Durante grande parte de sua vida Richard Calil
Bulos, o Chachá, de saudosa memória, mais até do que as artes plásticas (arte naif),
exerceu o jornalismo em nossa cidade. Bem por isso fundou inúmeras publicações
e foi redator de várias outras.
Foi um mestre na arte de escrever e de produzir
uma manchete chamativa, com pinceladas sensacionalistas.
Em seu estilo
registrou muitos acontecimentos do dia a dia da cidade. Ele sabia criticar,
elogiando. E extrair de um pequeno fato a seiva do texto que prenderia a atenção
dos leitores.
Era justo em seus escritos aos elogios a
personalidades políticas, empresariais ou autoridades que se destacavam na
sociedade à ocasião.
Mas, também sabia fazer o mesmo ou até melhor
com os desvalidos pela sorte, com os não agraciados pela riqueza e sobrenomes,
pedintes e andarilhos que perambulavam pela nossa Laguna.
Hoje diríamos, pessoas em situação de rua.
São os chamados “tipos
populares”. Estes sempre existiram, em grande quantidade, em todas as épocas.
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Marengo. Gente da Minha Terra, de José Bessa. |
Vitória, João Frade, Felipe da Rebeca, Zé dos Papéis, Zé Bode, Edite Pandorga, Lata,
Andrino, Bibi-tudo, Arina, Sovai, Linguinha, Zé Bombril, Pesquisa, Gengivinha, Biguá, Clemente, Ibraim, Jiqui, Clóvis, Maria do Benoni, Quintino...
Foram tantos.
O lagunense José Bessa, em seu livro “Gente
da Minha Terra”, retratou muito bem alguns deles, pequenos e humildes, a
quem os chamou de “anti-heróis anônimos que em certa medida exprimem a alma
coletiva, ensinam verdade humana abeberada na fonte”. Quando do falecimento dos que mais se destacavam na sociedade lagunense, nosso jornalista Chachá produzia matérias memoráveis, despedidas emocionantes, tecendo loas aos seus nomes e destacando posições galgadas e currículos. Mas, também encontrava tempo e espaço no
jornal para registrar igualmente a morte dos que "viviam à margem da
sociedade", como se convencionou chamá-los. Eram seres humanos com seus dramas e
infelicidades, suas manias, vícios e psicoses. Seres humanos... Para Chachá era o que
bastava. Precisa realmente de algo mais? Até porque, cumpridos seus resgates, suas
jornadas terrenas, muitos desses personagens, ditos populares, devem estar
hoje em melhores moradas espirituais. Talvez, e bem ao contrário de alguns outros
figurões que tiveram discursos elogiosos, cortejos pomposos, enterrados com
seus títulos e vaidades. Estes, ainda podem estar vagando perdidos, odiosos e
odiados, mergulhados em seus segredos, mesquinharias e maldades de uma vida. Três registros A título de curiosidade busquei em meus
arquivos de antigos jornais, três pequenos textos obituários produzidos pelo
Chachá. São registros de humildes falecimentos de
conhecidos personagens populares que marcaram época e gerações na história da
nossa Laguna. Mas, observem as singelezas dos textos! As
expressões de facetas sentimentais e poéticas nos despretensiosos
apontamentos de um adeus.
Sobre a morte do Quintino (Jan 1980): ...E os sinos emudeceram Ao contrário do romance “Por quem os sinos
dobram”, de Ernest Miller Hemingway (editado em 1940), os sinos da Matriz
Santo Antônio dos Anjos emudeceram no justo instante em que o errante
Quintino, diante da igreja, em caixão de degradante qualidade, era carregado
rumo ao cemitério público, na tristonha manhã de 15 do corrente. Momentos antes, eles haviam repicado, lenta,
mas sucessivamente, em sinal de adeus à uma dama da nossa sociedade, que, por
infelicidade, tivera em data igual o mesmo destino que ele. Que Quintino não trabalhava ou não gostava
de trabalhar lá isso é verdade. Todavia representou para Laguna a imagem do
indolente sem ser nocivo, do vagabundo que, se à época de Charles Spencer
Chaplin, teria servido de inspiração ao inconfundível ator e cineasta inglês,
criador da personagem dolorosamente cômica de Carlitos. Quem conhece a produção literária de
Hemingway, verá que os nomes dados a duas de suas obras se amoldam, por
ironia, a este fato que narro com pesar: - Por quem os sinos dobram? - Eles dobram por ti, por nós, por todos. “O sol também se levanta” (editado em 1926).
Por sua vez, traduz que o sol também se levanta para as criaturas pobres,
como o fora em vida o Quintino. Sobre a morte do Clóvis (Fev 1979):
Clóvis de tal. Que Deus o tenha na sua
guarda infinita e inviolável. Pobre criatura de ontem. Palhaço de muitos,
escravo da desilusão e do infortúnio. Clóvis, o farrapo humano que carreteava
pelas ruas centrais em busca de alimentos e de míseros cruzeiros. Um ser
desajeitado, sem atrativos físicos e proprietário de grave deformidade
psíquica. Ele, como muitos afirmam, não morreu da
bebida. Na realidade, Clóvis conheceu a morte e com ela se foi devido ao
pouco caso que a sociedade lagunense lhe endereçava. Morreu sem conhecer um prato de comida
ladeado de garfo e faca, sem conhecer a intimidade de uma mulher, sem haver
tido sobre o corpo uma roupa decente. Sobre a morte de Edith "Pandorga" (Out 1995): O céu ganha a sua Pandorga Edith cumpriu à
risca seu papel como espantalho de carne e osso. Tão ao ponto e com inigualável
singularidade, que a cidade a definiu como sua musa. Atriz das
madrugadas, tristes e longas madrugadas, montou sua ribalta ao relento,
assistida por uma plateia tão gélida como a lápide sepulcral. Uma certa
semelhança com outra Edith, dela separada por um oceano. Apenas, entre elas, a
inversão do tempo. Uma, mendigou na mocidade e morreu entre aplausos. A outra,
gozou bem a juventude, acabando na miséria. Edith Piaf, conviveu com prostitutas na França e foi símbolo da música popular francesa. Edith, a “Pandorga”,
de moça viçosa a farrapo humano, símbolo da resignação. Edith Severina de Jesus
nasceu em Cangueri – Imaruí, aos 12 de maio de 1910, sinal impagável da singeleza. |

Gratidão pelas memórias querido Valmir. Tive a oportunidade de estagiar na sala onde trabalhava na Secretaria de Imprensa, prefeitura de Laguna com esse Ser iluminado que era o Chachá. Muito obrigada!
ResponderExcluirBoa tarde.
ResponderExcluirComo é bom ler um texto bem escrito, o conteúdo flui harmoniosamente.
Que sensibilidade na escrita. Conheci alguns desses personagens. Muitos deles com certeza devem estar na luz, mesmo porque suas vidas foram resgates. Nem faziam mal pra ninguém a não ser pra eles.
ResponderExcluirBoa lembrança com os textos do Chachá
Boas lembranças! Quintino era irmã de uma vizinha nossa, Arina na rua João de Souza, sua mãe uma grande benzedeira muito conhecida no Magalhães. Quanto a Pandorga era um audaciosa em seus palavrões e com razão. O Adriano era meio malandrão, mais dentro do deu padrão!
ResponderExcluirConvivi com todas essas histórias e muito mais.
O Chachá realmente merece ser destacado por tudo que fez em sua permanência nesta terra!
Parabéns Valmir por lembrar tantos acontecimentos em nossa história!
👏👏👏👏
Bom dia Valmir!
ResponderExcluirFoi ótimo relembrar todos os fatos dos acontecimentos de nossa história!
Muitas delas eram moradores do Magalhães e até vizinhos. Muitas vezes até lembramos deles em certas conversas..A Pandorga quando decis o morro era silenciosa.
Quanto ao Chachá foi um um grande homem e mereceu ficar na história!