Nascida em 1905 em Nova
Veneza, no sul do estado, Maria Macarini ainda jovem veio morar na Laguna. Aprendeu
o ofício de parteira e durante décadas, a partir de 1936, atuou em nossa cidade. Foram mais de 14
mil partos realizados de lagunenses. Todos os
nascimentos devidamente anotados em cadernos, com as respectivas datas, nomes das crianças
e pais. Nunca perdeu um só bebê, ela dizia.
A parteira Maria
Macarini nasceu no então Distrito de Nova Veneza, no sul catarinense, em 1905,
filha de imigrantes italianos.
Os pioneiros do
sobrenome “Macarini”, integraram as levas de imigrantes que chegaram à antiga
Colônia de Nova Veneza na década de 1891. Vieram de Bérgamo, na região de
Lombardia, norte da Itália.
Em sua
juventude, Maria Macarini, em busca de melhores condições de vida, veio para
Laguna, hóspede de Catarina de Bona Crippa e de seu marido Leandro Crippa.
Macarini continuou seus estudos em nossa cidade e cedo aprendeu o ofício de parteira, passando a
atuar na comunidade lagunense atendendo parturientes em suas próprias
residências, inclusive em localidades do interior do município onde só se
chegava a bordo de canoas.
Depois, a partir
da década de 1940, passou a atuar no Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos
Passos, auxiliando o corpo clínico daquela casa hospitalar.
Construção da
Maternidade
Em 1954 Maria
Macarini foi nomeada para exercer a função de enfermeira-obstetra pelo
Departamento de Saúde Pública Estadual.
Em setembro de
1955 foi inaugurada a Maternidade do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos
Passos com dez quartos.
Lembrando que o
nosso hospital recebeu essa denominação pela Lei nº 1017, de 10 de maio de
1883.
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A parteira Maria Macarini, em pé na foto, na ala da Maternidade do Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos, Laguna - SC. |
Estranha-se que
atualmente a palavra “Senhor” tenha sido retirada de sua denominação histórica.
Maria Macarini
também exerceu o cargo, a partir de 1960, no Posto de Puericultura da Laguna.
O enfermeiro e
marido João
Aqui na Laguna Maria
Macarini conheceu o enfermeiro João Ferreira, com quem se casou.
João era uma
pessoa muito popular na cidade, bondoso, sorridente, simpático. Atendia a todos
que o procuravam com alegria e responsabilidade. Aplicava injeções e trabalhava
em Institutos de Previdência.
Mais tarde, com
a junção de todos os Institutos, irá trabalhar no Instituto Nacional de
Seguridade Social (INPS).
O casal também
trabalhou no Serviço de Atendimento Médico Domiciliar de Urgência (SAMDU), na
gestão do prefeito Walmor de Oliveira na década de 1950.
João Ferreira foi membro do Coral Santo Antônio dos Anjos, reorganizado na década de
1970 pelo padre e maestro Antônio Gerônimo Herdt. Inclusive João está na foto
junto aos demais coralistas do primeiro LP gravado pelo Coral, em 1979.
O casal mantinha
cadernos onde anotavam todos os nascimentos em que Maria Macarini participou
como parteira. E foram mais de 14 mil atendimentos.
Também nasci
pelas mãos de Maria Macarini em 22 de janeiro de 1960.
Um trabalho de
parto difícil, demorado, iniciado lá em casa, na rua Voluntário Benevides e
finalizado em nosso hospital com o auxílio do doutor Aurélio Pinho Rótolo,
conforme narrava minha mãe.
O registro de
nascimento consta, entre milhares de outros lagunenses, nos livros da parteira
Maria Macarini.
Lembranças da dª
Selma Ávila
Dª Selma Ávila
foi vizinha do casal Maria Macarini e João Ferreira durante muitos anos na rua
Oswaldo Aranha, no Centro Histórico.
Selma, viúva do
saudoso músico Orgel Ávila, conta que Maria e João formavam um casal harmonioso
e muito trabalhador.
“Maria Macarini,
devido às muitas dificuldades que passou na vida era de uma personalidade muito
forte, mas tinha um coração brando e bom. Era sincera ao extremo”.
Dª Selma diz que
foi muito feliz tendo eles como vizinhos. Inclusive Maria Macarini foi a
parteira de seus filhos.
Ela relembra:
“Depois da
aposentadoria dos dois eles viajaram muito. Ela gostava muito dos nossos vizinhos,
do seu Pedro Bascherotto e família, do seu Claudimiro Rosa e da filha Tereza
Oliveira.
Quando ficou
enferma e foi internada no hospital, lhe fiz companhia em várias ocasiões.
Temos que sempre
nos lembrar dessas pessoas valorosas que passaram por nossa Laguna, para que
elas nunca fiquem no esquecimento”.
Frases fatídicas sobre a morte e que se cumpriram
Em outubro de
1959, quando chegou em sua casa pela manhã após ter feito um show e participado
de festas no Rio de Janeiro, a cantora e compositora Dolores Duran disse
brincando e sorrindo para sua empregada:
- Não me acorde. Estou cansada. Vou dormir até morrer.
E assim se despediu do mundo, vítima de infarto enquanto dormia para
nunca mais acordar.
Uma variação dessa fatídica frase e desfecho trágico, também aconteceu
aqui na Laguna com João Ferreira, o João da Macarini, como era mais conhecido.
E quem nos conta o fato é novamente dª Selma Ávila que, como já
informei, foi amiga e vizinha:
“Era uma quinta-feira, 3 de maio de 1984, o dia estava ensolarado, muito
bonito e quente.
Por volta das 10 da manhã o João apareceu à porta da minha cozinha, deu
bom-dia e disse:
- Selma, tenho que falar contigo, contar um segredo. Eu estava toda
atarefada, preparando o almoço, meu irmão Luiz estava conversando comigo. Respondi indagando
se a conversa não podia ser mais tarde. Ele respondeu que sim e ao sair pelo
corredor disse bem alto:
- Que dia lindo para morrer.
Dali a alguns minutos ouvi a Arina, sobrinha deles, que morava com eles,
correndo e gritando pelo corredor ao lado, que seu tio João havia caído na
varanda".
João faleceu naquele exato momento, vítima de infarto fulminante. E levou seus segredos que tanto queria contar.
Assim como Dolores Duran, João também se despediu do mundo, mas não da
memória de muitos que o conheceram e que com ele conviveram.
Agraciada com a Comenda Domingos de Brito Peixoto
Em 29 de julho
de 1992, numa sessão solene realizada no Centro Cultural Santo Antônio dos
Anjos, o município da Laguna homenageou Maria Macarini Ferreira com a Comenda Domingos de Brito Peixoto.
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Maria Macarini Ferreira em 29 de julho de 1992, aos 87 anos, quando foi homenageada com a Comenda Domingos de Brito Peixoto. |
Era a última
noite da Semana Cultural daquele ano, gestão de Nelson Abrahão Neto-Zeno Alano
Vieira (1989-1992).
Os demais
homenageados foram o jogador de futebol Mengálvio Figueiró, o maestro e músico
Agenor dos Santos Bessa, representado na ocasião por seu sobrinho
Marianto Bessa Fernandes; Walter Baumgarten Júnior, representado por sua filha
Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião e os empresários Santos Guglielmi e Emilio
Batistella.
Sobre a
homenagem à parteira lagunense o colunista Munir Soares, fiel ao seu estilo
escreveu:
“Quem
disser que não acredita na cegonha, jamais ouviu falar de Maria Macarini.
Por
suas mãos, 14 mil seres vieram ao mundo. Macarini, a parteira de mãos de fada.
Seus dedos, movidos por fios divinos, buscavam no interior de cada mulher, o
sagrado fruto do seu ventre. Nunca perdeu um só nenê.
Com
os próprios ouvidos, colados à mãe, ela estudava e analisava cada som, cada
movimento acontecido no útero.
Macarini
fazia como ninguém, a ultrassonografia de ouvido.
Ironicamente,
Maria Macarini, mãe de 14 mil filhos, dos outros, nunca teve seus próprios
filhos.
Este
é o destino da Cegonha, parceira do Criador no supremo ato da concepção, do
amor, como fonte de vida.
Maria
Macarini, meus filhos também vieram ao mundo por tuas mãos e com a graça de
Deus”.
Falecimento de Maria
Macarini
Maria Macarini
Ferreira depois de vários períodos enferma na Laguna, foi morar com familiares
em Caravaggio, Nova Veneza, sua cidade natal, onde faleceu em 29 de abril de
1995, aos 90 anos e foi sepultada no cemitério municipal daquela cidade.
Com ela partiam
milhares de histórias sobre partos e nascimentos de lagunenses que atravessaram
gerações.
Deixou um legado
através de cada um dos 14 mil lagunenses que nasceram com ajuda de suas mãos e
seus conhecimentos.






14 mil partos...olha só. Minha mãe falava dela acho que fez parto fo meu irmão mais velho.
ResponderExcluir“Dinha e Dinho” como chamavamos( eram padrinhos do meu primo Beto), só nos deixaram boas lembranças. Saudades💙♥️
ResponderExcluirBoa tarde.
ResponderExcluirTambém nasci na Laguna, pelas mãos da Maria Macarini e do Dr. Paulo Carneiro.
Lembro bem dela, alta, ruiva, de olhos azuis.
Ia sempre na casa da minha vó Aurora aplicar injeções.
Eu gostava de acompanhar todo o preparo.
Ela tinha um pequeno rechaud onde colocava a seringa de vidro, o êmbolo e a agulha para ferver (não havia nada descartável na época).
Depois montava tudo, pegava a ampola do medicamento e cortava com uma pequena lixa.
Então aspirava o medicamento para dentro da seringa e partia para aplicar a injeção.
Nunca esqueci.
Uma figura mesmo inesquecível.
É Valmir, assim como tu, eu também vim ao mundo amparado pelas mãos da Dona Maria Macarini e, assim, quantos outros que ainda estão por aí, lendo a tua crônica. Eu nasci nas primeiras horas do dia 1.º de abril de 1954; já no anterior, dia 31 de março daquele mesmo ano, nascia o Silvinho (Dr. Sílvio), que me antecedeu por horas, também trazido ao mundo pelas mãos da Dona Maria Macarini. Abraço
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