Ele foi um
lagunense apaixonado por nossa terra. Um lutador pelas causas da Laguna,
principalmente por nosso porto.
Quando o conheci
pessoalmente era eu um adolescente e ele já um senhor octogenário.
Foi em 1977,
quando eu trabalhava na Agência da Receita Federal da Laguna e seu Renato
Ulysséa foi solicitar uma explicação sobre Imposto de Renda.
Sanada a dúvida,
falamos um pouco sobre Laguna, indaguei algo sobre o nosso porto, ele logo respondeu.
Vendo meu interesse sobre o tema me convidou para ir em sua casa ao lado do
Clube Congresso Lagunense. Queria me mostrar algumas fotos, documentos,
recortes de jornais. Já me conhecia por algumas crônicas publicadas no jornal Semanário de Noticias.
No sábado fui lhe visitar. Passamos a tarde toda conversando, eu anotando o que podia sobre seus conhecimentos, olhando fotografias. E indagando muito.
Seu Renato era um homem que acompanhava atentamente o noticiário. Assinava vários jornais, entre eles o Semanário de Notícias (LG), O Estado (SC), o sisudo Correio
do Povo (RS) e recebia via postal, o centenário Jornal do Commércio, do Rio de
Janeiro. Era um leitor voraz.
O memorial sobre
o Porto e Barra da Laguna e a Monografia classificada na FGV
Me entregou
cópia (que guardo comigo até hoje) de um importante Memorial sobre a Barra e Porto, de sua autoria e que havia enviado
muitos anos antes, em 14 de agosto de 1964, a Juarez Távora, então ministro da Viação e Obras
Públicas.
Semanas depois,
uma sexta-feira, me procurou e me "intimou" a participar de um concurso de
monografias promovido pela Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro. O tema
era meios de transportes, estradas, ferrovias e portos.
Dez ou quinze
páginas datilografadas sobre o tema. Ele mesmo se encarregaria de postar nos
Correios. Bastava eu escrever.
O prazo se
esgotava já na segunda-feira, data obrigatória para a última postagem. Passei o fim de
semana escrevendo e datilografando os originais.
Na segunda-feira,
como combinado, lá estava seu Renato, envelope nas mãos para levar o material
aos Correios.
Meses depois
saiu o resultado. Com a monografia sobre o porto da Laguna se classificando
entre as dez finalistas.
Se não estou
enganado, foram mais de cinco mil trabalhos inscritos de todo o Brasil.
Não, não fiquei
entre os três primeiros lugares, infelizmente. Mas era de notar a alegria do seu
Renato com o resultado. E a minha também.
-Entre os dez
primeiros, está muito bom para primeira vez, dizia ele, entusiasmado.
Um livro
dedicado a ele
Pois foram essas
páginas da monografia que serviram de embrião para o meu primeiro livro: Porto
da Laguna – A Luta de um povo traído, lançado alguns anos depois, em 1995.
Mas, aí seu
Renato já não estava mais entre nós.
Meses antes de
seu falecimento, em 1993, lhe entreguei em mãos o esboço do livro.
Com problemas de
visão motivado pela catarata, o trabalho foi lido integralmente para ele por sua dileta filha
Elisabeth (dª Betinha) Ulysséa Arantes.
Aliás, minha
professora no então Conjunto Educacional Almirante Lamego-Ceal, casada com o
também meu mestre, José Paulo Arantes. Dois professores de gerações.
Quando o livro sobre
o porto foi publicado, dediquei a obra a ele, numa homenagem póstuma a quem
acompanhou as marchas e contra marchas do porto da Laguna, conversando,
escrevendo às autoridades e políticos, cobrando promessas e providências,
guardando farto material sobre o assunto.
Era o mínimo que
eu poderia fazer.
Sei que no seu
íntimo sempre acalentou a esperança de um dia rever o nosso porto funcionando,
carro chefe da economia local, redenção do povo lagunense.
Até hoje daquela
época guardo com carinho nos meus arquivos, uma pequena anotação escrita em
seu cartão de visitas endereçada a mim onde anexou cópia de uma foto da nossa
Barra. Ele carinhosamente escreveu com sua letra já trêmula:
“Ao
prezado Valmir, o Renato encaminha anexo ao presente, o xerox da foto da nossa
Barra, conforme combinado, dia 23 último, em sua agradável visita. Laguna 1º
dez (1977)”. Renato.
Renato
Ulysséa, morando vizinho ao palacete de João Tomaz de Souza, foi um dos
inconformados com a derrubada do imóvel. Sempre dizia que chorou
muito na esquina do Clube Congresso Lagunense quando da demolição para
construção daquele feioso caixote do Banco do Brasil.
“Era
um patrimônio arquitetônico que ia embora e eu me sentia impotente para evitar
tal disparate”, lamentava-se nas conversas com familiares e amigos.
Quem foi Renato
Ulysséa
Renato Ulysséa
nasceu na Laguna em 16 de agosto de 1897, filho do dr. Ismael Pinto de Ulysséa
e dª Ana Guimarães Cabral de Ulysséa. (d. Santa).
Teve 18 irmãos
(nem todos aqui nominados): Julieta, Heitor, Gilberto, Leonor, Romeu, Ramiro,
Otília, Juracy, Nicanor e Modeno, além de Laura, Tobias, Jandira, Aurora e
Murilo. Esses cinco últimos faleceram em tenra idade.
Seu pai foi o
primeiro lagunense e o primeiro no sul catarinense formado em Medicina e sempre
exerceu a profissão aqui na Laguna.
Concluídos os
estudos secundários em nossa cidade, Renato Ulysséa seguiu para o Rio de
Janeiro para prosseguir em curso superior. Mas mudou de planos e retornou à
terra natal.
Foi o primeiro
funcionário da filial da empresa comercial (firma) Carlos Hoepcke S.A., também
proprietária de navios, onde trabalhou durante cinquenta anos.
Aqui casou-se
com Dorah Grandemagne Ulysséa e tiveram sua única filha Elisabeth Ulysséa
Arantes, dª Betinha.
Por cerca de
dezoito anos seu Renato foi tesoureiro da Comissão Administrativa do Hospital
de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos.
Foi também
tesoureiro da chamada Caixa de Esmolas, entidade filantrópica que
existiu na Laguna.
Colaborou e
muito com a Associação Espírita Berço de Jesus, entidade filantrópica
dirigida por sua esposa Dorah, que fornecia enxovais aos recém-nascidos de mães
necessitadas.
Em diversas
gestões fez parte da diretoria do Clube Congresso Lagunense, tradicional
sociedade em que seu pai, Ismael Ulysséa foi um dos fundadores e presidente.
Foi secretário
da hoje extinta Sociedade dos Amigos da Laguna, de tantos serviços
prestados à nossa cidade.
Durante a 2ª
Guerra Mundial, Renato Ulysséa integrou a comissão local da Cruz Vermelha
Brasileira. Sua filha, dª Betinha foi uma das integrantes como auxiliar de
enfermagem.
Realmente foi um
homem afeito à prática do bem, espiritualizado, de inabalável fé. Homem bom,
digno e íntegro.
Nos últimos
anos, com problemas de visão causados pela catarata, pedia que familiares e
amigos que o visitavam lessem para ele passagens do livro Ave Luz, de
João Nunes Maia pelo espírito Shaolin, Editora Espírita Fonte Viva, lançado em
1984 e que contém lições de Jesus aos seus discípulos.
E foi assim, ouvindo esses ensinamentos, que Renato Ulysséa empreendeu o grande retorno à
pátria espiritual, falecendo em 20 de maio de 1993, aos 95 anos, três meses
antes de mais um aniversário.
Numa crônica
publicada em meu jornal Tribuna Lagunense, de 22 de agosto de 1997, seu
sobrinho o lagunense de saudosa memória Norberto Ulysséa Ungaretti escreveu
sobre o seu tio Renato, em seus 100 anos de nascimento, transcorridos naquele ano na semana
anterior.
Eis um trecho:
Renato Ulysséa:
cem anos
“Na memória de minha infância e da minha adolescência, na memória da minha vida inteira, já ultrapassada de seis décadas, guardo do meu tio Renato a mais carinhosa lembrança.Devo-lhe incontáveis demonstrações de afeto e bem querer, sempre solidário, sempre amigo, sempre carinhoso e solícito, sempre generoso e desprendido.Cultivou exemplarmente as relações de família. Honrou a cidadania. Amou como poucos a terra em que nasceu. Serviu desinteressadamente aos seus semelhantes. Foi e continua a ser uma criatura luminosa e iluminadora”.
Merece ter seu nome perpetuado numa via pública
Quem sabe algum
nobre vereador da Laguna apresente Projeto de Lei dando o nome de Renato
Ulysséa a alguma via pública de nossa cidade, ainda sem denominação oficial, como
homenagem pelos serviços que prestou à Laguna e como exemplo de cidadania.
Ele era avesso à
política partidária, sem dúvida. Mas foi um político no sentido clássico da
palavra.
Era preocupado
com o bem comum e com os interesses da Laguna, terra onde nasceu e viveu por
toda sua longa vida.



Bonita homenagem, Valmir demonstrando gratidão.
ResponderExcluirEis um nome que merece homenagem com nome de rua afinal tanta gente recebeu nome de rua e nada fez por merecer.
Boa noite.
ResponderExcluirEu não o conheci, mas gosto muito de conhecer as histórias de tão interessantes conterrâneos lagunenses.
Também fui aluna de sua filha, dona Betinha, que ministrava aulas de canto.
Eu não morava mais na Laguna quando demoliram a casa do meu avô João Thomaz, já tínhamos nos mudado para Florianópolis, e teria sido muito difícil mesmo suportar o absurdo daquela demolição.