08 julho 2026

O "saudoso" lagunense Mário Cabral

Lagunense, filho de lagunenses, de tradicional família. Aprendeu a tocar piano com sua mãe. Depois dos estudos iniciais cursou Direito no Rio de Janeiro. Formado, retornou à terra natal para exercer a profissão. Foi professor do Ginásio Lagunense, um dos fundadores do Cordão Carnavalesco Bola Preta de nossa cidade. Casou-se com uma lagunense.
Retornando ao Rio de Janeiro, então Capital Federal, escreveu sobre música em grandes jornais, apresentou programas em emissoras de rádio e acompanhou ao piano cantores e cantoras da Música Popular Brasileira. Carmem Miranda foi uma delas e Orlando Silva, Francisco Alves Carlos Galhardo e Dorival Caymmi...
Mário Cabral foi amigo dos maiores jornalistas e músicos da sua época. Boêmio, viveu apaixonadamente o Rio de Janeiro das décadas de 40/50 e 60.

O advogado, professor, crítico musical e pianista Mário Greenhalg Cabral. Revista Cidade Juliana (LG)-1947.

“Laguna celeiro de boa gente”, diz a letra de Archimedes de Castro Faria em seu Hino do Coral Santo Antônio dos Anjos, em versos tão lindos e melódicos, que também poderia ser o nosso hino oficial, lado a lado com o de Osmar Cook.
O tempo passa, gerações se sucedem na marcha inevitável da vida.
Mas sempre devemos lembrar personagens que brilharam em nossa cidade e por esse Brasil. De vultos que viveram e deixaram sua contribuição nas mais diversas áreas.
Um desses personagens é o lagunense Mário Greenhalg Cabral. Advogado, professor e músico. 

Quem foi Mário Greenhalg Cabral
Mário Greenhalg Cabral nasceu na Laguna em 22 de fevereiro de 1911, filho de Zulmira Greenhalg Cabral e João Guimarães Cabral.
Teve como irmãos Maria Cabral Mendonça (Marieta), casada com Pedro Sérgio Mendonça (proprietário da tradicional Casa São Pedro, em nossa cidade); Ruth Cabral Ulysséa, casada com o professor Ruben Ulysséa; e Yvonne Cabral Baungarten, casada com Walter Baungarten Júnior.
Fez seus primeiros estudos em nossa cidade, depois no Colégio dos Jesuítas, em Florianópolis.
Desde cedo aprendeu a tocar piano com sua mãe Zulmira.
Aos 15 anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro para que ele seguisse carreira na Marinha. Mas não teve sucesso em ingressar na Escola Naval.
Foi aluno da Faculdade de Direito na Universidade do Brasil na então Capital Federal, onde formou-se em dezembro de 1937.
Teve como colegas de turma, entre outros, Barreto Pinto, Alzirinha Vargas, João Condé, Dante Viggiani, Zé Honório Rodrigues e Marques Rêbelo.
Concluído o curso, retornou à Laguna onde sua família já estava morando novamente.
Aqui advogou e foi professor no Ginásio Lagunense, além de colaborador do jornal lagunense O Albor.

Ano 1938. Professores do Ginásio Lagunense: Em pé: Sargento Egeu Laus, Paulo Carneiro, Oscar Leitão, Joaquim Cabral, Germano Donner, José Varela Júnior e Mário Greenhalg Cabral. Sentados: Paulo Gailit, Romeu Ulysséa, Antônio Dib Mussi e Ruben Ulysséa. Foto: Livro Laguna Memória histórica, de Ruben Ulysséa. 

Em 3 de maio de 1939 compôs a diretoria da Sociedade Musical Carlos Gomes como orador. Era presidente Francisco Fernandes de Oliveira

Recorte da foto acima mostra o advogado e professor do Ginásio Lagunense Mário Greenhalg Cabral. Foto: Livro Laguna Memória histórica, de Ruben Ulysséa.

Foi um dos fundadores em nossa cidade em 23 de dezembro de 1937, do Cordão Carnavalesco Bola Preta e seu presidente de Honra.
Em paralelo à vida profissional, participava de saraus musicais em reuniões sociais, familiares e em festas religiosas.
Em junho de 1939, por exemplo, juntamente com o musicista Ignácio Brandl acompanhou ao piano a senhora Maria Batista Ferraro interpretando Ave Maria de Gounod, na missa às 10 horas do dia 13 em honra a Santo Antônio dos Anjos daquele ano.
Que se registre: Além de Cabral e Brandl, participaram os músicos Manoel dos Santos Bessa, Pedro Maria dos Santos, Plácido Machado, Antônio Figueiró, Ataliba Pacheco dos Reis, Manoel Theodoro, Ícaro Cândido e Sérgio Velozmoro.
No coro vocal: Constância Freitas, Norma Duarte, Alvany Alcântara, Leonor Flores da Silva, Alice Duarte Bessa, Marieta Bessa Silveira, Alyrio Alcântara, Arthur Teixeira, Roberto Francalacci e Fernando Eggert.
De 1942 a 1944 foi membro do Conselho Deliberativo do Clube Náutico Recreativo Almirante Lamego, de nossa cidade.

Homenagens na Laguna em seus aniversários de 1938 e 1939
Concluído em dezembro de 1937 o curso de Direito na Faculdade no Rio de Janeiro retornou à Laguna onde passou a advogar e ministrar aulas no Ginásio Lagunense.
Em 22 de fevereiro de 1938, data de seu aniversário, recebeu uma grande homenagem de seus amigos e familiares.
A data foi comemorada com almoço no Balneário Hotel, no Mar Grosso, nosso primeiro hotel naquele bairro. Como era praxe na época, o homenageado foi buscado em sua residência.
Os oradores se sucederam nos discursos, dentre eles Nunes Varella, Armando Calil Bulos, Major Manoel Grott, Antônio Guimarães Cabral, João Clemente de Carvalho.
 Em 1939 as comemorações se repetiram no mesmo dia 22 de fevereiro. Logo cedo pela manhã já recebia inúmeros amigos na residência de seus pais, no centro da cidade, levando os abraços pelo aniversário.
À noite o aniversariante foi levado ao Clube Anita Garibaldi no bairro Campo de Fora. Foi acompanhado por vários componentes do Cordão Carnavalesco Bola Preta.
Foi recebido à porta da tradicional sociedade pela diretoria que tinha à frente o presidente Júlio de Oliveira.
O Cordão Carnavalesco Bola Branca também se fez representar através do jovem Volnei de Oliveira, filho do advogado e jornalista João de Oliveira.
Farta mesa com bebidas e doces foi servida aos presentes.
Arthur Machado o homenageou com uma crônica publicada no jornal O Albor: 

“(...) Dizia eu, de mim para mim: quanto vale, na vida, o indivíduo saber conduzir-se.
O valor de Mário Cabral nasce do caráter puro que possue, da retidão do seu proceder, da urbanidade de seu trato, da delicadeza de suas ações, da honestidade impressa no exercício de sua profissão”.

Nas férias retornava ao Rio de Janeiro, onde possuía muitos amigos. Lá passava algumas semanas se apresentando como pianista e acompanhando intérpretes da música popular brasileira.


Mudou-se para o Rio de Janeiro
Nos primeiros meses de 1943 passou a morar definitivamente na Cidade Maravilhosa.
Em fevereiro já participava de um chá-dançante promovido pela Liga da Defesa Nacional em benefício de bônus de guerra.
Participaram, entre outros, Carlos Galhardo, Edmundo Maia e a cantora Eny Costa acompanhada ao piano de Mário Cabral.
Em março de 1944 já apresentava na Rádio Cruzeiro do Sul (PRD-2) o seu programa Pif-Paf onde se apresentava ao piano juntamente com muitos de seus convidados.

Anúncio Programa PIF-PAF apresentado por Mário Cabral. Gazeta de Notícias (RJ), de 28 de janeiro de 1945.

Na mesma emissora, a partir de 1946, apresentará outro programa de muita audiência chamado O Coração de uma Cidade, no ar diariamente a partir das 21 horas.

Jornal Diário de Notícias (RJ) de 12 de abril de 1946.

Em seus programas apresentará e acompanhará ao piano, entre outros: a soprano Mercedes Marcial, a cantora de músicas francesas Eleonora Sigelle, a soprano uruguaia Marina Rodrigues Dutra, o tenor Jorge Jarres, a soprano-ligeiro Nazira Manzur, o cantor Fernando Barreto e as cantoras Maria Silvia Pinto e Vanda Oiticica.

Casamento
Em 4 de outubro de 1945 casou-se com a lagunense Abigail Rocha Cabral, filha de Pedro Rocha e Córa Magalhães Rocha, em cerimônia realizada na Capela de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, no Rio de Janeiro, cidade onde os sogros residiam.
O casal tinha três filhas: Abigail, Adail e Maria Luísa.
Pedro Rocha era abastado comerciante na Laguna, proprietário da empresa Rocha & Cia, exportador das famosas marcas de farinha de mandioca Selecta e Sulina.
Córa era lagunense, filha de Luíza Rollin Magalhães e Eugênio Magalhães. Foi a primeira mulher lagunense aprovada em exame de direção de automóvel na Laguna, obtendo assim carteira de motorista. Aliás, tema de matéria já publicada Aqui em 25 de setembro de 2020.

A esposa Abigail Rocha Cabral - Revista Sombra RJ, dez/1949.

Dias depois, o casal veio para Laguna por alguns dias em visita aos seus pais, parentes e amigos.
O casal Mário e Abigail terá duas filhas: Ivone e Suzana.

Atuação na imprensa e em emissoras de rádios
Passou a escrever na Revista Sombra, do diretor Walter Quadros.
Depois, como crítico musical na Folha Carioca, no Jornal Tribuna Popular e mais tarde, e durante muitos anos, no jornal Tribuna de Imprensa, do jornalista Carlos Lacerda, seu amigo com quem dividiu um apartamento no Edifício Olinda nos primeiros e difíceis anos morando no Rio.
Apresentou um programa sobre música na Rádio Ipanema.
Foi autor do verbete da Música Popular da Enciclopédia Barsa.
Foi membro de comissões julgadoras de concursos musicais, entre eles o 1º e 2º Festival Internacional da Canção. E chefe da Delegação do Festival de Cannes (1966).
Foi redator na Rádio Ministério da Educação e Cultura.
Estudou piano com o maestro espanhol Tomás Téran radicado no Brasil nas décadas de 1940/50/60 e harmonia com o maestro Oscar Lorenzo Fernándes.
Trabalhou aos domingos no Programa Casé, de Ademar Casé, na Rádio Philips do Brasil PRAX.
Foi um programa que revolucionou a história da mídia brasileira. O primeiro a pagar cachê aos artistas, primeiro jingle e primeiro contrato de exclusividade com artista.
Pelo programa passaram ícones como Noel Rosa, Carmem Miranda, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi e Orlando Silva.
Mário Cabral acompanhou ao piano a maioria dos cantores e cantoras daquela época e muitos passou a conviver.

Foi pianista de Carmem Miranda
Como pianista foi escolhido para, juntamente com Carmen Miranda e Francisco Alves, divulgar a música brasileira no exterior.
Acompanhou a cantora Carmen Miranda e Roberto Vilmar numa excursão a Buenos Aires, de grande sucesso nas apresentações nos Teatros San Martin e Apolo.
Mário Cabral conviveu praticamente com todos os artistas da época e teve entre seus amigos Haroldo Costa, Flávio Rangel, Carmem Miranda, Ruben Braga, Fausto Wolff, Noel Rosa, Vinicius de Moraes, Silveira Sampaio, Fernando Lobo, Paulo Tapajós, Antônio Bandeira, Paulo Mendes Campos, Álvaro Moreira, Manoel Bandeira, Antônio Maria, Nestor de Holanda, Orestes Barbosa, Dolores Duran, Silvinha Melo, Elisinha Coelho, Ismael Neto, Custódio Mesquita, Joel Silveira, Sérgio Porto, Pomona Politis...
Bom boêmio, viveu a noite do Rio de Janeiro das décadas de 40/50 e 1960.

Num encontro social, casal Mário Cabral e esposa Abigail Cabral Rocha (nas duas extremas) com o Embaixador da Rússia Iacov Suritz e sua filha Elisabeta Suritz. Revista Sombra (RJ) - julho /1946.

A partir de 1966 passou a integrar o Conselho Superior de Música Popular, entidade criada pelo crítico Ricardo Cravo Albin no Museu da Imagem e Som.
Ao piano, com brilhantismo, executava valsas, sambas, sambas-canções, marchas....
Quem o viu e o ouviu ao piano à época, testemunhava que em suas execuções seus dedos davam uma harmonização própria, enriquecendo ainda mais a canções.
Seus amigos diziam que Mário era o acompanhante favorito das estrelas da música, aquele capaz de ouvi-las e de entendê-las.
Colaborou com artigos para a Revista de Música Popular, cujo editor era Flávio Rangel.
Aliás, Rangel costumava dizer que “Mário Cabral mergulhava as mãos numa solução de veludo, antes de ir para o piano, tal a suavidade que sabia tirar do teclado”.

Título de Cidadão Carioca
Em março de 1960, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro concedeu o Título de Cidadão Carioca ao músico e crítico de música Mário Greenhalg Cabral. Proposta do vereador Murilo Miranda (UDN).
Assim o vereador justificou a concessão do título: 

“Participando intensamente há mais de vinte anos do nosso movimento artístico, Mário Cabral se tem revelado um animador incansável, apoiando e estimulando os nossos verdadeiros valores, sem, entretanto, perder aquele senso de equilíbrio e ponderação que constituem a base de toda a sua atividade.
Por isso mesmo, a coluna que mantém em um dos principais órgãos da imprensa carioca, reveste-se de prestígio e autoridade indiscutíveis.
Além de destacar-se por sua atuação na imprensa, Mário Cabral também se recomenda ao apreço e à gratidão dos artistas brasileiros pelo carinho e solicitude com que, como advogado, se tem dedicado, o mais das vezes de maneira desinteressada e com sacrifício dos seus próprios interesses, a todos quantos necessitam de seus serviços profissionais, empenhando-se nessa tarefa, com o mesmo escrúpulo, dedicação e proficiência que tem assinalado a sua atividade na crítica musical”.

O "saudoso" Mário Cabral
Seu amigo Ruben Braga, numa crônica publicada na Revista Manchete em 1953, explicou porque quase todos os amigos de Mário Cabral o chamavam sempre com o epíteto de “o saudoso”.
Contou o cronista Ruben que certa vez, em Petrópolis, no palco do Cinema Capitólio, o cantor das multidões Orlando Silva se apresentava e entre um número e outro exclamou:

-Agora, vou interpretar a valsa Rosa, de Pixinguinha, acompanhado ao piano pelo “saudoso” Mário Cabral.
O apelido pegou e dali em diante sempre que era apresentado nos palcos era chamado como “O saudoso Mário Cabral”.
O próprio Braga dizia que o apelido lhe dava “um certo ar ligeiramente falecido”. Outro amigo reconhecia em Mário “um certo ar nostálgico”.

Falecimento aos 57 anos
O lagunense Mário Greenhalg Cabral faleceu aos 57 anos, às 14 horas do dia 21 de junho de 1968 vitimado por uma fibrose pulmonar, no leito do Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, deixando a esposa Abgail e as filhas Ivone (18 anos) e Suzana (14 anos).
Seu velório aconteceu no Salão de Exposições do Museu Imagem e Som (MIS).
Na ocasião, uma exposição plástica com o tema “Carolina” estava acontecendo e continuou aberta ao público a pedido da esposa Abigail que justificou: “Mário Cabral graças a sua identificação com a arte em seus vários matizes, não se sentiria feliz se assim não o fosse”.
Foi sepultado no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro.
Sempre dizia aos amigos que achava excelente viver, mas se tivesse que morrer, queria ouvir no momento do adeus “Jesus alegria dos homens” - Coral final de uma cantata de Bach.
Seu falecimento foi noticiado em praticamente todos os jornais do Rio de Janeiro, recebendo comentários e adeus de famosos jornalistas.

Em sua coluna sobre teatro na Tribuna de Imprensa de três de julho de 1968, Fausto Wolff escreveu:

“Morreu o bom caráter Mário Cabral. E a gente não tem outra coisa a fazer se não ficar olhando com cara de besta para esses acontecimentos sem resposta.
Não há nada que me dê mais raiva que a morte de um bom caráter. Acho que pretendem extinguir assim a espécie”.

Haroldo Costa, outro dos seus grandes amigos escreveu no Diário de Notícias de 26 de junho de 1968:

“Morreu Mário Cabral. A frase é tão violenta, tão crua, que se torna difícil articulá-la ou escrevê-la.
Poucos amaram o Rio e as suas manifestações artísticas quanto aquele pianista amador que tocava com desembaraço e integração uma composição de Ernesto Nazaré ou Antônio Carlos Jobim.
Seu sorriso permanente era uma festa para os seus amigos e o seu conhecimento de causa merecia todo o respeito dos seus pares. Foi um homem de muitos amigos.
Com o nosso Mário foi um pedaço bom deste Rio que ele amava cariocamente. Sua falta será sempre sentida. Foi um privilégio ter sido amigo do saudoso Mário Cabral".

A colunista e jornalista Pomona Politis no Diário Carioca de 25 de junho de 1968 escreveu assim o necrológio:
 
Ao velho amigo que se foi
“(...) Você partiu. Não é letra de samba, o samba que você tanto cultivou. É a dura realidade na linguagem singela das palavras.
Aqui, deste canto que os seus olhos varavam todos os dias, fica o pensamento sempre em você, quando eu tiver de enumerar reconhecida os bons de alma os entes inesquecíveis. Adeus meu amigo, Mário Cabral”.



30 junho 2026

A jangada que veio do Norte e passou por Laguna

 
Entre o último trimestre de 1951 e os primeiros meses de 1952, uma viagem marítima movimentou o Brasil e foi acompanhada atentamente pela imprensa e população.
Cinco pescadores partiram de Fortaleza no Ceará a bordo de uma pequena jangada, num rally pela costa brasileira. Tinham como destino a cidade de Porto Alegre no Rio Grande do Sul.
No longo trajeto de quase 5 mil quilômetros vão adentrar à Barra da Laguna e navegar até às águas da Lagoa Santo Antônio dos Anjos, em frente ao cais do centro da cidade.

Acompanhe essa interessante história, a partir de agora:

A jangada que veio do Norte. Revista Eco de 15 de março de 1952.

      
A partida
Alvorecer de 14 de outubro de 1951, um domingo, Praia do Meirelles, Fortaleza, Ceará.
Cinco pescadores partem numa expedição de cerca de 5 mil quilômetros pelo litoral brasileiro, a bordo de uma pequena jangada com dois metros de largura por seis de comprimento.
Uma embarcação frágil, cujo “casco” é composto por cinco toras de madeira (piúba), unidas lado a lado, com um pequeno mastro para sustentar a vela com 60 metros de pano. Uma rede estirada servia como cama onde os tripulantes se revezavam.
A alimentação durante a longa viagem era formada por rapadura, carne seca, farinha de mandioca e peixe pescado, além de alguns galões d’água potável.
Detalhe: viajavam sem qualquer instrumento de navegação, como bússola ou uma carta náutica.
Eram guiados pelas estrelas, coloração das águas, ventos e sol.
O nome da jangada é Nossa Senhora da Assunção, padroeira do Ceará.
O projeto da viagem foi de Stênio de Azevedo, redator do jornal Correio do Ceará e patrocinado pelo O Globo, do Rio de Janeiro.
Um avião fretado especialmente pelo O Globo acompanhava por via aérea o percurso, pilotado pelo comandante Bonifácio Piechock, tendo a bordo o redator do daquele jornal, José Maria Neves.

Deu no New York Times
A façanha ganhou destaque na imprensa internacional. O sisudo jornal New York Times trouxe matéria.
O cineasta Orson Welles por causa da audaciosa aventura, produzirá um inacabado documentário intitulado É Tudo Verdade, sobre os personagens.
A tripulação da jangada era composta pelo mestre Jerônimo André de Souza, 49 anos, comandante.
Manoel Lopes da Silva (Mané Preto), 49 anos.
Raymundo Correia Lima (Tatá) 62 anos.
Manoel Lopes Martins (Frade) 61 anos e
João Batista de Oliveira (Trinta e um) 31 anos.

Os cinco jangadeiros. Jornal Imprensa Popular (RJ), de 20 de dezembro de 1951.

A travessia era uma forma inusitada de denunciar a precária situação dos pescadores do Ceará e de outros estados.
A jornada era uma aventura marítima transformada em ação política.
Traziam um memorial onde reivindicavam direitos sociais, como aposentadoria e criação de um sindicato para a categoria.
Pediam uma assistência mais concreta e eficiente aos pescadores de todo o Brasil.
O documento era para ser entregue ao presidente Getúlio Vargas.

As escalas pelo litoral
Fizeram várias escalas: Natal, Cabedelo, Recife, Maceió, Salvador, Vitória, Macaé.
Em cada porto eram recebidos como heróis por verdadeiras multidões. Eram entrevistados, fotografados e convidados para passeios e jantares.
No Rio de Janeiro chegaram em 16 de dezembro de 1951 no Posto 6 de Copacabana, após 63 dias de viagem. Desfilaram pela avenida Rio Branco sobre um caminhão. Por cortesia, hospedaram-se no Grande Hotel Presidente.
Foram recepcionados por Vargas no Salão de Despachos do Palácio do Catete, a quem entregaram em audiência o memorial com as reivindicações.

“O trecho sul é muito perigoso, até navios têm por ali desaparecido
Após a solenidade, foram aconselhados a não prosseguir a jornada, encerrá-la na então Capital Federal, afinal a tarefa estava cumprida.

Jornal O Estado - SC de 5 de fevereiro de 1952.

O Almirante da Marinha Frederico Vilar, experiente nas lides do mar, profundo conhecedor de toda a costa brasileira foi um dos que fizeram o pedido, justificando que de Santa Catarina até o Rio Grande do Sul o litoral era muito perigoso. Sobre o trecho sul realçou: 

“Até navios têm por ali desaparecido sem que se saiba o que lhes ocorreu. É muita temeridade enfrentar esses mares do sul com uma jangada. E essas vidas são preciosas. São valentes brasileiros que bem representam o espírito de arrojo e de patriotismo de tal classe”.

Mesmo com os insistentes apelos, a viagem prosseguiu. Mas um dos pescadores, Raymundo Correa Lima (Tatá) ficou para trás, internado num hospital da cidade maravilhosa, por ter contraído malária.
Em seu lugar, para cumprir a etapa final, embarcou Vinicius Lima, jornalista de O Globo.

Do Rio de Janeiro até Paranaguá
Partiram do Rio de Janeiro, da Praia de Copacabana às 12 horas do dia 3 de janeiro de 1952 em direção ao porto de Santos. Concluíram o trajeto em 72 horas chegando em Santos no dia 6 de janeiro.
Durante dez dias receberão inúmeras homenagens, participarão de jantares e visitarão outras cidades, como Campinas e a capital do estado.
Em 16 de janeiro partirão de Santos às 9 horas em direção ao porto de Paranaguá, no litoral do Paraná, aonde chegarão dois dias depois, em 18 de janeiro.
Novas homenagens e visitas, recebimentos de medalhas. Visitarão Curitiba, para onde a jangada será transportada via terrestre e ficará em exposição na Praça Tiradentes.
Partirão em 25 de janeiro em direção a Florianópolis.

Os jangadeiros em sua embarcação. Revista Eco RS, de 15 de março de 1952.

De Paranaguá até Florianópolis
Apesar dos ventos, chuvas e trovoadas, a jangada chegará na Baía Norte de Florianópolis ao meio-dia de 31 de janeiro de 1952, defronte ao Clube Náutico Aldo Luz.
Uma multidão calculada em 15 mil pessoas aguardava a embarcação e seus tripulantes, conforme cálculos da imprensa da época.
 A jangada foi retirada das águas pelos braços do povo, levada e depositada em frente ao Hotel La Porta, na Praça XV de Novembro onde ficou exposta.
Os pescadores e mais o jornalista foram recepcionados pelo prefeito Paulo Fontes e ficaram hospedados na cidade por oito dias.
A jangada só vai partir de Florianópolis no sábado, dia 8 de fevereiro, às 13h40
Por determinação do Almirante Carlos da Silveira Carneiro, comandante do 5º Distrito Naval sediado na capital catarinense, a partir de Florianópolis a jangada será acompanhada pelo Rebocador Tritão (R-21) até o Rio Grande do Sul.
O navio era comandado pelo capitão de Corveta Hélio Leôncio Martins.
O mesmo rebocador do Malteza's
Um detalhe curioso: este Rebocador Tritão (R-21) da nossa Marinha Brasileira será o mesmo que, muitos anos depois, em 26 de maio de 1979, atendendo pedido de SOS, tentará socorrer primeiramente o navio grego Malteza S quando este for encalhado na praia do Gy, na Laguna.

Jornal O Albor anunciou a previsão de chegada da jangada na Laguna
O jornal lagunense O Albor de 9 de fevereiro de 1952 noticiou a previsão de chegada da embarcação em águas da terra juliana, com o título: 

Jangadeiros Cearenses
“Conforme comunicação de Florianópolis, deverão ter saído esta madrugada daquele porto, os Jangadeiros nordestinos, cuja chegada é aguardada aqui às últimas horas da tarde de hoje.
Providências estão sendo tomadas pelas autoridades naval e municipal, no sentido de ser a jangada rebocada das proximidades da Ilha dos Lobos até o ancoradouro da Capitania do Porto local, e assim facilitar a entrada da Barra.
Caso contrário deverá abicar na praia do Mar Grosso.
Os Jangadeiros aguardarão neste porto a chegada do Rebocador Tritão da nossa Marinha de Guerra, especialmente enviado do Rio Grande do Sul, por determinação do Comando do 5º Distrito Naval para comboiá-los durante todo o trajeto deste Porto ao do Rio Grande”.

Jornal lagunense O Albor de 9 de fevereiro de 1952.

   Como já vimos, o Rebocador Tritão já se encontrava em Florianópolis e acompanhou a embarcação até o porto do Rio Grande, passando por Laguna.

De Florianópolis para o sul, passando por Laguna
Após mais de uma semana na Capital catarinense, em 8 de fevereiro de 1952, uma sexta-feira, às 7 horas partiram da Barra Sul de Florianópolis.
Passaram por Imbituba às 23 horas do mesmo dia.
No dia seguinte (9), sábado pela manhã, rebocados pelo Tritão, adentraram a Barra da Laguna até à Lagoa Santo Antônio dos Anjos, proximidades da Agência da Capitania dos Portos.

À direita na foto, a jangada com a vela arriada, junto ao cais da Laguna no fundo dos armazéns, ali na Paixão, imediações da Capitania dos Portos.

O povo lagunense vibrou de entusiasmo, se postando ao longo do cais do centro da cidade (como se pode observar na foto) para receber os pescadores e sua jangada, rebocada pelo Tritão da entrada da barra até as águas calmas da lagoa no centro.

No recorte da foto, pode-se observar melhor a Jangada.

Foram bastante aplaudidos em seu feito, com os lagunenses dando mais uma vez mostras de seu espírito fraterno.
A parada foi curta e na mesma manhã reiniciaram a jornada para o sul.
Em poucas horas já se encontravam passando pela Barra de Araranguá, viajando normalmente com ventos favoráveis.
No fim de tarde daquele mesmo sábado (9), por volta das 18 horas, passaram por Torres.
No dia 11 (segunda-feira), no começo da tarde foram avistados a três quilômetros da Barra do Rio Grande.
Por causa de um temporal, se abrigaram num trecho próximo à Barra, para no dia seguinte (12) adentrá-la.

Enfim, Porto Alegre
No dia 18 de fevereiro, e ainda acompanhado pelo Rebocador Tritão, os pescadores partiram do porto do Rio Grande em direção a Porto Alegre.

Jornal do Dia - RS, de 13 de fevereiro de 1952.

Após alguns percalços na Lagoa dos Patos, a jangada chegou à Praia de Belas às 15 horas do dia 19, comboiada por muitas embarcações e onde uma multidão os esperava.
Às margens do Guaíba o prefeito Ildo Meneghetti fez entrega simbolicamente das chaves da cidade e o governador Ernesto Dornelles discursou, dando boas-vindas.
Raymundo Correia Lima (Tatá) já aguardava para se juntar ao grupo, vindo do Rio de Janeiro dias antes em viagem aérea.
Os jangadeiros visitarão várias cidades gaúchas, numa outra maratona, desta vez terrestre e aérea.
Além de Rio Grande e Porto Alegre, foram a Caxias do Sul, São Borja, Uruguaiana, Santana do Livramento, Bagé, Santa Maria e Cruz Alta, entre outras. Um avião da FAB foi colocado à disposição.

Retornando para casa
Após todos esses dias no Rio Grande do Sul, partiram no dia 10 de março em avião da Cruzeiro do Sul de retorno ao Ceará, com escalas em Santos (SP) e Rio de Janeiro.
Na Capital Federal ainda ficarão por cerca de 20 dias, recuperando-se, recebendo mais homenagens e encontrando-se novamente com o presidente Getúlio Vargas.
Finalmente, no dia 31 de março de 1952 chegaram de volta ao Ceará.
Em Fortaleza foram recepcionados no aeroporto por uma multidão, além de diversas autoridades, entre elas o prefeito Paulo Cabral e o governador do estado. Desfilaram em cortejo pelas ruas da cidade.
Num palanque especialmente montado, foram condecorados com medalhas de ouro.

A jangada ficou no Museu Júlio de Castilhos
A jangada ficou para trás, doada para compor o acervo do Museu Júlio de Castilhos, do Estado do Rio Grande do Sul 
Numa solenidade realizada no dia 9 de março de 1952, com a presença dos jangadeiros, o prefeito de Porto Alegre, Ildo Meneghetti fez a entrega da embarcação cearense ao diretor do Museu, professor Dante de Laytano.

Benefícios sociais e econômicos conseguidos para a classe
Após vários meses, o Governo Federal acenou com algumas poucas medidas que visavam beneficiar os pescadores.
Entre elas estavam a criação de uma cooperativa de produção e consumo, fixação de um salário-mínimo base para a categoria, filiação dos pescadores a um instituto social, instalação de oficinas e construção de embarcações motorizadas em substituição às precárias jangadas.

27 junho 2026

Parabéns, Salete, pelo seu aniversário

Aniversariou na última segunda-feira (22) seus 80 anos de vida, Maria Salete Folchini Barreiros, esposa do procurador de Justiça aposentado, Sidnei Bandarra Barreiros.
O níver foi devidamente comemorado neste sábado (27) ao lado de familiares, amigas e amigos com um almoço no Restaurante Mix Lagoa no Mercado Público da Laguna.
Convidados, lá estivemos para dar nosso abraço à aniversariante.
Daqui deste espaço nossos mais sinceros parabéns, desejando muita saúde e felicidades a Salete, de espírito jovem, pessoa do bem, exemplo de superação e de força de vontade.
Cobertura fotográfica: Elvis Palma.

        
       
       

Padre Marcos Herdt grande amigo da família, junto à aniversariante.