09 agosto 2026

Os anti-heróis anônimos


Durante grande parte de sua vida Richard Calil Bulos, o Chachá, de saudosa memória, mais até do que as artes plásticas (arte naif), exerceu o jornalismo em nossa cidade. Bem por isso fundou inúmeras publicações e foi redator de várias outras.
Foi um mestre na arte de escrever e de produzir uma manchete chamativa, com pinceladas sensacionalistas. 
Em seu estilo registrou muitos acontecimentos do dia a dia da cidade. Ele sabia criticar, elogiando. E extrair de um pequeno fato a seiva do texto que prenderia a atenção dos leitores.
Era justo em seus escritos aos elogios a personalidades políticas, empresariais ou autoridades que se destacavam na sociedade à ocasião.
Mas, também sabia fazer o mesmo ou até melhor com os desvalidos pela sorte, com os não agraciados pela riqueza e sobrenomes, pedintes e andarilhos que perambulavam pela nossa Laguna. 
Hoje diríamos, pessoas em situação de rua.
São os chamados “tipos populares”. Estes sempre existiram, em grande quantidade, em todas as épocas.

Marengo. Gente da Minha Terra, de José Bessa.

Vitória, João Frade, Felipe da Rebeca, Zé dos Papéis, Zé Bode, Edite Pandorga, Lata, Andrino, Bibi-tudo, Arina, Sovai, Linguinha, Zé Bombril, Pesquisa, Gengivinha, Biguá, Clemente, Ibraim, Jiqui, Clóvis, Maria do Benoni, Quintino... 
Foram tantos.
O lagunense José Bessa, em seu livro “Gente da Minha Terra”, retratou muito bem alguns deles, pequenos e humildes, a quem os chamou de “anti-heróis anônimos que em certa medida exprimem a alma coletiva, ensinam verdade humana abeberada na fonte”.

Quando do falecimento dos que mais se destacavam na sociedade lagunense, nosso jornalista Chachá produzia matérias memoráveis, despedidas emocionantes, tecendo loas aos seus nomes e destacando posições galgadas e currículos.

Mas, também encontrava tempo e espaço no jornal para registrar igualmente a morte dos que "viviam à margem da sociedade", como se convencionou chamá-los.
Eram seres humanos com seus dramas e infelicidades, suas manias, vícios e psicoses.
Seres humanos... Para Chachá era o que bastava. 
Precisa realmente de algo mais?
Até porque, cumpridos seus resgates, suas jornadas terrenas, muitos desses personagens, ditos populares, devem estar hoje em melhores moradas espirituais.
Talvez, e bem ao contrário de alguns outros figurões que tiveram discursos elogiosos, cortejos pomposos, enterrados com seus títulos e vaidades. 
Estes, ainda podem estar vagando perdidos, odiosos e odiados, mergulhados em seus segredos, mesquinharias e maldades de uma vida.

Três registros
A título de curiosidade busquei em meus arquivos de antigos jornais, três pequenos textos obituários produzidos pelo Chachá.
São registros de humildes falecimentos de conhecidos personagens populares que marcaram época e gerações na história da nossa Laguna.
Mas, observem as singelezas dos textos! As expressões de facetas sentimentais e poéticas nos despretensiosos apontamentos de um adeus. 

Sobre a morte do Quintino (Jan 1980):

...E os sinos emudeceram

Ao contrário do romance “Por quem os sinos dobram”, de Ernest Miller Hemingway (editado em 1940), os sinos da Matriz Santo Antônio dos Anjos emudeceram no justo instante em que o errante Quintino, diante da igreja, em caixão de degradante qualidade, era carregado rumo ao cemitério público, na tristonha manhã de 15 do corrente.
Momentos antes, eles haviam repicado, lenta, mas sucessivamente, em sinal de adeus à uma dama da nossa sociedade, que, por infelicidade, tivera em data igual o mesmo destino que ele.
Que Quintino não trabalhava ou não gostava de trabalhar lá isso é verdade. Todavia representou para Laguna a imagem do indolente sem ser nocivo, do vagabundo que, se à época de Charles Spencer Chaplin, teria servido de inspiração ao inconfundível ator e cineasta inglês, criador da personagem dolorosamente cômica de Carlitos.
Quem conhece a produção literária de Hemingway, verá que os nomes dados a duas de suas obras se amoldam, por ironia, a este fato que narro com pesar:
- Por quem os sinos dobram?
- Eles dobram por ti, por nós, por todos.
“O sol também se levanta” (editado em 1926). Por sua vez, traduz que o sol também se levanta para as criaturas pobres, como o fora em vida o Quintino.

Sobre a morte do Clóvis (Fev 1979):

 A cidade perdeu Clóvis

Clóvis de tal. Que Deus o tenha na sua guarda infinita e inviolável.
Pobre criatura de ontem. Palhaço de muitos, escravo da desilusão e do infortúnio.
Clóvis, o farrapo humano que carreteava pelas ruas centrais em busca de alimentos e de míseros cruzeiros. Um ser desajeitado, sem atrativos físicos e proprietário de grave deformidade psíquica.
Ele, como muitos afirmam, não morreu da bebida. Na realidade, Clóvis conheceu a morte e com ela se foi devido ao pouco caso que a sociedade lagunense lhe endereçava.
Morreu sem conhecer um prato de comida ladeado de garfo e faca, sem conhecer a intimidade de uma mulher, sem haver tido sobre o corpo uma roupa decente.

Sobre a morte de Edith "Pandorga" (Out 1995):

O céu ganha a sua Pandorga
Edith cumpriu à risca seu papel como espantalho de carne e osso. Tão ao ponto e com inigualável singularidade, que a cidade a definiu como sua musa.
Atriz das madrugadas, tristes e longas madrugadas, montou sua ribalta ao relento, assistida por uma plateia tão gélida como a lápide sepulcral.
Uma certa semelhança com outra Edith, dela separada por um oceano. Apenas, entre elas, a inversão do tempo. Uma, mendigou na mocidade e morreu entre aplausos. A outra, gozou bem a juventude, acabando na miséria.
Edith Piaf, prostituta da França, símbolo da música popular francesa.
Edith, a “Pandorga”, de moça viçosa a farrapo humano, símbolo da resignação. Edith Severina de Jesus nasceu em Cangueri – Imaruí, aos 12 de maio de 1910, sinal impagável da singeleza.

08 agosto 2026

O adeus a Lenita Luiza Lindermann +

         Faleceu nesta madrugada em Criciúma, Lenita Luiza Lindermann, aos 77 anos, filha de Afonso e Helena Lindermann.
Durante muitos anos atuou na tradicional empresa Comercial Silvio Castro.
Por mais de quinze anos, entre as décadas de 80 e 90, presidiu o Sindicato dos Comerciários de nossa cidade.

Lenita Luiza Lindermann, aos 77 anos.

Um início difícil, de conquistas da categoria, palmilhando passo a passo cada vitória, enfrentando obstáculos os mais diversos, reações, caras feias e um status quo que até então tudo podia.
Através do Sindicato dos Comerciários Lagunenses, Lenita conseguiu implantar horários de atendimento para o nosso comércio, saídas e entradas pré-estabelecidas dos empregados, fixadas em acordos de categoria, antes não cumpridos por muitos membros da classe patronal.
Lutas por pisos salariais, melhores condições de trabalho e diversas outras conquistas trabalhistas foram uma constante.
Honesta, correta em suas atitudes e decisões, até porque foi também comerciária, oriunda da base da categoria, conhecia profundamente os problemas encontrados. E os enfrentou com galhardia e coragem.
Muitas das conquistas hoje desfrutadas pela categoria dos comerciários da Laguna são oriundas de lutas da época de sua gestão.
Em 4 de outubro de 2020, em seu aniversário de 72 anos lhe dediquei neste Blog algumas linhas pelo seu trabalho, dedicação e caráter.
Para ler clique Aqui
Em 2001 Lenita foi representante do Sindicato dos Comerciários junto ao Conselho Municipal de Saúde.
Foi catequista na Matriz Santo Antônio dos Anjos em 2004. Foi festeira de Santo Antônio dos Anjos.
Atuou também na área da Saúde na Unidade Municipal no bairro Mar Grosso.
Foi Voluntária na Casa de Recuperação Nascer de Novo, ao lado de José Nazareno Duarte. Junto ao NDN, onde foi tesoureira, colaborou - e muito - para retirar jovens das drogas e do alcoolismo.

Velório inicia às 13 horas na Capela Ametista, do Crematório Milenium, em Criciúma, com cerimônia de despedida às 17 horas.
Sentimentos aos familiares e amigos, em especial aos irmãos José Ricardo (Zezo) e Ruth e as sobrinhas Sheila, Juliana (Juju), Maria Helena, Fernando, Daniel, Raquel, Valéria, Leonardo e Fernanda. 

07 agosto 2026

O navio Dente de Coelho naufragou na Laguna e levou com ele uma locomotiva

 
Tarde de verão de um mês de março. Um barco, como tantos outros rotineiramente faziam, se aproxima da embocadura da Barra da Laguna. Em seu porão transporta uma locomotiva. A travessia pelo canal é para ser rápida, cinco a dez minutos de duração. Após esse tempo chega-se a um porto franco, seguro e abrigado. De repente a embarcação vai em direção às pedras do Morro do Tamborete.  O que teria acontecido?

Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA).

Domingo, 18 de março de 1917. O relógio ia marcar pontualmente 16 horas. Tarde quente daquele verão.
O Iate Dente de Coelho oriundo do Porto de Paranaguá, no Paraná, trazia em seu porão uma locomotiva e vinte e três volumes de ferragens diversas destinadas à Estrada de Ferro D. Teresa Cristina.
Era sua primeira viagem com destino ao Porto da Laguna. Além de velas era movido por um motor a gasolina de 70 cavalos.
Seis homens compunham sua tripulação.

Os Molhes da Barra estavam em construção
Iniciadas em 1903, continuavam as obras de construção dos molhes do Porto da Laguna com o intuito de maior vazão e aumento do calado.
Em 1917 o guia do Molhe Norte estava com 700 metros de extensão já implantados. Já o guia do Molhe Sul ainda não havia sido iniciado.

O choque com as pedras do Morro do Tamborete
Procurando entrar no canal através da boca da Barra, o navio perdeu seu rumo e minutos depois chocou-se às pedras de granito róseo do Morro do Tamborete, fazendo água. Logo a seguir, arrastado pela vazante, naufragou parcialmente sua proa e encalhou nos baixios.
Algumas testemunhas que estavam pescando nos costões próximos ao local, disseram que o navio parecia ter perdido o leme.
Os tripulantes conseguiram descer o escaler. Com muita dificuldade chegaram nas areias de uma pequena enseada situada ali perto, onde desembarcaram. Estavam assustados, mas são e salvos.
A capatazia do porto foi logo avisada e um rebocador da Alfândega de Florianópolis foi chamado pelo telégrafo. Poucas horas depois ao chegar ao local do acidente, nada mais podia ser feito.
A bordo do rebocador veio João Sanford, guarda-mor da repartição.

Uma jangada para salvar a locomotiva
Chamado às pressas nos escritórios da Estrada de Ferro, em Tubarão, o diretor Roberto Helling se dirigiu ao local.
Visando salvar a locomotiva deu ordens para construção de uma jangada com um guindaste a bordo para içar a máquina.
Mas, com o passar das horas e a força das ondas que batiam em seu costado, o navio adernou demasiado.
Foram infrutíferos todos os esforços de salvamento.
A chegada de ferragens e maquinários como locomotivas em porões de navios para a Estrada de Ferro D. Teresa Cristina vai se tornar rotina, principalmente a partir da década de 1940 com a criação do porto carvoeiro da Laguna. Como se pode observar na foto abaixo:

Cais do Porto Carvoeiro da Laguna, década de 1940.  Uma locomotiva é içada do porão de um navio. Autor desconhecido.

Um inquérito marítimo para apurar o sinistro foi aberto pela Capitania dos Portos e Mesa de Rendas da cidade. Naquela época as duas repartições federais participavam conjuntamente quando de sinistros marítimos.

Jornal lagunense O Albor de 24 de março de 1917.


Problemas mecânicos e imperícia
Foram realizadas as oitivas das testemunhas, dos tripulantes da embarcação e do Prático da Barra.
Constatou-se em averiguação técnica na embarcação, que o leme apresentava defeitos, sem condições de segurança e resistência. “A parte superior da peça era embutida numa cavidade insuficiente e não se achava fixada à respectiva base por pinos que o varassem”, registrou o relatório.
Além do problema mecânico, o inquérito concluiu que o mestre do navio, Joaquim Antunes colaborou para o incidente “por haver efetuado as manobras com imperícia ao faltar o governo do navio, não utilizando-se das âncoras e motor da embarcação para evitar, pelo menos, o desastre total".
Como penalidade o mestre foi suspenso por três meses de suas funções.

A carcaça de um navio junto com uma locomotiva repousam no fundo do mar
Com essas informações, ficamos sabendo que em frente aos rochedos de granito róseo da Ponta do Tamborete, situados poucos metros depois da entrada do Molhe Sul da Barra da Laguna, repousa a carcaça do navio Dente de Coelho, tendo em seu interior uma locomotiva e suas ferragens.

A foto aérea de Elvis Palma mostra bem o local onde está sepultado o navio Dente de Coelho com a locomotiva em seu porão. No centro da foto estão as pedras rosadas da Ponta do Tamborete. Mais à esquerda, depois do costão, a Praia de Gravatá. À direita, a Barra da Laguna. Na época dos fatos ainda não existia o Molhe Sul.

A embarcação não estava no seguro, conforme noticiou a imprensa da época.
O prejuízo foi calculado em 80:000$000 (Oitenta contos de réis), moeda de 1917.
Utilizando-se parâmetros hipotéticos de atualização, como critério de compra (numa proporção histórica) daria atualmente um valor estimado de R$ 4 milhões e meio de reais.
No cálculo, cada conto de réis da época convertido para os dias de hoje valeria R$ 56 mil reais.

O proprietário era norte-americano e morava no Paraná
O iate Dente de Coelho era de propriedade de Réo Benett, fazendeiro no município de Guaratuba no litoral paranaense.
Benett foi um empreendedor norte-americano que emigrou para o Brasil no início do século XX. Ficou conhecido por atuar como concessionário de grandes obras de infraestrutura e exploração mineral no Sul e Centro-Oeste do Brasil.
Juntamente com sua esposa Catarine Benett fixaram residência na região de Cubatão, no Paraná e iniciaram plantação de banana caturra com sementes oriundas de Santa Catarinas, além de outros empreendimentos.

05 agosto 2026

Faleceu a professora Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião+

 
Faleceu nesta quarta-feira (5) em hospital de Tubarão onde estava internada, nossa eterna Orientadora Educacional, professora Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião, aos 91 anos.

Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião. Foto: Divulgação CEE/SC-Ano 2016.

Nascida em 11 de fevereiro de 1935, filha de Yvonne Cabral Baumgarten e Walter Baumgarten Júnior. Irmã de Lúcia Baumgarten.
Fez os estudos primários no então Grupo Escolar Jerônimo Coelho. O Ginasial e a Escola Normal no Ginásio Lagunense.
Formou-se em Pedagogia, com Especialização Escolar na antiga Feesc, em Tubarão.
Em 1957 casou-se com Jairo Ulysséa Baião, de saudosa memória (faleceu em 17 de dezembro de 2020). Aliás, seu professor no Ginásio Lagunense. 
Da feliz união nasceram os filhos Sílvia, Maurício, Antônio José (Dedô) e Vera.
Há muitos anos era moradora no entorno da Praça República Juliana número 53, no Centro Histórico da Laguna.
Estudou em sua infância piano e balé. Mas foi na Educação que encontrou seus objetivos de vida e profissionais. 
Era adepta de um viver saudável. Mesmo com já certa idade pedalava sua inseparável bicicleta todas as manhãs até o Mar Grosso para banhar-se.
Foi professora primária, depois secundária e Orientadora Educacional no Conjunto Educacional Almirante Lamego (Ceal) e Colégio Comercial Lagunense (CCL). Aliás, sendo precursora na Laguna nessa última atividade.
Em muitas solenidades culturais esteve presente com seus inteligentes discursos que pregavam o amor, falavam em Educação e na Laguna e emocionavam os presentes.
Acompanhava atentamente o noticiário, inclusive o local, ouvindo as emissoras de rádio e assinando os jornais da nossa cidade.
Foi Voluntária da Caixa de Socorro aos Tuberculosos, e da Rede Feminina de Combate ao Câncer.

Em 7 de setembro de 1999 fotografei dª Amélia Baumgarten Baião quando desfilava, juntamente com as demais Voluntárias da Rede Feminina de Combate ao Câncer, no Dia em Homenagem à Independência do Brasil. Foto: Valmir Guedes Júnior.

A partir do ano de 1983, e por seis anos consecutivos na gestão de João Gualberto Pereira-Rogério Wendhausen (1983-1988), dª Amelinha, como era conhecida carinhosamente, foi Secretária Municipal de Educação, Saúde e Promoção Social.
Na gestão Jorge Zanini-Nazil Bento Júnior (1993-1996), assumiu a titularidade da Secretaria de Educação e Esportes.
Foi oradora da Creche Padre Agostinho (1998).

No ano de 1999 recebeu uma série de homenagens
Foi agraciada com a Medalha de Mérito Domingos de Brito Peixoto, na segunda gestão do prefeito João Gualberto Perera-Rogério Wendhausen (1997-2000).
Em Sessão Solene realizada na Laguna pelo Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC), recebeu a Medalha Celebrativa do Sesquicentenário da morte de Anita Garibaldi.
Foi homenageada pela diretoria do Asilo Santa Isabel, de nossa cidade, quando das comemorações do cinquentenário dessa entidade filantrópica, em que muito contribuiu.
Foi uma das homenageadas pelo, hoje extinto, Colégio Comercial Lagunense (CCL), quando das comemorações do cinquentenário desta instituição de ensino. Era diretor na ocasião, o professor Danilo Prudêncio Costa.

Discursando num solenidade de 7 de Setembro na Praça República Juliana. Foto: Divulgação/PML.

Ainda em 1999, pelos relevantes serviços prestados à Educação, foi homenageada com o Troféu O Pyrilampo, organizado e promovido pelo cronista social Thiago Santiago do jornal O Correio.
Em 2008, na gestão do prefeito Célio Antônio-Aderbal Zapelini Mendes (2005-2008) assumiu a presidência da Fundação Irmã Vera.
Em 2016, em Sessão Plenária do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina (CEE-SC), recebeu o Diploma Mérito Educacional, como símbolo de reconhecimento dos membros do Colegiado pelo trabalho voltado à educação catarinense. A indicação partiu do lagunense, professor Maurício Fernandes Pereira, integrante do Colegiado.
Quando de seu discurso como homenageada, dª Amélia assim se manifestou em suas palavras finais:

“O ser humano tem condições de armazenar conhecimentos, muitas vezes inúteis e sem conexão com a vida. E essa conexão precisa existir, obrigatoriamente.
Estamos tentando! Claro que sim…. Mas ainda vivemos esse dilema. O importante é continuarmos tentando sempre, até um dia em que viveremos o triunfo da educação! E o Brasil será rico verdadeiramente”.

Ainda em 25 de março de 2026, foi homenageada pela Câmara de Vereadores da Laguna, juntamente com outras trinta e nove mulheres de nossa cidade, com a Medalha Professora Júlia Nascimento.
A honraria valoriza trajetórias inspiradoras e reconhece o papel fundamental das mulheres no desenvolvimento da Laguna, destacando atuações nas áreas social, cultural, econômica e comunitárias.
Representando dª Amelinha, sua filha Vera recebeu a homenagem em plenário especial instalado no Cine Teatro Mussi.

Nossos sentimentos aos amigos e familiares pelo falecimento. 

PS: Velório acontece das 7 horas às 14 horas dessa quinta-feira (6) na Sala Mortuária Diamante, da Funerária Central de Luto Cristo Rei. Logo após, sepultamento no Cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento e Santo Antônio dos Anjos. 

29 julho 2026

Parabéns, Laguna pelos teus 350 anos!

A Laguna de todos nós comemora seu 350º aniversário na data de hoje. Uma quarta-feira úmida, chuvosa.
Uma Laguna de valores e vultos notáveis, berço de heróis da pátria. Uma terra abençoada por Deus em suas belezas naturais.
Laguna das tradições do seu povo, da religiosidade, da cultura, gastronomia, das praias, de seus casarios, do carnaval, dos botos, do Farol de Santa Marta, da Pedra do Frade, de Anita Garibaldi, de Nossa Senhora da Glória, de Santo Antônio dos Anjos. Laguna o lugar de nossas vidas.
Em depoimentos orais, nas nossas memórias e de nossos antepassados, na leitura de livros e jornais que marcaram época, a constatação da pujança de uma cidade que foi pioneira no sul do estado nas mais diversas áreas.
Tantas histórias...

 "Laguna que de tanto ser esquecida aprendeu a não esquecer", no dizer primoroso, verdadeiro, do saudoso deputado por esta terra, Armando Calil Bulos. 

Laguna foi tudo!
Mas também uma Laguna há muito tempo maltratada pela incúria dos homens, traída em seus ideais, negociada em suas aspirações.
Uma Laguna que já perdeu tanto, inclusive grande parte de seu território.
Uma Laguna do já teve e que sonha em voltar a ter.
Laguna que a tudo resiste, teimosa, impávida, única.
Porque os homens passam e alguns ficam nos rodapés da história, enquanto outros são esquecidos para todo o sempre.
Laguna de esperanças...
Parabéns, Laguna de todos nós que amamos essa terra, em seus 350 anos.

28 julho 2026

Resultados do IIIº Concurso Cultural promovido pela ALBSC - Laguna

Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina–Seccional Laguna (ALBSC-Laguna), divulgou o resultado do IIIº Concurso Cultural que promoveu dentro das Comemorações dos 350 anos do Aniversário de Fundação da Laguna. (Leia o resultado abaixo).
           
Eis um Concurso de muita importância em prol da Cultura.
Tive a oportunidade de participar com o Conto Sertanejo, um barco à deriva nos Mares do Sul classificado em primeiro lugar.
Parabéns a todos os participantes pelos trabalhos apresentados nas categorias Conto, Poesia, História em Quadrinhos, Desenho e Roteiro de Teatro.
E parabéns a todos os organizadores do evento, aos confrades e confreiras da nossa Academia de Letras nas pessoas do presidente da ALBSC Maurício de Oliveira Silva e da secretária Karmensita da Rocha Cardoso, grandes baluartes dessa entidade de Letras.

Participantes e classificados no Concurso Cultural com integrantes da Academia de Letras do Brasil, de Santa Catarina - Seccional Laguna. Foto: Julita da Silva Barreiros Guedes.

Nesta noite de terça-feira (28), em solenidade no Clube Blondin durante o Café e Sarau Literário da ALBSC, foram entregues Medalhas e Certificados aos participantes e classificados. 
O evento contou com uma linda homenagem ao saudoso Comendador Leamir Antunes da Rocha, apresentação das cantoras do Grupo Cantoria do Sesc e do cantor Joãozinho Rodrigues.
Mestre de Cerimônia foi o radialista Paulo Cereja, sempre com competência e humor.
         

Presidente da Academia de Letras do Brasil - Seccional Laguna quando da entrega do Certificado de Participação e Medalha pelo Terceiro Lugar na Categoria Contos a este autor. Fotos: Elvis Palma.



         

Mestre de Cerimônias radialista Paulo Cereja, sempre com competência e bom humor.


Resultados:






23 julho 2026

O padre assassinado na Laguna, durante a República Catharinense em 1839

     22 de julho de 1839. Após vencer as forças legais do Império, os farroupilhas-republicanos vindos do Sul tomam a Vila da Laguna.
Sete dias depois, em 29, é proclamada a República Catharinense, tendo Laguna como primeira capital, denominada Cidade Juliana.
O povo exulta em festas pelas ruas. O pároco local, Francisco Villela de Araújo reza missa em Ação de Graças na matriz Santo Antônio dos Anjos. Faz brilhante oração. É adepto fervoroso da nova forma de governo.
Quase quatro meses depois o cenário será outro. Desmandos, violência e o saque de Imaruí, entre outros fatores, põem em xeque o sistema implantado.
Há contestações, protestos, revoltas, conspirações e perseguições aos descontentes com os rumos.

O padre lagunense Villela, preso e posteriormente morto pelos farrapos-republicanos na República Catharinense em 1839. Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA).

A Laguna que antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Por isso, cerca de 60 pessoas serão encarceradas nos porões de navios. Dentre elas o padre Villela, que ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos.
O vigário será morto na véspera da Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, na Barra da Laguna, onde os republicanos serão derrotados pelas forças legais marítimas lideradas pelo Almirante Frederico Mariath.
Um processo de Inventário da nossa Comarca comprova o assassinato do sacerdote lagunense. (Veja abaixo foto da Capa do Processo de Inventário).

“Um mártir da verdade”, diz Bispo
No começo deste ano, em 18 de janeiro de 2026, um domingo, aconteceu a posse canônica dos novos padres da igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos.
A acolhida dos novos sacerdotes em suas novas missões foi durante a Missa das dezenove horas presidida pelo Bispo Diocesano Dom Adilson Pedro Busin.
Antes de abençoar a todos os presentes, Bispo Adilson lembrou de um padre que foi morto aqui na Laguna.
 “Li sua história, ele foi um mártir da verdade”, ressaltou Busin.
O sacerdote referido foi o padre Francisco Villela de Araújo, trucidado pelas tropas farroupilhas em 1839.

Um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes
Após 117 dias da Tomada da Laguna em 22 de julho de 1839 e da Proclamação da República Catharinense em 29 do mesmo mês, tendo com capital provisória a Cidade Juliana da Laguna, os farrapos bateram em retirada pelos campos da Passagem da Barra e do Camacho em direção ao Sul, onde tomaram rumos diferentes.
A fuga deveu-se à derrota na Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, à entrada da Barra da Laguna.
Deixaram no passado as esperanças liberais de uma nova forma de governo, o republicano.
Ficaram também para trás um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes.
Mesmo antes de os farroupilhas aparecerem por aqui, já haviam muitos adeptos de doutrinas liberais vivendo em nossa região, inclusive os que faziam parte do clero que exerciam enorme poder sobre a população.
 Basta dizer que o primeiro padre a presidir a República Catharinense foi Vicente Ferreira dos Santos, vigário da Enseada de Brito.

Villela: “Um padre cheio de patriotismo e fervor republicano”
Outro padre que se destacou naqueles tempos foi o vigário da Paróquia da Laguna, Francisco Villela de Araújo. Republicano de primeira hora, recebeu de braços abertos a chegada dos farroupilhas.
“Um dos mais entusiasmados, que rezou missa em Ação de Graças em vibrante oração, cheia de patriotismo e de fervor republicano”, escreveu o historiador Henrique Boiteux.

Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos em foto do século XIX, ainda sem as duas torres, erguidas em 1894. Foi nesta igreja que o Vigário da Laguna Francisco Villela de Araújo rezou missa em Ação de Graças quando da chegada dos Farrapos-Republicanos. Quase quatro meses depois seria preso e morto pelos mesmos revolucionários.

“O sonho converteu-se em pesadelo”
Passados os primeiros meses o ambiente mudou radicalmente. Com a barra fechada à navegação comercial, nada saía nem entrava pelo porto lagunense. O comércio ficou estagnado.
Comerciantes e armadores começaram a se queixar por não conseguirem movimentar seus negócios pelo porto e ainda terem que sustentar toda uma estrutura militar e civil instalada.
Ninguém apoia um movimento, uma revolução para ver piorar sua vida e a vida da população.
“O sonho converteu-se em pesadelo”, no dizer do historiador Oswaldo Cabral.

Da alegria ao desespero
A população lagunense da alegria dos primeiros dias passou à preocupação e ao desespero pela falta de alimentação e outros gêneros. Além do mais, o general David Canabarro ordenou o confisco de gêneros alimentícios que porventura ainda existissem.
E aí desordens de todo tipo e perseguições aos descontentes e aos que não aceitavam os atos do novo governo começaram a acontecer.
A Laguna, que antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Tudo isso culminou com o Massacre de Imaruí, nos dias 9 e 10 de novembro de 1839, que abalou de vez a República recém-criada.
A Freguesia de São João Batista de Imaruí foi criada em 1833. No mesmo ano, em 23 de março, passou a ser Distrito da Laguna. Somente em 27 de agosto de 1890 foi desmembrada da Laguna.

“Essa freguesia muito sofreu”
Francisco Isidoro Rodrigues da Costa, que foi juiz de Direito na Laguna, deixou um precioso manuscrito datado de 1881 onde descreve Laguna e região.
Sobre o saque a Imaruí escreveu: 

“Essa Freguesia muito sofreu por ocasião da guerra civil dos Farrapos ou rebeldes do Rio Grande, entrando estes nela de assalto, saquearam as casas de negócio e de moradia. Isso em 1839”.

“O saque e massacre foram terríveis”
Sobre o saque (massacre) de Imaruí, o padre, pesquisador e historiador João Leonir Dall Alba registrou em sua obra Laguna Antes de 1880:

“O saque foi ordenado por David Canabarro, em represália à revolta da povoação contra a prepotência do Governo da República da Cidade Juliana da Laguna. Garibaldi em suas memórias lamentou sua participação no episódio. O saque e massacre foram terríveis”.

“Olhos arrancados e punhaladas”
Padre Villela ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos e, por isso, enfrentou a força do General Canabarro.
Lindolfo Collor em sua obra o descreveu: “Canabarro era prepotente, áspero, caráter intolerante, não captava simpatia, não agremiava dedicações, nem semeava entusiasmos”.
Aliás, o próprio Garibaldi em suas memórias a Alexandre Dumas sobre Canabarro disse: “O instinto de ódio e de vingança se aninhava na alma daquele chefe farroupilha”.
Sua fúria se fez sentir na Laguna, onde foi impiedoso contra os revolucionários, agora desiludidos.
Por sua ordem sessenta lagunenses foram presos nos porões dos navios, tendo quinze deles morridos carbonizados no porão da escuna Itaparica que voou pelos ares na Batalha de 15 de novembro de 1839, conforme Boiteux.

Sobre a morte do padre Villela, o já citado Henrique Boiteux registrou em sua grandiosa obra A República Catharinense Notas para sua história - Imprensa Naval, 1927:

 “Quando se viram perdidos os republicanos viraram-se os soldados rio-grandenses contra os filhos da província com inaudita brutalidade. O padre Villela e o major da Guarda Nacional da Laguna, Francisco Gonçalves Barreiros, autores de uma reação e que se achavam presos foram assassinados.
O cadáver do padre Villela, foi encontrado na barra junto à fortaleza com os olhos arrancados e crivado de punhaladas. Conduzido para a Vila ali foi enterrado.
O do major Barreiros que foi castrado também teve idêntico enterramento”.

Barreiros preso na corveta Itaparica
O maior pesquisador sobre a lagunense Anita, Wolfgang Ludwig Rau em sua grandiosa obra Anita Garibaldi O Perfil de uma Heroína Brasileira não abordou o assassinato do padre Villela.
Sobre a prisão do major Barreiros, Rau escreveu:

“Também em Laguna houve excessos e vinganças de última hora, praticadas por maus elementos componentes dos retirantes farroupilhas.
Francisco Gonçalves Barreiros, legalista, tinha um navio pronto no estaleiro quando entraram os farrapos, que tomaram conta da embarcação. Ao chegarem as forças legais, Barreiros foi conduzido preso para bordo da Itaparica”.

Exclusivo: O Inventário do padre Villela
Alguns historiadores e pesquisadores duvidam do assassinato do padre Villela pelos farrapos-republicanos. Tanto que nem abordam essa morte em suas obras e pesquisas.
Mas o processo de Inventário existe e ele mostra que o padre deixou poucos bens. Na foto abaixo da capa do processo está escrito: "Assassinado pelos rebeldes da Província do Sul".
         

Arquivo da Comarca da Laguna - Ano de 1839 - Foto da Capa do Inventário do Vigário Francisco Villela de Araújo "assassinado pelos rebeldes da Província do Sul".

Uma cômoda e dois aparadores de jacarandá, doze cadeiras de palha da mesma madeira, uma mesa de abas com gavetas, uma marquesa armada de cama, uma mesa de jantar, de cedro, um selim, manta e freio.
Como só restaram as peças de montaria, certamente o cavalo pertencente ao padre foi confiscado pelos farrapos.
O padre Villela possuía um escravizado de nome João. Conforme anotação na própria Capa do Inventário, João “fugiu com os rebeldes” (farroupilhas).
É bem provável que tenha partido livre com a tropa dos Lanceiros Negros, do general Antônio de Souza Neto.
Nos autos do processo emitido pela nossa Comarca, ainda no próprio ano de 1839, no mês de dezembro, ficamos sabendo que consta o Requerimento de João Villela residente em Portugal se apresentando como único herdeiro.
Assinam o Inventário: como Curador dos Bens Arrecadados: Manoel José Garcia. Juiz de Paz: Bento José da Silva. Juiz de Órfãos Interino: Pedro Francisco da Silva. Escrivão Interino: Francisco Pacheco dos Reis. Escrivão dos Órfãos: Manoel Joaquim da Costa. Escrivão: Vicente José Góes Rebelo.
 
“Metade das casas em ruínas ou abandonadas”
Laguna vai levar muitos anos para se recuperar daqueles quase quatro meses da tomada republicana.
O engenheiro e pesquisador belga Charles Van Lede que aqui esteve em 1843, portanto, apenas quatro anos depois dos acontecimentos em nossa cidade, dedicou em sua obra Colonização do Brasil, algumas linhas:

 “A Vila da Laguna tem perdido muito de sua importância desde a invasão dos Farrapos em 1839. A metade de suas casas estava em ruínas ou abandonadas.
Na verdade, ela começava a se refazer dos desastres de então, e algumas novas construções com mais cuidado e elegância tinham já substituído as antigas.
Mas, no entretanto ela não estava inteiramente restabelecida da rude prova que acabava de resistir”.
 
Nem tudo foi paz e amor
Como vemos, nem tudo foi paz e amor como alguns romantizam a violência daquele período da nossa história.
A paixão de Anita e Garibaldi foi um capítulo à parte. Gloriosas páginas de amor, coragem e superação, não restam dúvidas e que devem ser sempre valorizadas, mostradas e contadas às novas gerações.
Exatos cinquenta anos depois, em 15 de novembro de 1889 a República no Brasil foi proclamada também pela força das armas.
Mas desta vez os agentes foram militares. Não houve guerra civil e a República não esperou o amanhecer para nascer.