“Batidas
na porta da frente. É o tempo...”
(Aldir
Blanc)
Me respeitem, porque fiz o curso de datilografia.
Antigamente, saber datilografia
era obrigatório para se obter um emprego. Concursos públicos assim o exigiam. Era
necessário para confecção de cartas, ofícios, petições, tabelas...
A datilografia era feita nas
chamadas máquinas de escrever. Não existia o silêncio dos suaves e anatômicos teclados atuais feitos
de plástico. Era um barulhão, um trovejar de sons ecoando nas
salas abafadas de escritórios e redações de jornais.
Som metálico. Ferro batendo no
ferro. Ou melhor: letras e caracteres de chumbo marcando a folha virgem do
papel. Entre os dois uma frágil fita de seda bicolor. Sim, apenas duas
cores, preto e vermelho.
Um antigo e valioso certificado
Em uma velha pasta que pertenceu ao meu pai, encontro um documento que
imaginava há muito tempo perdido.
Ao lê-lo mergulho em lembranças e passo a folhear algumas páginas do
livro das memórias.
Foi em meados de 1975. Tinha eu quinze anos e querendo comprar uma
máquina de escrever havia a necessidade de primeiro cursar datilografia. Era
obrigatório.
Tinha aulas pela manhã no Científico no então Conjunto Educacional
Almirante Lamego (Ceal) e à noite Ciências Contábeis no Colégio Comercial
Lagunense (CCL), no mesmo prédio.
Com a tarde vaga me matriculei na Escola de Datilografia Stella Maris, no
Colégio do mesmo nome. Duas aulas por semana.
Fim de ano, em dezembro, recebi o tão almejado Certificado de
Habilitação em Datilografia. Irmã Blandina Theis foi quem assinou o documento.
Era a diretora e professora das aulas.
Austera, atenciosa, rígida nos horários, bondosa com todos os alunos. Ótima
com os bons alunos.
Meses depois, com as aulas e o Certificado em mãos, estava contratado na
Agência da Receita Federal da Laguna. Aos 16 anos, carteira profissional assinada.
Meu primeiro emprego.
Com o primeiro salário comprei a tão sonhada máquina de
escrever. Uma Remington 25, design moderno, revestimento na cor laranja. Um luxo!
Três anos depois, com a prova de datilografia em uma das etapas, fui aprovado em meus dois primeiros e únicos concursos. Para o INSS e Eletrosul. Mas isso é outra história pessoal.
TEC-TEC-TEC,
DINNNG, VRUMMMMM...
Escrever
antigamente em enormes máquinas de datilografia era onomatopeico.
Não existia o
silêncio dos suaves e anatômicos teclados modernos feitos de plástico. Era um
barulhão, um trovejar de sons ecoando nas salas abafadas dos escritórios, nas
redações dos jornais.
Som metálico. Ferro
batendo no ferro. Ou melhor: letras e caracteres de chumbo marcando a folha virgem
de papel. Entre os dois uma frágil fita de seda bicolor. Sim, duas cores,
preto e vermelho.
![]() |
Máquinas de escrever quando eram expostas no Museu Anita Garibaldi. Ano 2004. Foto: Valmir Guedes Júnior |
E o som tinha
cheiro. Cheiro de óleo de máquina, de tinta-carbono, cheiro de corretivo.
As frases iam
sendo escritas na cadência das pontas dos dedos. Todos eles devidamente,
exaustivamente utilizados. Os dez, incluindo o mindinho. Principalmente o
mindinho.
Dinnng... era o barulho
da sineta embutida na máquina avisando o fim da margem. Havia que se separar as
sílabas, rapidamente, corretamente.
Aliás, frases devidamente tabuladas e com parágrafos. Escala zerocêntrica, marginadores
visíveis.
Os raízes, como
se diz hoje, devem lembrar
Manualmente você
puxava o carrinho com uma pequena haste torta para o lado e reiniciava ou
continuava a frase em nova linha. E sem qualquer letra trocada, do contrário
tinha que recomeçar em nova folha de papel.
Só mais tarde
vão surgir umas fitas corretoras ou um líquido branco em minúsculos recipientes
de vidro passado a pincel no papel. Era necessário precisão e soprar para
secar. Depois, retornar uma casa e datilografar por cima com a letra correta. Mesmo assim ficava
feio o resultado.
O raciocínio e a
memória com o tempo e a prática acompanhavam o ritmo das batidas.
Era assim que
antigamente se escrevia a máquina. Sim, se dizia respeitosamente: Máquina de
Escrever, com iniciais maiúsculas. Marcas Remington, Olivetti, Olympia,
Underwood...
E quem nelas
escrevia chamava-se datilógrafo. Havia escolas, aulas práticas e teóricas. E exames.
No final de meses, os formandos recebiam certificados de conclusão. Como o meu aí de cima.
Não antes dos
alunos serem submetidos à prova final, eliminatória, de memorização do teclado.
Olhos vendados só ouvindo o ditado da professora.
Ali era a prova dos nove. Quem
aprendeu, aprendeu, quem não aprendeu...
Quanto mais velocidade
melhor. Um bom datilógrafo conseguia a média de 100 palavras por minuto.
Havia até o dia
24 de maio em homenagem ao Datilógrafo.
Datilografia era
obrigatória para se obter um emprego. Concursos públicos a exigiam. Era
necessária para as cartas, ofícios petições, tabelas...
Os cata-milhos
Os cata-milhos
dificilmente tinham vez. Não eram aprovados.
Cata-milhos?
Sim, era como chamavam com depreciação os que datilografavam usando um ou dois
dedos das mãos, procurando meio que perdidos as letras no teclado.
Não se falava em
bullying naquela época. Já existia, claro, mas a gente é que não sabia o
seu significado.
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Uma sala de aula de datilografia na década de 1970. Imagem gerada por Inteligência Artificial. |
E havia a
postura. Ahhh a postura...
Ainda hoje,
quando fico mais à vontade ao digitar, cervical torta, ombros desalinhados, pés
sobre um puf, cotovelos apoiados sobre à mesa, pareço ouvir uma voz.
Deve ser a Irmã
Blandina lá dos céus com seu sotaque carregado de erres dizendo às minhas
costas:
- Seu Guedes,
olha a posssturrrra...
Evidentemente
que logo me recomponho, ereto, disciplinado, obediente.
Certas lembranças da gente não há tecla moderna de delete que apague dos recantos da nossa memória.
A máquina de
escrever saiu de cena
A máquina de
escrever saiu de cena com a popularização do computador nas décadas de 80 e 90.
Aulas de datilografia viraram aulas de informática. Tudo o que tinha na máquina
de escrever foi para o editor Word. Moderno, eficaz, funcional.
Tudo digital e
agora com reconhecimento de voz e Inteligência Artificial.
E pensar que
tudo começou com a máquina de escrever, uma invenção das mais importantes da
história.
Hoje, olhando
para trás, passados mais de meio século, agradeço ter aprendido o charme da
datilografia. Tempo em que escrever era quase uma arte.
E daí, leitor, conta para nós sua experiência com a datilografia. Fez curso também?






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