Houve épocas na
Laguna que bastava iniciar o verão para que grupos de pessoas se banhassem completamente nus nas águas do Mar Grosso.
A atitude
provocava escândalos nos demais banhistas que se queixavam de afronta à moral
e aos bons costumes.
Além de ser
enquadrado como crime de atentado público ao pudor.
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Praia do Mar Grosso (Pedras do Iró) - 1950. Laguna. Acervo: Valmir Guedes Júnior |
Seria modismo? Ato de puro exibicionismo dos nossos antepassados? Ou uma previsão do que poderia
ter sido uma praia naturista? Isso antes, bem antes da Praia do Pinho em
Balneário Camboriú.
Era a Laguna lá
no passado lançando moda, pioneira, exibida.
Por várias vezes, e isso no começo do século XX, os
jornais da nossa cidade alertavam as autoridades sobre o fato, pedindo
providências:
“Estão tomando banho pelados na praia do Mar Grosso”,
gritavam as manchetes.
“É uma vergonha, uma imoralidade, ninguém respeita as
senhoras e crianças”, xingavam os periódicos.
As turmas banhavam-se como Adão e Eva vieram ao mundo. Quer
dizer: soltavam os balangandãs, deixavam os bichos soltos, sem usar folhas para
esconderem suas identidades. Não estavam nem aí para cobras e lagartos.
Isso em épocas
em que o Mar Grosso ainda recebia pouco público e em que as pessoas, mesmo com
o calor, caminhavam pelas areias em trajes sociais. Isso mesmo. De vestidos, chapéus e ternos.
Como pode-se
observar nessa antiga foto da década de 1940.
Dê um clique para ampliá-la:
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Praia do Mar Grosso (Praia de Banho) - Laguna - Década de 1940. Acervo: Valmir Guedes Júnior |
Veja a foto acima: Ao longo do que
seria hoje às imediações da avenida beira-mar existiam pequenas residências de
madeira chamadas de casas de veraneio.
Ao fundo, os
morros da Barra. Se a gente notar com mais atenção, veremos duas motos. Uma
delas estacionada e outra circulando na areia. Além de um automóvel Ford. Sim,
sim, naquela época veículos já invadiam as areias.
Nos cômoros,
dois cachorros (deviam ser tatataravôs dos atuais) observam as pessoas na
chamada “Praia de Banho”, como escrito no rodapé da fotografia e era assim chamado
o Mar Grosso.
Nossos
antepassados não eram querubins
E não eram somente jovens que se banhavam nus. Tinham
marmanjos no meio. Até senhores de ilibadas reputações pertencentes à
tradicionais famílias da cidade, “sem os necessários calções”.
Tal e qual os povos originários, os chamados índios lá no
descobrimento do Brasil que "mostravam suas vergonhas" como escreveu
Pero Vaz de Caminha em sua famosa carta.
Bem, mas muitos de nós descendemos dos Carijós, não é verdade? Com seus tacapes e lanças.
Não se sabe se a polícia tomou providências, se ficou
tocaiando atrás dos cômoros para pegar a turma com as calças nas mãos. Ou melhor,
sem as calças.
Os jornais nada falam sobre isso. É provável que não.
Afinal era verão, um calor danado e a polícia tinha mais o que fazer do que
ficar prendendo marmanjo com o bilau de fora.
Mas isso aconteceu várias vezes na Laguna há muitos e
muitos anos.
E o mais surpreendente, é que a turma não
tinha medo dos enormes siris que naquela época "abundavam" nas águas e finas
areias, com suas rápidas e afiadas garras azuis.
Vai que um deles... zip...
E o “negócio” já era, sujeito virava eunuco.
Mas o que devia abundar mesmo eram outras partes da anatomia humana,
aliás, brancas, cabeludas, cheias de acnes, escondidas o ano inteiro, merecendo
raios de sol sem protetores. Produtos que ainda não existiam no mercado.
Bem que nosso historiador Oswaldo Rodrigues Cabral já
alertava que nossos antepassados não eram inocentes e ingênuos querubins como muita gente imagina.
Vejamos:
Em 4 de março de
1904, portanto comecinho do século XX o jornal O Albor já trazia:
“Abuso cometido por mocinhos”
“Pedem-nos para
chamarmos a atenção das autoridades competentes sobre o abuso cometido por
mocinhos desta cidade que, sem o menor pudor nem respeito às famílias que
veraneiam na praia do Mar Grosso, vão ali banhar-se, pleno dia, em trajes
adâmicos.
No Código Penal
da República há duas posições claríssimas referentes a esses abusos, e delas
dar conhecimento a certos moçotes seria uma obra de misericórdia, que muito
recomendaria o sr. comissário de polícia à consideração das famílias”.
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Jornal O Albor de 4 de março de 1904. |
No ano seguinte,
em 4 de março de 1905 o local dos banhos nus mudou e passou para o centro da
cidade, defronte ao Morro de Nossa Senhora do Rosário, bem defronte à igrejinha
então existente lá no alto. O mesmo jornal O Albor publicava:
“Sem vergonhismo na poética lagoa”
“Chamamos a
atenção do sr. Comissário de polícia para um certo grupo de moços, alguns
maiores de dezessete anos, que em trajes endêmicos, à moda de Adão, costumam
refrescar-se dos ardores ferroantes da canícula, banhando-se, à plena luz do
dia, na ponta do Morro de N. Senhora, com grave afronta ao decoro das famílias
que por ali circunvizinham.
É cômoda e
econômica esta maneira de afogar pela fresquíssima água da nossa poética lagoa
as alfinetas de uma brotoeja insipientes; mas, depois que os nossos primeiros
pais comeram do pomo proibido, é indecente e de um sem vergonhismo muito
característico.
À autoridade
competente, em nome da moralidade, pedimos pôr um paradeiro a este
indecoríssimo abuso”.
Três anos depois
O Albor voltava ao assunto, em sua edição de 7 de junho de 1908,
portanto, em pleno inverno. Agora eram pescadores que, completamente nus no Pontal dos Molhes, tarrafeavam as tainhas com ajuda dos botos. Nem se preocupavam com chumbadas ou em engalhar no nylon. A manchete do jornal era:
"Pescadores nus no Pontal”
“Pedem-nos
chamar a atenção de quem competir o inqualificável abuso de estarem pescadores,
domingo último, pescando no Pontal, completamente nus.
Sendo este local
procurado por famílias para passeios, bem se compreende que o procedimento
destes indivíduos está exigindo uma providência enérgica da autoridade
competente”.
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O Albor 7 de junho de 1908. |
Nos próximos anos
seguintes não há registros nos jornais de novos casos. Mas, alguns anos depois, o banhar-se nu na nossa principal praia voltou a acontecer.
O jornal O
Dever em sua edição de 16 de março de 1919 registrou:
“Senhores sem calções”
“Como si a praia
do Mar Grosso lagunense fosse um lugar desabitado; como se, ali, à tarde, as
famílias não fizessem os seus passeios costumeiros, andam, agora, alguns
senhores fazendo uso de banhos, sem os necessários calções, demonstrando assim,
nenhuma educação!
Além desses
senhores, outros moços bonitos mudam de vestes, para se banharem, em plena
praia e com o sol alto!
A autoridade
policial, pois deve agir, para fazer cessar esse desrespeito às pessoas ali
residentes.
Esperemos”.
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Jornal O Dever de 16 de março de 1919. |
Acabou? Que nada. Dezenas de anos depois, em 1997, houve
registros de banhos nus, como bem contou com humor o saudoso cronista Munir Soares em sua
página publicada no meu jornal Tribuna Lagunense de 22 de fevereiro de
1997:
“Pelados na Praia do Mar Grosso –
Sereios eróticos”
“Boquinha da
noite na praia do Mar Grosso, em pleno carnaval.
Os rapazes, após
alguns minutos de malhação, vão tirando a roupa e colocando numa trouxa, sobre
a areia.
Pelados, correm
e mergulham, furando as ondas.
Conta-se, pela
cidade, que quando algumas moças se aproximavam, fazendo “cooper”, os rapazes
vinham para à beira da praia e mostravam os “documentos”.
A polícia foi
acionada, contam.
No local,
seguraram a roupa dos garotões, e ficaram aguardando a saída dos “sereios
eróticos”.
Teria sido uma
longa espera. Finalmente, o frio os empurrou para terra.
Os mocinhos
teriam tentado reagir para recuperar as roupas.
Depois do
bate-boca teria acontecido o “pau-a-pau”.
Segundo
testemunhas, os rapazes levaram desvantagem. Haviam ficado tanto tempo n’água
que suas “armas” estavam murchas”.
Eles gostavam de sentir o bicho balançando.
ResponderExcluirOra lá, vejam só! Os nossos conterrâneos de outrora já eram bastante avançados para a época. Seriam resquícios dos carijós? Dessas traquinagens, desconhecia. Boa! Abraço
ResponderExcluirNão sabia disso. Banhos pelados no Mar Grosso... Naquelas épocas. Devia rolar uma sacanagenzinha, eles não eram santos. Até pescadores nos molhes. Já pensou se a tarrafa engalha no perú? Era uma vez. Bom resgate.
ResponderExcluirValmir que curiosidade do passado. E no Mar Grosso. E a gente pensando que eles eram todos moral e bons costumes. Já devia ter vaguistas pelas pedras do Iró. Eles faziam caminhadas na areia e de terno. Que legal essa foto. Relíquia. Rosângela
ResponderExcluirO Mar Grosso então já era praia de nudismo quando nem se pensava nisso. Com as ondas batendo onde devia e não devia, aí sabor do nordeste. Delícia.
ResponderExcluirValmir... só mesmo você para nos trazer estes fatos (que não são boatos), sobre o "nudismo" na praia da Laguna... que sem dúvida foi um avanço (!) em termos de vanguarda para banhos de mar. Pelo que percebi, apenas os marmanjos é que praticavam o banho pelado... ou a participação feminina será assunto para uma próxima matéria?
ResponderExcluirGrande abraço do Adolfo Bez Filho - Joinville /SC.
Serio? Nunca ouvi falar sobre esse assunto? Laguna pelo que eu sei, nunca foi praia de nudismo ne? Interessante?
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