22 junho 2026

A noite que o leão fugiu do circo e o pânico tomou conta das ruas da Laguna

 Essa história aconteceu na Laguna há muitos e muitos anos, em meados da década de 1940.
Um circo se instalou na cidade, dentre tantos que aqui passavam regularmente. Sua lona foi montada numa vasta área gramada onde hoje está edificado o Cine Teatro Mussi.

O leão escondido na soleira de uma porta, aguardando para dar o bote. Imagem criada por Inteligência Artificial.

     Era um sábado à noite, casa cheia. Após uma apresentação com seu domador, um leão se recusou a retornar à jaula e entre mil rugidos fugiu pelos fundos do circo. ]
Alguém mais apavorado na plateia deu um tiro para o alto e a partir daí instalou-se o pânico. Fuga e correria pelas ruas do centro da cidade com gritos alarmantes de: 
- O leão vem aí, o leão vem aí!
Antigamente na Laguna, muito mais que hoje, instalavam-se vários circos.
Cidade portuária, polo econômico, com uma estrada de ferro interligando várias regiões do sul do estado, a cidade juliana atraía muita gente para o seu centro comercial.
Bem por isso, para aproveitar esse intenso movimento, obrigatoriamente parques e circos por aqui se instalavam.
Um dos locais preferidos era o descampado onde hoje se situa o prédio do Cine Teatro Mussi, inaugurado em 1950. Local privilegiado por se situar junto ao comércio e ao velho porto.
Outra área utilizada era a praça Lauro Muller, defronte à Carioca, local ainda sem qualquer infraestrutura.
O espaço onde hoje funciona um supermercado, no centro, durante muitos anos também recebeu circos e parques.

O circo chegou, vamos todos até lá...
Pois lá pela década de 1940, um famoso circo chegou na Laguna e depois de um breve desfile de apresentação pelas ruas do centro, como de praxe, armou sua lona na área do futuro Cine Teatro Mussi.
Naquela época, além de trapezistas, malabaristas, mágicos, palhaços, todo circo trazia muitos bichos amestrados. Elefantes, leões, chipanzés, cachorros, pôneis, zebras, ursos, leopardos...
Na falta de outros divertimentos, os espetáculos tinham garantia de casa lotada. Eram sempre um sucesso, principalmente as sessões dos finais de semana em suas concorridas matinês.
Dentre os circos mais famosos da época, que atravessaram décadas se apresentando pelo Brasil e incluíram Laguna em seus roteiros, estavam o Circo Americano, Circo Riograndense, Circo Cubano, Circo Robbatini, Circo Olympico, Circo Stevanovich, Circo Romano, Circo Nelson, Circo Teatro Bibi, Circo Garcia, Grande Circo 9 Irmãos, Circo Irmãos Marcovich, Grande Circo 12 Irmãos e Circo Missioneiro, entre tantos outros famosos e não tão conhecidos.

O Circo Irmãos Marcovich foi um dos que se apresentaram ao público lagunense, nas décadas de 1930 e 40. Jornal lagunense Correio do Sul de 7 de outubro de 1937.

Naqueles tempos a segurança era precária, não havia redes, nem grades separando o público do picadeiro.
Pois aconteceu num sábado à noite. Por um descuido do domador após a apresentação do seu número, o leão não retornou à cela como previsto. Escapuliu pelos fundos, rugindo, mas sem atacar. E sumiu de cena.
Alguém deu o alarme, gritando que o leão havia fugido. O aviso foi repetido por outros. Foi o que bastou para apavorar todo mundo.
Um sujeito na plateia, de nome Joca Ludovico, tirou o revólver da cintura e deu um tiro para o alto ou mirou na direção do chamado Rei das Selvas, isso nunca ficou bem esclarecido.

Deu-se o estouro. Uma correria geral, tremenda confusão, com gente se jogando pelas arquibancadas, pulando cadeiras, levantando a lona e saindo por debaixo, partindo em grupos em várias direções.
A ordem era fugir porque o leão estava vindo atrás.

Com um leão à solta, a fuga do circo, no pânico que tomou conta do público. Imagem gerada por Inteligência Artificial.

E a partir daí começou um vai-e-vem, um esconde-esconde, uma gritaria infernal num episódio que entrou para a história, para o rol lagunense dos casos raros.
Desorientadas, as turmas em alvoroço se dividiram pelas vias públicas.
Uma delas subiu a rua Jerônimo Coelho em direção à Igreja Matriz, virando à esquerda na Praça Vidal Ramos.
Outro grupo tomou à esquerda na rua Raulino Horn e depois à segunda à direita na rua Tenente Bessa, em direção à Carioca.
Havia ainda uma terceira turma, formada por muitas mulheres levando crianças pelas mãos, entre gritos e choros e que seguiram pela Gustavo Richard, depois subindo pela Barão do Rio Branco.
E os “bolos” de gente vão se encontrando pelas esquinas, se esbarrando nas estreitas ruas mal iluminadas da Laguna. O medo estampado em cada face, outros levando tudo na gozação ou rindo de nervosos.
Havia quem gritasse que o leão estava vindo naquela direção, que estava perto, postado ali na esquina, escondido, só esperando atrás de um muro para dar o bote.
E os grupos se esbarravam, se separavam, recuavam, corriam juntos.
E ficaram nesse desce e sobe, no vai e volta, assustados, apavorados, uma confusão.

E onde estava o leão?
Mas, afinal, onde se encontrava o leão enquanto essas cenas transcorriam?
Estava tranquilamente em sua jaula, ressonando.

Leão dormindo. Imagem criada por Inteligência Artificial.

Para entender o que aconteceu, voltemos algumas cenas para o exato momento que o leão escapuliu e provocou toda a correria.
O pessoal do circo, com o domador à frente, logo partiu no encalço do chamado rei das feras e o encontrou deitado, atrás de uns caixotes, mais assustado que todo mundo.
Rapidamente foi capturado com as redes e conduzido para sua jaula, ganhando até um bife de presente.
O problema é que com a fuga e o estampido do tiro, o alvoroço já estava feito. Em debandada correria o pessoal nem olhou para trás para testemunhar a captura.
Afinal, quem teria coragem de retornar ao local?
E durante muitos anos, nos cafés, bares, boticas e nos encontros sociais de famílias lagunenses, essa história era contada pelos que a vivenciaram, entre risos dos adultos e os olhos arregalados das crianças.

16 junho 2026

Renato Ulysséa foi exemplo de cidadania em defesa da Laguna

 
Ele foi um lagunense apaixonado por nossa terra. Um lutador pelas causas da Laguna, principalmente por nosso porto.
Quando o conheci pessoalmente era eu um adolescente e ele já um senhor octogenário.
Foi em 1977, quando eu trabalhava na Agência da Receita Federal da Laguna e seu Renato Cabral Ulysséa foi solicitar uma explicação sobre Imposto de Renda.

Renato Ulysséa. Foto álbum de família de Rosa Simplício Grandemagne.

Sanada a dúvida, falamos um pouco sobre Laguna, indaguei algo sobre o nosso porto, ele logo respondeu. 
Vendo meu interesse sobre o tema me convidou para ir em sua casa ao lado do Clube Congresso Lagunense. Queria me mostrar algumas fotos, documentos, recortes de jornais. Já me conhecia por algumas crônicas publicadas no jornal Semanário de Noticias.
No sábado fui lhe visitar. Passamos a tarde toda conversando, eu anotando o que podia sobre seus conhecimentos, olhando fotografias. E indagando muito.
Seu Renato era um homem que acompanhava atentamente o noticiário. Assinava vários jornais, entre eles o Semanário de Notícias (LG), O Estado (SC), o sisudo Correio do Povo (RS) e recebia via postal, o centenário Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro. Era um leitor voraz. 

O memorial sobre o Porto e Barra da Laguna e a Monografia classificada na FGV
Me entregou cópia (que guardo comigo até hoje) de um importante Memorial sobre a Barra e Porto, de sua autoria e que havia enviado muitos anos antes, em 14 de agosto de 1964, a Juarez Távora, então ministro da Viação e Obras Públicas.
Semanas depois, uma sexta-feira, me procurou e me "intimou" a participar de um concurso de monografias promovido pela Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro. O tema era meios de transportes, estradas, ferrovias e portos.
Dez ou quinze páginas datilografadas sobre o tema. Ele mesmo se encarregaria de postar nos Correios. Bastava eu escrever.
O prazo se esgotava já na segunda-feira, data obrigatória para a última postagem. Passei o fim de semana escrevendo e datilografando os originais.
Na segunda-feira, como combinado, lá estava seu Renato, envelope nas mãos para levar o material aos Correios.
Meses depois saiu o resultado. Com a monografia sobre o porto da Laguna se classificando entre as dez finalistas.
Se não estou enganado, foram mais de cinco mil trabalhos inscritos de todo o Brasil.
Não, não fiquei entre os três primeiros lugares, infelizmente. Mas era de notar a alegria do seu Renato com o resultado. E a minha também.
-Entre os dez primeiros, está muito bom para primeira vez, dizia ele, entusiasmado. 

Um livro dedicado a ele
Pois foram essas páginas da monografia que serviram de embrião para o meu primeiro livro: Porto da Laguna – A Luta de um povo traído, lançado alguns anos depois, em 1995.
Mas, aí seu Renato já não estava mais entre nós.
Meses antes de seu falecimento, em 1993, lhe entreguei em mãos o esboço do livro.
Com problemas de visão motivado pela catarata, o trabalho foi lido integralmente para ele por sua dileta filha Elisabeth (dª Betinha) Ulysséa Arantes.
Aliás, minha professora no então Conjunto Educacional Almirante Lamego-Ceal, casada com o também meu mestre, José Paulo Arantes. Dois professores de gerações.
Quando o livro sobre o porto foi publicado, dediquei a obra a ele, numa homenagem póstuma a quem acompanhou as marchas e contramarchas do porto da Laguna, conversando, escrevendo às autoridades e políticos, cobrando promessas e providências, guardando farto material sobre o assunto.
Era o mínimo que eu poderia fazer.
Sei que no seu íntimo sempre acalentou a esperança de um dia rever o nosso porto funcionando, carro chefe da economia local, redenção do povo lagunense.
Até hoje daquela época guardo com carinho nos meus arquivos, uma pequena anotação escrita em seu cartão de visitas endereçada a mim onde anexou cópia de uma foto da nossa Barra. Ele carinhosamente escreveu com sua letra já trêmula:
 
“Ao prezado Valmir, o Renato encaminha anexo ao presente, o xerox da foto da nossa Barra, conforme combinado, dia 23 último, em sua agradável visita. Laguna 1º dez (1977)”. Renato.
 
Lamentação pela derrubada de um palacete
Renato Ulysséa, morando vizinho ao palacete de João Tomaz de Souza, foi um dos inconformados com a derrubada do imóvel. Sempre dizia que chorou muito na esquina do Clube Congresso Lagunense quando da demolição para construção daquele feioso caixote do Banco do Brasil.
“Era um patrimônio arquitetônico que ia embora e eu me sentia impotente para evitar tal disparate”, lamentava-se nas conversas com familiares e amigos.

Quem foi Renato Cabral Ulysséa
Renato Cabral Ulysséa nasceu na Laguna em 16 de agosto de 1897, filho do dr. Ismael Pinto de Ulysséa e dª Anna Guimarães Cabral de Ulysséa. (d. Santa).
Teve 18 irmãos (nem todos aqui nominados): Julieta, Heitor, Gilberto, Leonor, Romeu, Ramiro, Otília, Juracy, Nicanor e Modeno, além de Laura, Tobias, Jandira, Aurora e Murilo. Esses cinco últimos faleceram em tenra idade.

Quatro irmãos reunidos no aniversário de um século de Romeu Ulysséa, em 15 de julho de 1990. Da esquerda p/direita: Romeu Ulysséa, Renato Ulysséa, Ramiro Ulysséa e Otília Ulysséa Ungaretti. Foto: Miriam Massignani Glasenapp Ulysséa. Arquivo: Rogério Ulysséa.


Seu pai foi o primeiro lagunense e o primeiro no sul catarinense formado em Medicina e sempre exerceu a profissão aqui na Laguna.
Concluídos os estudos secundários em nossa cidade, Renato Ulysséa seguiu para o Rio de Janeiro para prosseguir em curso superior. Mas mudou de planos e retornou à terra natal.
Foi o primeiro funcionário da filial da empresa comercial (firma) Carlos Hoepcke S.A., também proprietária de navios, onde trabalhou como chefe do escritório durante cinquenta anos.
Aqui casou-se com Dorah Grandemagne Ulysséa e tiveram sua única filha Elisabeth Ulysséa Arantes, dª Betinha.
Por cerca de dezoito anos seu Renato foi tesoureiro da Comissão Administrativa do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos.
Foi também tesoureiro da chamada Caixa de Esmolas, entidade filantrópica que existiu na Laguna.
Colaborou e muito com a Associação Espírita Berço de Jesus, entidade filantrópica dirigida por sua esposa Dorah, que fornecia enxovais aos recém-nascidos de mães necessitadas.
Em diversas gestões fez parte da diretoria do Clube Congresso Lagunense, tradicional sociedade em que seu pai, Ismael Ulysséa foi um dos fundadores e presidente.
Foi secretário da hoje extinta Sociedade dos Amigos da Laguna, de tantos serviços prestados à nossa cidade.
Durante a 2ª Guerra Mundial, Renato Ulysséa integrou a comissão local da Cruz Vermelha Brasileira. Sua filha, dª Betinha foi uma das integrantes como auxiliar de enfermagem.
Realmente foi um homem afeito à prática do bem, espiritualizado, de inabalável fé. Homem bom, digno e íntegro.
Nos últimos anos, com problemas de visão causados pela catarata, pedia que familiares e amigos que o visitavam lessem para ele passagens do livro Ave Luz, de João Nunes Maia pelo espírito Shaolin, Editora Espírita Fonte Viva, lançado em 1984 e que contém lições de Jesus aos seus discípulos.
E foi assim, ouvindo esses ensinamentos, que Renato Ulysséa empreendeu o grande retorno à pátria espiritual, falecendo em 20 de maio de 1993, aos 95 anos, três meses antes de mais um aniversário.
Numa crônica publicada em meu jornal Tribuna Lagunense, de 22 de agosto de 1997, seu sobrinho o lagunense de saudosa memória Norberto Ulysséa Ungaretti escreveu sobre o seu tio Renato, em seus 100 anos de nascimento, transcorridos naquele ano na semana anterior. 
Eis um trecho:

Renato Ulysséa: cem anos
“Na memória de minha infância e da minha adolescência, na memória da minha vida inteira, já ultrapassada de seis décadas, guardo do meu tio Renato a mais carinhosa lembrança.
Devo-lhe incontáveis demonstrações de afeto e bem querer, sempre solidário, sempre amigo, sempre carinhoso e solícito, sempre generoso e desprendido.
Cultivou exemplarmente as relações de família. Honrou a cidadania. Amou como poucos a terra em que nasceu. Serviu desinteressadamente aos seus semelhantes. Foi e continua a ser uma criatura luminosa e iluminadora”.

Merece ter seu nome perpetuado numa via pública
Quem sabe algum nobre vereador da Laguna apresente Projeto de Lei dando o nome de Renato Cabral Ulysséa a alguma via pública de nossa cidade, ainda sem denominação oficial, como homenagem pelos serviços que prestou à Laguna e como exemplo de cidadania.
Ele era avesso à política partidária, sem dúvida. Mas foi um político no sentido clássico da palavra.
Era preocupado com o bem comum e com os interesses da Laguna, terra onde nasceu e viveu por toda sua longa vida.

14 junho 2026

Santo Antônio dos Anjos da Laguna, rogai por nós!

 Transladação de Santo Antônio dos Anjos em 13 de junho de 2026  da Igreja Nossa Senhora Auxiliadora - Chegada na Igreja Matriz. Vídeos: Valmir Guedes Júnior




13 junho 2026

Uma caminhada pelas ruas da Laguna com Santo Antônio dos Anjos

 
Como tradicionalmente e anualmente acontece a poucas horas antes de sua Transladação, a imagem de Santo Antônio dos Anjos deixa a Matriz e vai em direção ao bairro Magalhães ou Progresso.

Foto: Valmir Guedes Júnior

   Neste ano de 2026, no revezamento, ele se dirigiu às 15 horas pelas estreitas ruas do Centro Histórico à Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, de onde partirá às 17 horas com destino à Matriz. Esse ano mais cedo, por causa do jogo da seleção.
No caminho faz a tradicional viradinha defronte a algumas residências, muitas delas enfeitadas com balões coloridos e cartazes do padroeiro.
Vídeo: Sheila Lindermann 

Além dos Irmãos da Irmandade que levam o Padroeiro em seu andor, muitos fiéis o acompanham no trajeto.
Uma tradição histórica, religiosa, misto de amor e fé.

11 junho 2026

Santo Antônio casamenteiro e as simpatias. Se milagres desejais...

 
As tradições nada mais são do que a ciência de um povo, cultura, hábitos, normas e doutrinas que compõe o arcabouço de seu patrimônio imaterial, atravessando gerações.
São as mais diversas as tradições que o povo lagunense mantem ao longo dos anos, em relação ao seu padroeiro Santo Antônio dos Anjos.

Santo Antônio dos Anjos da Laguna 2026. Foto: Valmir Guedes Júnior

Uma delas é que, ao encerrar da festa, os devotos, pós-procissão, colhem as flores do andor. Uma verdadeira relíquia para os fiéis, mesmo com pedidos para não o fazerem.
Outra tradição, ainda amplamente praticada, é a colocação de bilhetinhos em nichos da imagem ou aos pés do Santo, antes de ser ele reconduzido ao altar-mor após as festividades ou mesmo durante os dias alusivos.
Nos bilhetes, os mais variados pedidos ou agradecimentos por graças alcançadas, em gestos de esperança e fé do povo.

Aos pés de Santo Antônio dos Anjos

Os tradicionais bilhetes aos pés de Santo Antônio dos Anjos com pedidos e agradecimentos dos fiéis, deixados com muita fé e orações. Foto: Valmir Guedes Júnior

De todos os santos é bem provável que Santo Antônio seja o mais venerado.
Veio de Portugal para o Brasil com fama de casamenteiro e por aqui se tornou também conhecido.
Além de ser o santo das causas perdidas, a quem o crente recorre no momento de desespero e de procura, através do responso.

A paradinha do Santo
Outra tradição que foi incorporada à cultura local, é a famosa paradinha da imagem do santo.
Dizem os costumes que, se no dia da Procissão o santo der uma paradinha casual defronte a uma casa e nela estiver uma moça solteira, é batata. Casamento na certa. E em breve.
E que ninguém duvide, porque atestam os mais antigos que Santo Antônio dos Anjos já operou verdadeiros milagres por essas bandas, “desencalhando” muitas titias que já eram dadas como casos perdidos.

Na procissão de Santo Antônio dos Anjos a paradinha casual defronte à casa é sinal de casamento à vista na residência. Foto: Valmir Guedes Júnior

No entanto, um detalhe: se o santo desse a paradinha e não houvesse moça com vistas a matrimônio, morreria uma pessoa ali residente.
Imagine às vezes a torcida de inimigos, de algum adversário ou até de um vizinho mais maldoso.
Bem por isso, contam os mais antigos da Laguna, que casais de mais idade ou que não tinham filhas, convidavam sobrinhas, parentes ou moças conhecidas para se postarem nas janelas de suas casas.
Uma forma de fugir a presságios, digamos, funestos. Como se alguém pudesse ludibriar o santo... 

O Toc-Toc-Toc na porta da igreja
Outra tradição que ainda se perpetua até os dias atuais, se dá por volta da meia-noite do dia 12 (Dia dos Namorados) para 13 de junho quando, com a igreja fechada, moças e atualmente também muitos rapazes, se posicionam defronte às portas frontais da matriz, formulando o desejo de encontrar seu príncipe (ou princesa) encantado(a).

O Toc-toc-toc nas portas da Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos já é uma tradição praticada  sempre à meia-noite de 12 para 13 de junho. Foto: Elvis Palma ano 2025.

Em cada batida na porta o diálogo com o santo, deve ser repetido três vezes: 

- Toc. Toc. Toc.
Santo Antônio, Santo Antônio,
se estais dormindo acorda.
Se estais acordado,
responda pela boca de alguém
o nome da pessoa com quem vou me casar.

Nas próximas 24 horas deve-se ficar com as orelhas em pé, captando as conversas dos outros para ouvir um nome que será o do futuro amado. Não vale diálogos de familiares ou amigas.

As 13 moedas para 13 pessoas
Outra simpatia muito usada há alguns anos nas ruas da Laguna, era doar no dia 13 de junho, 13 moedas para 13 diferentes pessoas oferecendo a moeda em nome de Santo Antônio. A tradição é que o gesto caridoso abria caminhos para o amor.

Papéis embaixo do travesseiro
Outra simpatia muito usada antigamente por aqui era na noite de 12 para 13 de junho escrever os nomes de seus pretendentes em pequenos papéis, dobrá-los e colocá-los embaixo do travesseiro ao se deitar.
Na manhã seguinte, ao acordar, sem olhar, pega-se o primeiro papel. O nome que constar será o(a) futuro companheiro (a).

Mesma roupa e até repetição de peças íntimas
A sempre lembrada Nail Ulysséa, estudiosa que foi das manifestações religiosas em nossa cidade, em sua obra “Três Séculos na Matriz...”, relembra que muitos devotos na Festa de Santo Antônio dos Anjos “prometiam assistir a todas as novenas, com a mesma roupa para conseguirem o que estavam pedindo ao santo”.
“Moças, ao contrário, assistiam a todas as novenas, cada noite com um vestido novo, para casar-se naquele ano”.

Há quem fale que algumas pessoas repetiam em todas as noites de trezenas as mesmas peças íntimas.
Treze dias com a mesma calcinha? Com a mesma cueca?
- Qué qué isso minha gente!... 
O que é que não se faz... olha o sacrifício em busca de um amor.

Essas são algumas – há outras dezenas - de simpatias que contam os historiadores e memorialistas lagunenses mais antigos.

08 junho 2026

Uma igreja sem bancos (bancadas) até 1912. E onde os fiéis se sentavam?

 
Quem frequenta a nossa igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos e senta-se em um dos seus dezenove pares de adornados bancos, murmurando orações com muita fé, assistindo missas e novenas, não imagina que antes o local não era assim.

Interior da Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos da Laguna em junho de 2026 com seus adornados bancos preparados para as novenas. Foto: Valmir Guedes Júnior.

E era diferente porque simplesmente esses enormes e compridos móveis de madeira não existiam. Pelo menos até o ano de 1912.
E onde os fiéis se sentavam?
Conforme a saudosa dª Nail Ulysséa, de tradicional família, catequista, estudiosa da religião católica em nossa cidade, em suas pesquisas que nos legou publicadas em 1976 no livro “Santo Antônio dos Anjos da Laguna – Seus Valores Históricos e Humanos”, no capítulo Três Séculos na Matriz: 

“A igreja, até 1912, não possuía bancos. As senhoras e crianças, se quisessem, sentavam-se no chão, que era todo ladrilhado ou assoalhado, ou nos degraus dos altares. Os homens sempre de pé.
Em agosto de 1912, foram colocados os primeiros bancos na igreja, bancos muitos simples”.
 

Foto rara do interior da Igreja Matriz em 1905. Note o adro vazio, ainda sem qualquer tipo de bancos e a balaustrada ao redor, com os corredores laterais. O teto sem nenhum tipo de pintura. Foto: Acervo Valmir Guedes Júnior.

De fato, encontramos no jornal lagunense Democrata de 21 de abril de 1912, uma pequena nota registrando a compra dos bancos.
Ela informa que o vigário da época, padre Francisco Xavier Giesbert (esse o sobrenome correto) foi quem contratou o marceneiro Antônio Magalhães Castro, residente em Tubarão, para execução de vinte bancos para serem instalados na Matriz. Mais tarde outros dez bancos foram encomendados e colocados.

Jornal lagunense Democrata, de 21 de abril de 1912.

Quatro meses depois, o jornal lagunense O Albor de 18 de agosto de 1912, já registrava a colocação dos primitivos bancos trazendo a manchete:

"A nossa Igreja Matriz"
"A nossa Igreja acaba de passar por uma reforma, que se torna de grande conveniência para o Culto: referimo-nos ao melhoramento que nesse templo foi agora introduzido com a colocação de bancadas para a assistência dos fieis aos atos do culto divino.
Não há dúvida, que assim fornecido o amplo recinto da Igreja, desses bancos, a Irmandade S. Antônio dos Anjos proporcionou uma comodidade ao público, dando-lhe igualmente ocasião para mais pia e reverentemente acompanhar-se os ofícios e solenidades da nossa religião".

Jornal lagunense O Albor de 18 de agosto de 1912.

E dª Nail completa as informações sobre esses primeiros bancos da igreja Matriz:
 
“Em 1952 esses bancos foram substituídos pelos atuais, já, então, em estilo condizente com a igreja, desenho de um sacerdote do Colégio Dehon e confeccionados nas oficinas da Estrada de Ferro, entrando a igreja apenas com o material, por gentileza do Dr. Anes Gualberto, que era diretor da ferrovia”.
 
Balaustradas ao redor
Ao redor do adro havia balaustradas, como se pode observar na raríssima foto acima publicada, datada do início do século XX, mais precisamente de 1905. E na foto abaixo, de 1921.
“Sobre estas balaustradas as mães costumavam sentar as crianças pequenas”, informa dª Nail.
"Entre os anos de 1924 e 1928, para dar maior comodidade aos fiéis, essas balaustradas foram retiradas".
 

Raríssima foto do interior da Igreja Matriz em 1921. Note-se a existência dos primitivos bancos instalados em 1912 e da balaustrada contornando todo o adro, com seus corredores laterais. Observe, ampliando a foto, que os dois altares em estilo barroco, ao fundo, nas laterais, são de Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora do Rosário, conforme informa Nail Ulysséa. Foto: Acervo Valmir Guedes Júnior


Ladrilhos hidráulicos
Quando foram colocados os primeiros bancos em 1912 todo o piso central da igreja desde 1902 havia sido ladrilhado com os chamados ladrilhos hidráulicos.
A frente e os corredores laterais continuaram assoalhados, somente recebendo os ladrilhos mais de três décadas depois, em 1944.
Com a última grande reforma na igreja (ano 2000) todos esses ladrilhos foram retirados e substituídos por madeira. A meu ver, erroneamente. Hoje periodicamente essas tábuas têm que ser substituídas por apodrecerem e/ou quebrarem.
Ficaram alguns exemplares desses ladrilhos nas soleiras das três portas da entrada frontal que se juntam com as pedras de gnaisse. E na soleira da porta lateral norte, como se pode observar no local e nas fotos abaixo:

Soleira da porta principal da Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos da Laguna, com faixa de ladrilhos formando desenhos geométricos de estrelas. Foto: Valmir Guedes Júnior.


Soleira da porta lateral norte com faixa de ladrilhos formando desenhos geométricos de estrelas. Foto: Valmir Guedes Júnior.


Parabéns, Elvis Palma

Parabéns, Elvis Palma pelas fotos das Festas de Santo Antônio dos Anjos feitas desde o ano de 2015. Ele, que completa este ano de 2026 seus doze anos consecutivos de cobertura fotográfica.
Uma importante missão e verdadeira maratona em registrar os momentos da maior festa religiosa do nosso município. Uma preciosa galeria histórica.
E pelas lentes atentas do Elvis acompanhamos cada momento em centenas de cliques dos festejos.
A charge publicada em seu face mostra bem a correria em que ele vive esses dias.

05 junho 2026

Jornalista escreve sobre o Farol de Santa Marta e o camarão da Laguna

 
Jornalista Luana Miguel do Portal NSC Total vem emplacando ótimas reportagens sobre aspectos sociais, econômicos e turísticos de municípios do sul do estado.
No dia 3 de junho último, ela abordou o nosso Farol de Santa Marta, ponto turístico dos mais conhecidos, além de sua importância para a navegação.

Farol de Santa Marta em 1980. Foto: Valmir Guedes Júnior

A reportagem traz antigas fotos do Farol e seu entorno, buscadas do Arquivo Público de Santa Catarina. Além de fotos atuais.
Luana escreve sobre aspectos da construção do Farol, materiais utilizados na obra, além de alguns dos mistérios que rondam aquele Cabo, chamado de “Esquina do Atlântico” e onde verdadeiramente o vento faz a curva.
Um deles foi o “Navio Fantasma” que apareceu à deriva por lá em 1879, sem tripulantes. E cita minhas pesquisas sobre esse estranho naufrágio e já publicadas Aqui no Blog.
Lembrando que o Farol de Santa Marta abre para visitação pública no primeiro fim de semana de cada mês, das 9h às 11h e das 14h às 17h. Para visitá-lo basta doar um quilo de alimento não perecível.
Para ler a matéria sobre o Farol clique Aqui
Um dia antes, outra ótima reportagem da jornalista abordou o camarão rosa da Laguna e sua importância econômica e social.
Para ler esta reportagem clique Aqui

04 junho 2026

FOTO-RETRÔ

 
Convenção da Saudade dos Lions Clubes de Santa Catarina, de 27 a 29 de abril de 1973 em Brusque-SC. 
Na foto, a delegação da Laguna.
De acordo com Carlinhos Horn, um dos presentes ao encontro, nessa jornada o Lions da Laguna foi classificado como o clube de maior representação, em proporção.
Da esquerda p/direita: dr. Arno Schimidt, Eliete Silva Nedef, Carlos Alberto Mussi, Nelson Gomes Mattos, Jaime de Souza Siqueira, Márcio Spillere da Silva e Maria Águeda Barreto Spillere, Leandro (Juca) José Crippa, Sônia Maria Brum Ribeiro (Horn), então casada com Carlinhos Horn), Vinicius Uliano, João Batista de Bassi Filho, Antônio Joaquim de Castro Faria (Tuba).
As duas domadoras ao lado de Vinícius Uliano uma delas é a Bernadete Araújo Crippa, casada com o Juca Crippa. A outra ainda não reconheci. Quem sabe algum leitor...

Agachados: José Carlos Natividade (Bujú), Francisco Zanella Nunes, Carlos Araújo Horn, Joselino Alves de Oliveira, dr. João Rui Szpoganicz, Sérgio Martins Nacif e Reinaldo Domingos.

As duas domadoras na extrema direita: a primeira é a Maria Salete Rodrigues (Domingos) (então casada com Reinaldo Domingos). A segunda é Neusa da Silva Mattos (casada com Nelson Gomes Mattos), conforme reconhecimento do nosso leitor Fernando (Mego) Lopes Fernandes.
Foto: Acervo Joselino Alves de Oliveira.