05 fevereiro 2026

Nos tempos das carochas nos carnavais da Laguna

       Ontem à noite pesquisava algumas fotos e rabiscava frases sobre carnavais de antigamente na Laguna quando, pela janela aberta, entrou e pousou sobre a minha mesa uma carocha.
Estática e atenta, com suas pequenas antenas ali ficou a me observar pelos cantos dos seus olhos.
Juro, nunca uma carocha me olhou desse jeito. 
Logo a fotografei.

Tipo de carocha que chegava com os carnavais lagunenses do passado.

Para quem não conhece (foto), a carocha é um inseto, um tipo de besouro com carapaça. Esta tem a coloração metálica preta.
Pois houve época em nossa cidade que, com o carnaval, chegavam também milhares dessas carochas, lembra?
A invasão das carochas não acontecia sempre, não seguia um padrão sazonal, temporal.  Às vezes passavam-se anos e elas não apareciam.
Os entendidos diziam que as carochas hibernavam e, coincidentemente, acordavam nos meses de fevereiro e março quando surgiam entre nós. O fato devia-se ao potencial reprodutivo da espécie, conforme o calor e as chuvas, explicavam outros.

Um tapete delas
Havia também quem diagnosticasse que esse tipo de besouro era atraído pelas luzes (holofotes) instaladas para os desfiles carnavalescos nas extensões das ruas Raulino Horn  e XV de novembro (pré-carnaval) e Jerônimo Coelho (desfile oficial).
Mas as carochas quando surgiam eram aos milhares pelas ruas do centro, despencando nos quintais, entrando pelas portas e janelas abertas das casas, enfiando-se pelas frinchas, meio que confusas, paralisadas, desorientadas.
Pelo grande volume delas tornavam-se uma praga urbana.
Em poucas horas morriam e houve ano em que formaram um verdadeiro tapete, tal a quantidade.
Lembro dos funcionários da prefeitura munidos com dezenas de vassouras e pás a retirá-las dos leitos das vias e as despejando em carrinhos de mão e nas carrocerias de caminhões em direção ao aterro de lixo.
Se assim não o fizessem, poucos dias depois, com o passar das rodas dos automóveis e o pisar dos transeuntes sobre elas, que estouravam, formava-se uma pasta viscosa, pútrida, exalando mau cheiro.

Uma solitária carocha chegou para o carnaval da Laguna 2026.

Nos mais antigos jornais de nossa cidade não encontrei relatos das chegadas das carochas em nossos carnavais.
Somente no ano de 1965 é que começam as notícias sobre o aparecimento delas.
Nesse ano, a quantidade foi tamanha que além de todo os transtornos que causaram nas vias públicas, prejudicaram os componentes dos blocos e das Escolas de Samba que não conseguiam sambar sem escorregar sobre elas.
Tanto é verdade que o jornal de Itajaí A Nação, de 27 de março de 1965, comentando sobre a nossa maior festa popular, disse:

“Carnaval de Carochas
Uma súbita invasão de “carochas” prejudicou em grande parte o carnaval de rua em Laguna este ano.
Comentando o ocorrido, dois lagunenses radicados em Blumenau, Drs. Vinícius Colaço de Oliveira e Plácido Machado Goulart da Rosa, afirmavam que em “1965 em Laguna não houve desfile de cabrochas e sim de carochas”.

Jornal A Nação (Itajaí) de 27 de março de 1965.

Figurantes na festa
Esta carocha que chegou à minha mesa, veio desacompanhada, solitária em sua rápida visita.
Quero crer que surgiu para lembrar que em meus escritos sobre o carnaval lagunense do passado, também a incluísse, juntamente com a história de suas ancestrais.
Afinal, mesmo indesejadas, foram figurantes em vários anos nas nossas folias de Momo. Além de 1965, no ano de 1972, se não me engano, houve novamente outra grande invasão.
Mesmo passados muitos anos, elas continuam presentes em nossas memórias de crianças que, mesmo com certo receio e proibidos pelos pais, as tocávamos e as juntávamos com as mãos para observá-las.
Bem por isso escrevi este pequeno texto sobre a presença das carochas nos carnavais lagunenses de outrora.
Logo que o finalizei, observei que a carocha esfregou suas duas patinhas dianteiras, vibrou suas asas e alçou novamente voo. E pela mesma janela que entrou, partiu livre na imensidão da noite. 
Provavelmente em busca de um portal do tempo, em direção a um passado que logo se fechou e não volta mais a abrir. 
Nunca mais.

9 comentários:

  1. José Almeida05/02/2026, 18:58

    Lembro bem delas, faz anos que não aparecem mais. O que terá acontecido, nem com esse calorão. Ficavam ao redor das lâmpadas e depois caiam. Tinha anos que eram muitas, outros anos a gente não via.

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  2. Valmir, só tu para lembrares das carochas nos nossos carnavais, contar para as novas gerações o que foi, com tintas poéticas. Marcaram época mesmo.

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  3. Como não lembrar, Valmir. Uma infestação, uma verdadeira praga, em ondas. Creio que muita gente associou o fenômeno a algum mau presságio. Abraço

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  4. Geraldo de Jesus05/02/2026, 19:44

    Belo texto, explicativo, saudoso, poético. Da presença de uma carocha revivesse uma páginas do passado.

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  5. Cida Paulino05/02/2026, 22:43

    No ano das carocha eu, como mascote, juntamente com meu pai Almiro Paulino, desfilamos na BANDINHA MALUCA E OS PALHAÇOS DE MOMO.
    Foi terrível. Montes enormes de carocha em cada poste. Elas voavam ao meu redor e pousaram em mim. Um horror. Até hoje tenho pavor de carocha. Fiquei traumatizada.

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  6. Ainda lembro o barulho das carochas esmagadas sob nossos pés. Lembrança nítida, do ano de 1972. O centro totalmente forrado por esses insetos brilhosos, à noite. Na manhã seguinte, só ouvíamos o arrastar das vassouras

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  7. Na frente de nossa casa na Praça República Juliana o fedor era muito forte pela manhã. A noite tínhamos de ficar na janela com as luzes apagadas. Algumas crianças pegavam e ficavam com coceira nas mãos. Lembro muito do ano de 1972, em fevereiro, quando voltava em definitivo do Seminário Nossa Senhora de Fátima para casa, porque quando cheguei em frente a casa esperado pelos meus pais, elas, as carochas, também em grande bando me esperavam. Engraçado que nos 48 anos que resido em Florianópolis vi apenas uma ou outra solitária como essa que pousou em tua mesa.
    Boas lembranças Valmir abraço!

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  8. Tinha umas carochas maiores, com chifres, eu tinha um medo delas.
    Lá em casa anoiteceu a gente fechava todas as janelas porque elas entravam. Boa recordação. Faz parte também dos carnavais de antigamente.

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  9. Tinha umas carochas maiores, com chifres, eu tinha um medo delas.
    Lá em casa anoiteceu a gente fechava todas as janelas porque elas entravam. Boa recordação. Faz parte também dos carnavais de antigamente.

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