16 julho 2020

As mulheres Samaritanas e Voluntárias Socorristas da Laguna

Durante a Segunda Guerra Mundial a Legião Brasileira de Assistência (LBA), através da Cruz Vermelha do Brasil criou em cada uma de suas seções do país um corpo de enfermeiras chamadas Samaritanas e Voluntárias Socorristas.
Laguna também se engajou na campanha com a inscrição nos cursos teóricos e práticos, de  trinta e três mulheres de nossa sociedade.
Samaritanas e Voluntárias Socorristas em desfile cívico-militar em torno da então Praça da Bandeira (hoje República Juliana), na Laguna.
Os cursos
Os cursos de enfermagem de guerra intensificaram-se a partir de 1942.
No final deste ano, no governo do presidente Getúlio Vargas, decidiu-se pela participação do Brasil no conflito. Em meados do ano seguinte iniciou-se a constituição da Força Expedicionária Brasileira (FEB), com o envio das primeiras tropas à Europa acontecendo um ano depois, em julho de 1944.
Botton usado no uniforme pelas Samaritanas durante a IIª Guerra.
Junto com a FEB seguiu um grupo de 67 enfermeiras brasileiras. Destas, só oito eram profissionais, uma delas parteira. As demais eram as chamadas Samaritanas e Socorristas.
Mais seis seguiram com a Força Aérea Brasileira (FAB).
Entre as enfermeiras brasileiras que foram alunas da Escola de Enfermagem da Cruz Vermelha destacam-se Antonieta Ferreira, Carmem Bebiano, Elza Cansação Medeiros e Virgínia Portocarreiro (Samaritanas) e Heloísa Velar (Voluntária Socorrista).

Na falta de um grande contingente de enfermeiras no país, a Cruz Vermelha, instalada no Brasil desde 1908, criou dois cursos na área.
O primeiro era chamado de Samaritanas, um supletivo de enfermagem, com duração de um ano; o outro curso era o de Voluntárias Socorristas, com treinamento de três meses.

Solteira, viúva, desquitada ou casada com permissão do marido
Para se inscrever nesses cursos era exigido ser brasileiro nato, solteira ou viúva sem filhos, com idade entre 20 e 40 anos. Semanas depois houve alterações no regulamento, passando-se a aceitar mulheres casadas, desde que tivessem permissão dos maridos, e desquitadas. A faixa etária máxima passou a ser de 45 anos
A insuficiência de inscritos pode ter provocado as alterações acima, assim como, justificadamente, reivindicações femininas.

A partir de cursos de enfermagem, manuais foram criados com instruções para os primeiros socorros em caso de bombardeios aéreos.
Noções básicas de primeiros socorros também eram ministradas com vistas ao atendimento nos lares.
Os cursos e regulamentos eram aprovados pela Diretoria de Saúde do Exército do Ministério da Guerra.
Um número expressivo de mulheres foi mobilizado em todo o Brasil com uma campanha maciça em rádios e jornais, estimulando a participação da mulher em prol da construção e defesa do Grande Brasil e da pátria-mãe, características do Estado Novo do governo getulista.

Na Laguna
Em nossa cidade, 33 mulheres se inscreveram nos dois Cursos da filial da Escola da Cruz Vermelha local, que era secretariado pelo professor Ruben Ulysséa.
As aulas, teóricas e práticas, eram ministradas pelos médicos Paulo Carneiro e Joaquim Antônio Ferreira S. Thiago.

Quem eram as alunas formandas?
Há alguns anos, em minhas pesquisas no Arquivo Público da Laguna, quando este ainda funcionava, encontrei nas prateleiras um pequeno livro, capa dura, na cor preta, que me chamou a atenção.
Capa do livro de formatura dos cursos de Samaritanas e Voluntárias Socorristas.
Nele, a relação das alunas formadas nos Cursos de Samaritanas, e Voluntárias Socorristas, realizados em nossa cidade durante a 2ª Guerra. Ano: 1943.
Fotografei as páginas e devolvi o livro às prateleiras do Arquivo.
Dia desses, revendo as pastas do meu arquivo, encontrei os registros virtuais. Eis algumas das páginas:
Formanda Elisabeth Grandemagne Ulysséa.
Formanda Sílvia Soares.
Formanda Ema Martins Guedes.
Formanda Nilza Bento.
Formanda Odete Chede.
Formanda Rinalda Benjamine Eggerth.
Formanda Yolanda Abrahão.
Formanda Helena Leocádia da Silva.
  São 50 páginas manuscritas pelo professor Ruben Ulysséa, que era secretário da filial da Cruz Vermelha em nossa cidade.
Em 25 das páginas a seguinte anotação:

Registro XX
“Aos seis dias do mês de abril de mil novecentos e quarenta e três, foi apresentado nesta secretaria para o devido registro, o seguinte Certificado: “A Diretoria da Cruz Vermelha Brasileira, Filial da Laguna, confere à ___________, natural de Laguna, Sta. Catarina, o certificado de Samaritana, visto ter sido aprovada no Curso de Primeiros Socorros, podendo prestar seus serviços na Paz e na Guerra. – Laguna, 12 de fevereiro de 1943 – (ass.) Dr. Paulo Carneiro, presidente, Dr. Joaquim Antônio Ferreira S. Thiago, diretor da Escola; Ruben Ulysséa, secretário geral; __________, prestadora. Laguna, 6 de abril de 1943”.

As Samaritanas e Voluntárias Socorristas em desfile cívico-militar na Laguna.
As Samaritanas e Voluntárias Socorristas defronte ao Obelisco, na Praça, com a Bandeira do Brasil e um retrato de Getúlio Vargas ao fundo.
A mesma solenidade cívico-militar vista de outro ângulo:
Foto: Livro "A Trajetória da Enfermagem na cidade de Laguna".
Eis a relação das alunas Samaritanas (23) e Voluntárias Socorristas (10) que se formaram.
Lembrando que são nomes de solteiras, em sua maioria, e certamente alguns leitores aqui do Blog encontrarão saudosas avós, tias ou mães, ou conhecidas.

Samaritanas
Alice Ferraz
Dalva Perfeito da Silva
Dilmar Lisboa Neto
Elisabeth Grandemagne Ulysséa
Ema Martins Guedes
Francelina Vieira Barreto
Iolanda Abrahão
Isolde Behr
Ivone Carvalho
Júlia Vitorino Gomes
Letícia Matos Moura
Lorena Rosa
Maria Augusta da Silva
Maria da Glória B. Coelho
Maria da Glória Moura Oliveira
Maria de Lourdes Garcia
Marina Gomes de Carvalho
Nilza Bento
Odete Chede
Rinalda Bergamine Eggerth
Silvia Soares
Tereza Figueiredo Brasil
Terezinha Alves Correia

Voluntárias Socorristas
Deolinda da Silva
Gilete Freitas
Helena Leocádia da Silva
Ivone Baumgarten
Ludinira da Fonseca Carneiro
Luíza Delgado
Marieta Soares Roslindo
Marina Bessa Teixeira
Silvia Bertazzi
Turqueza Tasso

Certificado da formanda Helena Leocádia da Silva. Foto: Livro "A Trajetória da Enfermagem na cidade de Laguna".
Ao fim da guerra na Europa, após as comemorações do chamado Dia da Vitória (8 de maio de 1945), e retorno à pátria, essas enfermeiras foram desmobilizadas, assim como ocorreu com a própria Força Expedicionária Brasileira (FEB).
As enfermeiras que estiveram na Itália só 12 anos depois, mediante uma ação na justiça, conseguiram o ingresso na vida militar.
Não há registro de que alguma delas, da filial da Laguna, tenha seguido para o front na Itália ou tenha prosseguido na carreira profissional na enfermagem.
As enfermeiras Samaritanas e Voluntárias Socorristas de nossa cidade retornaram aos seus afazeres e as suas vidas civis.
Mas, certamente os ensinamentos técnicos de enfermagem, teóricos e práticos, lhes serviram no dia-a-dia de suas vidas, junto aos seus familiares, amigos e comunidades onde viveram.

***************
Para saber mais sobre a participação dos Expedicionários lagunenses na Segunda Guerra, entre eles o nosso herói Clito Araújo, clique aqui e aqui 

09 julho 2020

Gafanhotos já atacaram Laguna

Há mais de 100 anos já se registrava a chegada de gafanhotos nos três estados da região sul do Brasil, atingindo, inclusive, São Paulo.
Há relatos de infestações de gafanhotos desde 1896, mas foi a partir dos primeiros anos do século XX, que os ataques desses insetos se tornaram periódicos.
Em Santa Catarina há notícias de nuvens dessa praga em 1906, 1916 e 1946.
Jornais da Laguna em 1906 noticiam a chegada de gafanhotos em nossa região, como veremos a seguir.

Notícia alarmante. Mais uma
Em tempos de pandemia e isolamento social, temporais e ciclones, uma notícia divulgada há algumas semanas deixou muita gente apavorada.
Nuvem de gafanhotos. Foto Senasa/Divulgação.
No fim do mês passado, junho, foi anunciado pela imprensa de todo o Brasil que uma nuvem de gafanhotos que estava sobre a Argentina se movimentava em direção ao Oeste.
A preocupação das autoridades do setor agropecuário e de produtores rurais brasileiros foi a de que os insetos atingissem o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento logo decretou situação de emergência fitossanitária.

O fenômeno segue sendo acompanhado, mas a possibilidade de atingir Santa Catarina parece ser remota.
A nuvem de insetos, dizem os técnicos, entrou na Argentina pelo Paraguai, causando estrago em lavouras.
Um quilômetro quadrado pode conter 40 milhões de gafanhotos que chegam a devorar o que 2 mil vacas consomem em um dia.
A dieta do inseto, que mede em torno de 15 cm de envergadura, varia entre folhas, cereais, capins e outras gramíneas. Uma nuvem chega a ter 15 quilômetros de extensão.
Inseticidas foram aplicados, o que diminuiu de 10% a 30% o tamanho da nuvem.
O nefasto acontecimento meio que sumiu do noticiário nos últimos dias. Mas o monitoramento continua.

Os gafanhotos no passado
Na Laguna, o jornal O Albor de 6 de janeiro de 1906, transcreveu pequeno trecho de um periódico de São Paulo.
Nele explicava-se que nuvens de gafanhotos vindas do sul geralmente não atacavam os cafezais paulistas.
Jornal O Albor de 6 de janeiro de 1906.
Em compensação seus filhotes, nascidos paulistas, em grande proliferação atacavam os cafezais novos e idosos “com extraordinária voracidade e devoram as folhas, os frutos e até a casca dos cafeeiros”.
O texto prossegue dizendo que os colonos gastavam enorme tempo espantando e matando os insetos, mas que era inútil devido “ao número incalculável deles”.
“Em alguns lugares de rampa (subida) nas estradas de ferro, os comboios têm chegado a parar por não encontrarem resistência nos trilhos, tornados escorregadios pelo esmagamento dos gafanhotos”, detalha a nota publicada no O Albor.

Em 18 de março o mesmo jornal volta ao tema e informa que devido à seca no Rio Grande do Sul, o presidente (governador) daquele estado, Borges de Medeiros havia mandado suspender temporariamente a cobrança do imposto territorial “tomando em consideração os grandes prejuízos que a lavoura tem sofrido com a seca e a praga dos gafanhotos naquele estado”.
Jornal O Albor de 16 de março de 1906.
Os gafanhotos na Laguna
Em 27 de maio de 1906, com a manchete “Nuvem de gafanhotos”, o jornal O Albor faz, o que acredito ser, o primeiro registro do temível inseto em nossa região. É um comunicado curto, de “ouvir dizer” e não entra em maiores detalhes, nem se houve ataques à lavoura.
Jornal O Albor de 27 de maio de 1906.
“Ouvimos que há poucos dias foi visto passando no lugar Camacho, deste município, uma grande nuvem de gafanhotos”!

Jornal O Albor de 6 de setembro de 1906.
Quatro meses depois, em 6 de setembro, o mesmo jornal registrava que os gafanhotos estavam entre nós e que haviam feito estragos nas plantações da região e que “na quarta-feira estragaram no Ribeirão Pequeno e Ribeirão Grande, roças de feijão, de cana e cafeeiros”.

Clima seco na região
Um dos principais fatores para proliferação dos gafanhotos, dizem ainda hoje os técnicos, é o clima seco, a falta de chuvas, temperatura e a circulação de ventos.
De fato, em 1906 quando Laguna foi atacada e sofreu uma invasão de nuvens do inseto, o ano tinha sido extremamente seco, sofrendo estiagem por vários meses.
A falta de chuvas foi tão prejudicial, que em dezembro daquele ano, nos dias 22, 23, 24 e 25, preces foram feitas em nossa Matriz pedindo por chuva.
Jornal O Albor de 30 de dezembro de 1906.
Quem as celebrava era o padre Manoel João Luiz da Silva, vigário da nossa paróquia.
“Como as anteriormente celebradas, estas preces tiveram grande concorrência de fiéis”.
O registro do fato novamente é do jornal O Albor de 30 daquele mês, e pelo texto se deduz que outras inúmeras preces já haviam sido dirigidas anteriormente ao Pai Celestial, pelo mesmo motivo.

As primeiras providências por parte do governo
A grande maioria dos autores afirma que as primeiras providências do governo contra a praga dos gafanhotos em nosso país se deram a partir do ano de 1910.
Neste ano de 1910 o “Brasil começou a organizar um plano de defesa contra o gafanhoto, sobretudo, da contratação, por intermédio do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, de Cacildo Boy funcionário do serviço de Defesa Agrícola da República Argentina”.

Em 1906 O Albor já trazia Instruções aos lavradores
Mas, quatro anos antes, “Na convicção de prestarmos relevantíssimo serviço aos lavradores”, o jornal O Albor, com o título “Extincção dos Gafanhotos”, edições seguidas de 16 e 28 de dezembro de 1906, já reproduzia em suas páginas, em matérias de capa, as “Instruções Práticas para a Extinção dos Ovos de Gafanhotos”.
Jornal O Albor de 28 de dezembro de 1906.
O material havia sido organizado pela “Comissão Oficial encarregada de superintender os serviços de extermínio desses terríveis insetos, tão daninhos às searas”.
Esta Comissão havia sido nomeada pela Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo, sendo composta por Adolpho Hempel, Everardo de Souza Júnior, Amandio Sobral e Antônio de Milita.

Instruções detalhadas
Nas instruções detalhadas pode-se ler que “Uma vez que o bando de gafanhotos pousou na fazenda, cumpre ao lavrador observar se eles fizeram a desova.
Foto Senasa/ Divulgação.
Tendo havido a desova, é preciso DESTRUÍREM OS NINHOS o mais depressa possível, devendo cada lavrador ficar sabendo que 25 a 30 dias depois delas, em média, começam a nascer os primeiros saltões (gafanhotos ainda sem asas) ou “nymphas”; por isso a destruição deve ser feita sem perda alguma”.

Tochas, azeite e querosene
E segue as instruções publicadas no jornal, recomendando a utilização de lavras com arado ou cultivadores e cavas com enxada ou enxadão e quando não for possível “O lavrador deverá isolar as reboleiras (parte semeada) fazendo, à roda delas, uma valeta de 30 cm de largo e outro tanto de fondura, para nella cahirem e se irem matando os saltões que forem nascendo”.
Fala-se também no emprego de “tochas ou archotes de panos embebidos de querosene, azeite ou pixe”.
“Poderá o fazendeiro, mais prontamente se quiser, exterminar todos os saltoêzinhos novos, empregando para esse fim as pulverizações de querosene, por meio de qualquer dos apparelhos especiaes destinados à aplicação de inseticidas. A água de sabão da terra também dará resultados satisfactórios”.

E o jornal O Albor finaliza com mais um conselho e um alerta:
“O fazendeiro nunca deve desanimar; se tal acontecer ele só terá a perder, porque, quando mais tardar para combater os saltões, maiores serão os danos por estes causados, e mais difícil e dispendiosa será a debellação ou o extermínio da praga”.

Em 1916
Dez anos depois desses fatos, já em 1916, há relatos pela imprensa (Gazeta do Commercio de 30/09/1916) da chegada de gafanhotos em Santa Catarina. Joinville foi uma das cidades atingidas.

Em 1946
Em 1946 um novo combate é feito, com relatos de ataque de gafanhotos em cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e sul do Paraná. No oeste catarinense os insetos atacaram várias cidades, entre elas Joaçaba. (Jornal O Estado de 5/10/1946).

Sonho ou pesadelo?
Não constatei em jornais da nossa região, principalmente no nosso O Albor, nos dois anos listados acima, registros de novas chegadas de gafanhotos.
Uma pequena nota publicada no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, de 1º de outubro de 1946, em reportagem sobre a praga de gafanhotos no sul do Brasil me chamou a atenção pelo seu inusitado final. 
Reproduzo abaixo e a aproveito para concluir estas minhas pesquisas:

Sonhando com gafanhotos
"O senhor Cardoso da Veiga, diretor do Fomento Agrícola em Santa Catarina, disse que viu ali nuvens de gafanhotos que se perdem de vista, medindo 10, 20 e até 30 metros de espessura. Acrescentou que tantas são as suas preocupações com a praga que tem até sonhado com os gafanhotos".

Sonhar com gafanhotos... Minha nossa! Então era um verdadeiro pesadelo...
Jornal Correio da Manhã de 1º de outubro de 1946.

02 julho 2020

Magnólia, um clube exclusivamente feminino na Laguna

No início do século XX, em março de 1903, um grupo de jovens alegres senhoritas da nossa sociedade criou na Laguna uma sociedade exclusivamente feminina: O Clube das Magnólias.
Até onde se tem notícia, seria o primeiro clube de Luluzinhas da região sul do estado.
Uma senhorita no início do século XX.
Capa da Revista Santelmo, editada na Laguna.
O Clube não tinha sede própria. Reunia-se na casa da presidente da entidade ou na residência de uma das sócias e promovia seus eventos em diferentes locais cedidos.

Nos anos seguintes o Clube vai promover diversos eventos beneficentes, entre bailes, peças teatrais, soirées, quermesses, sorteios em prol do nosso Hospital, da igreja Matriz, etc.
O grupo também vai participar de solenidades cívicas, inaugurações e recepções às autoridades em visitas a nossa cidade.
Este Clube, inexplicavelmente, não consta na relação de Saul Ulysséa, publicada em seu livro “Coisas Velhas”.
Mas a entidade terá até um jornal, em edição única: “Magnólia”, dedicado, obviamente, ao público feminino.

Jornal feminista O Jasmim
Não será o primeiro jornal da Laguna consagrado a este público. Antes dele, pioneiramente, já havia surgido em 9 de junho de 1901, com um viés mais feminista, o quinzenário “O Jasmim” – Dedicado ao Belo Sexo”.
Estranhamente este jornal era comandado por um homem, Virgílio José da Silva. O secretário era Mário Mattos, dono de gráfica e editor de outras publicações em nossa cidade. Redator-chefe: Francisco Fernandes de Oliveira e redatora Olinda Lemon.

Em sua edição de nº 6, Jasmim traz na capa um editorial fortemente feminista para os padrões da época, propondo o que hoje se denomina de “empoderamento” da mulher, sonhando direitos iguais, participação no mercado profissional, reivindicando seu lugar na sociedade, não só como mãe e esposa, mas com direitos iguais, partícipe e a disputar espaço em igualdades de condições, numa sociedade paternalista e machista.
Jornal O Jasmim, editado na Laguna e dedicado ao Belo Sexo.
Para o início do século XX, em seu primeiro ano, era um avanço, já que a mulher não tinha nem direito ao voto. Isso que o Brasil já vivia num regime republicano há quatorze anos.
Como se sabe, somente em 1932, e mesmo assim com restrições, no governo revolucionário de Getúlio Vargas é que a mulher passará, oficialmente, a ter o direito de votar e ser votada.
Além disso, as redações eram tomadas por escritores, bacharéis e jornalistas homens, inclusive aqui na Laguna, onde é raro encontrar, nas primeiras décadas do século XX uma colaboradora feminina nos periódicos.
Eis o editorial do jornal lagunense e feminista “Jasmim”:

A mulher no século XX
“Estamos vendo que os nossos patrícios, à imitação dos norte-americanos e dos ingleses, querem, neste século, abandonar o seu inalterado egoísmo social, dando as mulheres entrada franca em todos os misteres criados pela atividade humana.
Temos a esperança de ver a mulher possuidora do seu congênita lugar, entre a sua espécie.
E por que não?
Não é, por ventura, a mulher o varão forte no lar, quando adoece um filhinho?
Não é ela, o anjo guardador, quando o esposo agita-se, no silêncio da noite, com o ardor da febre?
Não é ainda a mulher, o ser másculo que com sua voz doce acalma, sinceramente o homem na desventura?
É!
É a mulher, na terra, o ente por excelência a quem o homem deve o pouco gozo que sente!
Esperemos, portanto, que este ideal torne-se uma realidade.
Veremos então a mulher encostada a uma secretaria comercial, escriturando um livro, colocando uma barbearia, executando um corte de cabelo com a elegância que lhe é comum; dominando uma tribuna a pregar a moral, hoje, pelos homens desconhecida”.

O Clube das Magnólias era mais festivo
Mas voltemos a abordar o Clube das Magnólias, cujo objetivo de criação era, digamos, mais festivo, promovendo peças teatrais, encontros sociais, danças e músicas.
Ao relacionar aqui nomes e sobrenomes da época, tenho como objetivo a informação mais apurada e até curiosidade. Vai que o leitor encontre entre os citados algum ilustre antepassado seu? É sempre possível.

Em 28 de março aconteceu reunião primeira com as futuras sócias do Clube das Magnólias, que elegeu sua primeira diretoria.
O encontro foi realizado na residência do dr. Alfredo Moreira Gomes, juiz de Direito da Comarca da Laguna. Não por coincidência, suas filhas eram líderes do movimento e três delas serão eleitas para cargos na diretoria:

Diretoria
Presidente: Adélia Gomes
Vice-presidente: Rosalina da Conceição
1º secretária: Angelina Gomes
2ª secretária: Eponina Martins
Tesoureira: Adélia Ferreira
1ª Procuradora: Judith Varejão
2ª Procuradora: Maria Oliveira
Oradora: Adalgiza Gomes
Comissões
Adorno: Noemia Cordeiro, Leopoldina Martins, Joanna Caldeira, Genny Mattos, Geraldina Barreto e Thereza Mancellos.
Salão e Recepção: Ruth Varejão, Emma Brandl, Eulina Martins, Alice Rosa, Amélia Bittencourt e Abigail Chaves.

O Clube tinha até hino, aliás, fato comum na época em qualquer agremiação criada.

Hino do Clube das Magnólias
“Qual um bando gentil de borboletas
Surgindo da orvalhada entre flores,
Eis o Clube das formosas Magnólias
Mais belo que os risos dos amores
Coro
Circundando de hinos e graças
Espalhando estranhos fulgores,
Em suave e branda harmonia
Vai enchendo o espaço de olores.
Coro
Se é belo n’um céu cor de safira
A lua derramar raios de luz,
É divino n’este conjunto indefinível
Ouvir nosso canto que seduz.
Coro
Ei avante, galantes consocias!
Entoemos as mais lindas canções
Nosso clube é a vida, a poesia,
Que arrouba e fascina corações”.

E as sócias do Clube das Magnólias não perderam tempo. Diretoria formada, hino ensaiado, logo marcaram uma festa de estreia.
O evento realizou-se no dia 24 de maio de 1903, no “salão emprestado do Curso Complementar do Colégio Municipal”.
O local é o velho casarão onde em 1932 vai funcionar o Ginásio Lagunense e onde hoje está instalada a Biblioteca Pública Romeu Ulysséa, na rua Voluntário Fermiano (rua do Fogo, para os mais antigos).

Houve sessão magna de instalação, com oradores se sucedendo, entre eles a senhorita Adalgiza Gomes, o juiz da Comarca de Araranguá (e mais tarde desembargador) Heráclito Carneiro Ribeiro, Antônio Guimarães Cabral, nosso conhecido Pereira; e Álvaro Carneiro.
Poesias também foram recitadas por Adélia Gomes, e mais discursos proferidos por Arthur da Silva Teixeira e Manoel Luiz Dacia Barreto.

Depois da posse e de todo o falatório, o pessoal devia estar impaciente, louco para balançar o esqueleto.
As danças e a animação prolongaram-se até às 4 horas da madrugada.
A turma do sereno não faltou, mas ficou somente na fila do gargarejo, do lado de fora.
Diz o “O Albor” que “A multidão na rua era enorme, sendo quase impossível penetrar no edifício”.

E o baile foi tão marcante, assunto dos mais comentados nas rodas sociais, em clubes, bares e cafés, que após semanas ainda se falava na festa, que marcou época.

Carta de um apaixonado
Um mês depois um participante escreveu uma carta-aberta à presidente do Clube das Magnólias, solicitando que ela apressasse o prometido segundo baile.
 O sujeito estava agoniado, com o coração em chamas atravessado pela flecha de algum cupido. Perdidamente apaixonado por alguma mimosa Magnólia. Só pode!
A carta foi publicada no jornal “O Comércio”, de 21 de junho de 1903, quase um mês após o baile inaugural.
Eis um trecho:

“A afabilidade de V. Exa. e de vossas graciosas consocias, a doce e respeitosa intimidade que reinou entre todos, a animação correta daquela festa inesquecível, me animam a pedir a V. Exa., em nome de diversos cavalheiros, a ventura de abreviar a realização do prometido segundo baile, onde possam depor aos pés das graciosas Magnólias, toda a gratidão de que se acham repletos os corações d’aqueles que se ufanam do convite que tiveram”.

Quem escreveu não ia dar bandeira e entregar o ouro, bem por isso assinou a carta com o pseudônimo de “Humilde Servo Torquato”.
Cá pra nós, um convite para um baile do Clube das Magnólias devia ser disputadíssimo, valia ouro, do sujeito convidado se vangloriar entre os amigos, nos bares e cafés da Laguna. Se “ufanar”, como diz o servo Torquato.
Pudera. Com tantas flores no jardim esperando ser colhidas... Ou seriam despetaladas?
Era ou não era paixonite aguda o que o distinto Torquato sentia?

Adivinhando o nome da flor
A próxima (e segunda) promoção do Clube foi uma festa em homenagem a São Pedro. Nela se implantou até multa.
Explico.
A arrecadação da penalidade dava-se da seguinte forma:
O cavaleiro em público, no salão, era apresentado a uma senhorita, representando, em seu traje, uma flor. Se o distinto não acertasse o nome da flor, pagava imediatamente uma multa à tesoureira da agremiação, ali presente, já passando a sacolinha e aguardando.
Devem ter arrecadado um bom dinheiro.

Será que o Torquato apareceu?
O Torquato deve ter comparecido. Imagine se não. Com os bolsos cheios de moedas é possível que tenha entrado na fila várias vezes tentando acertar os nomes das flores.
Sentia-se um verdadeiro Pato Donald em busca de sua Margarida, se os personagens infantis de Walt Disney já existissem.
E quando encontrou a flor de seu jardim poderia ter cantado baixinho em seus ouvidos um futuro e ainda longínquo sucesso de Luiz Caldas:
- “Eu queria ser uma abelha pra posar na tua flor... Haja amor... Haja amor... Fazer zum-zum na cama e gemer sem sentir dor, Haja amor... Haja amor...”.

E pelos meses seguintes o Clube das Magnólias promoveu inúmeros eventos, entre peças teatrais, festas, quermesses, bailes, retretas, sorteios, etc.
Sempre com as arrecadações em benefícios de entidades assistenciais.

Teatro com peças de Augusto e Horácio Nunes Pires 
Em 24 de janeiro de 1904, conforme anúncio do jornal "O Comércio", em nosso Teatro 7 de Setembro, o Clube das Magnólias promoveu a peça teatral em quatro atos "O general ou luta por amor". No palco grande número de atores amadores lagunenses. Direção de Augusto Pires. Finalizava com a "hilariante comédia" O Idiota, do "festejado escritor" Horácio Nunes Pires. Abrilhantava o espetáculo a Banda Carlos Gomes.
Nova diretoria
Em abril de 1905 foi eleita nova diretoria do Clube Magnólia - gestão 1905-1906:

Presidente: Adélia Gomes (reeleita)
Vice-presidente: Emma Strauch
1ª secretária: Angelina Gomes
2ª secretária: Eponina Martins
Tesoureira: Josephina Amaral
Oradora: Leopoldina Martins
1ª procuradora: Nohemia Cordeiro
2ª procuradora: Enedina Moreira

O jornal Magnólia
Em 24 de maio de 1905, em comemoração ao segundo aniversário de fundação, o Clube lançou, em edição única, o seu jornal “Magnólia”, trazendo o dístico: “Rir e Folgar – Viver e Amar”. Diretora: Angelina (Nina) Gomes.
Na Escola do Romantismo da época, a publicação traz inúmeros poemas e poesias.

Uma loja comercial, a tradicional Casa Esmeralda de propriedade de José de Araújo Teixeira aproveitou o clima de festa e publicou sua publicidade:
Jornal O Albor de 14 de maio de 1905.
Na noite deste dia (uma quarta-feira) aconteceu também o primeiro baile em comemoração ao aniversário do Clube, abrilhantado pela Banda Carlos Gomes, tendo como local novamente o prédio do Colégio Municipal.
O jornal “A Actualidade” relatou o evento.

Compareceram o juiz de Direito Alfredo Moreira Gomes, representando o governador Vidal Ramos Júnior; Demosthenes Veiga, por parte do “Correio do Povo”, de Florianópolis; o alferes do governador, Euclydes de Castro; Álvaro Carneiro, pelo Clube Congresso Lagunense; Ary Cabral e Cyd Gonzaga, pelo Clube Blondin; Raul Aquino e José de Araújo Teixeira, pelos Clubes 12 de Agosto e 16 de Abril, respectivamente, de Florianópolis; Ascendino Fontes de Resende, promotor Público; e o superintendente da Laguna, José Maurício dos Santos, entre outros.

O salão foi “ricamente” ornamentado, inclusive com um belo escudo do Clube Magnólia feito pelo artista e pintor Roberto Trompowsky, ofertado pelo protetor do Clube, José Antônio de Souza.
A uma da manhã “foi oferecida aos convidados uma supimpa e fartíssima mesa de doces e bombons e finíssimos vinhos”.
Hummm...

Na noite seguinte (25) novo baile, o que mostra que a turma não era fraca não.
Outra vez a Banda Carlos Gomes se fez presente, “enchendo sempre de contentamento os corações de todos com as harmoniosas peças do seu vasto repertório”.
Enaltecendo a mulher brasileira, usaram da palavra as senhoritas Leopoldina Martins e Adélia Gomes, da diretoria das Magnólias; e João Carvalho.
Poesias foram recitadas e pela primeira vez foi executado o “CakeWalk”, dançado pelas senhoritas Mimosa Souza, Judith Diniz e Angelina Gomes, acompanhadas de seus pares João Gomes, Ary Cabral e Cyd Gonzaga.

Será que um desses três homens listados aí em cima seria o Torquato? Vai saber...
A dança "CakeWalk", sucesso nos salões. Crédito Mass História.
O “CakeWalk” é uma dança afro americana que se originou entre os escravos no sul do EUA. Era um verdadeiro sucesso nos salões da Belle Époque em fins do século XIX e início do século XX.

Os dois bailes “terminaram alta madrugada”.

Depois, os eventos rarearam
Em 28 de julho de 1905 o jornal “A Actualidade”, anuncia Baile no Clube Congresso Lagunense para a noite de 30, promovido pelas Magnólias.
Depois, praticamente cessam os anúncios de novas promoções. Houve ainda dois ou três eventos em 1906, mas sem maiores repercussões.
E foi só.
Houve ainda tentativas de reerguer o Clube por parte de outras senhoritas, inclusive com convite pelos periódicos lagunenses, mas não se obteve mais sucesso.
Como tudo na vida, o Clube das Magnólias, que marcou época entre cavalheiros e gentis e alegres senhoritas da nossa melhor sociedade da Laguna, acabou-se, entre suspiros e doces lembranças.