23 julho 2026

O padre assassinado na Laguna, durante a República Catharinense em 1839

     22 de julho de 1839. Após vencer as forças legais do Império, os farroupilhas-republicanos vindos do Sul tomam a Vila da Laguna.
Sete dias depois, em 29, é proclamada a República Catharinense, tendo Laguna como primeira capital, denominada Cidade Juliana.
O povo exulta em festas pelas ruas. O pároco local, Francisco Villela de Araújo reza missa em Ação de Graças na matriz Santo Antônio dos Anjos. Faz brilhante oração. É adepto fervoroso da nova forma de governo.
Quase quatro meses depois o cenário será outro. Desmandos, violência e o saque de Imaruí, entre outros fatores, põem em xeque o sistema implantado.
Há contestações, protestos, revoltas, conspirações e perseguições aos descontentes com os rumos.

O padre lagunense Villela, preso e posteriormente morto pelos farrapos-republicanos na República Catharinense em 1839. Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA).

A Laguna que antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Por isso, cerca de 60 pessoas serão encarceradas nos porões de navios. Dentre elas o padre Villela, que ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos.
O vigário será morto na véspera da Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, na Barra da Laguna, onde os republicanos serão derrotados pelas forças legais marítimas lideradas pelo Almirante Frederico Mariath.
Um processo de Inventário da nossa Comarca comprova o assassinato do sacerdote lagunense. (Veja abaixo a cópia da Capa do Processo de Inventário).

“Um mártir da verdade”, diz Bispo
No começo deste ano, em 18 de janeiro de 2026, um domingo, aconteceu a posse canônica dos novos padres da igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos.
A acolhida dos novos sacerdotes em suas novas missões foi durante a Missa das dezenove horas presidida pelo Bispo Diocesano Dom Adilson Pedro Busin.
Antes de abençoar a todos os presentes, Bispo Adilson lembrou de um padre que foi morto aqui na Laguna.
 “Li sua história, ele foi um mártir da verdade”, ressaltou Busin.
O sacerdote referido foi o padre Francisco Villela de Araújo, trucidado pelas tropas farroupilhas em 1839.

Um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes
Após 117 dias da Tomada da Laguna em 22 de julho de 1839 e da Proclamação da República Catharinense em 29 do mesmo mês, tendo com capital provisória a Cidade Juliana da Laguna, os farrapos bateram em retirada pelos campos da Passagem da Barra e do Camacho em direção ao Sul, onde tomaram rumos diferentes.
A fuga deveu-se à derrota na Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, à entrada da Barra da Laguna.
Deixaram no passado as esperanças liberais de uma nova forma de governo, o republicano.
Ficaram também para trás um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes.
Mesmo antes de os farroupilhas aparecerem por aqui, já haviam muitos adeptos de doutrinas liberais vivendo em nossa região, inclusive os que faziam parte do clero que exerciam enorme poder sobre a população.
 Basta dizer que o primeiro padre a presidir a República Catharinense foi Vicente Ferreira dos Santos, vigário da Enseada de Brito.

Villela: “Um padre cheio de patriotismo e fervor republicano”
Outro padre que se destacou naqueles tempos foi o vigário da Paróquia da Laguna, Francisco Villela de Araújo. Republicano de primeira hora, recebeu de braços abertos a chegada dos farroupilhas.
“Um dos mais entusiasmados, que rezou missa em Ação de Graças em vibrante oração, cheia de patriotismo e de fervor republicano”, escreveu o historiador Henrique Boiteux.

Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos em foto do século XIX, ainda sem as duas torres, erguidas em 1894. Foi nesta igreja que o Vigário da Laguna Francisco Villela de Araújo rezou missa em Ação de Graças quando da chegada dos Farrapos-Republicanos. Quase quatro meses depois seria preso e morto pelos mesmos revolucionários.

“O sonho converteu-se em pesadelo”
Passados os primeiros meses o ambiente mudou radicalmente. Com a barra fechada à navegação comercial, nada saía nem entrava pelo porto lagunense. O comércio ficou estagnado.
Comerciantes e armadores começaram a se queixar por não conseguirem movimentar seus negócios pelo porto e ainda terem que sustentar toda uma estrutura militar e civil instalada.
Ninguém apoia um movimento, uma revolução para ver piorar sua vida e a vida da população.
“O sonho converteu-se em pesadelo”, no dizer do historiador Oswaldo Cabral.

Da alegria ao desespero
A população lagunense da alegria dos primeiros dias passou à preocupação e ao desespero pela falta de alimentação e outros gêneros. Além do mais, o general David Canabarro ordenou o confisco de gêneros alimentícios que porventura ainda existissem.
E aí desordens de todo tipo e perseguições aos descontentes e aos que não aceitavam os atos do novo governo começaram a acontecer.
A Laguna, que antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Tudo isso culminou com o Massacre de Imaruí, nos dias 9 e 10 de novembro de 1839, que abalou de vez a República recém-criada.
A Freguesia de São João Batista de Imaruí foi criada em 1833. No mesmo ano, em 23 de março, passou a ser Distrito da Laguna. Somente em 27 de agosto de 1890 foi desmembrada da Laguna.

“Essa freguesia muito sofreu”
Francisco Isidoro Rodrigues da Costa, que foi juiz de Direito na Laguna, deixou um precioso manuscrito datado de 1881 onde descreve Laguna e região.
Sobre o saque a Imaruí escreveu: 

“Essa Freguesia muito sofreu por ocasião da guerra civil dos Farrapos ou rebeldes do Rio Grande, entrando estes nela de assalto, saquearam as casas de negócio e de moradia. Isso em 1839”.

“O saque e massacre foram terríveis”
Sobre o saque (massacre) de Imaruí, o padre, pesquisador e historiador João Leonir Dall Alba registrou em sua obra Laguna Antes de 1880:

“O saque foi ordenado por David Canabarro, em represália à revolta da povoação contra a prepotência do Governo da República da Cidade Juliana da Laguna. Garibaldi em suas memórias lamentou sua participação no episódio. O saque e massacre foram terríveis”.

“Olhos arrancados e punhaladas”
Padre Villela ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos e, por isso, enfrentou a força do General Canabarro.
Lindolfo Collor em sua obra o descreveu: “Canabarro era prepotente, áspero, caráter intolerante, não captava simpatia, não agremiava dedicações, nem semeava entusiasmos”.
Aliás, o próprio Garibaldi em suas memórias a Alexandre Dumas sobre Canabarro disse: “O instinto de ódio e de vingança se aninhava na alma daquele chefe farroupilha”.
Sua fúria se fez sentir na Laguna, onde foi impiedoso contra os revolucionários, agora desiludidos.
Por sua ordem sessenta lagunenses foram presos nos porões dos navios, tendo quinze deles morridos carbonizados no porão da escuna Itaparica que voou pelos ares na Batalha de 15 de novembro de 1839, conforme Boiteux.

Sobre a morte do padre Villela, o já citado Henrique Boiteux registrou em sua grandiosa obra A República Catharinense Notas para sua história - Imprensa Naval, 1927:

 “Quando se viram perdidos os republicanos viraram-se os soldados rio-grandenses contra os filhos da província com inaudita brutalidade. O padre Villela e o major da Guarda Nacional da Laguna, Francisco Gonçalves Barreiros, autores de uma reação e que se achavam presos foram assassinados.
O cadáver do padre Villela, foi encontrado na barra junto à fortaleza com os olhos arrancados e crivado de punhaladas. Conduzido para a Vila ali foi enterrado.
O do major Barreiros que foi castrado também teve idêntico enterramento”.

Barreiros preso na corveta Itaparica
O maior pesquisador sobre a lagunense Anita, Wolfgang Ludwig Rau em sua grandiosa obra Anita Garibaldi O Perfil de uma Heroína Brasileira não abordou o assassinato do padre Villela.
Sobre a prisão do major Barreiros, Rau escreveu:

“Também em Laguna houve excessos e vinganças de última hora, praticadas por maus elementos componentes dos retirantes farroupilhas.
Francisco Gonçalves Barreiros, legalista, tinha um navio pronto no estaleiro quando entraram os farrapos, que tomaram conta da embarcação. Ao chegarem as forças legais, Barreiros foi conduzido preso para bordo da Itaparica”.

Exclusivo: O Inventário do padre Villela
Alguns historiadores e pesquisadores duvidam do assassinato do padre Villela pelos farrapos-republicanos. Tanto que nem abordam essa morte em suas obras e pesquisas.
Mas o processo de Inventário existe e ele mostra que o padre deixou poucos bens. Na capa do processo está escrito: "Assassinado pelos rebeldes da Província do Sul".
         

Arquivo da Comarca da Laguna - Ano de 1839 - Capa do Inventário do Vigário Francisco Villela de Araújo "assassinado pelos rebeldes da Província do Sul".

Uma cômoda e dois aparadores de jacarandá, doze cadeiras de palha da mesma madeira, uma mesa de abas com gavetas, uma marquesa armada de cama, uma mesa de jantar, de cedro, um selim, manta e freio.
Como só restaram as peças de montaria, certamente o cavalo pertencente ao padre foi confiscado pelos farrapos.
O padre Villela possuía um escravizado de nome João. Conforme anotação na própria Capa do Inventário, João “fugiu com os rebeldes” (farroupilhas).
É bem provável que tenha partido livre com a tropa dos Lanceiros Negros, do general Antônio de Souza Neto.
Nos autos do processo emitido pela nossa Comarca, ainda no próprio ano de 1839, no mês de dezembro, ficamos sabendo que consta o Requerimento de João Villela residente em Portugal se apresentando como único herdeiro.
Assinam o Inventário: como Curador dos Bens Arrecadados: Manoel José Garcia. Juiz de Paz: Bento José da Silva. Juiz de Órfãos Interino: Pedro Francisco da Silva. Escrivão Interino: Francisco Pacheco dos Reis. Escrivão dos Órfãos: Manoel Joaquim da Costa. Escrivão: Vicente José Góes Rebelo.
 
“Metade das casas em ruínas ou abandonadas”
Laguna vai levar muitos anos para se recuperar daqueles quase quatro meses da tomada republicana.
O engenheiro e pesquisador belga Charles Van Lede que aqui esteve em 1843, portanto, apenas quatro anos depois dos acontecimentos em nossa cidade, dedicou em sua obra Colonização do Brasil, algumas linhas:

 “A Vila da Laguna tem perdido muito de sua importância desde a invasão dos Farrapos em 1839. A metade de suas casas estava em ruínas ou abandonadas.
Na verdade, ela começava a se refazer dos desastres de então, e algumas novas construções com mais cuidado e elegância tinham já substituído as antigas.
Mas, no entretanto ela não estava inteiramente restabelecida da rude prova que acabava de resistir”.
 
Nem tudo foi paz e amor
Como vemos, nem tudo foi paz e amor como alguns romantizam a violência daquele período da nossa história.
A paixão de Anita e Garibaldi foi um capítulo à parte. Gloriosas páginas de amor, coragem e superação, não restam dúvidas e que devem ser sempre valorizadas, mostradas e contadas às novas gerações.
Exatos cinquenta anos depois, em 15 de novembro de 1889 a República no Brasil foi proclamada também pela força das armas.
Mas desta vez os agentes foram militares. Não houve guerra civil e a República não esperou o amanhecer para nascer. 

16 julho 2026

“Laguna, filha do mar...”

 
Eis um verso histórico do Hino do Coral Santo Antônio dos Anjos: “Laguna, filha do mar”, de autoria de Archimedes de Castro Faria.
Nada mais verdadeiro. Nossas ligações com o mar não são apenas físicas, geográficas. São também, e sobretudo, históricas, econômicas e sentimentais.

Porto da Laguna - Centro da cidade - Década de 1920. À direita o antigo Mercado Público e no alto da foto a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Duas edificações não mais existentes. O porto continuava sendo de carga mas já recebia o carvão nos vagões da Estrada de Ferro Teresa Cristina para o transporte marítimo. 

Foi pelo mar que aqui chegaram os primeiros colonizadores. Foi pelo cais do porto da Laguna que desembarcaram os imigrantes para povoar as colônias do Sul do Estado.
Pela sua barra vinham e partiam as riquezas. Escoadouro da lavoura e pecuária da região. Chegada de produtos manufaturados.
Pelo seu velho porto passavam os gêneros de exportação: banha, carne de porco, peixe e camarão secos, feijão, farinha de mandioca... E de importação: querosene, enlatados, ferro, cimento...
Aqui aportavam os viajantes de todo o país a bordo de navios diretamente vindos de distantes portos do Brasil. Viajar ao Rio de Janeiro, então capital federal, era rotina.
Viagens de negócios, contatos políticos e com autoridades, passeios, buscas de melhores tratamentos e profissionais médicos para a saúde debilitada.
Laguna-Desterro-São Francisco do Sul-Paranaguá-Santos-Rio de Janeiro. E vice-versa. Esta era a rota. Linha regular que singraram nossos antepassados.

Movimento de Importação e Exportação pelo Porto da Laguna em setembro de 1938.

Laguna vivia então sua pujança econômico-social. Tempos de empreendedorismo, luxuosas construções, comércio ativo, indústrias. Pioneirismo nas áreas educacional e cultural.
Mas, um dia afastaram a Laguna do mar. Do mar que a fez crescer e prosperar.

Porto Carvoeiro da Laguna - Década de 1950, já utilizando guindastes.

O porto de mercadorias tornou-se carvoeiro, acenaram na década de 1950 com uma siderúrgica, depois inventaram o porto ser pesqueiro. E mais tarde simples terminal de pesca. Retiraram os guindastes e os trilhos.
Era o início do declínio econômico do município.

Em primeiro plano pescadores artesanais com suas tarrafas à espera dos botos. Em segundo plano o prédio do então Porto Pesqueiro da Laguna. Ano 1998. Foto: Valmir Guedes Júnior

O porto da Laguna continua lá, esquecido. Vez ou outra, principalmente em ano de eleições, surgem as promessas miraculosas. Acenam estudos, novos projetos, análises técnicas, salvação. 
Tudo fumaça.
Eternos estudos que atravessam os séculos. Nunca na história um porto foi tão estudado.
Batimetrias, diagnósticos analíticos de viabilidade, sondagens, pesquisas hidroviárias, levantamentos topo hidrográficos...
Os primeiros deles foram realizados ainda no século XIX, no recuado ano de 1864 pelo Barão de Teffé, diretor geral da Repartição Hidrográfica, sediada no Rio de Janeiro. Ainda tempos do Brasil Império.
Em 1886 novos estudos efetuados, desta vez pelo capitão-tenente Francisco Calheiros da Graça.
E esses mesmos estudos e projetos continuaram e se repetiram pelos anos seguintes de:
1891,1924,1926,1953,1957,1969,1970,1971,1985,1989,1990,1993,1994...
Passam-se os anos, gerações se sucedem e nada acontece. E ainda hoje, por incrível que pareça, depois de 162 anos dos primeiros levantamentos e pesquisas, novos estudos da nossa barra e porto são encomendados.

Porto da Laguna em 2026. Foto: Adolfo Pedro Veiga da Silva.

E a barra, canal e porto continuam lá. A barra obstaculizada em suas pedras submersas do molhe sul sem o conserto que ninguém faz.
O canal e lagoa cada vez mais assoreados, sem receber regulares dragagens como em outros portos.
E a profusão de siglas referentes ao porto também atravessaram os tempos nas memórias dos lagunenses: COBRASIL, DNPVN, INPH, CEPCAN, SIDESC, SIDERSUL, APL, PROLAG, SUDEPE, PROMOPÊCHE, PROMOPESCA, CODISC, PORTOBRÁS, CODESP...
Dezenas de siglas que alimentaram a esperança de dias melhores. Mas que passaram.
O povo da Laguna já está cansado de promessas e de ouvir o NÃO em seus desejos e aspirações.
Há que haver uma ampla mobilização de todos os segmentos da sociedade em busca de uma solução. Haverá?
A franquia de sua barra e a operacionalidade do seu porto é luta antiga, sonho de sucessivas gerações. Quando se tornará realidade?
Que a redenção da Laguna um dia chegue e que todos esses registros se tornem páginas viradas do passado.

OBS: Texto original deste autor publicado no jornal Omarginal: Cultura, Arte e Literatura - Edição Especial, Laguna, 350 anos. Ano 2. Nº 7.

14 julho 2026

Jornal OMARGINAL: Cultura, Arte e Literatura - Laguna 350 anos - Edição Especial

Em circulação na Laguna e Tubarão o nº 7 do jornal Omarginal: Cultura, Arte e Literatura, em sua Edição Especial Laguna 350 anos. Editor Fernando Faísca Rosa.
Na capa e contracapa do jornal imagens de antigos cartões-postais da Laguna.

Jornal Omarginal: Cultura, Arte e Literatura. Edição Especial. Laguna 350 anos. Ano 2. nº 7

Colaboro com o artigo “Laguna, filha do mar...”, mostrando que a operacionalidade do nosso porto é luta antiga, sonhos de sucessivas gerações.

Na página 3, em Lembranças da Laguna: os antigos cartões-postais e a representação da imagem da cidade, Fabiano Teixeira dos Santos destaca os antigos cartões-postais como importante fonte iconográfica e documental do passado das cidades.
Na página 4, em Laguna 350 anos: alguns pontos, João Pacheco de Souza aborda sobre a diversidade de temas e escritos que tratam sobre a história da Laguna.
Na página 5, em O Tombamento do Centro Histórico de Laguna e os desafios para sua preservação, Liliane Monfardini Fernandes de Lucena reflete sobre os desafios para a preservação do Centro Histórico.
Na página 6, Willian Costa expõe o período histórico em que a Irmandade de Nossa Senhora do Parto foi um símbolo de fé, religiosidade e resistência negra na cidade, com Uma Irmandade negra na Igreja Matriz de Laguna.
Na página 7, em Pelas margens do Atlântico: diáspora africana em Laguna no século XIX, de André Fernandes do Passos, revisita um longo período de intensificação da população africana e afrodescendente na Laguna.
Na página 8, em Laguna e a tradição das canoas de convés, Cláudia Búrigo apresenta a história do desaparecimento da canoa de convés, embarcação que faz parte da memória dos moradores.
Na página 9 com o artigo “Laguna, filha do mar...”, Valmir Guedes Júnior mostra que a operacionalidade do nosso porto é luta antiga, sonhos de sucessivas gerações.

Em Jogos, brinquedos e brincadeiras: memórias da infância lagunense, na página 10 Gildo Volpato descreve a memória de quem brincou nas ruas, nos morros e nas praias.
E Joice de Souza Avelina Costa na página 11 nos faz refletir sobre a pergunta: onde começa, de fato, a história de Laguna? Em Laguna antes de Laguna: os sambaquis e as memórias de longa duração da paisagem.

12 julho 2026

Moto Laguna na Praça República Juliana: Um local inadequado

 
Foi no mínimo infeliz, em minha opinião, a escolha da Praça República Juliana no Centro Histórico para sediar mais uma edição do moto Laguna nos dias 24 e 25 de julho próximos.
Acho um abuso, uma falta de consideração e respeito com os moradores.
O local é pequeno, estreito, calçamento de paralelepípedos, com moradores em sua maioria idosos, alguns enfermos, morando em casas geminadas que trepidam com qualquer som alto.
A região, além do mais, por sua arquitetura, propaga e amplifica qualquer som. É uma verdadeira caixa acústica de ressonância.
Agora imaginem essa pequena área triangular receber cerca de mil motocicletas (os organizadores falam de 800 a 1.000 desses veículos) no local acelerando, roncando e soltando gases dos escapamentos?
Cadê a propagada preservação do patrimônio cultural e histórico das edificações e a qualidade de vida dos moradores?

Hóspede indesejado e do barulho
Pois é. Os moradores da Praça Seival lá nos Molhes não querem o moto Laguna, os moradores do Mar Grosso de uma maneira geral não querem o evento lá, o porto não quer em sua área, o Laguna internacional não quer em suas imediações, na Barbacena eles não querem.

Empresários discordam desse evento na Praça
E não são somente os moradores da “Praça de Anita” e seu entorno que estão preocupados e se opõem ao evento nesse local. Até empresários da região são contrários e questionam a escolha.
Em matéria publicada no Jornal de Laguna desse último fim de semana a empresária Lívia Collantes, ligada ao ramo gastronômico, disse que sua principal preocupação é a preservação do patrimônio histórico.
“Um evento desse porte pode comprometer a tranquilidade da área, aumentar o fluxo de veículos, gerar excessos de ruídos e deixar imóveis históricos mais vulneráveis”, salientou a empresária.
Lívia também informa que não houve consulta prévia aos comerciantes sobre a definição do local.
A empresária também entende que “um espaço fechado, fora das adjacências do Centro Histórico seria mais adequado para sediar um evento desse porte”.
Outra empresária no local, Suelen Dias também manifestou ao Jornal de Laguna sua preocupação com a realização do evento na Praça, dizendo que o “Moto Laguna demandaria um espaço mais compatível com sua estrutura".
A empresária também informa que os comerciantes da região foram convidados para uma reunião “apenas após a definição do local”.

Moradores não foram consultados, nem participaram de reunião com prefeitura
Acrescento como morador do entorno da praça que, ao contrário do que informa a prefeitura e organizadores, os moradores da Praça República Juliana e seu entorno não foram convidados, consultados ou participaram de reunião prévia sobre o projeto e escolha do local. 
Foram pegos de surpresa com a divulgação pela imprensa da realização do evento na praça.
Fico pensando e me perguntando cá com meus botões: Será que tem autorização? Laudos de Impacto Ambiental? De Impacto de Vizinhança? Alvarás da Polícia Militar? Da Polícia Civil? Do Corpo de Bombeiros? do IPHAN? para realização ESPECÍFICA do moto Laguna na Praça República Juliana?
Não me refiro a autorizações para montagens de tendas e palco para shows pelos 350 anos de aniversário da cidade. Isso é uma coisa.
Falo desse evento ESPECÍFICO do moto Laguna com todos os transtornos que pode causar.
Com a palavra as nossas autoridades, inclusive os nobres vereadores que representam os anseios da população lagunense.

08 julho 2026

O "saudoso" lagunense Mário Cabral, pianista que tocou para Carmen Miranda

Lagunense, filho de lagunenses, de tradicional família. Aprendeu a tocar piano com sua mãe. Depois dos estudos iniciais cursou Direito no Rio de Janeiro. Formado, retornou à terra natal para exercer a profissão. Foi professor do Ginásio Lagunense, um dos fundadores do Cordão Carnavalesco Bola Preta de nossa cidade. Casou-se com uma lagunense.
Retornando ao Rio de Janeiro, então Capital Federal, escreveu sobre música em grandes jornais, apresentou programas em emissoras de rádio e acompanhou ao piano cantores e cantoras da Música Popular Brasileira. Carmem Miranda foi uma delas e Orlando Silva, Francisco Alves, Carlos Galhardo e Dorival Caymmi...
Mário Cabral foi amigo dos maiores jornalistas e músicos da sua época. Boêmio, viveu apaixonadamente o Rio de Janeiro das décadas de 40/50 e 60.

O advogado, professor, crítico musical e pianista Mário Greenhalg Cabral. Revista Cidade Juliana (LG)-1947.

“Laguna celeiro de boa gente”, diz a letra de Archimedes de Castro Faria em seu Hino do Coral Santo Antônio dos Anjos, em versos tão lindos e melódicos, que também poderia ser o nosso hino oficial, lado a lado com o de Osmar Cook.
O tempo passa, gerações se sucedem na marcha inevitável da vida.
Mas sempre devemos lembrar personagens que brilharam em nossa cidade e por esse Brasil. De vultos que viveram e deixaram sua contribuição nas mais diversas áreas.
Um desses personagens é o lagunense Mário Greenhalg Cabral. Advogado, professor e músico. 

Quem foi Mário Greenhalg Cabral
Mário Greenhalg Cabral nasceu na Laguna em 22 de fevereiro de 1911, filho de Zulmira Greenhalg Cabral e João Guimarães Cabral.
Teve como irmãos Maria Cabral Mendonça (Marieta), casada com Pedro Sérgio Mendonça (proprietário da tradicional Casa São Pedro, em nossa cidade); Ruth Cabral Ulysséa, casada com o professor Ruben Ulysséa; e Yvonne Cabral Baungarten, casada com Walter Baungarten Júnior.
Fez seus primeiros estudos em nossa cidade, depois no Colégio dos Jesuítas, em Florianópolis.
Desde cedo aprendeu a tocar piano com sua mãe Zulmira.
Aos 15 anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro para que ele seguisse carreira na Marinha. Mas não teve sucesso em ingressar na Escola Naval.
Foi aluno da Faculdade de Direito na Universidade do Brasil na então Capital Federal, onde formou-se em dezembro de 1937.
Teve como colegas de turma, entre outros, Barreto Pinto, Alzirinha Vargas, João Condé, Dante Viggiani, Zé Honório Rodrigues e Marques Rêbelo.
Concluído o curso, retornou à Laguna onde sua família já estava morando novamente.
Aqui advogou e foi professor no Ginásio Lagunense, além de colaborador do jornal lagunense O Albor.

Ano 1938. Professores do Ginásio Lagunense: Em pé: Sargento Egeu Laus, Paulo Carneiro, Oscar Leitão, Joaquim Cabral, Germano Donner, José Varela Júnior e Mário Greenhalg Cabral. Sentados: Paulo Gailit, Romeu Ulysséa, Antônio Dib Mussi e Ruben Ulysséa. Foto: Livro Laguna Memória histórica, de Ruben Ulysséa. 

Em 3 de maio de 1939 compôs a diretoria da Sociedade Musical Carlos Gomes como orador. Era presidente Francisco Fernandes de Oliveira

Recorte da foto acima mostra o advogado e professor do Ginásio Lagunense Mário Greenhalg Cabral. Foto: Livro Laguna Memória histórica, de Ruben Ulysséa.

Foi um dos fundadores em nossa cidade em 23 de dezembro de 1937, do Cordão Carnavalesco Bola Preta e seu presidente de Honra.
Em paralelo à vida profissional, participava de saraus musicais em reuniões sociais, familiares e em festas religiosas.
Em junho de 1939, por exemplo, juntamente com o musicista Ignácio Brandl acompanhou ao piano a senhora Maria Batista Ferraro interpretando Ave Maria de Gounod, na missa às 10 horas do dia 13 em honra a Santo Antônio dos Anjos daquele ano.
Que se registre: Além de Cabral e Brandl, participaram os músicos Manoel dos Santos Bessa, Pedro Maria dos Santos, Plácido Machado, Antônio Figueiró, Ataliba Pacheco dos Reis, Manoel Theodoro, Ícaro Cândido e Sérgio Velozmoro.
No coro vocal: Constância Freitas, Norma Duarte, Alvany Alcântara, Leonor Flores da Silva, Alice Duarte Bessa, Marieta Bessa Silveira, Alyrio Alcântara, Arthur Teixeira, Roberto Francalacci e Fernando Eggert.
De 1942 a 1944 foi membro do Conselho Deliberativo do Clube Náutico Recreativo Almirante Lamego, de nossa cidade.

Homenagens na Laguna em seus aniversários de 1938 e 1939
Concluído em dezembro de 1937 o curso de Direito na Faculdade no Rio de Janeiro retornou à Laguna onde passou a advogar e ministrar aulas no Ginásio Lagunense.
Em 22 de fevereiro de 1938, data de seu aniversário, recebeu uma grande homenagem de seus amigos e familiares.
A data foi comemorada com almoço no Balneário Hotel, no Mar Grosso, nosso primeiro hotel naquele bairro. Como era praxe na época, o homenageado foi buscado em sua residência.
Os oradores se sucederam nos discursos, dentre eles Nunes Varella, Armando Calil Bulos, Major Manoel Grott, Antônio Guimarães Cabral, João Clemente de Carvalho.
 Em 1939 as comemorações se repetiram no mesmo dia 22 de fevereiro. Logo cedo pela manhã já recebia inúmeros amigos na residência de seus pais, no centro da cidade, levando os abraços pelo aniversário.
À noite o aniversariante foi levado ao Clube Anita Garibaldi no bairro Campo de Fora. Foi acompanhado por vários componentes do Cordão Carnavalesco Bola Preta.
Foi recebido à porta da tradicional sociedade pela diretoria que tinha à frente o presidente Júlio de Oliveira.
O Cordão Carnavalesco Bola Branca também se fez representar através do jovem Volnei de Oliveira, filho do advogado e jornalista João de Oliveira.
Farta mesa com bebidas e doces foi servida aos presentes.
Arthur Machado o homenageou com uma crônica publicada no jornal O Albor: 

“(...) Dizia eu, de mim para mim: quanto vale, na vida, o indivíduo saber conduzir-se.
O valor de Mário Cabral nasce do caráter puro que possue, da retidão do seu proceder, da urbanidade de seu trato, da delicadeza de suas ações, da honestidade impressa no exercício de sua profissão”.

Nas férias retornava ao Rio de Janeiro, onde possuía muitos amigos. Lá passava algumas semanas se apresentando como pianista e acompanhando intérpretes da música popular brasileira.


Mudou-se para o Rio de Janeiro
Nos primeiros meses de 1943 passou a morar definitivamente na Cidade Maravilhosa.
Em fevereiro já participava de um chá-dançante promovido pela Liga da Defesa Nacional em benefício de bônus de guerra.
Participaram, entre outros, Carlos Galhardo, Edmundo Maia e a cantora Eny Costa acompanhada ao piano de Mário Cabral.
Em março de 1944 já apresentava na Rádio Cruzeiro do Sul (PRD-2) o seu programa Pif-Paf onde se apresentava ao piano juntamente com muitos de seus convidados.

Anúncio Programa PIF-PAF apresentado por Mário Cabral. Gazeta de Notícias (RJ), de 28 de janeiro de 1945.

Na mesma emissora, a partir de 1946, apresentará outro programa de muita audiência chamado O Coração de uma Cidade, no ar diariamente a partir das 21 horas.

Jornal Diário de Notícias (RJ) de 12 de abril de 1946.

Em seus programas apresentará e acompanhará ao piano, entre outros: a soprano Mercedes Marcial, a cantora de músicas francesas Eleonora Sigelle, a soprano uruguaia Marina Rodrigues Dutra, o tenor Jorge Jarres, a soprano-ligeiro Nazira Manzur, o cantor Fernando Barreto e as cantoras Maria Silvia Pinto e Vanda Oiticica.

Casamento
Em 4 de outubro de 1945 casou-se com a lagunense Abigail Rocha Cabral, filha de Pedro Rocha e Córa Magalhães Rocha, em cerimônia realizada na Capela de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, no Rio de Janeiro, cidade onde os sogros residiam.
O casal tinha três filhas: Abigail, Adail e Maria Luísa.
Pedro Rocha era abastado comerciante na Laguna, proprietário da empresa Rocha & Cia, exportador das famosas marcas de farinha de mandioca Selecta e Sulina.
Córa era lagunense, filha de Luíza Rollin Magalhães e Eugênio Magalhães. Foi a primeira mulher lagunense aprovada em exame de direção de automóvel na Laguna, obtendo assim carteira de motorista. Aliás, tema de matéria já publicada Aqui em 25 de setembro de 2020.

A esposa Abigail Rocha Cabral - Revista Sombra RJ, dez/1949.

Dias depois, o casal veio para Laguna por alguns dias em visita aos seus pais, parentes e amigos.
O casal Mário e Abigail terá duas filhas: Ivone e Suzana.

Atuação na imprensa e em emissoras de rádios
Passou a escrever na Revista Sombra, do diretor Walter Quadros.
Depois, como crítico musical na Folha Carioca, no Jornal Tribuna Popular e mais tarde, e durante muitos anos, no jornal Tribuna de Imprensa, do jornalista Carlos Lacerda, seu amigo com quem dividiu um apartamento no Edifício Olinda nos primeiros e difíceis anos morando no Rio.
Apresentou um programa sobre música na Rádio Ipanema.
Foi autor do verbete da Música Popular da Enciclopédia Barsa.
Foi membro de comissões julgadoras de concursos musicais, entre eles o 1º e 2º Festival Internacional da Canção. E chefe da Delegação do Festival de Cannes (1966).
Foi redator na Rádio Ministério da Educação e Cultura.
Estudou piano com o maestro espanhol Tomás Téran radicado no Brasil nas décadas de 1940/50/60 e harmonia com o maestro Oscar Lorenzo Fernándes.
Trabalhou aos domingos no Programa Casé, de Ademar Casé, na Rádio Philips do Brasil PRAX.
Foi um programa que revolucionou a história da mídia brasileira. O primeiro a pagar cachê aos artistas, primeiro jingle e primeiro contrato de exclusividade com artista.
Pelo programa passaram ícones como Noel Rosa, Carmem Miranda, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi e Orlando Silva.
Mário Cabral acompanhou ao piano a maioria dos cantores e cantoras daquela época e muitos passou a conviver.

Foi pianista de Carmem Miranda
Como pianista foi escolhido para, juntamente com Carmen Miranda e Francisco Alves, divulgar a música brasileira no exterior.
Acompanhou a cantora Carmen Miranda e Roberto Vilmar numa excursão a Buenos Aires, de grande sucesso nas apresentações nos Teatros San Martin e Apolo.
Mário Cabral conviveu praticamente com todos os artistas da época e teve entre seus amigos Haroldo Costa, Flávio Rangel, Carmem Miranda, Ruben Braga, Fausto Wolff, Noel Rosa, Vinicius de Moraes, Silveira Sampaio, Fernando Lobo, Paulo Tapajós, Antônio Bandeira, Paulo Mendes Campos, Álvaro Moreira, Manoel Bandeira, Antônio Maria, Nestor de Holanda, Orestes Barbosa, Dolores Duran, Silvinha Melo, Elisinha Coelho, Ismael Neto, Custódio Mesquita, Joel Silveira, Sérgio Porto, Pomona Politis...
Bom boêmio, viveu a noite do Rio de Janeiro das décadas de 40/50 e 1960.

Num encontro social, casal Mário Cabral e esposa Abigail Cabral Rocha (nas duas extremas) com o Embaixador da Rússia Iacov Suritz e sua filha Elisabeta Suritz. Revista Sombra (RJ) - julho /1946.

A partir de 1966 passou a integrar o Conselho Superior de Música Popular, entidade criada pelo crítico Ricardo Cravo Albin no Museu da Imagem e Som.
Ao piano, com brilhantismo, executava valsas, sambas, sambas-canções, marchas....
Quem o viu e o ouviu ao piano à época, testemunhava que em suas execuções seus dedos davam uma harmonização própria, enriquecendo ainda mais a canções.
Seus amigos diziam que Mário era o acompanhante favorito das estrelas da música, aquele capaz de ouvi-las e de entendê-las.
Colaborou com artigos para a Revista de Música Popular, cujo editor era Flávio Rangel.
Aliás, Rangel costumava dizer que “Mário Cabral mergulhava as mãos numa solução de veludo, antes de ir para o piano, tal a suavidade que sabia tirar do teclado”.

Título de Cidadão Carioca
Em março de 1960, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro concedeu o Título de Cidadão Carioca ao músico e crítico de música Mário Greenhalg Cabral. Proposta do vereador Murilo Miranda (UDN).
Assim o vereador justificou a concessão do título: 

“Participando intensamente há mais de vinte anos do nosso movimento artístico, Mário Cabral se tem revelado um animador incansável, apoiando e estimulando os nossos verdadeiros valores, sem, entretanto, perder aquele senso de equilíbrio e ponderação que constituem a base de toda a sua atividade.
Por isso mesmo, a coluna que mantém em um dos principais órgãos da imprensa carioca, reveste-se de prestígio e autoridade indiscutíveis.
Além de destacar-se por sua atuação na imprensa, Mário Cabral também se recomenda ao apreço e à gratidão dos artistas brasileiros pelo carinho e solicitude com que, como advogado, se tem dedicado, o mais das vezes de maneira desinteressada e com sacrifício dos seus próprios interesses, a todos quantos necessitam de seus serviços profissionais, empenhando-se nessa tarefa, com o mesmo escrúpulo, dedicação e proficiência que tem assinalado a sua atividade na crítica musical”.

O "saudoso" Mário Cabral
Seu amigo Ruben Braga, numa crônica publicada na Revista Manchete em 1953, explicou porque quase todos os amigos de Mário Cabral o chamavam sempre com o epíteto de “o saudoso”.
Contou o cronista Ruben que certa vez, em Petrópolis, no palco do Cinema Capitólio, o cantor das multidões Orlando Silva se apresentava e entre um número e outro exclamou:

-Agora, vou interpretar a valsa Rosa, de Pixinguinha, acompanhado ao piano pelo “saudoso” Mário Cabral.
O apelido pegou e dali em diante sempre que era apresentado nos palcos era chamado como “O saudoso Mário Cabral”.
O próprio Braga dizia que o apelido lhe dava “um certo ar ligeiramente falecido”. Outro amigo reconhecia em Mário “um certo ar nostálgico”.

Falecimento aos 57 anos
O lagunense Mário Greenhalg Cabral faleceu aos 57 anos, às 14 horas do dia 21 de junho de 1968 vitimado por uma fibrose pulmonar, no leito do Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, deixando a esposa Abgail e as filhas Ivone (18 anos) e Suzana (14 anos).
Seu velório aconteceu no Salão de Exposições do Museu Imagem e Som (MIS).
Na ocasião, uma exposição plástica com o tema “Carolina” estava acontecendo e continuou aberta ao público a pedido da esposa Abigail que justificou: “Mário Cabral graças a sua identificação com a arte em seus vários matizes, não se sentiria feliz se assim não o fosse”.
Foi sepultado no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro.
Sempre dizia aos amigos que achava excelente viver, mas se tivesse que morrer, queria ouvir no momento do adeus “Jesus alegria dos homens” - Coral final de uma cantata de Bach.
Seu falecimento foi noticiado em praticamente todos os jornais do Rio de Janeiro, recebendo comentários e adeus de famosos jornalistas.

Em sua coluna sobre teatro na Tribuna de Imprensa de três de julho de 1968, Fausto Wolff escreveu:

“Morreu o bom caráter Mário Cabral. E a gente não tem outra coisa a fazer se não ficar olhando com cara de besta para esses acontecimentos sem resposta.
Não há nada que me dê mais raiva que a morte de um bom caráter. Acho que pretendem extinguir assim a espécie”.

Haroldo Costa, outro dos seus grandes amigos escreveu no Diário de Notícias de 26 de junho de 1968:

“Morreu Mário Cabral. A frase é tão violenta, tão crua, que se torna difícil articulá-la ou escrevê-la.
Poucos amaram o Rio e as suas manifestações artísticas quanto aquele pianista amador que tocava com desembaraço e integração uma composição de Ernesto Nazaré ou Antônio Carlos Jobim.
Seu sorriso permanente era uma festa para os seus amigos e o seu conhecimento de causa merecia todo o respeito dos seus pares. Foi um homem de muitos amigos.
Com o nosso Mário foi um pedaço bom deste Rio que ele amava cariocamente. Sua falta será sempre sentida. Foi um privilégio ter sido amigo do saudoso Mário Cabral".

A colunista e jornalista Pomona Politis no Diário Carioca de 25 de junho de 1968 escreveu assim o necrológio:
 
Ao velho amigo que se foi
“(...) Você partiu. Não é letra de samba, o samba que você tanto cultivou. É a dura realidade na linguagem singela das palavras.
Aqui, deste canto que os seus olhos varavam todos os dias, fica o pensamento sempre em você, quando eu tiver de enumerar reconhecida os bons de alma os entes inesquecíveis. Adeus meu amigo, Mário Cabral”.