Eis um verso
histórico do Hino do Coral Santo Antônio dos Anjos: “Laguna, filha do mar”,
de autoria de Archimedes de Castro Faria.
Nada mais
verdadeiro. Nossas ligações com o mar não são apenas físicas, geográficas. São
também, e sobretudo, históricas, econômicas e sentimentais.
Foi pelo mar que
aqui chegaram os primeiros colonizadores. Foi pelo cais do porto da Laguna que desembarcaram
os imigrantes para povoar as colônias do Sul do Estado.
Pela sua barra vinham
e partiam as riquezas. Escoadouro da lavoura e pecuária da região. Chegada de
produtos manufaturados.
Pelo seu velho porto
passavam os gêneros de exportação: banha, carne de porco, peixe e camarão secos, feijão, farinha de
mandioca... E de importação: querosene, enlatados, ferro, cimento...
Aqui aportavam
os viajantes de todo o país a bordo de navios diretamente vindos de distantes
portos do Brasil. Viajar ao Rio de Janeiro, então capital federal, era rotina.
Viagens de negócios,
contatos políticos e com autoridades, passeios, buscas de melhores tratamentos e
profissionais médicos para a saúde debilitada.
Laguna-Desterro-São
Francisco do Sul-Paranaguá-Santos-Rio de Janeiro. E vice-versa. Esta era a
rota. Linha regular que singraram nossos antepassados.
Laguna vivia
então sua pujança econômico-social. Tempos de empreendedorismo, luxuosas
construções, comércio ativo, indústrias. Pioneirismo nas áreas educacional e
cultural.
Mas, um dia
afastaram a Laguna do mar. Do mar que a fez crescer e prosperar.
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Porto Carvoeiro da Laguna - Década de 1950, já utilizando guindastes. |
O porto de
mercadorias tornou-se carvoeiro, acenaram na década de 1950 com uma
siderúrgica, depois inventaram o porto ser pesqueiro. E mais tarde simples
terminal de pesca.
Era o início do declínio
econômico do município.
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Em primeiro plano pescadores artesanais com suas tarrafas à espera dos botos. Em segundo plano o prédio do então Porto Pesqueiro da Laguna. Ano 1998. Foto: Valmir Guedes Júnior |
O porto da
Laguna continua lá, esquecido. Vez ou outra, principalmente em ano de eleições,
surgem as promessas miraculosas. Acenam estudos, novos projetos, análises
técnicas, salvação. Tudo fumaça.
Eternos estudos
que atravessam os séculos. Nunca na história um porto foi tão estudado.
Batimetrias,
diagnósticos analíticos de viabilidade, sondagens, pesquisas hidroviárias,
levantamentos topo hidrográficos...
Os primeiros
deles foram realizados ainda no século XIX, no recuado ano de 1864 pelo Barão
de Teffé, diretor geral da Repartição Hidrográfica, sediada no Rio de Janeiro. Ainda
tempos do Brasil Império.
Em 1886 novos estudos
efetuados, desta vez pelo capitão-tenente Francisco Calheiros da Graça.
E esses mesmos
estudos e projetos continuaram e se repetiram pelos anos seguintes de:
1891,1924,1926,1953,1957,1969,1970,1971,1985,1989,1990,1993,1994...
Passam-se os
anos, gerações se sucedem e nada acontece. E ainda hoje, por incrível que
pareça, depois de 162 anos dos primeiros levantamentos e pesquisas, novos
estudos da nossa barra e porto são encomendados.
E a barra, canal
e porto continuam lá. A barra obstaculizada em suas pedras submersas do molhe
sul sem o conserto que ninguém faz.
O canal e lagoa
cada vez mais assoreadas, sem receber regulares dragagens como em outros portos.
E a profusão de
siglas referentes ao porto também atravessaram os tempos nas memórias dos
lagunenses: COBRASIL, DNPVN, INPH, CEPCAN, SIDESC, SIDERSUL, APL, PROLAG,
SUDEPE, PROMOPÊCHE, PROMOPESCA, CODISC, PORTOBRÁS, CODESP...
Dezenas de
siglas que alimentaram a esperança de dias melhores. Mas que passaram.
O povo da Laguna
já está cansado de promessas e de ouvir o NÃO em seus desejos e aspirações.
Há que haver uma
ampla mobilização de todos os segmentos da sociedade em busca de uma solução. Haverá?
A franquia de
sua barra e a operacionalidade do seu porto é luta antiga, sonho de sucessivas
gerações. Quando se tornará realidade?
Que a redenção
da Laguna um dia chegue e que todos esses registros se tornem páginas viradas
do passado.
OBS: Texto original deste autor publicado no jornal Omarginal: Cultura, Arte e Literatura - Edição Especial, Laguna, 350 anos. Ano 2. Nº 7.





Parabéns pelo retrospecto e pela análise. Enquanto Laguna não resolver esse gargalo econômico-social vamos cada vez pior, buscando um turismo sem qualidade, com cada vez menos hotéis, promovendo um turismo de massa, sazonal, de perturbação, afastando os visitantes.
ResponderExcluirPor isso esse marasmo que atravessamos há anos. Mas nossos políticos preferem fazer politicalhas e as autoridades e gestores vídeos se enaltecendo de não-sei-o-quê, soberbos, descolados da realidade. Vão passar, porque tudo passa e vão sair na urina da história.