez mais assoreados, sem receber regulares dragagens como em outros portos.
E a profusão de siglas referentes ao porto também atravessaram os tempos nas memórias dos lagunenses: COBRASIL, DNPVN, INPH, CEPCAN, SIDESC, SIDERSUL, APL, PROLAG, SUDEPE, PROMOPÊCHE, PROMOPESCA, CODISC, PORTOBRÁS, CODESP...
Dezenas de siglas que alimentaram a esperança de dias melhores. Mas que passaram.
O povo da Laguna já está cansado de promessas e de ouvir o NÃO em seus desejos e aspirações.
Há que haver uma ampla mobilização de todos os segmentos da sociedade em busca de uma solução. Haverá?
A franquia de sua barra e a operacionalidade do seu porto é luta antiga, sonho de sucessivas gerações. Quando se tornará realidade?
Que a redenção da Laguna um dia chegue e que todos esses registros se tornem páginas viradas do passado.

OBS: Texto original deste autor publicado no jornal Omarginal: Cultura, Arte e Literatura - Edição Especial, Laguna, 350 anos. Ano 2. Nº 7.

14 julho 2026

Jornal OMARGINAL: Cultura, Arte e Literatura - Laguna 350 anos - Edição Especial

Em circulação na Laguna e Tubarão o nº 7 do jornal Omarginal: Cultura, Arte e Literatura, em sua Edição Especial Laguna 350 anos. Editor Fernando Faísca Rosa.
Na capa e contracapa do jornal imagens de antigos cartões-postais da Laguna.

Jornal Omarginal: Cultura, Arte e Literatura. Edição Especial. Laguna 350 anos. Ano 2. nº 7

Colaboro com o artigo “Laguna, filha do mar...”, mostrando que a operacionalidade do nosso porto é luta antiga, sonhos de sucessivas gerações.

Na página 3, em Lembranças da Laguna: os antigos cartões-postais e a representação da imagem da cidade, Fabiano Teixeira dos Santos destaca os antigos cartões-postais como importante fonte iconográfica e documental do passado das cidades.
Na página 4, em Laguna 350 anos: alguns pontos, João Pacheco de Souza aborda sobre a diversidade de temas e escritos que tratam sobre a história da Laguna.
Na página 5, em O Tombamento do Centro Histórico de Laguna e os desafios para sua preservação, Liliane Monfardini Fernandes de Lucena reflete sobre os desafios para a preservação do Centro Histórico.
Na página 6, Willian Costa expõe o período histórico em que a Irmandade de Nossa Senhora do Parto foi um símbolo de fé, religiosidade e resistência negra na cidade, com Uma Irmandade negra na Igreja Matriz de Laguna.
Na página 7, em Pelas margens do Atlântico: diáspora africana em Laguna no século XIX, de André Fernandes do Passos, revisita um longo período de intensificação da população africana e afrodescendente na Laguna.
Na página 8, em Laguna e a tradição das canoas de convés, Cláudia Búrigo apresenta a história do desaparecimento da canoa de convés, embarcação que faz parte da memória dos moradores.
Na página 9 com o artigo “Laguna, filha do mar...”, Valmir Guedes Júnior mostra que a operacionalidade do nosso porto é luta antiga, sonhos de sucessivas gerações.

Em Jogos, brinquedos e brincadeiras: memórias da infância lagunense, na página 10 Gildo Volpato descreve a memória de quem brincou nas ruas, nos morros e nas praias.
E Joice de Souza Avelina Costa na página 11 nos faz refletir sobre a pergunta: onde começa, de fato, a história de Laguna? Em Laguna antes de Laguna: os sambaquis e as memórias de longa duração da paisagem.

12 julho 2026

Moto Laguna na Praça República Juliana: Um local inadequado

 
Foi no mínimo infeliz, em minha opinião, a escolha da Praça República Juliana no Centro Histórico para sediar mais uma edição do moto Laguna nos dias 24 e 25 de julho próximos.
Acho um abuso, uma falta de consideração e respeito com os moradores.
O local é pequeno, estreito, calçamento de paralelepípedos, com moradores em sua maioria idosos, alguns enfermos, morando em casas geminadas que trepidam com qualquer som alto.
A região, além do mais, por sua arquitetura, propaga e amplifica qualquer som. É uma verdadeira caixa acústica de ressonância.
Agora imaginem essa pequena área triangular receber cerca de mil motocicletas (os organizadores falam de 800 a 1.000 desses veículos) no local acelerando, roncando e soltando gases dos escapamentos?
Cadê a propagada preservação do patrimônio cultural e histórico das edificações e a qualidade de vida dos moradores?

Hóspede indesejado e do barulho
Pois é. Os moradores da Praça Seival lá nos Molhes não querem o moto Laguna, os moradores do Mar Grosso de uma maneira geral não querem o evento lá, o porto não quer em sua área, o Laguna internacional não quer em suas imediações, na Barbacena eles não querem.

Empresários discordam desse evento na Praça
E não são somente os moradores da “Praça de Anita” e seu entorno que estão preocupados e se opõem ao evento nesse local. Até empresários da região são contrários e questionam a escolha.
Em matéria publicada no Jornal de Laguna desse último fim de semana a empresária Lívia Collantes, ligada ao ramo gastronômico, disse que sua principal preocupação é a preservação do patrimônio histórico.
“Um evento desse porte pode comprometer a tranquilidade da área, aumentar o fluxo de veículos, gerar excessos de ruídos e deixar imóveis históricos mais vulneráveis”, salientou a empresária.
Lívia também informa que não houve consulta prévia aos comerciantes sobre a definição do local.
A empresária também entende que “um espaço fechado, fora das adjacências do Centro Histórico seria mais adequado para sediar um evento desse porte”.
Outra empresária no local, Suelen Dias também manifestou ao Jornal de Laguna sua preocupação com a realização do evento na Praça, dizendo que o “Moto Laguna demandaria um espaço mais compatível com sua estrutura".
A empresária também informa que os comerciantes da região foram convidados para uma reunião “apenas após a definição do local”.

Moradores não foram consultados, nem participaram de reunião com prefeitura
Acrescento como morador do entorno da praça que, ao contrário do que informa a prefeitura e organizadores, os moradores da Praça República Juliana e seu entorno não foram convidados, consultados ou participaram de reunião prévia sobre o projeto e escolha do local. 
Foram pegos de surpresa com a divulgação pela imprensa da realização do evento na praça.
Fico pensando e me perguntando cá com meus botões: Será que tem autorização? Laudos de Impacto Ambiental? De Impacto de Vizinhança? Alvarás da Polícia Militar? Da Polícia Civil? Do Corpo de Bombeiros? do IPHAN? para realização ESPECÍFICA do moto Laguna na Praça República Juliana?
Não me refiro a autorizações para montagens de tendas e palco para shows pelos 350 anos de aniversário da cidade. Isso é uma coisa.
Falo desse evento ESPECÍFICO do moto Laguna com todos os transtornos que pode causar.
Com a palavra as nossas autoridades, inclusive os nobres vereadores que representam os anseios da população lagunense.