Ontem à
noite pesquisava algumas fotos e rabiscava frases sobre carnavais de antigamente na Laguna quando,
pela janela aberta, entrou e pousou sobre a minha mesa uma carocha.
Estática e atenta, com suas pequenas antenas ali
ficou a me observar pelos cantos dos seus olhos.
Juro, nunca uma carocha me olhou desse jeito.
Logo a fotografei.
Para quem não
conhece (foto), a carocha é um inseto, um tipo de besouro com carapaça. Esta
tem a coloração metálica preta.
Pois houve época
em nossa cidade que, com o carnaval, chegavam também milhares dessas carochas,
lembra?
A invasão das
carochas não acontecia sempre, não seguia um padrão sazonal, temporal. Às vezes passavam-se anos e elas não
apareciam.
Os entendidos
diziam que as carochas hibernavam e, coincidentemente, acordavam nos meses de
fevereiro e março quando surgiam entre nós. O fato devia-se ao potencial reprodutivo
da espécie, conforme o calor e as chuvas, explicavam outros.
Um tapete delas
Havia também
quem diagnosticasse que esse tipo de besouro era atraído pelas luzes (holofotes) instaladas
para os desfiles carnavalescos nas extensões das ruas Raulino Horn e XV de novembro (pré-carnaval)
e Jerônimo Coelho (desfile oficial).
Mas as carochas quando
surgiam eram aos milhares pelas ruas do centro, despencando nos quintais, entrando
pelas portas e janelas abertas das casas, enfiando-se pelas frinchas, meio que confusas, paralisadas, desorientadas.
Pelo grande
volume delas tornavam-se uma praga urbana.
Em poucas horas morriam
e houve ano em que formaram um verdadeiro tapete, tal a quantidade.
Lembro dos
funcionários da prefeitura munidos com dezenas de vassouras e pás a retirá-las dos
leitos das vias e as despejando em carrinhos de mão e nas carrocerias de caminhões
em direção ao aterro de lixo.
Se assim não o
fizessem, poucos dias depois, com o passar das rodas dos automóveis e o pisar
dos transeuntes sobre elas, que estouravam, formava-se uma pasta viscosa, pútrida, exalando mau cheiro.
Nos mais antigos
jornais de nossa cidade não encontrei relatos das chegadas das carochas em
nossos carnavais.
Somente no ano de
1965 é que começam as notícias sobre o aparecimento delas.
Nesse ano, a
quantidade foi tamanha que além de todo os transtornos que causaram nas vias
públicas, prejudicaram os componentes dos blocos e das Escolas de Samba que não conseguiam
sambar sem escorregar sobre elas.
Tanto é verdade
que o jornal de Itajaí A Nação, de 27 de março de 1965, comentando sobre
a nossa maior festa popular, disse:
“Carnaval de
Carochas
Uma súbita
invasão de “carochas” prejudicou em grande parte o carnaval de rua em Laguna
este ano.
Comentando o
ocorrido, dois lagunenses radicados em Blumenau, Drs. Vinícius Colaço de
Oliveira e Plácido Machado Goulart da Rosa, afirmavam que em “1965 em Laguna
não houve desfile de cabrochas e sim de carochas”.
Figurantes na
festa
Esta carocha que
chegou à minha mesa, veio desacompanhada,
solitária em sua rápida visita.
Quero crer que surgiu para lembrar que em meus
escritos sobre o carnaval lagunense do passado, também a incluísse, juntamente
com a história de suas ancestrais.
Afinal, mesmo
indesejadas, foram figurantes em vários anos nas nossas folias de Momo. Além de 1965, no ano de 1972, se não me engano, houve novamente outra grande invasão.
Mesmo passados muitos anos, elas continuam
presentes em nossas memórias de crianças que, mesmo com certo receio e proibidos
pelos pais, as tocávamos e as juntávamos com as mãos para observá-las.
Bem por isso
escrevi este pequeno texto sobre a presença das carochas nos carnavais lagunenses de
outrora.
Logo que o finalizei,
observei que a carocha esfregou suas duas patinhas dianteiras, vibrou suas asas e alçou novamente voo. E pela mesma janela que entrou, partiu livre na imensidão da noite.
Provavelmente em busca de um portal do tempo, em direção a um passado que logo se fechou e não volta mais a abrir.
Nunca mais.



Lembro bem delas, faz anos que não aparecem mais. O que terá acontecido, nem com esse calorão. Ficavam ao redor das lâmpadas e depois caiam. Tinha anos que eram muitas, outros anos a gente não via.
ResponderExcluirValmir, só tu para lembrares das carochas nos nossos carnavais, contar para as novas gerações o que foi, com tintas poéticas. Marcaram época mesmo.
ResponderExcluirComo não lembrar, Valmir. Uma infestação, uma verdadeira praga, em ondas. Creio que muita gente associou o fenômeno a algum mau presságio. Abraço
ResponderExcluirBelo texto, explicativo, saudoso, poético. Da presença de uma carocha revivesse uma páginas do passado.
ResponderExcluirNo ano das carocha eu, como mascote, juntamente com meu pai Almiro Paulino, desfilamos na BANDINHA MALUCA E OS PALHAÇOS DE MOMO.
ResponderExcluirFoi terrível. Montes enormes de carocha em cada poste. Elas voavam ao meu redor e pousaram em mim. Um horror. Até hoje tenho pavor de carocha. Fiquei traumatizada.
Ainda lembro o barulho das carochas esmagadas sob nossos pés. Lembrança nítida, do ano de 1972. O centro totalmente forrado por esses insetos brilhosos, à noite. Na manhã seguinte, só ouvíamos o arrastar das vassouras
ResponderExcluirNa frente de nossa casa na Praça República Juliana o fedor era muito forte pela manhã. A noite tínhamos de ficar na janela com as luzes apagadas. Algumas crianças pegavam e ficavam com coceira nas mãos. Lembro muito do ano de 1972, em fevereiro, quando voltava em definitivo do Seminário Nossa Senhora de Fátima para casa, porque quando cheguei em frente a casa esperado pelos meus pais, elas, as carochas, também em grande bando me esperavam. Engraçado que nos 48 anos que resido em Florianópolis vi apenas uma ou outra solitária como essa que pousou em tua mesa.
ResponderExcluirBoas lembranças Valmir abraço!
Tinha umas carochas maiores, com chifres, eu tinha um medo delas.
ResponderExcluirLá em casa anoiteceu a gente fechava todas as janelas porque elas entravam. Boa recordação. Faz parte também dos carnavais de antigamente.
Tinha umas carochas maiores, com chifres, eu tinha um medo delas.
ResponderExcluirLá em casa anoiteceu a gente fechava todas as janelas porque elas entravam. Boa recordação. Faz parte também dos carnavais de antigamente.