Um
dia, lá pela década de 1940, ele apareceu na sede da Banda Musical União dos Artistas. Em silêncio ficou
ouvindo e observando os ensaios. O tempo foi passando. Procuraram seu dono. Não
o encontraram. Foi adotado pelos músicos.
Passado um tempo era visto desfilando todo garboso em frente à banda. Parecia conhecer até
o repertório, como se distinguisse marcha de dobrado, sustenidos de bemóis. Fizeram um uniforme para ele, da mesma cor e tecido usado pelos músicos. As crianças o adoravam e
quando ele passava pelas ruas aplaudiam e o chamavam pelo nome.
Beto.
Sim, era assim chamado. Beto, o carneiro-mascote da banda. Mas, tinha um trecho
de uma rua da Laguna que ele não passava de jeito nenhum. Nunca. Qual seria o
motivo?
Tempos atrás,
era praxe que uma entidade musical, civil ou militar que utilizasse estandarte,
adotasse uma mascote para acompanhar seus desfiles e marchas.
O animal mais comumente
adotado era o cachorro, mas também se utilizava o carneiro, como foi o caso certa vez do Batalhão
Naval no Rio de Janeiro.
Alguns músicos
da Banda Musical União dos Artistas da Laguna quando souberam disso, copiaram logo a ideia
e adotaram e batizaram como Beto um pequeno carneiro que apareceu certa vez, na década de 1940, na pequena área em frente à sede da banda.
Apareceu e foi ficando
O carneiro apareceu e foi
ficando por ali. Procuraram por alguns dias seu dono, mas ele não apareceu e nunca
ninguém soube quem era.
O carneiro Beto
ficava observando da porta os ensaios, compenetrado, em silêncio, sem
atrapalhar.
Foi crescendo
robusto, bem alimentado pelo pessoal. Com o tempo distinguia repertórios, marchas de dobrados, sustenidos e bemóis. Reconhecia o
maestro, componentes e uniformes da Banda.
Tempos depois, bem escolado, o Beto já marchava todo garboso à frente da Banda, usando uniforme idêntico da agremiação que um músico pediu que sua esposa, que era costureira, confeccionasse.
Não tinha medo do espocar dos foguetes, era a alegria da criançada e parecia adorar os aplausos.
Houve ocasiões
que Beto passou dos limites, causando problemas.
Certa vez entrou no Jardim Calheiros da Graça ali na frente da Matriz e mastigou uma flor que encontrou no canteiro.
O jardineiro gritou com o Beto que nunca mais foi visto cometendo o delito.
Mas o que causou
estranheza durante muito tempo foi uma atitude do Beto.
Um trecho de rua o Beto não passava
A Banda União dos Artistas quando
vinha de sua sede no bairro Campo de Fora, percorria a rua Voluntário Fermiano e Santo Antônio em
direção à Matriz Santo Antônio dos Anjos. O Beto vinha sempre alegre e saltitante
à frente, como sempre.
Mas, ao chegar à
esquina da Sociedade Recreativa União Operária o Beto simplesmente levantava a cabeça, olhava pra cima dos muros das casas e mudava de rumo. Descia rapidamente a rua Tenente Bessa e seguia pela Duque de
Caxias, até reencontrar todo alegre novamente a Banda União dos Artistas na
Praça Vidal Ramos.
No retorno da
Banda, ele fazia exatamente o mesmo caminho, inversamente.
Ninguém
compreendia essa brusca mudança de roteiro, o desvio na quadra. O que causaria isso? Várias
hipóteses foram aventadas.
Até que um
músico mais atento percorreu devagar o pequeno trecho, observando a área. Desconfiou
de um motivo e depois de muito pensar matou a charada.
É que o carneiro
Beto tinha verdadeiro pavor daqueles dois cachorros de porcelana portuguesa
postados lado a lado no alto dos pilares do antigo palacete onde funcionou a Coletoria Estadual.
Vai que os dois
caninos saltem lá de cima para me pegar, deveria assim pensar o prevenido carneiro-mascote.
Morreu de
velhice, o Beto, sempre lembrado em suas peripécias pelos mais antigos músicos
da Banda Musical União dos Artistas.
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* Texto inserido em meu livro Sociedade Musical União dos Artistas - Atravessando os Séculos, lançado em 2022.



Me apaixonei pelo Beto, eita carneiro inteligente.
ResponderExcluirMemória genética ou do intelecto: o Beto não quis pôr à prova a lição da fábula. Abraço
ResponderExcluirWalmir e suas histórias e memórias sempre brindando a nós Lagunense..
ResponderExcluirObrigada sempre
Walmir ,nosso memorialista,sempre nos brindando com suas memórias !!
ResponderExcluirMuito obrigada