Blog do Valmir Guedes - Laguna
E-mail: valmirguedes@yahoo.com.br
29 julho 2026
Parabéns, Laguna pelos seus 350 anos!
A Laguna de todos nós comemora seu 350º aniversário na data de hoje. Uma
quarta-feira úmida, chuvosa.
Uma Laguna de valores e vultos notáveis, berço de
heróis da pátria. Uma terra abençoada por Deus em suas belezas naturais.
Laguna das tradições do seu povo, da religiosidade, da cultura,
gastronomia, das praias, de seus casarios, do carnaval, dos botos, do Farol de
Santa Marta, da Pedra do Frade, de Anita Garibaldi, de Nossa Senhora da Glória,
de Santo Antônio dos Anjos. Laguna o lugar de nossas vidas.
Em depoimentos orais, nas nossas memórias e de nossos antepassados, na
leitura de livros e jornais que marcaram época, a constatação da pujança de uma
cidade que foi pioneira no sul do estado nas mais diversas áreas.
Tantas histórias...
Laguna foi tudo!
Mas também uma Laguna há muito tempo maltratada pela incúria dos homens,
traída em seus ideais, negociada em suas aspirações.
Uma Laguna que já perdeu tanto, inclusive grande parte de seu
território.
Uma Laguna do já teve e que sonha em voltar a ter.
Laguna que a tudo resiste, teimosa, impávida, única.
Porque os homens passam e alguns ficam nos rodapés da história, enquanto
outros são esquecidos para todo o sempre.
Laguna de esperanças...
Parabéns, Laguna de todos nós que amamos essa terra, em seus 350 anos.
28 julho 2026
Resultados do IIIº Concurso Cultural promovido pela ALBSC - Laguna
Academia de
Letras do Brasil de Santa Catarina–Seccional Laguna (ALBSC-Laguna), divulgou o
resultado do IIIº Concurso Cultural que promoveu dentro das Comemorações dos
350 anos do Aniversário de Fundação da Laguna. (Leia o resultado abaixo).
Eis um Concurso
de muita importância em prol da Cultura.
Tive a
oportunidade de participar com o Conto Sertanejo, um barco à deriva nos
Mares do Sul classificado em primeiro lugar.
Parabéns a todos
os participantes pelos trabalhos apresentados nas categorias Conto, Poesia,
História em Quadrinhos, Desenho e Roteiro de Teatro.
E parabéns a todos
os organizadores do evento, aos confrades e confreiras da nossa Academia de Letras nas pessoas do presidente da ALBSC Maurício de Oliveira Silva e da secretária
Karmensita da Rocha Cardoso, grandes baluartes dessa entidade de Letras.
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Participantes e classificados no Concurso Cultural com integrantes da Academia de Letras do Brasil, de Santa Catarina - Seccional Laguna. Foto: Julita da Silva Barreiros Guedes. |
Nesta noite de
terça-feira (28), em solenidade no Clube Blondin durante o Café e Sarau
Literário da ALBSC, foram entregues Medalhas e Certificados aos participantes e
classificados.
O evento contou com uma linda homenagem ao saudoso Comendador Leamir Antunes da Rocha, apresentação das cantoras do Grupo Cantoria do Sesc e do cantor Joãozinho Rodrigues.
Mestre de Cerimônia foi o radialista Paulo Cereja, sempre com competência e humor.
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Presidente da Academia de Letras do Brasil - Seccional Laguna quando da entrega do Certificado de Participação e Medalha pelo Terceiro Lugar na Categoria Contos a este autor. Fotos: Elvis Palma. |
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Mestre de Cerimônias radialista Paulo Cereja, sempre com competência e bom humor. |
Resultados:
23 julho 2026
O padre assassinado na Laguna, durante a República Catharinense em 1839
22 de julho de
1839. Após vencer as forças legais do Império, os farroupilhas-republicanos
vindos do Sul tomam a Vila da Laguna.
Sete dias
depois, em 29, é proclamada a República Catharinense, tendo Laguna como primeira
capital, denominada Cidade Juliana.
O povo exulta em
festas pelas ruas. O pároco local, Francisco Villela de Araújo reza missa em Ação de Graças na matriz Santo Antônio dos Anjos. Faz brilhante oração. É adepto fervoroso da nova
forma de governo.
Quase quatro
meses depois o cenário será outro. Desmandos, violência e o saque de Imaruí, entre outros fatores, põem em xeque o sistema implantado.
Há contestações,
protestos, revoltas, conspirações e perseguições aos descontentes com os rumos.
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O padre lagunense Villela, preso e posteriormente morto pelos farrapos-republicanos na República Catharinense em 1839. Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA). |
A Laguna que
antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Por isso, cerca de 60
pessoas serão encarceradas nos porões de navios. Dentre elas o padre Villela,
que ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos.
O vigário será
morto na véspera da Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, na Barra da
Laguna, onde os republicanos serão derrotados pelas forças legais marítimas lideradas
pelo Almirante Frederico Mariath.
Um processo de
Inventário da nossa Comarca comprova o assassinato do sacerdote lagunense. (Veja abaixo a cópia da Capa do Processo de Inventário).
“Um mártir da verdade”, diz Bispo
No começo deste ano, em 18 de janeiro de 2026,
um domingo, aconteceu a posse canônica dos novos padres da igreja Matriz Santo
Antônio dos Anjos.
A acolhida dos novos sacerdotes em suas novas
missões foi durante a Missa das dezenove horas presidida pelo Bispo Diocesano
Dom Adilson Pedro Busin.
Antes de abençoar a todos os presentes, Bispo
Adilson lembrou de um padre que foi morto aqui na Laguna.
“Li sua história, ele foi um mártir da
verdade”, ressaltou Busin.
O sacerdote referido foi o padre Francisco Villela de Araújo,
trucidado pelas tropas farroupilhas em 1839.
Um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes
Após 117 dias da Tomada da Laguna
em 22 de julho de 1839 e da Proclamação da República Catharinense em 29
do mesmo mês, tendo com capital provisória a Cidade Juliana da Laguna, os
farrapos bateram em retirada pelos campos da Passagem da Barra e do Camacho em
direção ao Sul, onde tomaram rumos diferentes.
A fuga deveu-se
à derrota na Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, à entrada da Barra
da Laguna.
Deixaram no
passado as esperanças liberais de uma nova forma de governo, o republicano.
Ficaram também
para trás um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes.
Mesmo antes de
os farroupilhas aparecerem por aqui, já haviam muitos adeptos de doutrinas
liberais vivendo em nossa região, inclusive os que faziam parte do clero que
exerciam enorme poder sobre a população.
Basta dizer que o primeiro padre a presidir a República
Catharinense foi Vicente Ferreira dos Santos, vigário da Enseada de Brito.
Villela: “Um
padre cheio de patriotismo e fervor republicano”
Outro padre que
se destacou naqueles tempos foi o vigário da Paróquia da Laguna, Francisco Villela
de Araújo. Republicano de primeira hora, recebeu de braços abertos a chegada dos farroupilhas.
“Um dos mais
entusiasmados, que rezou missa em Ação de Graças em vibrante oração, cheia de
patriotismo e de fervor republicano”, escreveu o historiador Henrique Boiteux.
“O sonho
converteu-se em pesadelo”
Passados os
primeiros meses o ambiente mudou radicalmente. Com a barra fechada à navegação
comercial, nada saía nem entrava pelo porto lagunense. O comércio ficou estagnado.
Comerciantes e
armadores começaram a se queixar por não conseguirem movimentar seus negócios
pelo porto e ainda terem que sustentar toda uma estrutura militar e civil
instalada.
Ninguém apoia um movimento, uma revolução para ver piorar sua vida e a vida da população.
“O
sonho converteu-se em pesadelo”, no dizer do historiador Oswaldo
Cabral.
Da alegria ao
desespero
A população
lagunense da alegria dos primeiros dias passou à preocupação e ao desespero
pela falta de alimentação e outros gêneros. Além do mais, o general David Canabarro
ordenou o confisco de gêneros alimentícios que porventura ainda existissem.
E aí desordens
de todo tipo e perseguições aos descontentes e aos que não aceitavam os atos do
novo governo começaram a acontecer.
A Laguna, que
antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Tudo isso
culminou com o Massacre de Imaruí, nos dias 9 e 10 de novembro de 1839, que abalou
de vez a República recém-criada.
A Freguesia de São João Batista de Imaruí foi criada em 1833. No mesmo ano, em 23 de março, passou a ser Distrito da Laguna. Somente em 27 de agosto de 1890 foi desmembrada da Laguna.
“Essa freguesia
muito sofreu”
Francisco
Isidoro Rodrigues da Costa, que foi juiz de Direito na Laguna, deixou um
precioso manuscrito datado de 1881 onde descreve Laguna e região.
Sobre o saque a
Imaruí escreveu:
“Essa Freguesia muito sofreu por ocasião da guerra civil dos
Farrapos ou rebeldes do Rio Grande, entrando estes nela de assalto, saquearam
as casas de negócio e de moradia. Isso em 1839”.
“O saque e
massacre foram terríveis”
Sobre o saque (massacre) de
Imaruí, o padre, pesquisador e historiador João Leonir Dall Alba registrou em
sua obra Laguna Antes de 1880:
“O
saque foi ordenado por David Canabarro, em represália à revolta da povoação
contra a prepotência do Governo da República da Cidade Juliana da Laguna.
Garibaldi em suas memórias lamentou sua participação no episódio. O saque e
massacre foram terríveis”.
“Olhos
arrancados e punhaladas”
Padre Villela
ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos e, por isso, enfrentou a força do
General Canabarro.
Lindolfo Collor
em sua obra o descreveu: “Canabarro era prepotente, áspero, caráter intolerante,
não captava simpatia, não agremiava dedicações, nem semeava entusiasmos”.
Aliás, o próprio
Garibaldi em suas memórias a Alexandre Dumas sobre Canabarro disse: “O instinto
de ódio e de vingança se aninhava na alma daquele chefe farroupilha”.
Sua fúria se fez
sentir na Laguna, onde foi impiedoso contra os revolucionários, agora
desiludidos.
Por sua ordem sessenta
lagunenses foram presos nos porões dos navios, tendo quinze deles morridos
carbonizados no porão da escuna Itaparica que voou pelos ares na Batalha de 15
de novembro de 1839, conforme Boiteux.
Sobre a morte do padre Villela, o já citado Henrique Boiteux registrou em sua grandiosa obra A República Catharinense Notas para sua história - Imprensa Naval, 1927:
O
cadáver do padre Villela, foi encontrado na barra junto à fortaleza com os
olhos arrancados e crivado de punhaladas. Conduzido para a Vila ali foi
enterrado.
O
do major Barreiros que foi castrado também teve idêntico enterramento”.
Barreiros
preso na corveta Itaparica
O
maior pesquisador sobre a lagunense Anita, Wolfgang Ludwig Rau em sua grandiosa
obra Anita Garibaldi O Perfil de uma Heroína Brasileira não abordou o
assassinato do padre Villela.
Sobre
a prisão do major Barreiros, Rau escreveu:
“Também
em Laguna houve excessos e vinganças de última hora, praticadas por maus
elementos componentes dos retirantes farroupilhas.
Francisco
Gonçalves Barreiros, legalista, tinha um navio pronto no estaleiro quando
entraram os farrapos, que tomaram conta da embarcação. Ao chegarem as forças
legais, Barreiros foi conduzido preso para bordo da Itaparica”.
Exclusivo: O
Inventário do padre Villela
Alguns
historiadores e pesquisadores duvidam do assassinato do padre Villela pelos
farrapos-republicanos. Tanto que nem abordam essa morte em suas obras e
pesquisas.
Mas o processo
de Inventário existe e ele mostra que o padre deixou poucos bens. Na capa do processo está escrito: "Assassinado pelos rebeldes da Província do Sul".
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Arquivo da Comarca da Laguna - Ano de 1839 - Capa do Inventário do Vigário Francisco Villela de Araújo "assassinado pelos rebeldes da Província do Sul". |
Uma cômoda e
dois aparadores de jacarandá, doze cadeiras de palha da mesma madeira, uma mesa
de abas com gavetas, uma marquesa armada de cama, uma mesa de jantar, de cedro,
um selim, manta e freio.
Como só restaram as peças de montaria, certamente o
cavalo pertencente ao padre foi confiscado pelos farrapos.
O padre Villela
possuía um escravizado de nome João. Conforme anotação na própria Capa do
Inventário, João “fugiu com os rebeldes” (farroupilhas).
É bem provável
que tenha partido livre com a tropa dos Lanceiros Negros,
do general Antônio de Souza Neto.
Nos autos do
processo emitido pela nossa Comarca, ainda no próprio ano de 1839, no mês de
dezembro, ficamos sabendo que consta o Requerimento de João Villela residente
em Portugal se apresentando como único herdeiro.
Assinam o Inventário:
como Curador dos Bens Arrecadados: Manoel José Garcia. Juiz de Paz: Bento José
da Silva. Juiz de Órfãos Interino: Pedro Francisco da Silva. Escrivão Interino:
Francisco Pacheco dos Reis. Escrivão dos Órfãos: Manoel Joaquim da Costa. Escrivão:
Vicente José Góes Rebelo.
“Metade das
casas em ruínas ou abandonadas”
Laguna vai levar
muitos anos para se recuperar daqueles quase quatro meses da tomada
republicana.
O engenheiro e
pesquisador belga Charles Van Lede que aqui esteve em 1843, portanto, apenas
quatro anos depois dos acontecimentos em nossa cidade, dedicou em sua obra Colonização
do Brasil, algumas linhas:
Na
verdade, ela começava a se refazer dos desastres de então, e algumas novas
construções com mais cuidado e elegância tinham já substituído as antigas.
Mas,
no entretanto ela não estava inteiramente restabelecida da rude prova que
acabava de resistir”.
Nem tudo foi paz
e amor
Como vemos, nem
tudo foi paz e amor como alguns romantizam a violência daquele período da nossa
história.
A paixão de
Anita e Garibaldi foi um capítulo à parte. Gloriosas páginas de amor, coragem e
superação, não restam dúvidas e que devem ser sempre valorizadas, mostradas e
contadas às novas gerações.
Exatos cinquenta
anos depois, em 15 de novembro de 1889 a República no Brasil foi proclamada
também pela força das armas.
Mas desta vez os
agentes foram militares. Não houve guerra civil e a República não esperou o amanhecer para nascer.
16 julho 2026
“Laguna, filha do mar...”
Eis um verso
histórico do Hino do Coral Santo Antônio dos Anjos: “Laguna, filha do mar”,
de autoria de Archimedes de Castro Faria.
Nada mais
verdadeiro. Nossas ligações com o mar não são apenas físicas, geográficas. São
também, e sobretudo, históricas, econômicas e sentimentais.
Foi pelo mar que
aqui chegaram os primeiros colonizadores. Foi pelo cais do porto da Laguna que desembarcaram
os imigrantes para povoar as colônias do Sul do Estado.
Pela sua barra vinham
e partiam as riquezas. Escoadouro da lavoura e pecuária da região. Chegada de
produtos manufaturados.
Pelo seu velho porto
passavam os gêneros de exportação: banha, carne de porco, peixe e camarão secos, feijão, farinha de
mandioca... E de importação: querosene, enlatados, ferro, cimento...
Aqui aportavam
os viajantes de todo o país a bordo de navios diretamente vindos de distantes
portos do Brasil. Viajar ao Rio de Janeiro, então capital federal, era rotina.
Viagens de negócios,
contatos políticos e com autoridades, passeios, buscas de melhores tratamentos e
profissionais médicos para a saúde debilitada.
Laguna-Desterro-São
Francisco do Sul-Paranaguá-Santos-Rio de Janeiro. E vice-versa. Esta era a
rota. Linha regular que singraram nossos antepassados.
Laguna vivia
então sua pujança econômico-social. Tempos de empreendedorismo, luxuosas
construções, comércio ativo, indústrias. Pioneirismo nas áreas educacional e
cultural.
Mas, um dia
afastaram a Laguna do mar. Do mar que a fez crescer e prosperar.
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Porto Carvoeiro da Laguna - Década de 1950, já utilizando guindastes. |
O porto de
mercadorias tornou-se carvoeiro, acenaram na década de 1950 com uma
siderúrgica, depois inventaram o porto ser pesqueiro. E mais tarde simples
terminal de pesca. Retiraram os guindastes e os trilhos.
Era o início do declínio
econômico do município.
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Em primeiro plano pescadores artesanais com suas tarrafas à espera dos botos. Em segundo plano o prédio do então Porto Pesqueiro da Laguna. Ano 1998. Foto: Valmir Guedes Júnior |
O porto da
Laguna continua lá, esquecido. Vez ou outra, principalmente em ano de eleições,
surgem as promessas miraculosas. Acenam estudos, novos projetos, análises
técnicas, salvação.
Tudo fumaça.
Eternos estudos
que atravessam os séculos. Nunca na história um porto foi tão estudado.
Batimetrias,
diagnósticos analíticos de viabilidade, sondagens, pesquisas hidroviárias,
levantamentos topo hidrográficos...
Os primeiros
deles foram realizados ainda no século XIX, no recuado ano de 1864 pelo Barão
de Teffé, diretor geral da Repartição Hidrográfica, sediada no Rio de Janeiro. Ainda
tempos do Brasil Império.
Em 1886 novos estudos
efetuados, desta vez pelo capitão-tenente Francisco Calheiros da Graça.
E esses mesmos
estudos e projetos continuaram e se repetiram pelos anos seguintes de:
1891,1924,1926,1953,1957,1969,1970,1971,1985,1989,1990,1993,1994...
Passam-se os
anos, gerações se sucedem e nada acontece. E ainda hoje, por incrível que
pareça, depois de 162 anos dos primeiros levantamentos e pesquisas, novos
estudos da nossa barra e porto são encomendados.
E a barra, canal
e porto continuam lá. A barra obstaculizada em suas pedras submersas do molhe
sul sem o conserto que ninguém faz.
O canal e lagoa
cada vez mais assoreados, sem receber regulares dragagens como em outros portos.
E a profusão de
siglas referentes ao porto também atravessaram os tempos nas memórias dos
lagunenses: COBRASIL, DNPVN, INPH, CEPCAN, SIDESC, SIDERSUL, APL, PROLAG,
SUDEPE, PROMOPÊCHE, PROMOPESCA, CODISC, PORTOBRÁS, CODESP...
Dezenas de
siglas que alimentaram a esperança de dias melhores. Mas que passaram.
O povo da Laguna
já está cansado de promessas e de ouvir o NÃO em seus desejos e aspirações.
Há que haver uma
ampla mobilização de todos os segmentos da sociedade em busca de uma solução. Haverá?
A franquia de
sua barra e a operacionalidade do seu porto é luta antiga, sonho de sucessivas
gerações. Quando se tornará realidade?
Que a redenção
da Laguna um dia chegue e que todos esses registros se tornem páginas viradas
do passado.
OBS: Texto original deste autor publicado no jornal Omarginal: Cultura, Arte e Literatura - Edição Especial, Laguna, 350 anos. Ano 2. Nº 7.
14 julho 2026
Jornal OMARGINAL: Cultura, Arte e Literatura - Laguna 350 anos - Edição Especial
Em circulação na
Laguna e Tubarão o nº 7 do jornal Omarginal: Cultura, Arte e Literatura,
em sua Edição Especial Laguna 350 anos. Editor Fernando Faísca
Rosa.
Na capa e contracapa
do jornal imagens de antigos cartões-postais da Laguna.
Colaboro com o artigo “Laguna,
filha do mar...”, mostrando que a operacionalidade do nosso porto é luta
antiga, sonhos de sucessivas gerações.
Na página 3, em Lembranças
da Laguna: os antigos cartões-postais e a representação da imagem da cidade,
Fabiano Teixeira dos Santos destaca os antigos cartões-postais como importante
fonte iconográfica e documental do passado das cidades.
Na página 4, em Laguna
350 anos: alguns pontos, João Pacheco de Souza aborda sobre a
diversidade de temas e escritos que tratam sobre a história da Laguna.
Na página 5, em O
Tombamento do Centro Histórico de Laguna e os desafios para sua
preservação, Liliane Monfardini Fernandes de Lucena reflete sobre os
desafios para a preservação do Centro Histórico.
Na página 6,
Willian Costa expõe o período histórico em que a Irmandade de Nossa Senhora do
Parto foi um símbolo de fé, religiosidade e resistência negra na cidade, com Uma
Irmandade negra na Igreja Matriz de Laguna.
Na página 7, em
Pelas margens do Atlântico: diáspora africana em Laguna no século XIX,
de André Fernandes do Passos, revisita um longo período de intensificação da
população africana e afrodescendente na Laguna.
Na página 8, em
Laguna e a tradição das canoas de convés, Cláudia Búrigo apresenta a
história do desaparecimento da canoa de convés, embarcação que faz parte da
memória dos moradores.
Na página 9 com
o artigo “Laguna, filha do mar...”, Valmir Guedes Júnior mostra que a
operacionalidade do nosso porto é luta antiga, sonhos de sucessivas gerações.
Em Jogos,
brinquedos e brincadeiras: memórias da infância lagunense, na página 10
Gildo Volpato descreve a memória de quem brincou nas ruas, nos morros e nas
praias.
E Joice de Souza
Avelina Costa na página 11 nos faz refletir sobre a pergunta: onde começa, de
fato, a história de Laguna? Em Laguna antes de Laguna: os sambaquis e as
memórias de longa duração da paisagem.
12 julho 2026
Moto Laguna na Praça República Juliana: Um local inadequado
Foi no mínimo
infeliz, em minha opinião, a escolha da Praça República Juliana no Centro Histórico
para sediar mais uma edição do moto Laguna nos dias 24 e 25 de julho próximos.
Acho um abuso,
uma falta de consideração e respeito com os moradores.
O local é
pequeno, estreito, calçamento de paralelepípedos, com moradores em sua maioria idosos,
alguns enfermos, morando em casas geminadas que trepidam com qualquer som alto.
A região, além do
mais, por sua arquitetura, propaga e amplifica qualquer som. É uma verdadeira
caixa acústica de ressonância.
Agora imaginem essa
pequena área triangular receber cerca de mil motocicletas (os organizadores falam
de 800 a 1.000 desses veículos) no local acelerando, roncando e soltando gases
dos escapamentos?
Cadê a propagada preservação do patrimônio cultural e histórico das edificações e a qualidade de vida dos moradores?
Hóspede
indesejado e do barulho
Pois é. Os moradores da Praça
Seival lá nos Molhes não querem o moto Laguna, os moradores do Mar Grosso de uma maneira geral não
querem o evento lá, o porto não quer em sua área, o Laguna internacional não
quer em suas imediações, na Barbacena eles não querem.
Empresários discordam
desse evento na Praça
E não são
somente os moradores da “Praça de Anita” e seu entorno que estão preocupados e se
opõem ao evento nesse local. Até empresários da região são contrários e questionam
a escolha.
Em matéria
publicada no Jornal de Laguna desse último fim de semana a empresária
Lívia Collantes, ligada ao ramo gastronômico, disse que sua principal
preocupação é a preservação do patrimônio histórico.
“Um evento desse
porte pode comprometer a tranquilidade da área, aumentar o fluxo de veículos,
gerar excessos de ruídos e deixar imóveis históricos mais vulneráveis”, salientou
a empresária.
Lívia também
informa que não houve consulta prévia aos comerciantes sobre a definição do
local.
A empresária
também entende que “um espaço fechado, fora das adjacências do Centro Histórico
seria mais adequado para sediar um evento desse porte”.
Outra empresária
no local, Suelen Dias também manifestou ao Jornal de Laguna sua
preocupação com a realização do evento na Praça, dizendo que o “Moto Laguna
demandaria um espaço mais compatível com sua estrutura".
A empresária também
informa que os comerciantes da região foram convidados para uma reunião “apenas
após a definição do local”.
Moradores não
foram consultados, nem participaram de reunião com prefeitura
Acrescento como
morador do entorno da praça que, ao contrário do que informa a prefeitura e organizadores, os moradores
da Praça República Juliana e seu entorno não foram convidados, consultados ou participaram de
reunião prévia sobre o projeto e escolha do local.
Foram pegos de surpresa com a divulgação pela imprensa da realização do evento na praça.
Fico pensando e me perguntando cá com meus botões:
Será que tem autorização? Laudos de Impacto Ambiental? De Impacto de Vizinhança? Alvarás da Polícia Militar? Da Polícia Civil? Do Corpo
de Bombeiros? do IPHAN? para realização ESPECÍFICA do moto Laguna na Praça
República Juliana?
Não me refiro a autorizações
para montagens de tendas e palco para shows pelos 350 anos de aniversário da
cidade. Isso é uma coisa.
Falo desse evento
ESPECÍFICO do moto Laguna com todos os transtornos que pode causar.
Com a palavra as
nossas autoridades, inclusive os nobres vereadores que representam os anseios da população lagunense.
08 julho 2026
O "saudoso" lagunense Mário Cabral, pianista que tocou para Carmen Miranda
Lagunense, filho de lagunenses, de tradicional família. Aprendeu a tocar
piano com sua mãe. Depois dos estudos iniciais cursou Direito no Rio de
Janeiro. Formado, retornou à terra natal para exercer a profissão. Foi
professor do Ginásio Lagunense, um dos fundadores do Cordão Carnavalesco Bola
Preta de nossa cidade. Casou-se com uma lagunense.
Retornando ao Rio de Janeiro, então Capital Federal, escreveu sobre
música em grandes jornais, apresentou programas em emissoras de rádio e acompanhou
ao piano cantores e cantoras da Música Popular Brasileira. Carmem Miranda foi
uma delas e Orlando Silva, Francisco Alves, Carlos Galhardo e Dorival Caymmi...
Mário Cabral foi amigo dos maiores jornalistas e músicos da sua época.
Boêmio, viveu apaixonadamente o Rio de Janeiro das décadas de 40/50 e 60.
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O advogado, professor, crítico musical e pianista Mário Greenhalg Cabral. Revista Cidade Juliana (LG)-1947. |
“Laguna celeiro de boa gente”, diz a letra de Archimedes de Castro Faria
em seu Hino do Coral Santo Antônio dos Anjos, em versos tão lindos e melódicos,
que também poderia ser o nosso hino oficial, lado a lado com o de Osmar Cook.
O tempo passa, gerações se sucedem na marcha inevitável da vida.
Mas sempre devemos lembrar personagens que brilharam em nossa cidade e
por esse Brasil. De vultos que viveram e deixaram sua contribuição nas mais diversas
áreas.
Um desses personagens é o lagunense Mário Greenhalg Cabral. Advogado,
professor e músico.
Quem foi Mário Greenhalg Cabral
Mário Greenhalg Cabral nasceu na Laguna em 22 de fevereiro de 1911,
filho de Zulmira Greenhalg Cabral e João Guimarães Cabral.
Teve como irmãos Maria Cabral Mendonça (Marieta), casada com Pedro
Sérgio Mendonça (proprietário da tradicional Casa São Pedro, em nossa cidade);
Ruth Cabral Ulysséa, casada com o professor Ruben Ulysséa; e Yvonne Cabral
Baungarten, casada com Walter Baungarten Júnior.
Fez seus primeiros estudos em nossa cidade, depois no Colégio dos
Jesuítas, em Florianópolis.
Desde cedo aprendeu a tocar piano com sua mãe Zulmira.
Aos 15 anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro para que ele
seguisse carreira na Marinha. Mas não teve sucesso em ingressar na Escola
Naval.
Foi aluno da Faculdade de Direito na Universidade do Brasil na
então Capital Federal, onde formou-se em dezembro de 1937.
Teve como colegas de turma, entre outros, Barreto Pinto, Alzirinha
Vargas, João Condé, Dante Viggiani, Zé Honório Rodrigues e Marques Rêbelo.
Concluído o curso, retornou à Laguna onde sua família já estava morando
novamente.
Aqui advogou e foi professor no Ginásio Lagunense, além de
colaborador do jornal lagunense O Albor.
Em 3 de maio de 1939 compôs a diretoria da Sociedade Musical Carlos
Gomes como orador. Era presidente Francisco Fernandes de Oliveira
![]() |
Recorte da foto acima mostra o advogado e professor do Ginásio Lagunense Mário Greenhalg Cabral. Foto: Livro Laguna Memória histórica, de Ruben Ulysséa. |
Foi um dos fundadores em nossa cidade em 23 de dezembro de 1937, do Cordão
Carnavalesco Bola Preta e seu presidente de Honra.
Em paralelo à vida profissional, participava de saraus musicais em
reuniões sociais, familiares e em festas religiosas.
Em junho de 1939, por exemplo, juntamente com o musicista Ignácio Brandl
acompanhou ao piano a senhora Maria Batista Ferraro interpretando Ave Maria de
Gounod, na missa às 10 horas do dia 13 em honra a Santo Antônio dos Anjos
daquele ano.
Que se registre: Além de Cabral e Brandl, participaram os músicos Manoel
dos Santos Bessa, Pedro Maria dos Santos, Plácido Machado, Antônio Figueiró,
Ataliba Pacheco dos Reis, Manoel Theodoro, Ícaro Cândido e Sérgio Velozmoro.
No coro vocal: Constância Freitas, Norma Duarte, Alvany Alcântara,
Leonor Flores da Silva, Alice Duarte Bessa, Marieta Bessa Silveira, Alyrio
Alcântara, Arthur Teixeira, Roberto Francalacci e Fernando Eggert.
De 1942 a 1944 foi membro do Conselho Deliberativo do Clube Náutico
Recreativo Almirante Lamego, de nossa cidade.
Homenagens na Laguna em seus aniversários de 1938 e 1939
Concluído em dezembro de 1937 o curso de Direito na Faculdade no Rio de
Janeiro retornou à Laguna onde passou a advogar e ministrar aulas no Ginásio
Lagunense.
Em 22 de fevereiro de 1938, data de seu aniversário, recebeu uma grande
homenagem de seus amigos e familiares.
A data foi comemorada com almoço no Balneário Hotel, no Mar Grosso,
nosso primeiro hotel naquele bairro. Como era praxe na época, o homenageado foi
buscado em sua residência.
Os oradores se sucederam nos discursos, dentre eles Nunes Varella,
Armando Calil Bulos, Major Manoel Grott, Antônio Guimarães Cabral, João
Clemente de Carvalho.
Em 1939 as comemorações se
repetiram no mesmo dia 22 de fevereiro. Logo cedo pela manhã já recebia
inúmeros amigos na residência de seus pais, no centro da cidade, levando os
abraços pelo aniversário.
À noite o aniversariante foi levado ao Clube Anita Garibaldi no
bairro Campo de Fora. Foi acompanhado por vários componentes do Cordão Carnavalesco
Bola Preta.
Foi recebido à porta da tradicional sociedade pela diretoria que tinha à
frente o presidente Júlio de Oliveira.
O Cordão Carnavalesco Bola Branca também se fez representar
através do jovem Volnei de Oliveira, filho do advogado e jornalista João de
Oliveira.
Farta mesa com bebidas e doces foi servida aos presentes.
Arthur Machado o homenageou com uma crônica publicada no jornal O
Albor:
“(...) Dizia eu, de mim para mim: quanto vale, na vida, o indivíduo saber
conduzir-se.
O valor de Mário Cabral nasce do caráter puro que possue, da retidão do
seu proceder, da urbanidade de seu trato, da delicadeza de suas ações, da
honestidade impressa no exercício de sua profissão”.
Nas férias retornava ao Rio de Janeiro, onde possuía muitos amigos. Lá passava algumas semanas se apresentando como pianista e acompanhando intérpretes da música popular brasileira.
Mudou-se para o Rio de Janeiro
Nos primeiros meses de 1943 passou a morar definitivamente na Cidade
Maravilhosa.
Em fevereiro já participava de um chá-dançante promovido pela Liga da Defesa
Nacional em benefício de bônus de guerra.
Participaram, entre outros, Carlos Galhardo, Edmundo Maia e a cantora
Eny Costa acompanhada ao piano de Mário Cabral.
Em março de 1944 já apresentava na Rádio Cruzeiro do Sul (PRD-2) o
seu programa Pif-Paf onde se apresentava ao piano juntamente com muitos
de seus convidados.
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Anúncio Programa PIF-PAF apresentado por Mário Cabral. Gazeta de Notícias (RJ), de 28 de janeiro de 1945. |
Na mesma emissora, a partir de 1946, apresentará outro programa de muita
audiência chamado O Coração de uma Cidade, no ar diariamente a partir
das 21 horas.
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Jornal Diário de Notícias (RJ) de 12 de abril de 1946. |
Casamento
Em 4 de outubro de 1945 casou-se com a lagunense Abigail Rocha Cabral,
filha de Pedro Rocha e Córa Magalhães Rocha, em cerimônia realizada na Capela de Nossa Senhora da
Glória do Outeiro, no Rio de Janeiro, cidade onde os sogros residiam.
O casal tinha três filhas: Abigail, Adail e Maria Luísa.
Pedro Rocha era abastado comerciante na Laguna, proprietário da empresa Rocha & Cia, exportador das famosas marcas de farinha de mandioca Selecta e Sulina.
Córa era lagunense, filha de Luíza Rollin Magalhães e Eugênio Magalhães. Foi a primeira mulher lagunense aprovada em exame de direção de automóvel na Laguna, obtendo assim carteira de motorista. Aliás, tema de matéria já publicada Aqui em 25 de setembro de 2020.
Dias depois, o casal veio para Laguna por alguns dias em visita aos seus pais, parentes
e amigos.
O casal Mário e Abigail terá duas filhas: Ivone e Suzana.
Atuação na imprensa e em emissoras de rádios
Passou a escrever na Revista Sombra, do diretor Walter Quadros.
Depois, como crítico musical na Folha Carioca, no Jornal
Tribuna Popular e mais tarde, e durante muitos anos, no jornal Tribuna
de Imprensa, do jornalista Carlos Lacerda, seu amigo com quem dividiu um
apartamento no Edifício Olinda nos primeiros e difíceis anos morando no Rio.
Apresentou um programa sobre música na Rádio Ipanema.
Foi autor do verbete da Música Popular da Enciclopédia Barsa.
Foi membro de comissões julgadoras de concursos musicais, entre eles o 1º e 2º Festival Internacional da Canção. E chefe da Delegação do Festival de Cannes (1966).
Foi redator na Rádio Ministério da Educação e Cultura.
Estudou piano com o maestro espanhol Tomás Téran radicado no Brasil nas
décadas de 1940/50/60 e harmonia com o maestro Oscar Lorenzo Fernándes.
Trabalhou aos domingos no Programa Casé, de Ademar Casé, na Rádio
Philips do Brasil PRAX.
Foi um programa que revolucionou a história da mídia brasileira. O
primeiro a pagar cachê aos artistas, primeiro jingle e primeiro contrato de
exclusividade com artista.
Pelo programa passaram ícones como Noel Rosa, Carmem Miranda, Luiz
Gonzaga, Dorival Caymmi e Orlando Silva.
Mário Cabral acompanhou ao piano a maioria dos cantores e cantoras daquela
época e muitos passou a conviver.
Foi pianista de Carmem Miranda
Como pianista foi escolhido para, juntamente com Carmen Miranda e
Francisco Alves, divulgar a música brasileira no exterior.
Acompanhou a cantora Carmen Miranda e Roberto Vilmar numa excursão a
Buenos Aires, de grande sucesso nas apresentações nos Teatros San Martin e
Apolo.
Mário Cabral conviveu praticamente com todos os artistas da época e teve
entre seus amigos Haroldo Costa, Flávio Rangel, Carmem Miranda, Ruben Braga,
Fausto Wolff, Noel Rosa, Vinicius de Moraes, Silveira Sampaio, Fernando Lobo,
Paulo Tapajós, Antônio Bandeira, Paulo Mendes Campos, Álvaro Moreira, Manoel
Bandeira, Antônio Maria, Nestor de Holanda, Orestes Barbosa, Dolores Duran, Silvinha
Melo, Elisinha Coelho, Ismael Neto, Custódio Mesquita, Joel Silveira, Sérgio
Porto, Pomona Politis...
Bom boêmio, viveu a noite do Rio de Janeiro das décadas de 40/50 e 1960.
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Num encontro social, casal Mário Cabral e esposa Abigail Cabral Rocha (nas duas extremas) com o Embaixador da Rússia Iacov Suritz e sua filha Elisabeta Suritz. Revista Sombra (RJ) - julho /1946. |
A partir de 1966 passou a integrar o Conselho Superior de Música
Popular, entidade criada pelo crítico Ricardo Cravo Albin no Museu da Imagem
e Som.
Ao piano, com brilhantismo, executava valsas, sambas, sambas-canções,
marchas....
Quem o viu e o ouviu ao piano à época, testemunhava que em suas
execuções seus dedos davam uma harmonização própria, enriquecendo ainda mais a
canções.
Seus amigos diziam que Mário era o acompanhante favorito das estrelas da
música, aquele capaz de ouvi-las e de entendê-las.
Colaborou com artigos para a Revista de Música Popular, cujo
editor era Flávio Rangel.
Aliás, Rangel costumava dizer que “Mário Cabral mergulhava as mãos numa
solução de veludo, antes de ir para o piano, tal a suavidade que sabia tirar do
teclado”.
Título de Cidadão Carioca
Em março de 1960, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro concedeu o
Título de Cidadão Carioca ao músico e crítico de música Mário Greenhalg Cabral.
Proposta do vereador Murilo Miranda (UDN).
Assim o vereador justificou a concessão do título:
“Participando intensamente há mais de vinte anos do
nosso movimento artístico, Mário Cabral se tem revelado um animador incansável,
apoiando e estimulando os nossos verdadeiros valores, sem, entretanto, perder
aquele senso de equilíbrio e ponderação que constituem a base de toda a sua
atividade.
Por isso mesmo, a coluna que mantém em um dos
principais órgãos da imprensa carioca, reveste-se de prestígio e autoridade
indiscutíveis.
Além de destacar-se por sua atuação na imprensa,
Mário Cabral também se recomenda ao apreço e à gratidão dos artistas
brasileiros pelo carinho e solicitude com que, como advogado, se tem dedicado,
o mais das vezes de maneira desinteressada e com sacrifício dos seus próprios
interesses, a todos quantos necessitam de seus serviços profissionais,
empenhando-se nessa tarefa, com o mesmo escrúpulo, dedicação e proficiência que
tem assinalado a sua atividade na crítica musical”.
O "saudoso" Mário Cabral
Seu amigo Ruben Braga, numa crônica publicada na Revista Manchete em
1953, explicou porque quase todos os amigos de Mário Cabral o chamavam sempre
com o epíteto de “o saudoso”.
Contou o cronista Ruben que certa vez, em Petrópolis, no palco do Cinema
Capitólio, o cantor das multidões Orlando Silva se apresentava e entre um
número e outro exclamou:
-Agora, vou interpretar a valsa Rosa, de Pixinguinha, acompanhado ao
piano pelo “saudoso” Mário Cabral.
O apelido pegou e dali em diante sempre que era apresentado nos palcos
era chamado como “O saudoso Mário Cabral”.
O próprio Braga dizia que o apelido lhe dava “um certo ar ligeiramente
falecido”. Outro amigo reconhecia em Mário “um certo ar nostálgico”.
Falecimento aos 57 anos
O lagunense Mário Greenhalg Cabral faleceu aos 57 anos, às 14 horas do
dia 21 de junho de 1968 vitimado por uma fibrose pulmonar, no leito do Hospital
Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, deixando a esposa Abgail e as filhas Ivone
(18 anos) e Suzana (14 anos).
Seu velório aconteceu no Salão de Exposições do Museu Imagem e Som
(MIS).
Na ocasião, uma exposição plástica com o tema “Carolina” estava
acontecendo e continuou aberta ao público a pedido da esposa Abigail que
justificou: “Mário Cabral graças a sua identificação com a arte em seus vários
matizes, não se sentiria feliz se assim não o fosse”.
Foi sepultado no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de
Janeiro.
Sempre dizia aos amigos que achava excelente viver, mas se tivesse que
morrer, queria ouvir no momento do adeus “Jesus alegria dos homens” - Coral final
de uma cantata de Bach.
Seu falecimento foi noticiado em praticamente todos os jornais do Rio de
Janeiro, recebendo comentários e adeus de famosos jornalistas.
Em sua coluna sobre teatro na Tribuna de Imprensa de três de
julho de 1968, Fausto Wolff escreveu:
“Morreu o bom caráter Mário Cabral. E a gente não
tem outra coisa a fazer se não ficar olhando com cara de besta para esses
acontecimentos sem resposta.
Não há nada que me dê mais raiva que a morte de um
bom caráter. Acho que pretendem extinguir assim a espécie”.
Haroldo Costa, outro dos seus grandes amigos escreveu no Diário de Notícias de 26 de junho de 1968:
“Morreu Mário Cabral. A frase é tão violenta, tão crua, que se torna difícil articulá-la ou escrevê-la.
Poucos amaram o Rio e as suas manifestações artísticas quanto aquele pianista amador que tocava com desembaraço e integração uma composição de Ernesto Nazaré ou Antônio Carlos Jobim.
Seu sorriso permanente era uma festa para os seus amigos e o seu conhecimento de causa merecia todo o respeito dos seus pares. Foi um homem de muitos amigos.
Com o nosso Mário foi um pedaço bom deste Rio que ele amava cariocamente. Sua falta será sempre sentida. Foi um privilégio ter sido amigo do saudoso Mário Cabral".
A colunista e jornalista Pomona Politis no Diário Carioca de 25
de junho de 1968 escreveu assim o necrológio:
Ao velho amigo que se foi
“(...) Você partiu. Não é letra de samba, o samba
que você tanto cultivou. É a dura realidade na linguagem singela das palavras.
Aqui, deste canto que os seus olhos varavam todos
os dias, fica o pensamento sempre em você, quando eu tiver de enumerar
reconhecida os bons de alma os entes inesquecíveis. Adeus meu amigo, Mário
Cabral”.
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