22 de julho de
1839. Após vencer as forças legais do Império, os farroupilhas-republicanos
vindos do Sul tomam a Vila da Laguna.
Sete dias
depois, em 29, é proclamada a República Catharinense, tendo Laguna como primeira
capital, denominada Cidade Juliana.
O povo exulta em
festas pelas ruas. O pároco local, Francisco Villela de Araújo reza missa em Ação de Graças na matriz Santo Antônio dos Anjos. Faz brilhante oração. É adepto fervoroso da nova
forma de governo.
Quase quatro
meses depois o cenário será outro. Desmandos, violência e o saque de Imaruí, entre outros fatores, põem em xeque o sistema implantado.
Há contestações,
protestos, revoltas, conspirações e perseguições aos descontentes com os rumos.
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O padre lagunense Villela, preso e posteriormente morto pelos farrapos-republicanos na República Catharinense em 1839. Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA). |
A Laguna que
antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Por isso, cerca de 60
pessoas serão encarceradas nos porões de navios. Dentre elas o padre Villela,
que ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos.
O vigário será
morto na véspera da Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, na Barra da
Laguna, onde os republicanos serão derrotados pelas forças legais marítimas lideradas
pelo Almirante Frederico Mariath.
Um processo de
Inventário da nossa Comarca comprova o assassinato do sacerdote lagunense. (Veja abaixo a cópia da Capa do Processo de Inventário).
“Um mártir da verdade”, diz Bispo
No começo deste ano, em 18 de janeiro de 2026,
um domingo, aconteceu a posse canônica dos novos padres da igreja Matriz Santo
Antônio dos Anjos.
A acolhida dos novos sacerdotes em suas novas
missões foi durante a Missa das dezenove horas presidida pelo Bispo Diocesano
Dom Adilson Pedro Busin.
Antes de abençoar a todos os presentes, Bispo
Adilson lembrou de um padre que foi morto aqui na Laguna.
“Li sua história, ele foi um mártir da
verdade”, ressaltou Busin.
O sacerdote referido foi o padre Francisco Villela de Araújo,
trucidado pelas tropas farroupilhas em 1839.
Um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes
Após 117 dias da Tomada da Laguna
em 22 de julho de 1839 e da Proclamação da República Catharinense em 29
do mesmo mês, tendo com capital provisória a Cidade Juliana da Laguna, os
farrapos bateram em retirada pelos campos da Passagem da Barra e do Camacho em
direção ao Sul, onde tomaram rumos diferentes.
A fuga deveu-se
à derrota na Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, à entrada da Barra
da Laguna.
Deixaram no
passado as esperanças liberais de uma nova forma de governo, o republicano.
Ficaram também
para trás um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes.
Mesmo antes de
os farroupilhas aparecerem por aqui, já haviam muitos adeptos de doutrinas
liberais vivendo em nossa região, inclusive os que faziam parte do clero que
exerciam enorme poder sobre a população.
Basta dizer que o primeiro padre a presidir a República
Catharinense foi Vicente Ferreira dos Santos, vigário da Enseada de Brito.
Villela: “Um
padre cheio de patriotismo e fervor republicano”
Outro padre que
se destacou naqueles tempos foi o vigário da Paróquia da Laguna, Francisco Villela
de Araújo. Republicano de primeira hora, recebeu de braços abertos a chegada dos farroupilhas.
“Um dos mais
entusiasmados, que rezou missa em Ação de Graças em vibrante oração, cheia de
patriotismo e de fervor republicano”, escreveu o historiador Henrique Boiteux.
“O sonho
converteu-se em pesadelo”
Passados os
primeiros meses o ambiente mudou radicalmente. Com a barra fechada à navegação
comercial, nada saía nem entrava pelo porto lagunense. O comércio ficou estagnado.
Comerciantes e
armadores começaram a se queixar por não conseguirem movimentar seus negócios
pelo porto e ainda terem que sustentar toda uma estrutura militar e civil
instalada.
Ninguém apoia um movimento, uma revolução para ver piorar sua vida e a vida da população.
“O
sonho converteu-se em pesadelo”, no dizer do historiador Oswaldo
Cabral.
Da alegria ao
desespero
A população
lagunense da alegria dos primeiros dias passou à preocupação e ao desespero
pela falta de alimentação e outros gêneros. Além do mais, o general David Canabarro
ordenou o confisco de gêneros alimentícios que porventura ainda existissem.
E aí desordens
de todo tipo e perseguições aos descontentes e aos que não aceitavam os atos do
novo governo começaram a acontecer.
A Laguna, que
antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Tudo isso
culminou com o Massacre de Imaruí, nos dias 9 e 10 de novembro de 1839, que abalou
de vez a República recém-criada.
A Freguesia de São João Batista de Imaruí foi criada em 1833. No mesmo ano, em 23 de março, passou a ser Distrito da Laguna. Somente em 27 de agosto de 1890 foi desmembrada da Laguna.
“Essa freguesia
muito sofreu”
Francisco
Isidoro Rodrigues da Costa, que foi juiz de Direito na Laguna, deixou um
precioso manuscrito datado de 1881 onde descreve Laguna e região.
Sobre o saque a
Imaruí escreveu:
“Essa Freguesia muito sofreu por ocasião da guerra civil dos
Farrapos ou rebeldes do Rio Grande, entrando estes nela de assalto, saquearam
as casas de negócio e de moradia. Isso em 1839”.
“O saque e
massacre foram terríveis”
Sobre o saque (massacre) de
Imaruí, o padre, pesquisador e historiador João Leonir Dall Alba registrou em
sua obra Laguna Antes de 1880:
“O
saque foi ordenado por David Canabarro, em represália à revolta da povoação
contra a prepotência do Governo da República da Cidade Juliana da Laguna.
Garibaldi em suas memórias lamentou sua participação no episódio. O saque e
massacre foram terríveis”.
“Olhos
arrancados e punhaladas”
Padre Villela
ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos e, por isso, enfrentou a força do
General Canabarro.
Lindolfo Collor
em sua obra o descreveu: “Canabarro era prepotente, áspero, caráter intolerante,
não captava simpatia, não agremiava dedicações, nem semeava entusiasmos”.
Aliás, o próprio
Garibaldi em suas memórias a Alexandre Dumas sobre Canabarro disse: “O instinto
de ódio e de vingança se aninhava na alma daquele chefe farroupilha”.
Sua fúria se fez
sentir na Laguna, onde foi impiedoso contra os revolucionários, agora
desiludidos.
Por sua ordem sessenta
lagunenses foram presos nos porões dos navios, tendo quinze deles morridos
carbonizados no porão da escuna Itaparica que voou pelos ares na Batalha de 15
de novembro de 1839, conforme Boiteux.
Sobre a morte do padre Villela, o já citado Henrique Boiteux registrou em sua grandiosa obra A República Catharinense Notas para sua história - Imprensa Naval, 1927:
O
cadáver do padre Villela, foi encontrado na barra junto à fortaleza com os
olhos arrancados e crivado de punhaladas. Conduzido para a Vila ali foi
enterrado.
O
do major Barreiros que foi castrado também teve idêntico enterramento”.
Barreiros
preso na corveta Itaparica
O
maior pesquisador sobre a lagunense Anita, Wolfgang Ludwig Rau em sua grandiosa
obra Anita Garibaldi O Perfil de uma Heroína Brasileira não abordou o
assassinato do padre Villela.
Sobre
a prisão do major Barreiros, Rau escreveu:
“Também
em Laguna houve excessos e vinganças de última hora, praticadas por maus
elementos componentes dos retirantes farroupilhas.
Francisco
Gonçalves Barreiros, legalista, tinha um navio pronto no estaleiro quando
entraram os farrapos, que tomaram conta da embarcação. Ao chegarem as forças
legais, Barreiros foi conduzido preso para bordo da Itaparica”.
Exclusivo: O
Inventário do padre Villela
Alguns
historiadores e pesquisadores duvidam do assassinato do padre Villela pelos
farrapos-republicanos. Tanto que nem abordam essa morte em suas obras e
pesquisas.
Mas o processo
de Inventário existe e ele mostra que o padre deixou poucos bens. Na capa do processo está escrito: "Assassinado pelos rebeldes da Província do Sul".
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Arquivo da Comarca da Laguna - Ano de 1839 - Capa do Inventário do Vigário Francisco Villela de Araújo "assassinado pelos rebeldes da Província do Sul". |
Uma cômoda e
dois aparadores de jacarandá, doze cadeiras de palha da mesma madeira, uma mesa
de abas com gavetas, uma marquesa armada de cama, uma mesa de jantar, de cedro,
um selim, manta e freio.
Como só restaram as peças de montaria, certamente o
cavalo pertencente ao padre foi confiscado pelos farrapos.
O padre Villela
possuía um escravizado de nome João. Conforme anotação na própria Capa do
Inventário, João “fugiu com os rebeldes” (farroupilhas).
É bem provável
que tenha partido livre com a tropa dos Lanceiros Negros,
do general Antônio de Souza Neto.
Nos autos do
processo emitido pela nossa Comarca, ainda no próprio ano de 1839, no mês de
dezembro, ficamos sabendo que consta o Requerimento de João Villela residente
em Portugal se apresentando como único herdeiro.
Assinam o Inventário:
como Curador dos Bens Arrecadados: Manoel José Garcia. Juiz de Paz: Bento José
da Silva. Juiz de Órfãos Interino: Pedro Francisco da Silva. Escrivão Interino:
Francisco Pacheco dos Reis. Escrivão dos Órfãos: Manoel Joaquim da Costa. Escrivão:
Vicente José Góes Rebelo.
“Metade das
casas em ruínas ou abandonadas”
Laguna vai levar
muitos anos para se recuperar daqueles quase quatro meses da tomada
republicana.
O engenheiro e
pesquisador belga Charles Van Lede que aqui esteve em 1843, portanto, apenas
quatro anos depois dos acontecimentos em nossa cidade, dedicou em sua obra Colonização
do Brasil, algumas linhas:
Na
verdade, ela começava a se refazer dos desastres de então, e algumas novas
construções com mais cuidado e elegância tinham já substituído as antigas.
Mas,
no entretanto ela não estava inteiramente restabelecida da rude prova que
acabava de resistir”.
Nem tudo foi paz
e amor
Como vemos, nem
tudo foi paz e amor como alguns romantizam a violência daquele período da nossa
história.
A paixão de
Anita e Garibaldi foi um capítulo à parte. Gloriosas páginas de amor, coragem e
superação, não restam dúvidas e que devem ser sempre valorizadas, mostradas e
contadas às novas gerações.
Exatos cinquenta
anos depois, em 15 de novembro de 1889 a República no Brasil foi proclamada
também pela força das armas.
Mas desta vez os
agentes foram militares. Não houve guerra civil e a República não esperou o amanhecer para nascer.


















