09 agosto 2026

Os anti-heróis anônimos


Durante grande parte de sua vida Richard Calil Bulos, o Chachá, de saudosa memória, mais até do que as artes plásticas (arte naif), exerceu o jornalismo em nossa cidade. Bem por isso fundou inúmeras publicações e foi redator de várias outras.
Foi um mestre na arte de escrever e de produzir uma manchete chamativa, com pinceladas sensacionalistas. 
Em seu estilo registrou muitos acontecimentos do dia a dia da cidade. Ele sabia criticar, elogiando. E extrair de um pequeno fato a seiva do texto que prenderia a atenção dos leitores.
Era justo em seus escritos aos elogios a personalidades políticas, empresariais ou autoridades que se destacavam na sociedade à ocasião.
Mas, também sabia fazer o mesmo ou até melhor com os desvalidos pela sorte, com os não agraciados pela riqueza e sobrenomes, pedintes e andarilhos que perambulavam pela nossa Laguna. 
Hoje diríamos, pessoas em situação de rua.
São os chamados “tipos populares”. Estes sempre existiram, em grande quantidade, em todas as épocas.

Marengo. Gente da Minha Terra, de José Bessa.

Vitória, João Frade, Felipe da Rebeca, Zé dos Papéis, Zé Bode, Edite Pandorga, Lata, Andrino, Bibi-tudo, Arina, Sovai, Linguinha, Zé Bombril, Pesquisa, Gengivinha, Biguá, Clemente, Ibraim, Jiqui, Clóvis, Maria do Benoni, Quintino... 
Foram tantos.
O lagunense José Bessa, em seu livro “Gente da Minha Terra”, retratou muito bem alguns deles, pequenos e humildes, a quem os chamou de “anti-heróis anônimos que em certa medida exprimem a alma coletiva, ensinam verdade humana abeberada na fonte”.

Quando do falecimento dos que mais se destacavam na sociedade lagunense, nosso jornalista Chachá produzia matérias memoráveis, despedidas emocionantes, tecendo loas aos seus nomes e destacando posições galgadas e currículos.

Mas, também encontrava tempo e espaço no jornal para registrar igualmente a morte dos que "viviam à margem da sociedade", como se convencionou chamá-los.
Eram seres humanos com seus dramas e infelicidades, suas manias, vícios e psicoses.
Seres humanos... Para Chachá era o que bastava. 
Precisa realmente de algo mais?
Até porque, cumpridos seus resgates, suas jornadas terrenas, muitos desses personagens, ditos populares, devem estar hoje em melhores moradas espirituais.
Talvez, e bem ao contrário de alguns outros figurões que tiveram discursos elogiosos, cortejos pomposos, enterrados com seus títulos e vaidades. 
Estes, ainda podem estar vagando perdidos, odiosos e odiados, mergulhados em seus segredos, mesquinharias e maldades de uma vida.

Três registros
A título de curiosidade busquei em meus arquivos de antigos jornais, três pequenos textos obituários produzidos pelo Chachá.
São registros de humildes falecimentos de conhecidos personagens populares que marcaram época e gerações na história da nossa Laguna.
Mas, observem as singelezas dos textos! As expressões de facetas sentimentais e poéticas nos despretensiosos apontamentos de um adeus. 

Sobre a morte do Quintino (Jan 1980):

...E os sinos emudeceram

Ao contrário do romance “Por quem os sinos dobram”, de Ernest Miller Hemingway (editado em 1940), os sinos da Matriz Santo Antônio dos Anjos emudeceram no justo instante em que o errante Quintino, diante da igreja, em caixão de degradante qualidade, era carregado rumo ao cemitério público, na tristonha manhã de 15 do corrente.
Momentos antes, eles haviam repicado, lenta, mas sucessivamente, em sinal de adeus à uma dama da nossa sociedade, que, por infelicidade, tivera em data igual o mesmo destino que ele.
Que Quintino não trabalhava ou não gostava de trabalhar lá isso é verdade. Todavia representou para Laguna a imagem do indolente sem ser nocivo, do vagabundo que, se à época de Charles Spencer Chaplin, teria servido de inspiração ao inconfundível ator e cineasta inglês, criador da personagem dolorosamente cômica de Carlitos.
Quem conhece a produção literária de Hemingway, verá que os nomes dados a duas de suas obras se amoldam, por ironia, a este fato que narro com pesar:
- Por quem os sinos dobram?
- Eles dobram por ti, por nós, por todos.
“O sol também se levanta” (editado em 1926). Por sua vez, traduz que o sol também se levanta para as criaturas pobres, como o fora em vida o Quintino.

Sobre a morte do Clóvis (Fev 1979):

 A cidade perdeu Clóvis

Clóvis de tal. Que Deus o tenha na sua guarda infinita e inviolável.
Pobre criatura de ontem. Palhaço de muitos, escravo da desilusão e do infortúnio.
Clóvis, o farrapo humano que carreteava pelas ruas centrais em busca de alimentos e de míseros cruzeiros. Um ser desajeitado, sem atrativos físicos e proprietário de grave deformidade psíquica.
Ele, como muitos afirmam, não morreu da bebida. Na realidade, Clóvis conheceu a morte e com ela se foi devido ao pouco caso que a sociedade lagunense lhe endereçava.
Morreu sem conhecer um prato de comida ladeado de garfo e faca, sem conhecer a intimidade de uma mulher, sem haver tido sobre o corpo uma roupa decente.

Sobre a morte de Edith "Pandorga" (Out 1995):

O céu ganha a sua Pandorga
Edith cumpriu à risca seu papel como espantalho de carne e osso. Tão ao ponto e com inigualável singularidade, que a cidade a definiu como sua musa.
Atriz das madrugadas, tristes e longas madrugadas, montou sua ribalta ao relento, assistida por uma plateia tão gélida como a lápide sepulcral.
Uma certa semelhança com outra Edith, dela separada por um oceano. Apenas, entre elas, a inversão do tempo. Uma, mendigou na mocidade e morreu entre aplausos. A outra, gozou bem a juventude, acabando na miséria.
Edith Piaf, conviveu com prostitutas na França e foi símbolo da música popular francesa.
Edith, a “Pandorga”, de moça viçosa a farrapo humano, símbolo da resignação. Edith Severina de Jesus nasceu em Cangueri – Imaruí, aos 12 de maio de 1910, sinal impagável da singeleza.

5 comentários:

  1. Karmensita Almeida da Rocha Cardoso10/08/2026, 11:04

    Gratidão pelas memórias querido Valmir. Tive a oportunidade de estagiar na sala onde trabalhava na Secretaria de Imprensa, prefeitura de Laguna com esse Ser iluminado que era o Chachá. Muito obrigada!

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  2. Boa tarde.
    Como é bom ler um texto bem escrito, o conteúdo flui harmoniosamente.

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  3. Que sensibilidade na escrita. Conheci alguns desses personagens. Muitos deles com certeza devem estar na luz, mesmo porque suas vidas foram resgates. Nem faziam mal pra ninguém a não ser pra eles.
    Boa lembrança com os textos do Chachá

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  4. Boas lembranças! Quintino era irmã de uma vizinha nossa, Arina na rua João de Souza, sua mãe uma grande benzedeira muito conhecida no Magalhães. Quanto a Pandorga era um audaciosa em seus palavrões e com razão. O Adriano era meio malandrão, mais dentro do deu padrão!
    Convivi com todas essas histórias e muito mais.
    O Chachá realmente merece ser destacado por tudo que fez em sua permanência nesta terra!
    Parabéns Valmir por lembrar tantos acontecimentos em nossa história!
    👏👏👏👏

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  5. Bom dia Valmir!
    Foi ótimo relembrar todos os fatos dos acontecimentos de nossa história!
    Muitas delas eram moradores do Magalhães e até vizinhos. Muitas vezes até lembramos deles em certas conversas..A Pandorga quando decis o morro era silenciosa.
    Quanto ao Chachá foi um um grande homem e mereceu ficar na história!

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