23 janeiro 2026

Nos tempos de banhos pelados no Mar Grosso

 
Houve épocas na Laguna que bastava iniciar o verão para que grupos de pessoas se banhassem completamente nus nas águas do Mar Grosso.
A atitude provocava escândalos nos demais banhistas que se queixavam de afronta  à moral e aos bons costumes.
Além de ser enquadrado como crime de atentado público ao pudor.

Praia do Mar Grosso (Pedras do Iró) - 1950. Laguna. Acervo: Valmir Guedes Júnior

Seria modismo? Ato de puro exibicionismo dos nossos antepassados? Ou uma previsão do que poderia ter sido uma praia naturista? Isso antes, bem antes da Praia do Pinho em Balneário Camboriú.
Era a Laguna lá no passado lançando moda, pioneira, exibida.

Por várias vezes, e isso no começo do século XX, os jornais da nossa cidade alertavam as autoridades sobre o fato, pedindo providências:

“Estão tomando banho pelados na praia do Mar Grosso”, gritavam as manchetes.

“É uma vergonha, uma imoralidade, ninguém respeita as senhoras e crianças”, xingavam os periódicos.

As turmas banhavam-se como Adão e Eva vieram ao mundo. Quer dizer: soltavam os balangandãs, deixavam os bichos soltos, sem usar folhas para esconderem suas identidades. Não estavam nem aí para cobras e lagartos.
Isso em épocas em que o Mar Grosso ainda recebia pouco público e em que as pessoas, mesmo com o calor, caminhavam pelas areias em trajes sociais. Isso mesmo. De vestidos, chapéus e ternos.
Como pode-se observar nessa antiga foto da década de 1940. 
Dê um clique para ampliá-la:

Praia do Mar Grosso (Praia de Banho) - Laguna - Década de 1940. Acervo: Valmir Guedes Júnior

Veja a foto acima: Ao longo do que seria hoje às imediações da avenida beira-mar existiam pequenas residências de madeira chamadas de casas de veraneio.
Ao fundo, os morros da Barra. Se a gente notar com mais atenção, veremos duas motos. Uma delas estacionada e outra circulando na areia. Além de um automóvel Ford. Sim, sim, naquela época veículos já invadiam as areias.
Nos cômoros, dois cachorros (deviam ser tatataravôs dos atuais) observam as pessoas na chamada “Praia de Banho”, como escrito no rodapé da fotografia e era assim chamado o Mar Grosso.

Nossos antepassados não eram querubins

E não eram somente jovens que se banhavam nus. Tinham marmanjos no meio. Até senhores de ilibadas reputações pertencentes à tradicionais famílias da cidade, “sem os necessários calções”.

Tal e qual os povos originários, os chamados índios lá no descobrimento do Brasil que "mostravam suas vergonhas" como escreveu Pero Vaz de Caminha em sua famosa carta.

Bem, mas muitos de nós descendemos dos Carijós, não é verdade? Com seus tacapes e lanças.

Não se sabe se a polícia tomou providências, se ficou tocaiando atrás dos cômoros para pegar a turma com as calças nas mãos. Ou melhor, sem as calças.

Os jornais nada falam sobre isso. É provável que não. Afinal era verão, um calor danado e a polícia tinha mais o que fazer do que ficar prendendo marmanjo com o bilau de fora.

Mas isso aconteceu várias vezes na Laguna há muitos e muitos anos.

E o mais surpreendente, é que a turma não tinha medo dos enormes siris que naquela época "abundavam"  nas águas e finas areias, com suas rápidas e afiadas garras azuis.

Vai que um deles... zip... E o “negócio” já era, sujeito virava eunuco.

Mas o que devia abundar mesmo eram outras partes da anatomia humana, aliás, brancas, cabeludas, cheias de acnes, escondidas o ano inteiro, merecendo raios de sol sem protetores. Produtos que ainda não existiam no mercado.

Bem que nosso historiador Oswaldo Rodrigues Cabral já alertava que nossos antepassados não eram inocentes e ingênuos querubins como muita gente imagina.

Vejamos:

Em 4 de março de 1904, portanto comecinho do século XX o jornal O Albor já trazia: 

“Abuso cometido por mocinhos”
“Pedem-nos para chamarmos a atenção das autoridades competentes sobre o abuso cometido por mocinhos desta cidade que, sem o menor pudor nem respeito às famílias que veraneiam na praia do Mar Grosso, vão ali banhar-se, pleno dia, em trajes adâmicos.
No Código Penal da República há duas posições claríssimas referentes a esses abusos, e delas dar conhecimento a certos moçotes seria uma obra de misericórdia, que muito recomendaria o sr. comissário de polícia à consideração das famílias”.

Jornal O Albor de 4 de março de 1904.

No ano seguinte, em 4 de março de 1905 o local dos banhos nus mudou e passou para o centro da cidade, defronte ao Morro de Nossa Senhora do Rosário, bem defronte à igrejinha então existente lá no alto. O mesmo jornal O Albor publicava:

 “Sem vergonhismo na poética lagoa”
  “Chamamos a atenção do sr. Comissário de polícia para um certo grupo de moços, alguns maiores de dezessete anos, que em trajes endêmicos, à moda de Adão, costumam refrescar-se dos ardores ferroantes da canícula, banhando-se, à plena luz do dia, na ponta do Morro de N. Senhora, com grave afronta ao decoro das famílias que por ali circunvizinham.
  É cômoda e econômica esta maneira de afogar pela fresquíssima água da nossa poética lagoa as alfinetas de uma brotoeja insipientes; mas, depois que os nossos primeiros pais comeram do pomo proibido, é indecente e de um sem vergonhismo muito característico.
  À autoridade competente, em nome da moralidade, pedimos pôr um paradeiro a este indecoríssimo abuso”.

    Três anos depois O Albor voltava ao assunto, em sua edição de 7 de junho de 1908, portanto, em pleno inverno. Agora eram pescadores que, completamente nus no Pontal dos Molhes, tarrafeavam as tainhas com ajuda dos botos. Nem se preocupavam com chumbadas ou em engalhar no nylon. A manchete do jornal era:

"Pescadores nus no Pontal”
   “Pedem-nos chamar a atenção de quem competir o inqualificável abuso de estarem pescadores, domingo último, pescando no Pontal, completamente nus.
   Sendo este local procurado por famílias para passeios, bem se compreende que o procedimento destes indivíduos está exigindo uma providência enérgica da autoridade competente”.

O Albor 7 de junho de 1908.


    Nos próximos anos seguintes não há registros nos jornais de novos casos. Mas, alguns anos depois, o banhar-se nu na nossa principal praia voltou a acontecer. 
   O jornal O Dever em sua edição de 16 de março de 1919 registrou:

     “Senhores sem calções”
   “Como si a praia do Mar Grosso lagunense fosse um lugar desabitado; como se, ali, à tarde, as famílias não fizessem os seus passeios costumeiros, andam, agora, alguns senhores fazendo uso de banhos, sem os necessários calções, demonstrando assim, nenhuma educação!
   Além desses senhores, outros moços bonitos mudam de vestes, para se banharem, em plena praia e com o sol alto!
  A autoridade policial, pois deve agir, para fazer cessar esse desrespeito às pessoas ali residentes.  
   Esperemos”.

Jornal O Dever de 16 de março de 1919.

    Acabou? Que nada. Dezenas de anos depois, em 1997, houve registros de banhos nus, como bem contou com humor o saudoso cronista Munir Soares em sua página publicada no meu jornal Tribuna Lagunense de 22 de fevereiro de 1997: 

“Pelados na Praia do Mar Grosso – Sereios eróticos”
“Boquinha da noite na praia do Mar Grosso, em pleno carnaval.
Os rapazes, após alguns minutos de malhação, vão tirando a roupa e colocando numa trouxa, sobre a areia.
Pelados, correm e mergulham, furando as ondas.
Conta-se, pela cidade, que quando algumas moças se aproximavam, fazendo “cooper”, os rapazes vinham para à beira da praia e mostravam os “documentos”.
A polícia foi acionada, contam.
No local, seguraram a roupa dos garotões, e ficaram aguardando a saída dos “sereios eróticos”.
Teria sido uma longa espera. Finalmente, o frio os empurrou para terra.
Os mocinhos teriam tentado reagir para recuperar as roupas.
Depois do bate-boca teria acontecido o “pau-a-pau”.
Segundo testemunhas, os rapazes levaram desvantagem.  Haviam ficado tanto tempo n’água que suas “armas” estavam murchas”.

7 comentários:

  1. Eles gostavam de sentir o bicho balançando.

    ResponderExcluir
  2. Ora lá, vejam só! Os nossos conterrâneos de outrora já eram bastante avançados para a época. Seriam resquícios dos carijós? Dessas traquinagens, desconhecia. Boa! Abraço

    ResponderExcluir
  3. Geraldo de Jesus24/01/2026, 08:32

    Não sabia disso. Banhos pelados no Mar Grosso... Naquelas épocas. Devia rolar uma sacanagenzinha, eles não eram santos. Até pescadores nos molhes. Já pensou se a tarrafa engalha no perú? Era uma vez. Bom resgate.

    ResponderExcluir
  4. Valmir que curiosidade do passado. E no Mar Grosso. E a gente pensando que eles eram todos moral e bons costumes. Já devia ter vaguistas pelas pedras do Iró. Eles faziam caminhadas na areia e de terno. Que legal essa foto. Relíquia. Rosângela

    ResponderExcluir
  5. Edison de Andrade24/01/2026, 12:49

    O Mar Grosso então já era praia de nudismo quando nem se pensava nisso. Com as ondas batendo onde devia e não devia, aí sabor do nordeste. Delícia.

    ResponderExcluir
  6. Valmir... só mesmo você para nos trazer estes fatos (que não são boatos), sobre o "nudismo" na praia da Laguna... que sem dúvida foi um avanço (!) em termos de vanguarda para banhos de mar. Pelo que percebi, apenas os marmanjos é que praticavam o banho pelado... ou a participação feminina será assunto para uma próxima matéria?
    Grande abraço do Adolfo Bez Filho - Joinville /SC.

    ResponderExcluir
  7. Serio? Nunca ouvi falar sobre esse assunto? Laguna pelo que eu sei, nunca foi praia de nudismo ne? Interessante?

    ResponderExcluir