24 agosto 2026

Nos tempos da datilografia - Me respeitem, porque fiz o curso

 “Batidas na porta da frente. É o tempo...”
(Aldir Blanc)

Me respeitem, porque fiz o curso de datilografia. 
Antigamente, saber datilografia era obrigatório para se obter um emprego. Concursos públicos assim o exigiam. Era necessário para confecção de cartas, ofícios, petições, tabelas...
A datilografia era feita nas chamadas máquinas de escrever. Não existia o silêncio dos suaves e anatômicos teclados atuais feitos de plástico. Era um barulhão, um trovejar de sons ecoando nas salas abafadas de escritórios e redações de jornais.
Som metálico. Ferro batendo no ferro. Ou melhor: letras e caracteres de chumbo marcando a folha virgem do papel. Entre os dois uma frágil fita de seda bicolor. Sim, apenas duas cores, preto e vermelho.
Um antigo e valioso certificado
Em uma velha pasta que pertenceu ao meu pai, encontro um documento que imaginava há muito tempo perdido.
Ao lê-lo mergulho em lembranças e passo a folhear algumas páginas do livro das memórias.
Foi em meados de 1975. Tinha eu quinze anos e querendo comprar uma máquina de escrever havia a necessidade de primeiro cursar datilografia. Era obrigatório.
Tinha aulas pela manhã no Científico no então Conjunto Educacional Almirante Lamego (Ceal) e à noite Ciências Contábeis no Colégio Comercial Lagunense (CCL), no mesmo prédio.
Com a tarde vaga me matriculei na Escola de Datilografia Stella Maris, no Colégio do mesmo nome. Duas aulas por semana.
Fim de ano, em dezembro, recebi o tão almejado Certificado de Habilitação em Datilografia. Irmã Blandina Theis foi quem assinou o documento. Era a diretora e professora das aulas.
Austera, atenciosa, rígida nos horários, bondosa com todos os alunos. Ótima com os bons alunos.
Meses depois, com as aulas e o Certificado em mãos, estava contratado na Agência da Receita Federal da Laguna. Aos 16 anos, carteira profissional assinada. Meu primeiro emprego.

Remington 25

Com o primeiro salário comprei a tão sonhada máquina de escrever. Uma Remington 25, design moderno, revestimento na cor laranja. Um luxo!
Três anos depois, com a prova de datilografia em uma das etapas, fui aprovado em meus dois primeiros e únicos concursos. Para o INSS e Eletrosul. Mas isso é outra história pessoal.

TEC-TEC-TEC, DINNNG, VRUMMMMM...
Escrever antigamente em enormes máquinas de datilografia era onomatopeico.
Não existia o silêncio dos suaves e anatômicos teclados modernos feitos de plástico. Era um barulhão, um trovejar de sons ecoando nas salas abafadas dos escritórios, nas redações dos jornais.
Som metálico. Ferro batendo no ferro. Ou melhor: letras e caracteres de chumbo marcando a folha virgem de papel. Entre os dois uma frágil fita de seda bicolor. Sim, duas cores, preto e vermelho.

Máquinas de escrever quando eram expostas no Museu Anita Garibaldi. Ano 2004. Foto: Valmir Guedes Júnior

E o som tinha cheiro. Cheiro de óleo de máquina, de tinta-carbono, cheiro de corretivo.
As frases iam sendo escritas na cadência das pontas dos dedos. Todos eles devidamente, exaustivamente utilizados. Os dez, incluindo o mindinho. Principalmente o mindinho.
Dinnng... era o barulho da sineta embutida na máquina avisando o fim da margem. Havia que se separar as sílabas, rapidamente, corretamente.
Aliás, frases devidamente tabuladas e com parágrafos. Escala zerocêntrica, marginadores visíveis. 

Os raízes, como se diz hoje, devem lembrar
Manualmente você puxava o carrinho com uma pequena haste torta para o lado e reiniciava ou continuava a frase em nova linha. E sem qualquer letra trocada, do contrário tinha que recomeçar em nova folha de papel.
Só mais tarde vão surgir umas fitas corretoras ou um líquido branco em minúsculos recipientes de vidro passado a pincel no papel. Era necessário precisão e soprar para secar. Depois, retornar uma casa e datilografar por cima com a letra correta. Mesmo assim ficava feio o resultado.
O raciocínio e a memória com o tempo e a prática acompanhavam o ritmo das batidas.
Era assim que antigamente se escrevia a máquina. Sim, se dizia respeitosamente: Máquina de Escrever, com iniciais maiúsculas. Marcas Remington, Olivetti, Olympia, Underwood...

Anúncio da máquina de escrever Remington no Jornal lagunense O Albor de 7 de julho de 1956.

E quem nelas escrevia chamava-se datilógrafo. Havia escolas, aulas práticas e teóricas. E exames. No final de meses, os formandos recebiam certificados de conclusão. Como o meu aí de cima.
Não antes dos alunos serem submetidos à prova final, eliminatória, de memorização do teclado. Olhos vendados só ouvindo o ditado da professora. 
Ali era a prova dos nove. Quem aprendeu, aprendeu, quem não aprendeu...
Quanto mais velocidade melhor. Um bom datilógrafo conseguia a média de 100 palavras por minuto.
Havia até o dia 24 de maio em  homenagem ao Datilógrafo.
Datilografia era obrigatória para se obter um emprego. Concursos públicos a exigiam. Era necessária para as cartas, ofícios petições, tabelas...

Os cata-milhos
Os cata-milhos dificilmente tinham vez. Não eram aprovados.
Cata-milhos? Sim, era como chamavam com depreciação os que datilografavam usando um ou dois dedos das mãos, procurando meio que perdidos as letras no teclado.
Não se falava em bullying naquela época. Já existia, claro, mas a gente é que não sabia o seu significado.

Uma sala de aula de datilografia na década de 1970. Imagem gerada por Inteligência Artificial.

   Com a datilografia você aprendia disciplina, destreza, paciência, coordenação, o tal foco, como hoje chamamos.
E havia a postura. Ahhh a postura...
Ainda hoje, quando fico mais à vontade ao digitar, cervical torta, ombros desalinhados, pés sobre um puf, cotovelos apoiados sobre à mesa, pareço ouvir uma voz.
Deve ser a Irmã Blandina lá dos céus com seu sotaque carregado de erres dizendo às minhas costas:
- Seu Guedes, olha a posssturrrra...
Evidentemente que logo me recomponho, ereto, disciplinado, obediente.
Certas lembranças da gente não há tecla moderna de delete que apague dos recantos da nossa memória.
 
A máquina de escrever saiu de cena
A máquina de escrever saiu de cena com a popularização do computador nas décadas de 80 e 90. Aulas de datilografia viraram aulas de informática. Tudo o que tinha na máquina de escrever foi para o editor Word. Moderno, eficaz, funcional.
Tudo digital e agora com reconhecimento de voz e Inteligência Artificial.
E pensar que tudo começou com a máquina de escrever, uma invenção das mais importantes da história.
Hoje, olhando para trás, passados mais de meio século, agradeço ter aprendido o charme da datilografia. Tempo em que escrever era quase uma arte.
E daí, leitor, conta para nós sua experiência com a datilografia. Fez curso também?

19 agosto 2026

Faleceu Antônio Carlos Marega +

Faleceu na manhã de hoje (19), em Porto Alegre, onde estava residindo, o ex-bancário, artista plástico, colecionador, professor e memorialista lagunense Antônio Carlos Marega, aos 79 anos.

Antônio Carlos Marega. Foto: Geraldo Luiz da Cunha-Gê.

Nascido em 7 de julho de 1947, Marega estudou na icônica Escola da dª Mimi, Grupo Escolar Jerônimo Coelho e Conjunto Educacional Almirante Lamego.
Aprovado em Concurso para o Banco do Brasil, trabalhou em Caçador e depois solicitou sua transferência para Laguna, onde se aposentou.
Lecionou Contabilidade Bancária no Colégio Comercial Lagunense (CCL), foi presidente da Associação de Assistência e Defesa contra Lepra.
Foi sócio e membro da diretoria do Clube Blondin. Foi sócio do Cordão Carnavalesco Bola Branca e junto com Zavério Erght desenharam muitas fantasias dessa entidade carnavalesca de salão.
Foi Irmão da Loja Maçônica Fraternidade Lagunense e depois da Loja Maçônica Tordesilhas onde foi Venerável.

Antônio Carlos Marega - Foto: Valmir Guedes Júnior

Devoto de Santo Antônio dos Anjos, colecionava tudo o que podia sobre o taumaturgo, além de imagens e lembranças das Festas anuais.
Colecionava motos em miniaturas, álbuns com figurinhas das Copas do Mundo e também dos "santinhos" de candidatos políticos.
Em 2023 foi homenageado na 41ª Semana Cultural da Laguna com a Comenda Domingos de Brito Peixoto.
Tornou-se fonte de pesquisas das mais variadas sobre a história e personagens da nossa Laguna colaborando com seus conhecimentos com professores, estudantes, pesquisadores, historiadores, jornalistas e escritores.
Era dotado de uma memória prodigiosa. Para quem apreciava era uma grande prazer ouvir o Marega, principalmente as histórias não oficiais, os causos que não se encontram registrados nas páginas de livros e jornais antigos.
Quando o encontrava e o visitava tornava-me ouvinte atento, a absorver tantas histórias. Trocamos opiniões e materiais, abordamos reminiscências e curiosidades. Aprendi muito. Sou e serei sempre credor de todas as suas valiosas informações e materiais que me cedeu.

Antônio Carlos Marega pelo cartunista José Custódio Rosa Filho.

Por minha sugestão criou em 2012 um Blog intitulado Baú do Marega, com interessantes matérias iniciais, mas pouco depois, interrompido.
Um adendo: Marega também produzia homeopatia, principalmente para doenças respiratórias como bronquites. Muita gente se curou com seus remédios.
Foi casado com Solange Remor Marega, de saudosa memória, com quem teve cinco filhos: Graziela, Gabriel, Gláucia, Giovana e Gabriela.
Sentimentos aos amigos e familiares.

Cerimônia de velório vai ocorrer amanhã, quinta-feira (20) das 8 horas às 16h na Sala Mortuária Santo Antônio da Casa Funerária Gomsan, com cerimônia de despedida logo após, no Crematório São Matheus, em Capivari de Baixo.

14 agosto 2026

Rua do “Letreiro Borrado” no Centro da Laguna

 
Hoje, ao passar aqui na esquina da rua Barão do Rio Branco, no centro e avistar a charmosa placa com o nome desta via, me lembrei de uma historinha curiosa contada – dentre tantas - por Saul Ulysséa, em seu livro Laguna de 1880.

Hoje a rua Barão do Rio Branco mereceu uma bela placa no estilo das antigas, em esmalte azul na parede de seu casario colonial da esquina, totalmente restaurado pelo advogado Frederico Nunes.

Antes uma explicação:
A hoje denominada rua Barão do Rio Branco, em homenagem a José da Silva Paranhos Júnior, professor, diplomata, historiador, escritor, jornalista, antigamente era chamada de rua 1º de março.
E por que 1º de março?
Em homenagem à data em que aconteceu a vitória aliada na Batalha de Aquidabã, que pôs fim à Guerra do Paraguai, em 1875.
É também, coincidentemente, a data da fundação da cidade do Rio de Janeiro.
Diz Ulysséa, que essa rua teve anteriormente o nome de rua da Banca e conta o porquê:
“Naturalmente em época muito anterior existiu alguma banca de peixe que lhe deu o nome, em frente a esta rua, porque em 1880, era a banca em frente à rua Tenente Bessa”.

Rua do Letreiro Borrado
E é aí que Saul Ulysséa passa a narrar o fato curioso: 

“Anos antes foi Juiz de Direito da Comarca o dr. Duarte Pereira, apelidado “Capivara”. Não sei se devido à irascibilidade ou exigência ao cumprimento da lei ou outra qualquer coisa, o que é certo é que gozava pouca simpatia por parte da população.
Os vereadores da Câmara, não sabemos por que motivo, entenderam dar seu nome a uma rua da cidade.
Vê-se que já naquele tempo faziam parte da Câmara, como nos tempos modernos, indivíduos que não compreendiam o valor da homenagem prestada a uma pessoa, dando seu nome a uma rua.
A escolhida para homenagear o juiz, foi a rua da Banca. Foi colocada placa com o nome de dr. Duarte Pereira.

Placa do Letreiro Borrado (Rua Dr. Duarte Pereira) é a atual Barão do Rio Branco, no Centro Histórico da Laguna. Imagem gerada por IA.

    O povo ou alguns indivíduos, como protesto, em uma noite borraram a placa da rua, que era pintada em tábua com os cantos arredondados tendo em volta uma tarja preta. Fundo branco com letras pretas.
Ficou a rua da banca apelidada: “Rua do letreiro borrado”.
Não demorou muito foi o d. Duarte Pereira removido e penso que nulificaram a homenagem porque não consta nos livros da municipalidade a mudanças do nome da rua da Banca se não para 1º de Março”.

Quem foi Duarte Pereira
Luiz Duarte Pereira foi juiz da Comarca da Laguna por quase dez anos, de 1862 a 1871, ainda durante o Império.
Nosso historiador Oswaldo Rodrigues Cabral informa que o apelido "Capivara" não se sabe se já existia "ou se na Laguna lhe colocaram a alcunha com que passou à posteridade, através das colunas dos jornais da época. O apelido lhe foi dado por pintar os cabelos que, com a tintura, ficavam malhados, de cor indefinida, entre o chocolate e o cinza".
Devia ser uma loção capilar avó do Pindorama que surgiu na década de 1940.
Cabral diz que o "dr. Luiz Duarte Pereira encheu as páginas da história da politicagem lagunense com os mais interessantes e pitorescos episódios".
Era um Conservador intransigente, sempre em briga com os políticos Liberais da Laguna.
O juiz Duarte era dado a processar jornalistas que o criticavam e promotores públicos.
Mandou até prender um barbeiro que demorou uns minutos para lhe atender.

Teve abaixo-assinado e extinção da Comarca da Laguna
Um abaixo-assinado foi feito com dezenas de assinaturas para remover o juiz. O documento foi enviado ao Imperador. O pedido não obteve êxito.
Para removê-lo, em abril de 1869 a Assembleia Legislativa, através dos deputados Liberais conseguiram a aprovação de projeto extinguindo - vejam só - a Comarca da Laguna, anexando-a à de Lages. 
Com isso o Juiz Duarte foi nomeado Chefe de Polícia de Santa Catarina, e removido para Desterro. 
E nesse novo cargo também aprontou poucas e boas, inclusive com perseguições a deputados que votaram pela extinção da Comarca lagunense.
Um ano depois, a mesma Assembleia revogou seu próprio ato e Laguna voltou a ter a sua Comarca, aí já com novo Juiz, Manoel do Nascimento da Fonseca Galvão.
Como se vê, Luiz Duarte Pereira, o Capivara, merece uma matéria especial sobre ele, em breve neste Blog.

09 agosto 2026

Os anti-heróis anônimos


Durante grande parte de sua vida Richard Calil Bulos, o Chachá, de saudosa memória, mais até do que as artes plásticas (arte naif), exerceu o jornalismo em nossa cidade. Bem por isso fundou inúmeras publicações e foi redator de várias outras.
Foi um mestre na arte de escrever e de produzir uma manchete chamativa, com pinceladas sensacionalistas. 
Em seu estilo registrou muitos acontecimentos do dia a dia da cidade. Ele sabia criticar, elogiando. E extrair de um pequeno fato a seiva do texto que prenderia a atenção dos leitores.

Tipos populares 
Era justo em seus escritos aos elogios a personalidades políticas, empresariais ou autoridades que se destacavam na sociedade à ocasião.
Mas, também sabia fazer o mesmo ou até melhor com os desvalidos pela sorte, com os não agraciados pela riqueza e sobrenomes, pedintes e andarilhos que perambulavam pela nossa Laguna. 
Hoje diríamos, pessoas em situação de rua.
São os chamados “tipos populares”. Estes sempre existiram, em grande quantidade, em todas as épocas.

Marengo. Gente da Minha Terra, de José Bessa.

Vitória, João Frade, Felipe da Rebeca, Zé dos Papéis, Zé Bode, Edite Pandorga, Lata, Andrino, Bibi-tudo, Arina, Sovai, Linguinha, Zé Bombril, Pesquisa, Gengivinha, Biguá, Clemente, Ibraim, Jiqui, Clóvis, Maria do Benoni, Quintino... 
Foram tantos...
O lagunense José Bessa, em seu livro “Gente da Minha Terra”, retratou muito bem alguns deles, pequenos e humildes, a quem os chamou de “anti-heróis anônimos que em certa medida exprimem a alma coletiva, ensinam verdade humana abeberada na fonte”.

Seres humanos. Era o que bastava 

Quando do falecimento dos que mais se destacavam na sociedade lagunense, nosso jornalista Chachá produzia matérias memoráveis, despedidas emocionantes, tecendo loas aos seus nomes e destacando posições galgadas e currículos.

Mas, também encontrava tempo e espaço no jornal para registrar igualmente a morte dos que "viviam à margem da sociedade", como se convencionou chamá-los.
Eram seres humanos com seus dramas e infelicidades, suas manias, vícios e psicoses.
Seres humanos... Para Chachá era o que bastava. 
Precisa realmente de algo mais?
Até porque, cumpridos seus resgates, suas jornadas terrenas, muitos desses personagens, ditos populares, devem estar hoje em melhores moradas espirituais.
Talvez, e bem ao contrário de alguns outros figurões que tiveram discursos elogiosos, cortejos pomposos, enterrados com seus títulos e vaidades. 
Estes, ainda podem estar vagando perdidos, odiosos e odiados, mergulhados em seus segredos, mesquinharias e maldades de uma vida.

Três registros obituários
A título de curiosidade busquei em meus arquivos de antigos jornais, três pequenos textos obituários produzidos pelo Chachá.
São registros de humildes falecimentos de conhecidos personagens populares que marcaram época e gerações na história da nossa Laguna.
Mas, observem as singelezas dos textos! As expressões de facetas sentimentais e poéticas nos despretensiosos apontamentos de um adeus. 

Sobre a morte do Quintino (Jan 1980):

...E os sinos emudeceram

Ao contrário do romance “Por quem os sinos dobram”, de Ernest Miller Hemingway (editado em 1940), os sinos da Matriz Santo Antônio dos Anjos emudeceram no justo instante em que o errante Quintino, diante da igreja, em caixão de degradante qualidade, era carregado rumo ao cemitério público, na tristonha manhã de 15 do corrente.
Momentos antes, eles haviam repicado, lenta, mas sucessivamente, em sinal de adeus à uma dama da nossa sociedade, que, por infelicidade, tivera em data igual o mesmo destino que ele.
Que Quintino não trabalhava ou não gostava de trabalhar lá isso é verdade. Todavia representou para Laguna a imagem do indolente sem ser nocivo, do vagabundo que, se à época de Charles Spencer Chaplin, teria servido de inspiração ao inconfundível ator e cineasta inglês, criador da personagem dolorosamente cômica de Carlitos.
Quem conhece a produção literária de Hemingway, verá que os nomes dados a duas de suas obras se amoldam, por ironia, a este fato que narro com pesar:
- Por quem os sinos dobram?
- Eles dobram por ti, por nós, por todos.
“O sol também se levanta” (editado em 1926). Por sua vez, traduz que o sol também se levanta para as criaturas pobres, como o fora em vida o Quintino.

Sobre a morte do Clóvis (Fev 1979):

 A cidade perdeu Clóvis

Clóvis de tal. Que Deus o tenha na sua guarda infinita e inviolável.
Pobre criatura de ontem. Palhaço de muitos, escravo da desilusão e do infortúnio.
Clóvis, o farrapo humano que carreteava pelas ruas centrais em busca de alimentos e de míseros cruzeiros. Um ser desajeitado, sem atrativos físicos e proprietário de grave deformidade psíquica.
Ele, como muitos afirmam, não morreu da bebida. Na realidade, Clóvis conheceu a morte e com ela se foi devido ao pouco caso que a sociedade lagunense lhe endereçava.
Morreu sem conhecer um prato de comida ladeado de garfo e faca, sem conhecer a intimidade de uma mulher, sem haver tido sobre o corpo uma roupa decente.

Sobre a morte de Edith "Pandorga" (Out 1995):

O céu ganha a sua Pandorga
Edith cumpriu à risca seu papel como espantalho de carne e osso. Tão ao ponto e com inigualável singularidade, que a cidade a definiu como sua musa.
Atriz das madrugadas, tristes e longas madrugadas, montou sua ribalta ao relento, assistida por uma plateia tão gélida como a lápide sepulcral.
Uma certa semelhança com outra Edith, dela separada por um oceano. Apenas, entre elas, a inversão do tempo. Uma, mendigou na mocidade e morreu entre aplausos. A outra, gozou bem a juventude, acabando na miséria.
Edith Piaf, conviveu com prostitutas na França e foi símbolo da música popular francesa.
Edith, a “Pandorga”, de moça viçosa a farrapo humano, símbolo da resignação. Edith Severina de Jesus nasceu em Cangueri – Imaruí, aos 12 de maio de 1910, sinal impagável da singeleza.

08 agosto 2026

O adeus a Lenita Luiza Lindermann +

         Faleceu nesta madrugada em Criciúma, Lenita Luiza Lindermann, aos 77 anos, filha de Afonso e Helena Lindermann.
Durante muitos anos atuou na tradicional empresa Comercial Silvio Castro.
Por mais de quinze anos, entre as décadas de 80 e 90, presidiu o Sindicato dos Comerciários de nossa cidade.

Lenita Luiza Lindermann, aos 77 anos.

Um início difícil, de conquistas da categoria, palmilhando passo a passo cada vitória, enfrentando obstáculos os mais diversos, reações, caras feias e um status quo que até então tudo podia.
Através do Sindicato dos Comerciários Lagunenses, Lenita conseguiu implantar horários de atendimento para o nosso comércio, saídas e entradas pré-estabelecidas dos empregados, fixadas em acordos de categoria, antes não cumpridos por muitos membros da classe patronal.
Lutas por pisos salariais, melhores condições de trabalho e diversas outras conquistas trabalhistas foram uma constante.
Honesta, correta em suas atitudes e decisões, até porque foi também comerciária, oriunda da base da categoria, conhecia profundamente os problemas encontrados. E os enfrentou com galhardia e coragem.
Muitas das conquistas hoje desfrutadas pela categoria dos comerciários da Laguna são oriundas de lutas da época de sua gestão.
Em 4 de outubro de 2020, em seu aniversário de 72 anos lhe dediquei neste Blog algumas linhas pelo seu trabalho, dedicação e caráter.
Para ler clique Aqui
Em 2001 Lenita foi representante do Sindicato dos Comerciários junto ao Conselho Municipal de Saúde.
Foi catequista na Matriz Santo Antônio dos Anjos em 2004. Foi festeira de Santo Antônio dos Anjos.
Atuou também na área da Saúde na Unidade Municipal no bairro Mar Grosso.
Foi Voluntária na Casa de Recuperação Nascer de Novo, ao lado de José Nazareno Duarte. Junto ao NDN, onde foi tesoureira, colaborou - e muito - para retirar jovens das drogas e do alcoolismo.

Velório inicia às 13 horas na Capela Ametista, do Crematório Milenium, em Criciúma, com cerimônia de despedida às 17 horas.
Sentimentos aos familiares e amigos, em especial aos irmãos José Ricardo (Zezo) e Ruth e as sobrinhas Sheila, Juliana (Juju), Maria Helena, Fernando, Daniel, Raquel, Valéria, Leonardo e Fernanda. 

07 agosto 2026

O navio Dente de Coelho naufragou na Laguna e levou com ele uma locomotiva

 
Tarde de verão de um mês de março. Um barco, como tantos outros rotineiramente faziam, se aproxima da embocadura da Barra da Laguna. Em seu porão transporta uma locomotiva. A travessia pelo canal é para ser rápida, cinco a dez minutos de duração. Após esse tempo chega-se a um porto franco, seguro e abrigado. De repente a embarcação vai em direção às pedras do Morro do Tamborete.  O que teria acontecido?

Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA).

Domingo, 18 de março de 1917. O relógio ia marcar pontualmente 16 horas. Tarde quente daquele verão.
O Iate Dente de Coelho oriundo do Porto de Paranaguá, no Paraná, trazia em seu porão uma locomotiva e vinte e três volumes de ferragens diversas destinadas à Estrada de Ferro D. Teresa Cristina.
Era sua primeira viagem com destino ao Porto da Laguna. Além de velas era movido por um motor a gasolina de 70 cavalos.
Seis homens compunham sua tripulação.

Os Molhes da Barra estavam em construção
Iniciadas em 1903, continuavam as obras de construção dos molhes do Porto da Laguna com o intuito de maior vazão e aumento do calado.
Em 1917 o guia do Molhe Norte estava com 700 metros de extensão já implantados. Já o guia do Molhe Sul ainda não havia sido iniciado.

O choque com as pedras do Morro do Tamborete
Procurando entrar no canal através da boca da Barra, o navio perdeu seu rumo e minutos depois chocou-se às pedras de granito róseo do Morro do Tamborete, fazendo água. Logo a seguir, arrastado pela vazante, naufragou parcialmente sua proa e encalhou nos baixios.
Algumas testemunhas que estavam pescando nos costões próximos ao local, disseram que o navio parecia ter perdido o leme.
Os tripulantes conseguiram descer o escaler. Com muita dificuldade chegaram nas areias de uma pequena enseada situada ali perto, onde desembarcaram. Estavam assustados, mas são e salvos.
A capatazia do porto foi logo avisada e um rebocador da Alfândega de Florianópolis foi chamado pelo telégrafo. Poucas horas depois ao chegar ao local do acidente, nada mais podia ser feito.
A bordo do rebocador veio João Sanford, guarda-mor da repartição.

Uma jangada para salvar a locomotiva
Chamado às pressas nos escritórios da Estrada de Ferro, em Tubarão, o diretor Roberto Helling se dirigiu ao local.
Visando salvar a locomotiva deu ordens para construção de uma jangada com um guindaste a bordo para içar a máquina.
Mas, com o passar das horas e a força das ondas que batiam em seu costado, o navio adernou demasiado.
Foram infrutíferos todos os esforços de salvamento.
A chegada de ferragens e maquinários como locomotivas em porões de navios para a Estrada de Ferro D. Teresa Cristina vai se tornar rotina, principalmente a partir da década de 1940 com a criação do porto carvoeiro da Laguna. Como se pode observar na foto abaixo:

Cais do Porto Carvoeiro da Laguna, década de 1940.  Uma locomotiva é içada do porão de um navio. Autor desconhecido.

Um inquérito marítimo para apurar o sinistro foi aberto pela Capitania dos Portos e Mesa de Rendas da cidade. Naquela época as duas repartições federais participavam conjuntamente quando de sinistros marítimos.

Jornal lagunense O Albor de 24 de março de 1917.


Problemas mecânicos e imperícia
Foram realizadas as oitivas das testemunhas, dos tripulantes da embarcação e do Prático da Barra.
Constatou-se em averiguação técnica na embarcação, que o leme apresentava defeitos, sem condições de segurança e resistência. “A parte superior da peça era embutida numa cavidade insuficiente e não se achava fixada à respectiva base por pinos que o varassem”, registrou o relatório.
Além do problema mecânico, o inquérito concluiu que o mestre do navio, Joaquim Antunes colaborou para o incidente “por haver efetuado as manobras com imperícia ao faltar o governo do navio, não utilizando-se das âncoras e motor da embarcação para evitar, pelo menos, o desastre total".
Como penalidade o mestre foi suspenso por três meses de suas funções.

A carcaça de um navio junto com uma locomotiva repousam no fundo do mar
Com essas informações, ficamos sabendo que em frente aos rochedos de granito róseo da Ponta do Tamborete, situados poucos metros depois da entrada do Molhe Sul da Barra da Laguna, repousa a carcaça do navio Dente de Coelho, tendo em seu interior uma locomotiva e suas ferragens.

A foto aérea de Elvis Palma mostra bem o local onde está sepultado o navio Dente de Coelho com a locomotiva em seu porão. No centro da foto estão as pedras rosadas da Ponta do Tamborete. Mais à esquerda, depois do costão, a Praia de Gravatá. À direita, a Barra da Laguna. Na época dos fatos ainda não existia o Molhe Sul.

A embarcação não estava no seguro, conforme noticiou a imprensa da época.
O prejuízo foi calculado em 80:000$000 (Oitenta contos de réis), moeda de 1917.
Utilizando-se parâmetros hipotéticos de atualização, como critério de compra (numa proporção histórica) daria atualmente um valor estimado de R$ 4 milhões e meio de reais.
No cálculo, cada conto de réis da época convertido para os dias de hoje valeria R$ 56 mil reais.

O proprietário era norte-americano e morava no Paraná
O iate Dente de Coelho era de propriedade de Réo Benett, fazendeiro no município de Guaratuba no litoral paranaense.
Benett foi um empreendedor norte-americano que emigrou para o Brasil no início do século XX. Ficou conhecido por atuar como concessionário de grandes obras de infraestrutura e exploração mineral no Sul e Centro-Oeste do Brasil.
Juntamente com sua esposa Catarine Benett fixaram residência na região de Cubatão, no Paraná e iniciaram plantação de banana caturra com sementes oriundas de Santa Catarinas, além de outros empreendimentos.