24 agosto 2026

Nos tempos da datilografia - Me respeitem, porque fiz o curso

 “Batidas na porta da frente. É o tempo...”
(Aldir Blanc)

Me respeitem, porque fiz o curso de datilografia. 
Antigamente, saber datilografia era obrigatório para se obter um emprego. Concursos públicos assim o exigiam. Era necessário para confecção de cartas, ofícios, petições, tabelas...
A datilografia era feita nas chamadas máquinas de escrever. Não existia o silêncio dos suaves e anatômicos teclados atuais feitos de plástico. Era um barulhão, um trovejar de sons ecoando nas salas abafadas de escritórios e redações de jornais.
Som metálico. Ferro batendo no ferro. Ou melhor: letras e caracteres de chumbo marcando a folha virgem do papel. Entre os dois uma frágil fita de seda bicolor. Sim, apenas duas cores, preto e vermelho.
Um antigo e valioso certificado
Em uma velha pasta que pertenceu ao meu pai, encontro um documento que imaginava há muito tempo perdido.
Ao lê-lo mergulho em lembranças e passo a folhear algumas páginas do livro das memórias.
Foi em meados de 1975. Tinha eu quinze anos e querendo comprar uma máquina de escrever havia a necessidade de primeiro cursar datilografia. Era obrigatório.
Tinha aulas pela manhã no Científico no então Conjunto Educacional Almirante Lamego (Ceal) e à noite Ciências Contábeis no Colégio Comercial Lagunense (CCL), no mesmo prédio.
Com a tarde vaga me matriculei na Escola de Datilografia Stella Maris, no Colégio do mesmo nome. Duas aulas por semana.
Fim de ano, em dezembro, recebi o tão almejado Certificado de Habilitação em Datilografia. Irmã Blandina Theis foi quem assinou o documento. Era a diretora e professora das aulas.
Austera, atenciosa, rígida nos horários, bondosa com todos os alunos. Ótima com os bons alunos.
Meses depois, com as aulas e o Certificado em mãos, estava contratado na Agência da Receita Federal da Laguna. Aos 16 anos, carteira profissional assinada. Meu primeiro emprego.

Remington 25

Com o primeiro salário comprei a tão sonhada máquina de escrever. Uma Remington 25, design moderno, revestimento na cor laranja. Um luxo!
Três anos depois, com a prova de datilografia em uma das etapas, fui aprovado em meus dois primeiros e únicos concursos. Para o INSS e Eletrosul. Mas isso é outra história pessoal.

TEC-TEC-TEC, DINNNG, VRUMMMMM...
Escrever antigamente em enormes máquinas de datilografia era onomatopeico.
Não existia o silêncio dos suaves e anatômicos teclados modernos feitos de plástico. Era um barulhão, um trovejar de sons ecoando nas salas abafadas dos escritórios, nas redações dos jornais.
Som metálico. Ferro batendo no ferro. Ou melhor: letras e caracteres de chumbo marcando a folha virgem de papel. Entre os dois uma frágil fita de seda bicolor. Sim, duas cores, preto e vermelho.

Máquinas de escrever quando eram expostas no Museu Anita Garibaldi. Ano 2004. Foto: Valmir Guedes Júnior

E o som tinha cheiro. Cheiro de óleo de máquina, de tinta-carbono, cheiro de corretivo.
As frases iam sendo escritas na cadência das pontas dos dedos. Todos eles devidamente, exaustivamente utilizados. Os dez, incluindo o mindinho. Principalmente o mindinho.
Dinnng... era o barulho da sineta embutida na máquina avisando o fim da margem. Havia que se separar as sílabas, rapidamente, corretamente.
Aliás, frases devidamente tabuladas e com parágrafos. Escala zerocêntrica, marginadores visíveis. 

Os raízes, como se diz hoje, devem lembrar
Manualmente você puxava o carrinho com uma pequena haste torta para o lado e reiniciava ou continuava a frase em nova linha. E sem qualquer letra trocada, do contrário tinha que recomeçar em nova folha de papel.
Só mais tarde vão surgir umas fitas corretoras ou um líquido branco em minúsculos recipientes de vidro passado a pincel no papel. Era necessário precisão e soprar para secar. Depois, retornar uma casa e datilografar por cima com a letra correta. Mesmo assim ficava feio o resultado.
O raciocínio e a memória com o tempo e a prática acompanhavam o ritmo das batidas.
Era assim que antigamente se escrevia a máquina. Sim, se dizia respeitosamente: Máquina de Escrever, com iniciais maiúsculas. Marcas Remington, Olivetti, Olympia, Underwood...

Anúncio da máquina de escrever Remington no Jornal lagunense O Albor de 7 de julho de 1956.

E quem nelas escrevia chamava-se datilógrafo. Havia escolas, aulas práticas e teóricas. E exames. No final de meses, os formandos recebiam certificados de conclusão. Como o meu aí de cima.
Não antes dos alunos serem submetidos à prova final, eliminatória, de memorização do teclado. Olhos vendados só ouvindo o ditado da professora. 
Ali era a prova dos nove. Quem aprendeu, aprendeu, quem não aprendeu...
Quanto mais velocidade melhor. Um bom datilógrafo conseguia a média de 100 palavras por minuto.
Havia até o dia 24 de maio em  homenagem ao Datilógrafo.
Datilografia era obrigatória para se obter um emprego. Concursos públicos a exigiam. Era necessária para as cartas, ofícios petições, tabelas...

Os cata-milhos
Os cata-milhos dificilmente tinham vez. Não eram aprovados.
Cata-milhos? Sim, era como chamavam com depreciação os que datilografavam usando um ou dois dedos das mãos, procurando meio que perdidos as letras no teclado.
Não se falava em bullying naquela época. Já existia, claro, mas a gente é que não sabia o seu significado.

Uma sala de aula de datilografia na década de 1970. Imagem gerada por Inteligência Artificial.

   Com a datilografia você aprendia disciplina, destreza, paciência, coordenação, o tal foco, como hoje chamamos.
E havia a postura. Ahhh a postura...
Ainda hoje, quando fico mais à vontade ao digitar, cervical torta, ombros desalinhados, pés sobre um puf, cotovelos apoiados sobre à mesa, pareço ouvir uma voz.
Deve ser a Irmã Blandina lá dos céus com seu sotaque carregado de erres dizendo às minhas costas:
- Seu Guedes, olha a posssturrrra...
Evidentemente que logo me recomponho, ereto, disciplinado, obediente.
Certas lembranças da gente não há tecla moderna de delete que apague dos recantos da nossa memória.
 
A máquina de escrever saiu de cena
A máquina de escrever saiu de cena com a popularização do computador nas décadas de 80 e 90. Aulas de datilografia viraram aulas de informática. Tudo o que tinha na máquina de escrever foi para o editor Word. Moderno, eficaz, funcional.
Tudo digital e agora com reconhecimento de voz e Inteligência Artificial.
E pensar que tudo começou com a máquina de escrever, uma invenção das mais importantes da história.
Hoje, olhando para trás, passados mais de meio século, agradeço ter aprendido o charme da datilografia. Tempo em que escrever era quase uma arte.
E daí, leitor, conta para nós sua experiência com a datilografia. Fez curso também?

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