Ele contava uma
história que atravessou os tempos e entrou no anedotário da tradicional
sociedade musical de nossa cidade.
Quando os fatos
a seguir narrados aconteceram, a iluminação pública da Laguna era precária.
Lâmpadas somente nos postes do centro da cidade. Nos bairros reinava a completa
escuridão.
Bem por isso as
pessoas evitavam sair à noite, a não ser em função de compromissos inadiáveis,
problemas com a saúde ou um outro caso de extrema necessidade.
Naqueles tempos
os músicos da Banda União dos Artistas, após a jornada de trabalho, ensaiavam
todas as noites na então sede situada na rua Voluntário Fermiano.
Quando
finalizavam os ensaios, alguns músicos ficavam jogando dominó ou jogo de cartas
até mais tarde em uma sala aos fundos, onde existia um reservado e um pequeno bar.
Um desses
músicos que morava no final do bairro Campo de Fora ao término dos ensaios
naquela noite se dirigiu para sua casa.
Conhecia o
caminho de olhos vendados, caminhando reto pela rua Almirante Lamego. Era lua
nova.
O músico retornou apavorado. O que teria acontecido?
Quinze ou vinte
minutos após ter saído ele retornou e adentrou apavorado na sede da banda.
Olhos
arregalados, esbaforido, gaguejava dizendo que tinha visto o Boitatá soltando
fogo pelas fuças.
Os colegas
trouxeram um copo d’água, procurando acalmá-lo. Ele retornou à mesma narrativa:
havia visto o Boitatá.
Em ato contínuo,
cinco colegas se reuniram para acompanhá-lo até sua casa para passar a limpo a
aparição do bicho.
Diz a lenda que
o Boitatá é uma espécie de monstro, uma cobra com olhos flamejantes do tamanho
de sua cabeça e que persegue os viajantes noturnos.
Dizem que é visto correndo de um lado para outro na mata, protegendo-a dos que realizam queimadas. É uma criatura fantástica do folclore brasileiro.
Foram em direção ao bicho
Quando os cinco
amigos chegaram um pouco antes da Estação Ferroviária no Campo de Fora, ao
olharem à esquerda viram realmente uma figura gigantesca e escura soltando
faíscas na imensidão da noite.
Alguns quiseram
correr, mas como estavam em turma criaram coragem e foram em direção ao bicho.
Ao chegarem bem
perto, meio que ainda receosos, constataram a grande confusão.
A Estrada de
Ferro mantinha uma locomotiva para fins de manobras e que de tão antiga e
barulhenta recebeu o apelido de “Chocolateira”.
O que pareceu um
horrendo Boitatá ao assustado músico, nada mais era do que o foguista a remexer
o braseiro da locomotiva com as fagulhas a voarem ao sabor do vento sul e se
perdendo no breu da noite lagunense.
O resto ficou
por conta do medo e do que a imaginação pode causar.
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* Texto inserido em meu livro Sociedade Musical União dos Artistas - Atravessando os Séculos, lançado em 2022.











