16 julho 2026

“Laguna, filha do mar...”

 
Eis um verso histórico do Hino do Coral Santo Antônio dos Anjos: “Laguna, filha do mar”, de autoria de Archimedes de Castro Faria.
Nada mais verdadeiro. Nossas ligações com o mar não são apenas físicas, geográficas. São também, e sobretudo, históricas, econômicas e sentimentais.

Porto da Laguna - Centro da cidade - Década de 1920. À direita o antigo Mercado Público e no alto da foto a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Duas edificações não mais existentes. O porto continuava sendo de carga mas já recebia o carvão nos vagões da Estrada de Ferro Teresa Cristina para o transporte marítimo. 

Foi pelo mar que aqui chegaram os primeiros colonizadores. Foi pelo cais do porto da Laguna que desembarcaram os imigrantes para povoar as colônias do Sul do Estado.
Pela sua barra vinham e partiam as riquezas. Escoadouro da lavoura e pecuária da região. Chegada de produtos manufaturados.
Pelo seu velho porto passavam os gêneros de exportação: banha, carne de porco, peixe e camarão secos, feijão, farinha de mandioca... E de importação: querosene, enlatados, ferro, cimento...
Aqui aportavam os viajantes de todo o país a bordo de navios diretamente vindos de distantes portos do Brasil. Viajar ao Rio de Janeiro, então capital federal, era rotina.
Viagens de negócios, contatos políticos e com autoridades, passeios, buscas de melhores tratamentos e profissionais médicos para a saúde debilitada.
Laguna-Desterro-São Francisco do Sul-Paranaguá-Santos-Rio de Janeiro. E vice-versa. Esta era a rota. Linha regular que singraram nossos antepassados.

Movimento de Importação e Exportação pelo Porto da Laguna em setembro de 1938.

Laguna vivia então sua pujança econômico-social. Tempos de empreendedorismo, luxuosas construções, comércio ativo, indústrias. Pioneirismo nas áreas educacional e cultural.
Mas, um dia afastaram a Laguna do mar. Do mar que a fez crescer e prosperar.

Porto Carvoeiro da Laguna - Década de 1950, já utilizando guindastes.

O porto de mercadorias tornou-se carvoeiro, acenaram na década de 1950 com uma siderúrgica, depois inventaram o porto ser pesqueiro. E mais tarde simples terminal de pesca.
Era o início do declínio econômico do município.

Em primeiro plano pescadores artesanais com suas tarrafas à espera dos botos. Em segundo plano o prédio do então Porto Pesqueiro da Laguna. Ano 1998. Foto: Valmir Guedes Júnior

O porto da Laguna continua lá, esquecido. Vez ou outra, principalmente em ano de eleições, surgem as promessas miraculosas. Acenam estudos, novos projetos, análises técnicas, salvação. Tudo fumaça.
Eternos estudos que atravessam os séculos. Nunca na história um porto foi tão estudado.
Batimetrias, diagnósticos analíticos de viabilidade, sondagens, pesquisas hidroviárias, levantamentos topo hidrográficos...
Os primeiros deles foram realizados ainda no século XIX, no recuado ano de 1864 pelo Barão de Teffé, diretor geral da Repartição Hidrográfica, sediada no Rio de Janeiro. Ainda tempos do Brasil Império.
Em 1886 novos estudos efetuados, desta vez pelo capitão-tenente Francisco Calheiros da Graça.
E esses mesmos estudos e projetos continuaram e se repetiram pelos anos seguintes de:
1891,1924,1926,1953,1957,1969,1970,1971,1985,1989,1990,1993,1994...
Passam-se os anos, gerações se sucedem e nada acontece. E ainda hoje, por incrível que pareça, depois de 162 anos dos primeiros levantamentos e pesquisas, novos estudos da nossa barra e porto são encomendados.

Porto da Laguna em 2026. Foto: Adolfo Pedro Veiga da Silva.

E a barra, canal e porto continuam lá. A barra obstaculizada em suas pedras submersas do molhe sul sem o conserto que ninguém faz.
O canal e lagoa cada vez mais assoreadas, sem receber regulares dragagens como em outros portos.
E a profusão de siglas referentes ao porto também atravessaram os tempos nas memórias dos lagunenses: COBRASIL, DNPVN, INPH, CEPCAN, SIDESC, SIDERSUL, APL, PROLAG, SUDEPE, PROMOPÊCHE, PROMOPESCA, CODISC, PORTOBRÁS, CODESP...
Dezenas de siglas que alimentaram a esperança de dias melhores. Mas que passaram.
O povo da Laguna já está cansado de promessas e de ouvir o NÃO em seus desejos e aspirações.
Há que haver uma ampla mobilização de todos os segmentos da sociedade em busca de uma solução. Haverá?
A franquia de sua barra e a operacionalidade do seu porto é luta antiga, sonho de sucessivas gerações. Quando se tornará realidade?
Que a redenção da Laguna um dia chegue e que todos esses registros se tornem páginas viradas do passado.

OBS: Texto original deste autor publicado no jornal Omarginal: Cultura, Arte e Literatura - Edição Especial, Laguna, 350 anos. Ano 2. Nº 7.

Um comentário:

  1. Geraldo de Jesus16/07/2026, 17:33

    Parabéns pelo retrospecto e pela análise. Enquanto Laguna não resolver esse gargalo econômico-social vamos cada vez pior, buscando um turismo sem qualidade, com cada vez menos hotéis, promovendo um turismo de massa, sazonal, de perturbação, afastando os visitantes.
    Por isso esse marasmo que atravessamos há anos. Mas nossos políticos preferem fazer politicalhas e as autoridades e gestores vídeos se enaltecendo de não-sei-o-quê, soberbos, descolados da realidade. Vão passar, porque tudo passa e vão sair na urina da história.

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