09 outubro 2026

Beto, o carneiro-mascote da Banda Musical União dos Artistas, e sua estranha mania

Um dia, lá pela década  de 1940, ele apareceu na sede da Banda Musical União dos Artistas. Em silêncio ficou ouvindo e observando os ensaios. O tempo foi passando. Procuraram seu dono. Não o encontraram. Foi adotado pelos músicos.
Passado um tempo era visto desfilando todo garboso em frente à banda. Parecia conhecer até o repertório, como se distinguisse marcha de dobrado, sustenidos de bemóis. Fizeram um uniforme para ele, da mesma cor e tecido usado pelos músicos. As crianças o adoravam e quando ele passava pelas ruas aplaudiam e o chamavam pelo nome. 
Beto. Sim, era assim chamado. Beto, o carneiro-mascote da banda. Mas, tinha um trecho de uma rua da Laguna que ele não passava de jeito nenhum. Nunca. Qual seria o motivo?

Tempos atrás, era praxe que uma entidade musical, civil ou militar que utilizasse estandarte, adotasse uma mascote para acompanhar seus desfiles e marchas.

O mascote Beto à frente da Banda. Imagem gerada por IA.

O animal mais comumente adotado era o cachorro, mas também se utilizava o carneiro, como foi o caso certa vez do Batalhão Naval no Rio de Janeiro.
Alguns músicos da Banda Musical União dos Artistas da Laguna quando souberam disso, copiaram logo a ideia e adotaram e batizaram como Beto um pequeno carneiro que apareceu certa vez, na década de 1940, na pequena área em frente à sede da banda.

Apareceu e foi ficando 

O carneiro apareceu e foi ficando por ali. Procuraram por alguns dias seu dono, mas ele não apareceu e nunca ninguém soube quem era.
O carneiro Beto ficava observando da porta os ensaios, compenetrado, em silêncio, sem atrapalhar.
Foi crescendo robusto, bem alimentado pelo pessoal. Com o tempo distinguia repertórios, marchas de dobrados, sustenidos e bemóis. Reconhecia o maestro, componentes e uniformes da Banda.
Tempos depois, bem escolado, o Beto já marchava todo garboso à frente da Banda, usando uniforme idêntico da agremiação que um músico pediu que sua esposa, que era costureira, confeccionasse.
Não tinha medo do espocar dos foguetes, era a alegria da criançada e parecia adorar os aplausos.

Beto, o carneiro-mascote da Banda Musical União dos Artistas. Imagem gerada por IA.

Houve ocasiões que Beto passou dos limites, causando problemas.
Certa vez entrou no Jardim Calheiros da Graça ali na frente da Matriz e mastigou uma flor que encontrou no canteiro.
O jardineiro gritou com o Beto que nunca mais foi visto cometendo o delito.
Mas o que causou estranheza durante muito tempo foi uma atitude do Beto.

Um trecho de rua o Beto não passava 

A Banda União dos Artistas quando vinha de sua sede no bairro Campo de Fora, percorria a rua Voluntário Fermiano e Santo Antônio em direção à Matriz Santo Antônio dos Anjos. O Beto vinha sempre alegre e saltitante à frente, como sempre.
Mas, ao chegar à esquina da Sociedade Recreativa União Operária o Beto simplesmente levantava a cabeça, olhava pra cima dos muros das casas e mudava de rumo. Descia rapidamente a rua Tenente Bessa e seguia pela Duque de Caxias, até reencontrar todo alegre novamente a Banda União dos Artistas na Praça Vidal Ramos.
No retorno da Banda, ele fazia exatamente o mesmo caminho, inversamente.
Ninguém compreendia essa brusca mudança de roteiro, o desvio na quadra. O que causaria isso? Várias hipóteses foram aventadas.
Até que um músico mais atento percorreu devagar o pequeno trecho, observando a área. Desconfiou de um motivo e depois de muito pensar matou a charada.

Os cachorros de porcelana portuguesa que o carneiro-mascote Beto tinha verdadeiro pavor.

É que o carneiro Beto tinha verdadeiro pavor daqueles dois cachorros de porcelana portuguesa postados lado a lado no alto dos pilares do antigo palacete onde funcionou a Coletoria Estadual.
Vai que os dois caninos saltem lá de cima para me pegar, deveria assim pensar o prevenido carneiro-mascote.
Morreu de velhice, o Beto, sempre lembrado em suas peripécias pelos mais antigos músicos da Banda Musical União dos Artistas.
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* Texto inserido em meu livro Sociedade Musical União dos Artistas - Atravessando os Séculos, lançado em 2022.

4 comentários:

  1. Me apaixonei pelo Beto, eita carneiro inteligente.

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  2. Memória genética ou do intelecto: o Beto não quis pôr à prova a lição da fábula. Abraço

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  3. Walmir e suas histórias e memórias sempre brindando a nós Lagunense..
    Obrigada sempre

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  4. Walmir ,nosso memorialista,sempre nos brindando com suas memórias !!
    Muito obrigada

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