05 novembro 2026

Sertanejo, um barco à deriva nos mares do sul (*)

 

É manhã de quarta-feira, seis de junho de 1917, quando o barco de pesca à vela de nome Sertanejo saiu pela Barra da Laguna.
Dia límpido com uma brisa média soprando do Norte. A bordo, cinco marujos-pescadores vão tentar a sorte na pescaria em águas mais ao Sul do litoral.

Imagem gerada por IA.

Dois deles são os irmãos Luiz e José Demétrio, proprietários da embarcação. Foi Luiz quem nomeou o barco em homenagem ao seu pai, oriundo do Norte do país e que nas dificuldades sempre dizia: o sertanejo é antes de tudo um forte, uma velha frase de Euclides da Cunha em Os Sertões.
Outros dois tripulantes são os primos Leopoldo e Custódio Cardoso. O quinto membro é um jovem amigo de nome João. Todos são moradores do Magalhães, bairro conhecido na cidade por abrigar muitas casas de pescadores e portuários.

A mudança do tempo

Poucas horas depois, na altura de Torres na divisa com o Rio Grande do Sul, deu-se repentinamente a mudança. O vento virou. Um pampeiro, como é conhecido na região, os atingiu. Relâmpagos, trovões e muita chuva. As vagas cresceram, enfurecidas, chacoalhando a embarcação.
O velame rasgou-se. Costurada às pressas, mesmo molhada, foi recolocado no mastro. Tornou-se a abrir, esgarçando-se. A força dos ventos era tanta que o mastro partiu, levando junto a retranca e as cruzetas.
Com isso o barco ficou a vagar ao sabor das ondas, das marés, distanciando-se da costa. A água salgada penetrava na embarcação, ameaçando soçobrá-la.
Algumas tábuas da borda foram arrancadas para dar melhor escoamento as águas.
O homem ao leme, mestre Luiz Demétrio, era continuamente arremessado de encontro à câmara, mas, persistente, logo retornava a sua função. Redes e demais petrechos foram atirados ao mar para deixar livre o convés.

Perdidos no mar

Em pouco tempo o barco estava sem rumo, simples joguete na imensidão do oceano. As horas passavam rapidamente. Anoiteceu. Uma cerração cobria distâncias. Estavam perdidos.
Dois dias depois a tempestade acalmou e perceberam que estavam em alto-mar, distantes de tudo.
Mais três dias se passaram, com as provisões que levavam, mesmo economizadas entre os cinco tripulantes, se esgotando. A água potável tornou-se muito pouca. A sede era insana.
O desespero tomava conta dos pescadores, menos de Luiz Demétrio que não largava o leme e, homem de fé, suplicava o tempo todo à Nossa Senhora dos Navegantes:

Ó Nossa Senhora dos Navegantes,
Mãe de Deus, Criador do céu,
Da terra, dos rios e mares,
Protegei-me em todas as minhas viagens.

Contavam os dias pelo transcorrer das noites, devidamente assinalados num canto da popa com pequenos riscos de um canivete.
Foi o pescador João quem primeiramente viu um vapor ao longe. Rapidamente queimaram um naco de toucinho e uns pedaços da lona, levantando fumaça. Mas não foram avistados.
Nove dias já estavam ao mar. Ao sabor das marés e ventos. E do destino. Alguns, como Leopoldo e Custódio deitavam-se no porão. Os demais, na maior parte do tempo ficavam sentados no convés, olhando em vão para o horizonte, ainda esperançosos.

Treze dias de passaram

Tentaram impulsionar a embarcação com dois velhos remos. Mas, em que direção? Faltava-lhe forças também para o manejo. Emagreciam a olhos vistos, sofridos, desanimados, lábios rachados do sal e do sol. Treze dias se passaram desde que partiram da Barra da Laguna.
Em seus pensamentos se perguntavam, com saudades, como estariam se sentindo as famílias com suas ausências. O desespero das esposas, os filhos. Os companheiros de profissão certamente lhes julgavam mortos, depositados para todo o sempre no fundo do mar.
Será que algum barco saiu a procura deles? Com certeza, mas como encontrá-los se estavam tão distantes da costa, em alto-mar?
Mais uma noite passada a esmo. O cansaço e o desânimo instalados. Só restava aguardarem a morte, que não tardaria. Quatorze dias desaparecidos no mar. Era muito, era o fim.

Fenômeno ou milagre?

Mas aí deu-se a surpresa. Foi no meio da tarde. Um grito rouco, abafado, do jovem João despertou a todos. Seria miragem? Uma silhueta de montanha se mostrou ao longe. Rochedos de granito róseo que tão bem conheciam.
Eram os costões da Praia do Gravatá, ao lado do Morro do Tamborete, distante poucos metros da embocadura da Barra da Laguna de onde haviam partido quatorze dias antes. 
Como isso pode ter acontecido, voltar depois de tanto tempo exatamente ao ponto de partida? Teriam sido as marés? Flutuamos em círculos? Se perguntavam, incrédulos.
- Foi a Virgem, foi a Virgem dos Navegantes que se compadeceu de nós e guiou este barco, forte como um sertanejo, gritava feliz Luiz Demétrio, com toda a sua crença, olhando para o alto, agradecido.
Um iate que retornava de viagem logo os avistou e os rebocou ao porto. O sinaleiro lá em cima do Morro do Pau do Sinal levantou uma bandeira utilizada quando dessas situações. Era o Sertanejo que retornava e que todos já supunham perdido para sempre.
A tarde continuava fria naquele mês de junho com o sol caminhando para seu ocaso por de trás do Morro Grande.
A boa notícia logo se espalhou. Amigos e familiares, num misto de alegria e aflição, acorreram ao Pontal para assistir à chegada da embarcação. Será que estavam todos bem? Como sobreviveram todo esse tempo? Era um milagre.

Imagem gerada por IA.

Para descer no cais, todos eles quase desfalecidos tiveram que ser amparados nos braços dos companheiros em terra. Alguns foguetes espocaram no ar, comemorativos.
Três dos pescadores, o mais velho Luiz, e os primos Leopoldo e Custódio foram rapidamente levados ao Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos, onde ficaram internados alguns dias. Hipotermia, desidratação. O tempo correu.

A missa em devoção à Nossa Senhora dos Navegantes na Capela do Magalhães

Em 1º de julho, um domingo pela manhã, a Capela Nossa Senhora dos Navegantes, cuja pedra fundamental foi lançada alguns anos antes, em cinco de novembro de 1911 e primeira missa de inauguração realizada em 25 de dezembro de 1913, no bairro Magalhães, tornou-se pequena ao receber tanta gente.

Jornal O Albor 1º de julho de 1917.

Era uma Missa em Ação de Graças mandada rezar em agradecimento à Virgem protetora dos navegantes. Os cinco marujos-pescadores estavam presentes, acompanhados de seus familiares e amigos. Ao cântico das Filhas de Maria a emoção tomou conta de todos.
No presbitério, a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes em seu manto azul postada em pé no convés de um pequeno barco de madeira utilizado nas procissões marítimas, contemplava os presentes.
Seu olhar irradiava ternura e amor mostrando que a verdadeira fé reside na convicção interior e na confiança em Cristo.
Bem-aventurados os que não viram e creram, disse o Mestre.
--------------------------
(*) Conto de autoria deste autor classificado em 1º lugar no IIIº Concurso Literário - Categoria Contos, organizado e realizado entre os dias 4 de maio a 30 de junho de 2026, pela Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina - Seccional Laguna.

Nenhum comentário:

Postar um comentário