É manhã de
quarta-feira, seis de junho de 1917, quando o barco de pesca à vela de nome Sertanejo
saiu pela Barra da Laguna.
Dia límpido com
uma brisa média soprando do Norte. A bordo, cinco marujos-pescadores vão tentar
a sorte na pescaria em águas mais ao Sul do litoral.
Dois deles são os irmãos Luiz e José Demétrio, proprietários da embarcação. Foi Luiz quem nomeou
o barco em homenagem ao seu pai, oriundo do Norte do país e que nas
dificuldades sempre dizia: o sertanejo é antes de tudo um forte, uma velha
frase de Euclides da Cunha em Os Sertões.
Outros dois tripulantes
são os primos Leopoldo e Custódio Cardoso. O quinto membro é um jovem amigo de nome João. Todos são moradores do Magalhães, bairro conhecido na cidade por
abrigar muitas casas de pescadores e portuários.
A mudança do tempo
Poucas horas
depois, na altura de Torres na divisa com o Rio Grande do Sul, deu-se
repentinamente a mudança. O vento virou. Um pampeiro, como é conhecido na
região, os atingiu. Relâmpagos, trovões e muita chuva. As vagas cresceram,
enfurecidas, chacoalhando a embarcação.
O velame
rasgou-se. Costurada às pressas, mesmo molhada, foi recolocado no mastro.
Tornou-se a abrir, esgarçando-se. A força dos ventos era tanta que o mastro
partiu, levando junto a retranca e as cruzetas.
Com isso o barco
ficou a vagar ao sabor das ondas, das marés, distanciando-se da costa. A água
salgada penetrava na embarcação, ameaçando soçobrá-la.
Algumas tábuas
da borda foram arrancadas para dar melhor escoamento as águas.
O homem ao leme,
mestre Luiz Demétrio, era continuamente arremessado de encontro à câmara, mas,
persistente, logo retornava a sua função. Redes e demais petrechos foram
atirados ao mar para deixar livre o convés.
Perdidos no mar
Em pouco tempo o
barco estava sem rumo, simples joguete na imensidão do oceano. As horas
passavam rapidamente. Anoiteceu. Uma cerração cobria distâncias. Estavam
perdidos.
Dois dias depois
a tempestade acalmou e perceberam que estavam em alto-mar, distantes de tudo.
Mais três dias
se passaram, com as provisões que levavam, mesmo economizadas entre os cinco
tripulantes, se esgotando. A água potável tornou-se muito pouca. A sede era
insana.
O desespero
tomava conta dos pescadores, menos de Luiz Demétrio que não largava o leme e,
homem de fé, suplicava o tempo todo à Nossa Senhora dos Navegantes:
Ó Nossa Senhora
dos Navegantes,
Mãe de Deus,
Criador do céu,
Da terra, dos
rios e mares,
Protegei-me em
todas as minhas viagens.
Contavam os dias
pelo transcorrer das noites, devidamente assinalados num canto da popa com
pequenos riscos de um canivete.
Foi o pescador
João quem primeiramente viu um vapor ao longe. Rapidamente queimaram um naco de
toucinho e uns pedaços da lona, levantando fumaça. Mas não foram avistados.
Nove dias já
estavam ao mar. Ao sabor das marés e ventos. E do destino. Alguns, como
Leopoldo e Custódio deitavam-se no porão. Os demais, na maior parte do tempo ficavam
sentados no convés, olhando em vão para o horizonte, ainda esperançosos.
Treze dias de passaram
Tentaram
impulsionar a embarcação com dois velhos remos. Mas, em que direção?
Faltava-lhe forças também para o manejo. Emagreciam a olhos vistos, sofridos, desanimados,
lábios rachados do sal e do sol. Treze dias se passaram desde que partiram da
Barra da Laguna.
Em seus
pensamentos se perguntavam, com saudades, como estariam se sentindo as famílias
com suas ausências. O desespero das esposas, os filhos. Os companheiros de
profissão certamente lhes julgavam mortos, depositados para todo o sempre no
fundo do mar.
Será que algum
barco saiu a procura deles? Com certeza, mas como encontrá-los se estavam tão
distantes da costa, em alto-mar?
Mais uma noite
passada a esmo. O cansaço e o desânimo instalados. Só restava aguardarem a
morte, que não tardaria. Quatorze dias desaparecidos no mar. Era muito, era o
fim.
Fenômeno ou milagre?
Mas aí deu-se a
surpresa. Foi no meio da tarde. Um grito rouco, abafado, do jovem João
despertou a todos. Seria miragem? Uma silhueta de montanha se mostrou ao longe.
Rochedos de granito róseo que tão bem conheciam.
Eram os costões
da Praia do Gravatá, ao lado do Morro do Tamborete, distante poucos metros da
embocadura da Barra da Laguna de onde haviam partido quatorze dias antes.
Como isso
pode ter acontecido, voltar depois de tanto tempo exatamente ao ponto de
partida? Teriam sido as marés? Flutuamos em círculos? Se perguntavam,
incrédulos.
- Foi a Virgem,
foi a Virgem dos Navegantes que se compadeceu de nós e guiou este barco, forte
como um sertanejo, gritava feliz Luiz Demétrio, com toda a sua crença, olhando
para o alto, agradecido.
Um iate que retornava
de viagem logo os avistou e os rebocou ao porto. O sinaleiro lá em cima do
Morro do Pau do Sinal levantou uma bandeira utilizada quando dessas situações. Era
o Sertanejo que retornava e que todos já supunham perdido para sempre.
A tarde
continuava fria naquele mês de junho com o sol caminhando para seu ocaso por de
trás do Morro Grande.
A boa notícia
logo se espalhou. Amigos e familiares, num misto de alegria e aflição, acorreram
ao Pontal para assistir à chegada da embarcação. Será que estavam todos bem?
Como sobreviveram todo esse tempo? Era um milagre.
Para descer no
cais, todos eles quase desfalecidos tiveram que ser amparados nos braços dos
companheiros em terra. Alguns foguetes espocaram no ar, comemorativos.
Três dos
pescadores, o mais velho Luiz, e os primos Leopoldo e Custódio foram rapidamente
levados ao Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos, onde ficaram internados alguns
dias. Hipotermia, desidratação. O tempo correu.
A missa em devoção à Nossa Senhora dos Navegantes na Capela do Magalhães
Em 1º de julho,
um domingo pela manhã, a Capela Nossa Senhora dos Navegantes, cuja pedra
fundamental foi lançada alguns anos antes, em cinco de novembro de 1911 e
primeira missa de inauguração realizada em 25 de dezembro de 1913, no bairro
Magalhães, tornou-se pequena ao receber tanta gente.
Era uma Missa em
Ação de Graças mandada rezar em agradecimento à Virgem protetora dos
navegantes. Os cinco marujos-pescadores estavam presentes, acompanhados de seus
familiares e amigos. Ao cântico das Filhas de Maria a emoção tomou conta de
todos.
No presbitério, a
imagem de Nossa Senhora dos Navegantes em seu manto azul postada em pé no
convés de um pequeno barco de madeira utilizado nas procissões marítimas, contemplava
os presentes.
Seu olhar
irradiava ternura e amor mostrando que a verdadeira fé reside na convicção interior
e na confiança em Cristo.
Bem-aventurados
os que não viram e creram, disse o Mestre.
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(*) Conto de autoria deste autor classificado em 1º lugar no IIIº Concurso Literário - Categoria Contos, organizado e realizado entre os dias 4 de maio a 30 de junho de 2026, pela Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina - Seccional Laguna.



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