29 maio 2026

Memórias das Festas de Santo Antônio dos Anjos da Laguna

 
Como programada, divulgada e ansiosamente aguardada, a tradicional Festa em Honra ao Padroeiro Santo Antônio dos Anjos da Laguna 2026 vai acontecer de 31 de maio a 14 de junho.
Um encontro religioso de muita fé e devoção que atravessa gerações.

Mas, no passado, Festas de Santo Antônio já foram adiadas e até cancelada
A título de curiosidade, ao longo da história católica lagunense há registros de adiamentos e até cancelamento dos tradicionais festejos em honra a Santo Antônio dos Anjos.
Pelos mais diferentes motivos: 

Ano 1886Coincidência com a data do Espírito Santo
As festividades em honra a Santo Antônio dos Anjos que seriam realizadas no dia 13 de junho desse ano de 1886 foram adiadas para o dia 20 do mesmo mês, precedidas de cinco novenas, com missa solene e procissão pelas ruas do centro.
Qual teria sido o motivo?
De acordo com aviso publicado no jornal Echo Lagunense em sua edição de 19 de junho daquele mês, a mudança foi provocada pela coincidência das festividades do Espírito Santo ter caído justamente no dia 13.
Na época existia em nossa paróquia uma Irmandade do Espírito Santo congregando muitos irmãos.
Nail Ulysséa em Três séculos na Matriz, informa que a Irmandade do Espírito Santo “Realizava a festa mais importante da cidade, suplantando a festa do padroeiro”.

Jornal Echo Lagunense de 19 de junho de 1886.

O aviso vinha assinado por José Monteiro Cabral, secretário da Irmandade do Santíssimo Sacramento e Santo Antônio dos Anjos.

Ano 1902 – Santo Antônio dos Anjos estava no Rio de Janeiro
Neste ano as festividades tradicionalmente programadas para o mês de junho não aconteceram.
Isso porque a imagem de Santo Antônio dos Anjos não se encontrava na Laguna. 
Como assim?
Explico. É que no início do ano a Irmandade decidiu enviá-la ao Rio de Janeiro para ser encarnada (restaurada) por técnicos da área.
Era para estar de volta após os trabalhos finalizados, ainda no começo do mês de junho, em tempo para as festividades.
Os dias passaram, junho se aproximava e nada do Santo retornar.

Clichê com desenho de Santo Antônio dos Anjos publicado no jornal lagunense Correio do Sul de 13 de junho de 1942. Notem que o Menino Jesus ainda estava sem sua tradicional roupinha.

Nesse meio tempo correu a notícia na Laguna que a imagem teria causado grande impressão entre religiosos e apreciadores de arte sacra no Rio de Janeiro desde que chegou. Bem por isso estaria havendo propostas para troca por outra imagem do santo casamenteiro.
Imagine o rebuliço que essa notícia causou na Laguna. O disse-me-disse pelas esquinas, cafés e boticas tomou conta da cidade.
Não se sabe se a notícia tinha algum fundamento ou foi uma fake news da época.
Logo aconteceram várias reuniões com pedidos de providências urgentes.
O provedor da Irmandade, que agora já era João Monteiro Cabral, o Janjão, foi convocado e tomou o primeiro navio com destino ao Rio de Janeiro. Missão: apressar os trabalhos e trazer a imagem de volta à Laguna.
Somente em 8 de julho o provedor retornou com a imagem do santo encaixotada à bordo do vapor Industrial.
Houve uma grande recepção. A imagem foi levada para a capela do Hospital com a transladação para a matriz prevista para o dia 19 do mesmo mês. No dia marcado caiu um temporal e o translado não aconteceu.
Somente no dia 26 de julho de 1902 é que a imagem, “com grande número de fiéis” foi transportada da Capela do Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos para seu altar na matriz.
No dia seguinte Missa cantada e Te-Deum pela volta da imagem.
Para ler com mais detalhes essa história já publicada neste Blog clique Aqui

Ano 1905 – Falta de recursos
O jornal O Albor em sua edição de 11 de junho deste ano publicava a notícia que por falta de recursos para bancar as festividades em honra a Santo Antônio dos Anjos, iria ser rezada “unicamente” uma missa cantada e terço à noite no dia 13 de junho.

Jornal O Albor 12 de junho de 1905.

O caixa deveria estar mesmo zerado. Outro motivo provável é porque a igreja matriz estava em péssimas condições físicas, necessitando de obras de manutenção e melhoramentos. Desde o ano anterior os jornais da cidade alertavam que o madeiramento do teto da igreja ameaçava ruir.
Tanto é verdade que o jornal O Albor dizia:
“Não há recursos para as obras mais urgentes e o sr. João Monteiro Cabral faz um apelo justíssimo ao povo lagunense para contribuir à medida de suas forças para que a matriz de nossa terra não desabe”.
A não realização da festa e procissão não deve ter caído muito bem junto à comunidade católica e as críticas foram muitas.

Quitéria Cabrita reclamou pelo jornal
Uma longa carta publicada na edição seguinte, de 18 de junho no mesmo O Albor com o título “O Nosso Padroeiro” reclamava da decisão.
Era assinada com o estranho pseudônimo de Quitéria Cabrita, que tanto podia ser alguma carola da igreja, um membro da Irmandade desgostoso com a decisão. Ou até mesmo alguém da redação do jornal. Vai saber.
Pois a Quitéria Cabrita reclamava que não acreditou quando leu a notícia em O Albor.
E logo a seguir sobrou para os membros da Irmandade quando ela diz: 

“Que os juízes não se importem com a festa, que neguem mesmo dinheiro e dedicação... lamenta-se, mas tolera-se... O que não se compreende, nem se tolera, nem se perdoa, é que os irmãos em Santo Antônio se reúnam e resolvam nada fazer por falta de dinheiro.
Uma missa cantada, três ladainhas, e uma procissão não consomem assim tanto dinheiro...”.

E depois de comentar sobre várias pessoas da comunidade que poderiam ajudar gratuitamente na realização da festa com ornamentação, velas e foguetes, ela continua dando pauladas:

“Só o que faltou, meu amigo, foi vontade da Irmandade, e isto digo mesmo nas bochechas de qualquer irmão.
Se se tratasse de um baile, de um grupo carnavalesco, de um espetáculo ou de uma eleição, o dinheiro não faltaria; mas como se trata de Santo Antônio, que só tem feito bem a todos... a crise é tremenda...”.
(...) “Uma missa rezada só... e Santo Antônio que se contente com isso, que a Irmandade não tem dinheiro...”.

E ela finaliza saudosista dos velhos tempos quando Laguna ainda era uma Vila e de seu finado marido, levando obviamente a gente concluir que ela era viúva:

“Pois olhem... – quando isto era Vila um só ano não se passou sem que a festa do miraculoso orago fosse feita inteirinha, com trezenas, missa solene, a procissão e sermão...
Aquilo é que eram tempos.... Ai! Que saudades eu tenho d’aqueles tempos e do meu defunto marido”.

Ano 1963 – Morte do Papa
Neste ano, tendo em vista a morte do Papa João XXIII ocorrida no dia 3 de junho de 1963, as festividades de Santo Antônio dos Anjos foram adiadas do dia 13 de junho para 23 do mesmo mês.

Jornal O Albor 28 de junho de 1963.

Mas já a partir do dia 11 as novenas foram realizadas, cantadas pelo Coral Santo Antônio dos Anjos, com alguns músicos das Bandas Musicais Carlos Gomes e União dos Artistas.
A Transladação na noite de 22 com a imagem veio da igreja Nossa Senhora Auxiliadora, na então Roseta, hoje bairro Progresso.
No dia 23 Missa solene pela manhã na Matriz com a presença do bispo Diocesano D. Anselmo Pietrulla.
À tarde aconteceu a procissão pelas ruas do centro.

Cartão-lembrança da Festa de Santo Antônio dos Anjos do ano de 1972. Acervo: Valmir Guedes Júnior.

Mesmo com o adiamento da transladação e procissão para os dias 22 e 23, respectivamente, todas as noites “havia concorridas barraquinhas, acompanhadas de músicas que alegravam o ambiente, até bem tarde”, diz O Albor de 29 de junho de 1963, de onde retirei essas informações.
Foram juízes da festa, Osmar Brum e Dilma Neto Mendonça.
E divulgados os nomes de Pedro Bascherotto e Cerize Rollin Remor como juízes do ano seguinte, 1964.
Na época chamava-se de juízes aos atuais festeiros, formados somente por um par (casal), não necessariamente casado.
Em tempo: O novo Papa escolhido em conclave para substituir João XXIII foi o cardeal Giovanni Montini que adotou o nome de Paulo VI.

Ano 1984 – Morte do padre
Estava tudo pronto para a realização da festa nesse ano. Iria acontecer de 1º a 17 daquele mês de junho.
Na noite de 31 de maio a cidade foi dormir mais tarde devido à carreata acontecida à partir da meia-noite. Naquela época dizia-se serenata.
No dia seguinte, uma sexta-feira após às 10 horas da manhã, a notícia chegou e percorreu rapidamente toda à cidade.
Um acidente automobilístico havia ceifado a vida do padre Luiz Agostinho Zocche Saccon, aos 20 anos de idade, pároco auxiliar ou vigário cooperador, como então se chamava, da Matriz Santo Antônio dos Anjos da Laguna.
Era um sacerdote amigo e conselheiro sempre prestes a ajudar o próximo. Era ligado aos grupos de jovens existentes na comunidade e comandava a Pastoral da Juventude.
Velório aconteceu durante todo o dia em nossa própria matriz. Fim de tarde seu corpo foi levado a a cidade de Meleiro, onde foi sepultado.

Jornal lagunense O Renovador de 8 de junho de 1984, com anúncio da festa e a data adiada para 8 a 17 de junho.

Por causa de seu falecimento, a festa em Honra ao padroeiro da Laguna foi adiada, só iniciando na sexta-feira seguinte, 8, após a realização da Missa de Sétimo Dia.
Padre Agostinho (e não Augustinho como está escrito na creche criada tempos depois em sua homenagem) estava escalado para ser o orador da primeira trezena.
Para ler mais sobre a trajetória de vida e o acidente que causou a morte do padre Agostinho leia Aqui

Ano 2020 – Pandemia – Covid
Por causa das restrições sanitárias causadas pela pandemia da Covid, as tradicionais festividades de junho de 2020 não ocorreram.
Inicialmente a festa foi transferida para o mês seguinte, período de 3 a 16 de agosto. Mas depois foi cancelada.
Sem a possibilidade da realização de trezenas, aconteceram de 1º a 12 de junho a partir das 19 horas devocionais ao padroeiro feitas pelos padres Lenoir Steiner Becker e Itamar Nunes Faísca, com mensagens a cargo dos festeiros de 2020/2021.
Transmissão pelo Facebook, além de mostras de vídeos e fotos de trezenas de anos anteriores.
No dia 13 aconteceu a Alvorada, com carreatas partindo de várias regiões da cidade.
Em seguida saudação à Carreata feita por Neusa Preuss e Gero Perito, com uma live logo após da Sociedade Musical União dos Artistas.
A imagem de Santo Antônio dos Anjos ficou exposta aos fiéis em frente à Matriz, tendo guarda de honra da Irmandade. Atendendo a pedidos, fiéis depositaram em frente quilos de alimentos a serem distribuídos às famílias necessitadas.

Imagem de Santo Antônio dos Anjos ladeada por dois guardas de honra da Irmandade em 7 de junho de 2020. Em primeiro plano na foto, quilos de alimentos depositados pelos fieis para serem distribuídos às famílias necessitadas. Foto: Valmir Guedes Júnior

Houve distribuição dos tradicionais pãezinhos.
Às 12 horas aconteceu repique de sinos em todas as igrejas das três paróquias.
Às 17 horas procissão motorizada. Às 18 horas live da Sociedade Musical Carlos Gomes. Às 19 horas na Matriz foi realizada Santa Missa em honra ao Padroeiro e às 20 horas Terço em honra ao Sagrado Coração de Jesus.

28 maio 2026

O dia 13 de junho é feriado na Laguna desde 1936

A título de curiosidade, até o ano de 1935 o dia 13 de junho, consagrado ao padroeiro da Laguna, Santo Antônio dos Anjos, não era considerado feriado municipal.

Cartão-postal de Santo Antônio dos Anjos do ano de 1969. Foto Bacha. Acervo Valmir Guedes Júnior.

Mesmo em se tratando da maior festa religiosa do município, atravessando gerações, muitas casas comerciais abriam normalmente suas portas à clientela.
Mas em 1936, o vereador lagunense Ataliba Brasil (mais tarde, na década de 1940 será prefeito) apresentou projeto de lei que foi aprovado pela Câmara, tornando o dia 13 de junho feriado municipal. 
O jornal lagunense O Albor em sua edição de 9 de junho de 1936 registrou o requerimento e o justificou dizendo:
"Com o louvável intuito de que todos o que labutam no comércio desta praça, possam participar de todas as solenidades do dia do nosso Taumaturgo". 

26 maio 2026

FOTO-RETRÔ

 
Time do Colégio Comercial Lagunense (CCL), que reunia professores e funcionários, no campo do Conjunto Educacional Almirante Lamego (Ceal), em 2 de dezembro de 1972.
Em pé, da esquerda p/direita: Flávio Corrêa Delgado, Vavá, Arthur Cook, Tobias Adolfo Rebelo, Antônio Carlos Marega (goleiro), Décio Cabral, Antônio Elíbio (Lico), Deroci de Oliveira, Edinho de Oliveira e Aldo Abrahão Massih.
Agachados: Zulfilmar Valgas Viana (But), Antônio Paulo da Silva, Antônio Buzz, Elói Mattos, Joselino Alves de Oliveira e Antônio José da Silva (perna reta).

22 maio 2026

Licota, a amiga de Anita Garibaldi

 
Elas foram amigas de infância. Conviveram num local afastado, zona rural, em Morrinhos de Tubarão, caminho e parada de tropeiros que iam e vinham da serra catarinense, dos campos de Lages.
Uma das meninas chamava-se Ana Maria de Jesus Ribeiro, mais conhecida como Aninha do Bentão; a outra menina era Maria Fortunato da Conceição, a Licota.
Duas vidas, dois destinos traçados e completamente diferentes.

Maria Fortunato da Conceição, a Licota, amiga de infância de Ana Maria de Jesus Ribeiro, a futura Anita Garibaldi.  Foto: Acervo IHGSC.

Aninha aos doze ou treze anos, vai se mudar com a família de Morrinhos de Tubarão para a Carniça, hoje Campos Verde.
Depois, para a localidade da Barra e ainda mais uma vez para o centro da Laguna, na estreita rua Fernando Machado, mais conhecida como rua do Rincão, numa pequena casa de porta e janela.
Essas foram as sequencias de mudanças de Aninha, de acordo com alguns historiadores, entre eles Wolgang Ludwig Rau.
 
O restante é história
Num casamento arranjado por sua mãe, com vistas à melhores condições de vida para a família, se casará com apenas quatorze anos com o sapateiro Manoel Duarte de Aguiar na Igreja Matriz da Laguna.
Quatro anos mais tarde conhecerá um revolucionário italiano. Lutará ao seu lado por um ideal. Por amor irá embora da Laguna com ele, conhecerá outras gentes e percorrerá outros lugares, entre cidades, estados e até países. Terá filhos.
Entrará para a história como Heroína de Dois Mundos. E morrerá doente nos braços do marido, ainda muito jovem, em 4 de agosto de 1849, com apenas 27 anos, se considerarmos seu nascimento em 30 de agosto de 1821.
Já Licota continuará morando por toda sua vida no local onde nasceu. Se tornará parteira, ajudando a pôr dezenas, centenas de bebês no mundo. Também irá se casar, ter filhos, netos, bisnetos. Morrerá centenária.
Depois das mudanças de endereços de Aninha, as duas amigas nunca mais se encontraram. Somente muitos anos depois, Licota saberá das peripécias de sua amiga.
 
Em busca do passado de Anita
Curiosidades surgirão quando Aninha já era a famosa Anita Garibaldi com seus feitos e glórias contados para o mundo pelo marido Giuseppe em seu livro de memórias ditadas a Alexandre Dumas.
Jornalistas, pesquisadores e historiadores buscarão maiores dados sobre aquela lendária e guerreira mulher do general italiano. Quem foi? Onde nasceu? Quem a conheceu? Como ela era?
Queriam saber mais sobre suas origens. Não a heroína destemida que rompeu as regras da sociedade da época, com sua feminilidade, determinação e coragem.
Mas a figura da criança, da jovem, da mulher em seus privados anos antes de conhecer e partir com o guerreiro italiano.
 
Eis que surge Licota
Nessa procura descobrirão Licota. Maria Fortunato da Conceição era seu nome, companheira, amiga de infância de Anita.
Licota estava viva, sim senhor. Bem velhinha, mas ainda lúcida e de boa memória.
Em busca de maiores informações lá se foram os curiosos em caravanas entrevistá-la, fotografá-la no sertão de Morrinhos de Tubarão onde continuava vivendo naqueles primeiros anos do século XX.
Quem primeiro a procurou e conversou com Licota sobre o passado de sua amiga Anita foi José (Joe) Luiz Martins Colaço que em escrito publicado no jornal O Livro de 4 de agosto de 1906, editado em Florianópolis, contou que em 1903 entrevistou Licota, amiga de infância da futura Anita Garibaldi.
Alguns anos depois, em 1911, quando cursava Medicina no Rio de Janeiro, Joe Colaço repetirá o texto, com acréscimos, para o jornal Folha do Comércio editado na então capital federal.
Naqueles tempos de difícil comunicação, foi através de Joe Colaço que Licota ficou sabendo dos feitos de sua amiga de infância.
De acordo com Colaço ela até então só tinha a informação que “um italiano tinha lhe virado a cabeça”.
Ao saber que sua amiga de infância Aninha tinha se tornado Anita Garibaldi, das guerras e batalhas em que participou, de sua coragem e valentia, Licota comentou:
- “Não duvido, ela era mulher para isso”.
 
“Mostrando as ruínas da casinha histórica”
Joe Colaço informa em seu artigo que várias vezes procurou Licota em Morrinhos para conversar e ela sempre contava a mesma história, mostrando a casa onde afirmava ter nascido e morado Ana Maria de Jesus Ribeiro.

Casa situada em Morrinhos, em Tubarão, indicada por Licota como local de nascimento e moradia de Ana de Jesus Ribeiro, a futura Anita Garibaldi. A foto mostra algumas pessoas defronte à casa, provavelmente José (Joe) Luiz Martins Colaço está entre elas. Foto: Artur Praça. Acervo: IHGSC

“Bondosamente lá ia, passo firme, mostrar as ruínas da casinha histórica”.

Licota com um neto ao colo posa defronte a sua casa em Morrinhos. Foto. Artur Praça. Acervo: IHGSC

Em uma das visitas Colaço levou a tiracolo Artur Praça que com sua máquina fotografou Licota com seu neto ao colo.
Ela mais uma vez lhe mostrou sua modesta casa e a casa onde dizia ter nascido e morado Aninha do Bentão.
E Colaço nos traz mais uma frase pronunciada por Licota ao ser fotografada:
- “Ora, esses rapazes tiraram retrato da gente depois de velha, só porque se conheceu Anita”.
Com essas informações ficamos conhecendo a autoria das fotos que constam do acervo do IHGSC, e que ora são estampadas nesta página.

Outro que lá esteve foi o jornalista Diniz Júnior. Em um pequeno artigo publicado no jornal A Pátria e depois reproduzido no jornal República de 8 de dezembro de 1923, ambos editados em Florianópolis, Diniz informa que visitou Morrinhos de Tubarão acompanhado do poeta e escritor Virgílio Várzea:

“Em 1908, visitei, com Virgílio Várzea, eminente escritor e o mais autorizado escritor de Garibaldi na América, os sítios de nascimento e mocidade da heroína.
Estive em Morrinhos, pobre paisagem do Vale do Tubarão. Ali veio ao mundo. Vivia ainda uma das suas companheiras de infância, a octogenária Licota”. 
Diniz informa que ao cronista Joe Colaço, Licota disse:
“Que Anita era uma rapariga de alto lá com ela e que dera muito que falar de si”.

Walter Zumblick em seu livro Aninha do Bentão, reproduz um diálogo da época que teria havido quando contaram a Licota sobre Anita:
- “Quem, a Aninha, a filha do Bentão?
- Aquilo foi a guria mais levada da redondeza, credo!”.

Aliás, por falar em Zumblick, ele reproduz em seu livro a foto de Licota (a mesma do acervo do IHGSC) sentada ao lado de sua casa com a legenda:
“Licota de cabelos brancos e o seu rancho velho. Ali perto, em Morrinhos nasceu Ana Maria de Jesus Ribeiro, de quem foi amiga de infância”.
 
Anita nasceu em Morrinhos de Tubarão, concorda a maioria dos historiadores
A quase totalidade de pesquisadores e historiadores aceita Morrinhos de Tubarão como local de nascimento de Anita Garibaldi, na época pertencente à Laguna. Dentre os nomes podemos citar os irmãos Boiteux.
José Boiteux numa pequena biografia de Anita diz: “Natural do lugar Morrinhos, na proximidade da hoje cidade de Tubarão, pertencente, à data do seu nascimento, à comarca da Laguna”.
Seu irmão Henrique afirma: “Anna de Jesus Ribeiro, filha de Bento Ribeiro da Silva e de Maria Antônia de Jesus, nasceu em Morrinhos, no Tubarão”. (Revista Catarinense de História Vol II – 1913, pág. 321).
Wolfgang Ludwig Rau considerado o maior biógrafo de nossa heroína, em sua obra Anita Garibaldi – O Perfil de Uma Heroína Brasileira, escreve:
“Após várias mudanças de residência na região, a família fixou-se à margem do Rio Tubarão (Rio Seco), no Rincão de Morrinhos, minúsculo povoado a seis quilômetros da Freguesia de Tubarão. (pág. 39).
E na página 41 frisa: “Embora contrariando outras opiniões, o autor se definiu por Morrinhos de Tubarão como sendo o lugar de nascimento de Anita”.

Único e verdadeiro retrato de Anita Garibaldi feito em Montevidéu pelo pintor ítalo-uruguaio Galino em forma de miniatura aquarelada. Acervo Garibaldino de Wolgang Ludwig Rau

Lindolfo Collor em seu livro Garibaldi e a Guerra dos Farrapos cita Morrinhos de Tubarão como local de nascimento de Anita.
E mais os historiadores Virgílio Várzea, Alfredo Taunay, Walter Zumblick, entre outros.
Já os historiadores lagunenses Saul Ulysséa e Ruben Ulysséa, baseados em alguns relatos orais, entre eles um sobrinho de Anita de nome João Fraga, defendiam que Anita teria nascido em Morrinho de Mirim e um tempo depois se mudado para Morrinhos do Tubarão.
Mas todos eles reconhecem que, nascida em Morrinho de Mirim ou Morrinhos de Tubarão, Anita é lagunense porque os locais citados pertenciam à Laguna.
E mesmo porque hoje existe a chamada certidão de nascimento tardia emitida pela Justiça em 1999.

Memorial Anita Garibaldi em homenagem à heroína, situado em Morrinhos, Tubarão-SC.

E foi por causa do testemunho de Licota a Joe Colaço e Diniz Júnior, que em 18 de dezembro de 1932 foi inaugurado em Morrinhos de Tubarão, um monumento em homenagem à Anita, assinalando aquele local como de seu nascimento.
 
Um incidente provocou a mudança de Aninha e sua família para a Carniça (Campos Verde)
A mudança de Anita com sua família para a região de Campos Verdes teria sido causada por um incidente em Morrinhos de Tubarão.
Temendo vingança, a família de Anita resolveu mudar-se.
Wolfgang Ludwig Rau narra que “Lá pelos idos de 1833 terão chegado à Carniça (atual Campos Verde) Anita e suas irmãs e irmãos, e a mãe Maria Antônia.
 
Propostas vulgares e o chicote
E cita Lindolfo Collor que explicou o motivo da mudança baseado na tradição oral: 

“A família de Anita tivera que afastar-se de Morrinhos de Tubarão em virtude de um incidente precisamente com ela, Aninha, mas no qual, parece, não tivera nenhuma culpa. Pelo contrário, mães e irmãs reconheciam que ela agira muito bem, castigando o audacioso que lhe faltara o respeito.
É que um filho de um amigo da família, lhe fez propostas vulgares, querendo segurá-la, corajosamente reagira, batendo-lhe com um chicote e cuspindo-lhe na cara cínica, acabando por meter-lhe nos olhos o palheiro que ele mesmo estava fumando”.

No que o historiador Walter Piazza realçou: 
“Muitos traços e caracteres da personalidade de Anita lhe advieram do pai, Chico Bento, tendo-lhe herdado a energia e coragem pessoal, maneiras de agir e reagir”.
Sobre o incidente (hoje seria considerado assédio sexual) contado por Collor e transcrito em sua obra, Rau concordava: “Dado o caráter de Anita, por ela revelado posteriormente, o evento narrado é bem plausível”.
 
Falecimento de Maria Fortunato da Conceição, a Licota, em 1911
Maria Fortunato da Conceição, a Licota, morreu centenária, em 1911.
O jornal lagunense O Albor noticiou em texto poético seu falecimento e a matéria foi reproduzida no jornal de Florianópolis O Dia de 23 de junho de 1911 e Folha do Commércio, do RJ de agosto do mesmo ano com o título:
 
“Companheira de Anita"
"Faleceu no lugar denominado Morrinhos, a velhinha Maria Fortunato, conhecida por Licota, antiga e inseparável companheira de Anita Garibaldi – gloriosa heroína dos dois mundos, que teve o seu berço neste caro pedaço de terra tubaronense.
O enterro da conhecida velhinha foi realizado a 14 do corrente, no cemitério desta cidade, com o obscurantismo da mais completa modéstia.
A estas horas ninguém mais se lembra de Licota!
E sobre sua sepultura ainda fresca e palpitante, no mais humilde e obscuro recanto do cemitério, paira, desde já, o nefando abutre do esquecimento.
E por um contraste sublime, as avezinhas pipilam, na festiva  cavatina dos ninhos, enchendo o campo-santo de uma harmonia divina...
Paz ao seu jazigo e glória à sua alma!”.

E para finalizar essa matéria do Blog, somos obrigados a concordar com Licota que deve ter verdadeiramente vivido sua infância ao lado de Aninha do Bentão, a futura Anita Garibaldi e conhecido bastante sua forte personalidade desde cedo.
E que quando soube, muitos anos depois, da coragem, das guerras e batalhas em que sua amiga participou nos dois mundos disse:
- “Não duvido, ela era mulher para isso”.

21 maio 2026

Um Príncipe na Laguna (Parte II) - Adendo

Em se tratando de pesquisas históricas, o assunto nunca se encerra e sempre podem surgir novas informações, através de documentos, jornais, fotos, depoimentos, diários...
A edição do jornal lagunense A Verdade de 4 de janeiro de 1885, conforme divulgado em seu número anterior, traria ampla cobertura sobre a visita do Conde d’Eu à Laguna.

O Conde d'Eu. Imagem: Alberto Henschel/wikipédia/Domínio público

O problema é que exatamente esta edição da cobertura da viagem não existe no acervo da Biblioteca Pública de Santa Catarina que é compartilhada pela Biblioteca Nacional em sua Hemeroteca Digital.
Por isso ficamos sem maiores detalhes da viagem e de como foi o dia passado em nossa cidade.
Baseado nas poucas informações publicadas no dia e em edições anteriores do jornal A Verdade foi que deduzi e informei que o Conde teria visitado prédios públicos, entre eles o Paço Municipal e a Agência Telegráfica, almoçado em casa de alguma autoridade ou comerciante abastado.
Após o post publicado no Blog, o jornalista Luiz Cláudio Abreu descobriu e me remeteu a edição de 19 de janeiro de 1885 do jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, que através de seu correspondente, veja só, estava presente na comitiva imperial e trouxe maiores e importantes dados sobre a viagem.
Lamenta-se que o nome do correspondente não tenha ficado registrado para a história.

Conde d’Eu chegou pelo porto da Laguna, diz jornal
O jornal carioca Gazeta de Notícias inicia trazendo uma novidade para nós, ao informar que o Conde deixou o porto de Desterro e desembarcou no porto da Laguna a bordo do vapor Humaytá, da Companhia Nacional de Navegação.
Outros jornais consultados, como o Jornal do Commércio de 27 de dezembro de 1884, informam, erroneamente, que partindo de Desterro o Conde teria chegado ao porto de Imbituba e dele partiu com sua comitiva nos vagões de passageiros da Estrada de Ferro Teresa Cristina para a Estação da Laguna. 
Em sua edição de 3 de janeiro de 1885 o mesmo Jornal do Commércio informou que o vapor chegou ao porto lagunense.

O desembarque na Laguna: “pessoas curiosas de ver o Conde”
“Eram 5 ½ da manhã de hoje quando o vapor chegou a Laguna, tendo feito uma excelente viagem”. 

É importante transcrever aqui para o leitor essa chegada, conforme narra o correspondente da Gazeta de Notícias: 

“Esta cidade, de que falei em outra carta, estava elegantemente preparada para receber a visita do ilustre príncipe.
O movimento era enorme, e no porto de desembarque, além de grande número de pessoas curiosas de ver, o sr. Conde d’Eu, digno esposo da herdeira do trono, achavam-se o presidente e vereadores da Câmara Municipal da cidade, o juiz de direito da comarca, o conselheiro Mafra, deputado pelo 2º distrito da província, o superintendente da estrada de ferro Thereza Christina, o sr. Warren Robert e o Dr. Brant de Carvalho incumbido da exploração das minas de carvão do vale de Tubarão, e grande número de pessoas gradas. No porto havia cerca de 60 navios todos embandeirados.
A recepção feita a Sua Alteza o sr. Conde d’Eu, na cidade da Laguna, foi espontânea, e via-se o contentamento em que exultava a população”.

Gazeta de Notícias do RJ, de 19 de janeiro de 1885.

Percorreu a pé a cidade
A Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro também informa que o Conde percorreu a cidade a pé, visitando a repartição telegráfica, o edifício da Câmara Municipal e depois foi à Igreja Matriz para ouvir e assistir um Te-Deum, uma missa em Ação de Graças pela viagem.
Minhas deduções estavam corretas quanto aos prédios públicos visitados e os navios embandeirados no porto. Ficamos sabendo que eram em número de 60. Uau!
Depois surge a segunda novidade: logo após a missa ele foi ao nosso Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos, que teve parte de suas instalações inauguradas em 4 de setembro de 1884, portanto, três meses antes da visita.

Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos nos últimos anos do século XIX visitado pelo Conde d'Eu.

Assim escreve o correspondente que estava junto à comitiva: 

“Depois da cerimônia religiosa, foi Sua Alteza visitar o hospital de caridade, que é uma bela instituição e cujos serviços à humanidade são incalculáveis.
Sua Alteza o Conde d’Eu ao retirar-se significou o seu contentamento, assim como os cavalheiros que o acompanhavam, pela ordem, asseio e bom tratamento que ali encontrou os enfermos”.
 
Banquete
E na reportagem surge a terceira novidade quando informa o nome do anfitrião que recebeu o príncipe e sua comitiva para um banquete.
Trata-se do cidadão Francisco Fernandes Martins.
 
Quem era Francisco Fernandes Martins?
De acordo com o que nos informa o ilustre e saudoso lagunense Norberto Ulysséa Ungaretti em seu livro “Laguna um pouco do Passado”, era conhecido como Chico Fernandes, da família Martins ali do Siqueiro.
Era comerciante, exportador e industrial. Casado com d. Francisca Torres Fernandes Martins e deixou numerosa descendência.
“Na década de 1880 construiu para sua residência o imponente prédio em que vai funcionar mais tarde (a partir de 1926 n.e.), o Colégio Stella Maris, no início do Magalhães. Era na época, a melhor casa residencial da cidade”.

Ao fundo o Palacete de Francisco Fernandes Martins onde o Conde d'Eu almoçou. O local hoje é o Colégio Stella Maris. Pode-se observar na foto que ainda não havia sido construído o cais em pedra granítica. À direita, o estaleiro.

Segundo informação do historiador Saul Ulysséa, Francisco Fernandes Martins “estabeleceu o primeiro engenho a vapor de beneficiar arroz em toda a zona Sul da Provincia, engenho em que funcionava em um de seus depósitos no Magalhães”.
Aliás, todo aquele extremo que hoje conhecemos como Ponta das Pedras era de sua propriedade, chamada na época de “Ponta dos Martins”.
Ainda conforme Norberto, “muito deve Laguna a seu espírito empreendedor”. Foi um grande doador para as obras do nosso hospital de caridade. 

Conde visitou um sambaqui
Após o farto almoço, do qual não ficaram registrados quais pratos servidos, o relato informa que o Conde d’Eu visitou um sambaqui.
Provavelmente, até por comodidade porque era passagem obrigatória, teria sido o “Sambaqui das Alminhas”, citado por Saul Ulysséa em seu livro “A Laguna de 1880.
Era situado justamente defronte ao palacete de Francisco Fernandes Martins, nas encostas do Morro da Paixão, onde décadas depois foi construído o prédio da Telesc, nas franjas do Morro do Peralta.

Prosseguindo viagem pelos trilhos
Depois o Conde d’Eu e sua comitiva seguiram para a Estação da Estrada de Ferro, situada no Campo de Fora “a qual achava-se enfeitada e apinhada de povo, que, ao partir o trem especial, deu muitas vivas correspondidos sempre com entusiasmo”.
Na Ponte Ferroviária das Laranjeiras, então denominada de “Viaduto”, na Cabeçuda, o Conde “fez parar o trem para examiná-la, e como ele todos ficaram satisfeitos vendo a maneira de fazer girar o vão móvel e dar passagem aos navios e outras embarcações”.
A viagem prosseguiu para Tubarão com admiração da comitiva pelos “importantes trabalhos de engenharia, e entre eles, cortes feitos em rocha viva, de cinco a seis metros de altura, no lugar denominado Laranjeiras e o grande aterro da Estiva dos Pregos, cujo volume vai além de 50.000 metros cúbicos de terra e a Ponte da Passagem”.
 
Embarque de retorno pelo porto de Imbituba
E assim se encerra a passagem do Conde d’Eu por Laguna. No dia 28 de dezembro de 1884, no retorno de Tubarão seguiu direto com sua comitiva para Imbituba.
Aí sim, embarcou às 17 horas no vapor Humaytá “que já o esperava e que havia saído da Laguna ao meio-dia com destino a Desterro”, onde todos chegaram às 23h30m.

Painéis contando a viagem
Se Laguna prezasse mais a história e o turismo histórico além de Anita Garibaldi, painéis contando num breve resumo a viagem e a passagem por aqui do Conde d'Eu deveriam ser instalados nesses prédios: Casa da Câmara (hoje Museu), Agência do Telégrafo (antigo Sine), Matriz Santo Antônio dos Anjos, Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos e Colégio Stella Maris.
Mas sei que é pedir demais aos nossos governantes, tão ocupados com outras questões.