22 abril 2021

Diário de um Padre

 
Em 1909 o Pe. Coadjutor da Laguna César Rossi fez uma viagem partindo de nossa cidade com destino à Nova Veneza, passando por Tubarão, Pedras Grandes, Azambuja e Urussanga.
Da Estação de Passageiros da Estrada de Ferro Donna Thereza Christina (hoje FTC -Ferrovia Tereza Cristina S.A.) à Pedras Grandes, de trem. O ramal para Urussanga com sua estação só seria inaugurado anos depois, em 1922.
Pe. Rossi atravessou a 1ª Ponte Ferroviária de Laranjeiras, em Cabeçuda, Laguna com 1.480 metros de extensão.
O diário de bordo que escreveu sobre o passeio foi publicado em quatro capítulos no jornal O Albor, edições de 4 e 18 de julho e 8 e 15 de agosto de 1909.
O padre descreve suas impressões, dificuldades enfrentadas, onde passou e se hospedou, com quem conversou, o que viu e sentiu na natureza do caminho numa viagem que começou num vagão de passageiros de trem partindo da Laguna e sua estação situada no Campo de Fora, atravessando a Ponte de Laranjeiras, na Cabeçuda.
"Sai o trem da Laguna, atravessando cômoros de areia branca, como a neve, ao reverbero do Sol", diz poeticamente o padre em sua frase inicial.
Trajeto que Pe. Rossi percorreu, da Laguna à Nova Veneza. Hoje o trecho pode ser feito de automóvel em estradas asfaltadas em pouco mais de 2 horas. GoogleMaps.
No relato há análises realistas da falta de infraestrutura das estradas naqueles incipientes anos, do franco progresso da região, produção e escoamento dos produtos, com análises socioeconômicas da época e até previsão futuras.
A religiosidade, a cultura e a gastronomia da região também são temas abordados.
 
Quem foi Pe. César Rossi
Padre César Rossi nasceu em Subiaco, na Itália, em 9 de janeiro de 1879. Foi ordenado sacerdote em 19 de dezembro de 1902.
Padre/Cônego César Rossi. Arquivo de Jair Silveira/Blog do Padre Besen.
De acordo com pesquisas do Pe. José Artulino Besen, Rossi chegou ao Brasil em 1908 e logo foi nomeado vigário paroquial de Nª Senhora do Desterro de Florianópolis.
Em seguida veio para Laguna como padre-coadjutor na paróquia Santo Antônio dos Anjos e também encarregado da paróquia de Nª Senhora das Dores de Jaguaruna.

Abaixo-assinado pela permanência 
Em 18 de julho de 1909 o O Albor noticia que uma comissão da Laguna foi até o bispo Diocesano D. João Becker, levando um abaixo-assinado contendo 428 assinaturas pedindo a permanência definitiva do padre Rossi em nossa Paróquia.
Em 25 do mesmo mês o padre publicou no mesmo jornal uma nota de agradecimento pela solicitação feita através das assinaturas, "mostrando-se eternamente grato".
Jornal O Albor de 25 de julho de 1909.
No mesmo dia, nas dependências do Hotel Monte Claro (hoje Clube União Operária, na rua Santo Antônio)), o padre ofereceu um coquetel (um copo d'água, como se dizia) para alguns amigos agradecendo, e que a deferência pela sua permanência fosse transmitida a todos os lagunenses.
Em seu discurso o padre disse: "estar penhoradíssimo pelas deferências que até hoje lhe tem sido liberalizadas pela Laguna; que naquela hora sua mãe haveria de estar derramando, na Itália, lágrimas, pensando no filho ausente; mas que quando soubesse o modo carinhoso, gentil e querido porque tem sido tratado pelo povo lagunense, terá imensa alegria.
Ergueu, pois, sua taça à nobre e hospitaleira terra que tão boa acolhida lhe tem dado".

Criação de uma escola na Laguna: planos frustrados
De acordo com o O Albor de 3 de abril de 1910, padre Rossi planejou abrir um estabelecimento de ensino na Laguna que seria batizado como Escola Pio X e funcionaria em sua própria residência na rua Jerônimo Coelho.
"As matérias professadas no estabelecimento serão: português, francês ou italiano (à vontade), geografia, aritmética, História do Brasil e elementos de geografia", dizia a nota.
A criação da Escola Pio X na Laguna pelo Pe. Rossi: Um sonho que não se concretizou. O Albor de 3 de abril de 1910.
Mas de nada adiantou o abaixo-assinado pela sua permanência na Laguna. Em fevereiro de 1911 foi transferido e provisionado como pároco de São João Batista de Imaruí, e encarregado do Senhor Bom Jesus do Socorro de Pescaria Brava.
Com o falecimento do pároco da Laguna padre Manoel João em 29 de maio de 1911, assumiu padre Francisco Xavier Giesbert, como informa a historiadora Nail Ulysséa.

Em 1º de dezembro de 1917 padre César Rossi torna-se pároco de Sant’Ana do Mirim e encarregado de Sant’Ana de Vila Nova.
Foi interino e depois pároco de São Joaquim de Garopaba, onde construiu a torre e a escadaria daquela igreja. 
Serão décadas como pároco dessas paróquias.
Em dezembro de 1940 foi nomeado cônego. A partir deste ano sua saúde entrou em declínio. “Surgiram sintomas de arteriosclerose, doença que o levou a uma velhice triste e deprimente, acompanhando-o até o túmulo”, ressalta o padre Besen.
Faleceu em 11 de março de 1953, aos 74 anos, com 51 anos de sacerdócio, no nosso Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos, onde “não tendo para onde ir, pobre e solitário ficou internado por quatro anos. Foi sepultado no cemitério da igreja Sant’Ana de Mirim", pontua Besen.
 
Cabelos brancos e usando bengala pelas ruas da cidade
O procurador de Justiça aposentado Sidney Bandarra Barreiros lembra que nesses anos iniciais da década de 50, padre Rossi percorria diariamente algumas ruas da Laguna, visitando amigos e conversando no escritório da empresa Pinho, situada na rua Oswaldo Cabral. De cabelos brancos, era considerado um ancião naquela época e usava uma bengala para ajudar na sua locomoção.
Dona Salete Remor de Souza também lembra do Pe. Rossi caminhando pelas ruas da nossa cidade. "Ele de vez em quando almoçava lá em casa, conversava muito com meu pai Luiz Remor. Era bem como disse o Sidney, parecia tão velhinho, velhinho e só tinha 74 anos, veja só".
Carlos Augusto Baião da Rosa relembra: "Entre os anos de 1949/1950 moramos nos altos da rua Oswaldo Aranha, defronte ao Hospital, em casa do comandante Schneider, onde hoje funciona uma academia. Lembro de um padre bem velhinho usando bengala que ficava no jardim. Sim, o hospital já teve jardim. 
Quando morreu foi velado na Capela do Senhor dos Passos lá do Hospital".
 
Boa viagem
Depois dessa pequena biografia, vamos juntos, leitor e leitora aqui do Blog, acompanhar o trajeto junto ao Pe. Rossi em seus plenos 30 anos de idade. Vamos ser companheiros de sua viagem no longínquo 1909, através dos seus olhos e sentimentos, enfrentando chuvas, precipícios, a solidão e a escuridão da noite naqueles primórdios tempos.
É uma postagem única. Só divido o diário em quatro capítulos tal e qual fez o padre.
Uma viagem feita há 112 anos da Laguna à Nova Veneza, aqui recuperada e reproduzida para não se perder na poeira dos tempos de velhos jornais.
Partiu leitor-passageiro deste Blog.
Boa viagem! 

Da Laguna à Nova Veneza
(Parte I)

Pe. César Rossi

“Embora não seja a Estrada de Ferro Thereza Christina uma d’aquelas grandes artérias europeias que, à farta, circulam o progresso e a civilização, fatores primordiais da grandeza das nações, em que, diariamente, passam dezenas de comboios cortando campinas  povoadas, aldeias e cidades florescentes, parando em estações eminentemente comerciais, todavia ela oferece ao passageiro esplêndidas vistas de campinas, vasto panorama de matas virgens que o alegram e encantam e lhe suscitam na mente tantas ideias e infinitas lembranças.
Sai o trem da Laguna, atravessando cômoros de areia branca, como a neve, ao reverbero do Sol.
Alguns quilômetros da estação inicial, passa n’uma grande ponte que liga as duas colinas, construída sobre a bela e imensa lagoa cujas águas banham a cidade.
Apesar de não oferecer a ponte belezas artísticas (ao menos aos olhos profanos), atrai a atenção, senão por outro fato, pelo menos pelo seu comprimento de cerca de 1.400 metros.
Ponte da Estrada de Ferro Dona Theresa Christina em Cabeçuda-Laguna, na década de 1930.
Marchando o trem lentamente pela ponte, dá lugar a observarem-se infinidades de biguás espalhados na superfície das águas.
Continuando a viagem, se nos depara a planície de Tubarão, cortada pelo rio de idêntico nome, que na época das chuvas alarga o leito, inundando muitos terrenos com enorme prejuízo dos lavradores que veem de repente, nulificados os seus esforços desaparecer a esperança de seus trabalhos.
É corrente que esta planície é tão fértil como o Vale do Nilo, do Egito; mas nota-se ser pouco povoada, com casinhas feitas de barro, meio caídas, onde mora gente pobre que se dedica ao plantio de feijão, milho e arroz.
Esta vista me fez despertar a imensa planície del’Agro Romano, completamente despovoada, mas sem as ruínas que lá existem das grandezas romanas.
Em seguida chega o trem à estação do Tubarão que apesar de não ser como aquelas a que me refiro no início d’estas toscas linhas, todavia apresenta certo movimento e importância.
1ª Estação de Passageiros da Estrada de Ferro Dona Thereza Christina em Tubarão. Fonte: Diário do Sul.
Saltando em Pedras Grandes, dirigi-me para Azambuja a cavalo, pois não há outro meio de condução, a não ser as carretas antediluvianas puxadas à custa pelos bois.
O caminho para Azambuja começa por uma leve subida, ladeando quase sempre um rio que forma esplêndidas cascatas que se precipitam, imponentes, por entre os morros e as plantas.
É uma vista encantadora digna de ser visitada por touristes que continuamente percorrem os lagos da Suíça e norte da Itália.
As sombras da noite me envolveram em caminho e nada mais ouvi a não ser o murmúrio do rio e o ladrar dos cães.
Ao chegar a Azambuja, encontrei-a envolta no manto espesso das trevas e hospedei-me na casa do vigário que, avisado, me esperava para comer o tradicional Taglarino. Após curta conversa, cansado, fatigado, entreguei-me a profundo sono.
A posição topográfica de Azambuja não é muito bonita: quase não há horizontes e quem está acostumado às tardes formosas e esplêndidas da Laguna, experimenta uma opressão como se aquelas montanhas o fossem abafar.
No dia seguinte, continuei a viagem e depois de um percurso de 20 quilômetros de caminho péssimo, incômodo, cheguei à próspera e adiantada Vila de Urussanga, onde o primeiro dever a cumprir é render graças ao Altíssimo por se ter chegado são.

(Parte II)

A Vila de Urussanga está colocada em um vale a poucos metros acima do nível do mar, banhada pelo rio do mesmo nome e por isto, um pouco úmida.
Uma cordilheira de colinas proíbe ao visitador vê-la antes de lhe chegar às portas, o que torna mais aborrecida a viagem. Porém, em chegando, a vista alegre da Vila recompensa todo o trabalho, a tristeza e o enfado.
Duas fileiras de casas brancas, entre as quais há sobrados bonitos e artísticos estão em redor de uma grande praça, em cuja extremidade se ergue a igreja que, embora não seja um monumento de arte, tem algumas coisas dignas de admiração, como pelo quadro de Nª Senhora da Conceição (tipo de Murillo), lindos trabalhos de madeiras feitos pelos artistas locais e três sinos, cuja voz argentina chama extraordinário número de devotos, que vão prestar a homenagem devida ao Criador.
Prédio de 1904 situado na Praça Anita Garibaldi, de Urussanga, onde já funcionou a 1ª sede da Câmara de vereadores. Hoje nele instalado a Biblioteca Pública Municipal. Foto: Prefeitura de Urussanga/Divulgação.
É um espetáculo comovente ver como aquele povo assiste, com reverência e devoção, as sacras funções.
Aqueles colonos mantiveram a fé que receberam com o leite materno e aqui, longe da pátria, constituindo família, orgulham-se em educar os filhos na mesma fé e crença.
Oh! Como aquela igreja, talvez pobre de arte é rica de espírito religioso, à diferença de tantas que, adornadas de pinturas e mármores preciosos, são depois profanadas ou deixadas desertas!!...
Um dia de festa em Urussanga é muito divertido, porque o extraordinário concurso de povo dá à Vila um movimento digno de nota.
Ao amanhecer, o incessante repicar dos sinos anuncia o dia do descanso.
Uma multidão de colonos, velhos e moços vestidos festivamente, alegres, veem de diversos quilômetros. Ali encontram outros que moram em várias paragens, falam e conversam como se fossem de uma mesma família.
Mas o que mais admira é ver grupos de vinte e trinta cavalheiros, homens e mulheres e estas muitas vezes com crianças de colo, verdadeiras amazonas, cavalgando com tanta perícia, como não o fazem outras que, nas cidades, recebem lição de equitação.
Tinha bem razão o general Garibaldi, quando falando da cavalaria rio-grandense disse que tendo a Itália cavalheiros semelhantes faria muita coisa.
Urussanga pertence à Comarca de Tubarão e há pouco tempo constituiu-se município autônomo o que demonstra quanto aquele povo, aliás, muito bom, é amante da liberdade, liberdade que na terra natal comprou a custo de inúmeros sacrifício e muito sangue derramado para derrotar o jugo dos austríacos.
Urussanga é uma colônia completamente italiana, fundada há cerca de 30 anos: quase todos os habitantes são Vênetos e Bergamascos, povo de ótimas qualidades e incansáveis trabalhadores.
Acostumados no solo nativo, a lavrar a terra de ricos proprietários, sem ganhar muitas vezes quanto lhes era necessário para matar a fome e vestir os seus filhinhos, como outrora, mais ou menos acontecia aqui no Brasil com os fazendeiros, vivem agora bem satisfeitos.
Amam muito esta segunda pátria, onde gozando de muitas regalias, ficou dono de muitas terras que, hoje, devido a diversas causas são de pouco valor, mas que algum dia (Deus permita que seja brevemente) em que a agricultura constituir a fonte principal da riqueza do país e for mais favorecida, representarão um rico cabedal. 

(Parte III)

A 15 quilômetros ao norte de Urussanga ergue-se uma montanha de cerca de 500 metros acima do nível do mar, chamada Monte de S. Luzia.
No cume está situada uma casinha branca pertencente ao sr. Torquato Tasso que, gentilmente, me convidou a chegar até lá, em companhia do simpático, dr. Carlos Felice Bongioanni, médico cirurgião d’aquela Vila.
Opinando este que aquele ar puro me pudesse melhorar o estado da saúde, aconselhou-me que anuísse ao cortês convite e fomos.
A viagem foi agradabilíssima não só pela amável companhia como pelas lindíssimas vistas que a todos os momentos aparecem.
A entrada vai ladeando um rio pequeno, rico em água e cachoeiras, cuja força por enquanto serve só para mover duas serrarias e dois moinhos de farinha de trigo. No trajeto, os bons colonos nos cumprimentam e não falta quem nos queira oferecer ovos frescos e vinhos, coisa que ali há em abundância.
Antes de chegarmos à base da montanha o médico foi chamado para ver um doente, menino de doze anos que se torcia na cama com terríveis dores o que muito nos entristecia.
A subida não é isenta de dificuldades e perigos, os animais ficam bem cansados, o estreito caminho tem à esquerda a montanha; à direita, um precipício, verdadeiros abismo.
Escorregando o animal vai cair no fundo, onde se precipita um rio, cujo ruído se confunde com os bugios que povoam aquele lugar e formam o desespero dos colonos vizinhos que tem ali boas plantações de milho.
Finalmente chegamos à CASA BRANCA (não é a de Marrocos).
Ah! Que encanto. Parece-me estar nos meus Apeninos.
A respiração é mais livre; as contrações do coração são mais fáceis; não há montanha mais alta que nos abafe a não ser bem longe, a Serra Negra com os seus picos que se parecem confundir com as nuvens do céu.
Que vista deslumbrante se descortina ali!
Todas aquelas colinas, em redor de Urussanga, parecem uma imensa planície que se estende à Jaguaruna, à Araranguá e se confunde afinal com o imenso oceano.
A vista fica satisfeita com aqueles diferentes panoramas que me lembram as viagens esportivas feitas nas colinas romanas e nas alturas dos Apeninos.
O médico voltou no dia seguinte para Urussanga chamado pelos deveres da profissão e regressamos três dias depois, pois a isto nos obrigou a mudança do tempo.
O município de Urussanga não é muito grande pela superfície, mas é relativamente assaz povoado. Tem diversos cursos d’água e verdadeiros rios cuja força hidráulica podia dar vida a uma infinidade de fábricas, pois não falta a matéria prima. Mas somente direção, dinheiro e iniciativa.
Oh se tantos capitais, depositados na caixa Econômica ou bem fechados nos cofres fossem empregados lá em outros lugares semelhantes que juros não dariam eles?
Oxalá que chegue quanto antes este dia bem aventurado ou que os capitalistas d’aqui sigam a norma dos ricos ingleses.
Vários são os produtos de Urussanga: milho, feijão, batatas, algodão, bicho de seda, vinho, etc.
Com a seda, aliás, um pouco áspera devido à falta de máquinas, os colonos fazem lindíssimas mantilhas que podem adornar a cabeça de uma senhora.
Além disso, Urussanga possui diversas serrarias montadas pelos colonos, onde fazem lindos trabalhos, um malho, diversos moinhos para farinha de milho, empregado em fazer o indispensável prato de Vêneto, a polenta, como para muitos brasileiros o pirão.
Urussanga é a colônia mais adiantada e poderia sê-lo muito mais se como disse tivesse capitais e boas estradas, meios indispensáveis para o desenvolvimento das indústrias e agricultura.
Quem viu os trabalhos que os colonos suportam para exportar alguns produtos é que pode devidamente avalia-los.
Muitas vezes aqueles carros primitivos puxados pelos bois ficam no meio da lama sendo necessário descansá-los e transportá-los pouco mais adiante com esforço sobre humano com grande perda de tempo quando não vinham machucando e quebrando tudo. 

(Parte IV - Final)

 É sabido que no movimento está a vida, por isto, n’aqueles poucos dias de passeio, quase não parei.
Convidado a ir até Nova Veneza, fui na companhia agradável do sr. Miguel Napoli, ex-diretor d’aquela colônia e dois companheiros.
Saímos de Urussanga depois de uma forte chuva. No trajeto, passamos por um caminho horrível, devido à quantidade de lama que em certos pontos chegava até a barriga dos cavalos.
Chegamos à Nova Belluno ao anoitecer e não obstante a chuva continuamos a viagem, a fim de alcançar Nova Veneza onde, no dia seguinte, se celebrava a Festa de São Marcos, seu patrono.
A chuva cada vez mais aumenta, acompanhada de forte vento e trovoada: a noite torna-se bem escura.
Protegido por um pala tinha as costas enxutas, enquanto os outros estão molhados, como pintos.
Felizmente divisamos uma luz e apressando os passos, deparamos com uma casa colonial na qual entramos com a mesma satisfação com que um náufrago entra em um porto seguro, ou um peregrino perdido no deserto para em um oásis para descansar e refrescar os seus lábios na água cristalina.
Recebidos com a hospitalidade característica da população colonial, fomos servidos do apreciado prato, a POLENTA e a roupa foi posta a enxugar.
Estávamos resolvidos a passar ali o resto da noite, mas a chuva cessou felizmente e podemos continuar a viagem, embora a noite fosse tão fechada que não permitia ver nem os animais em que íamos montados.
As 10 e ½ chegamos à Nova Veneza.
Continuando a chuva no dia seguinte, a festa ficou transferida e assim os perigos d’aquela viagem não foram compensados com o divertimento que o lugar podia acaso oferecer.
Nova Veneza, como Urussanga, está colocada em um vale fértil banhado pelo rio Mãe Luzia; faltam, porém, as “Gôndolas”, o palácio “dos Doges” e os “Leões” da velha Veneza.
Nova Veneza é uma colônia exclusivamente italiana, fundada no ano de 1890 pela Companhia Metropolitana e pertence ao município e Comarca de Araranguá.
Contando poucos anos de vida, está adiantada: não lhe faltam bons prédios, entre os quais vem em primeiro lugar o da Companhia, morada do diretor da colônia, atualmente o gentil sr. Alfredo Pessi.
Prédio da Sede da Companhia Metropolitana, hoje Museu do Imigrante, de Nova Veneza, onde Pe. Rossi se hospedou em 1909. Foto: Prefeitura de Nova Veneza/Divulgação
A posição deste prédio é magnífica por estar no cume de uma colina que domina a toda Nova Veneza propriamente dita, o vale todo com o seu rio e no fundo a majestosa Serra.
Também esta colônia produz milho, feijão, arroz, vinho, mandioca, etc., mas d’estes produtos quase nada chega à Laguna (exceção feita da banha) devido à falta absoluta de estradas.
O que ajuda e dá vida aos pobres colonos são os serranos, cujas tropas vão comprar gêneros nas casas de negócio.
É certo que se não fosse assim, seria impossível viver lá, não tendo os lavradores meio algum para prover-se das coisas mais necessárias.
Quem sabe quando o sopro da vida e do progresso chegará àquelas regiões abandonadas?
Deus permita que não seja muito tarde.

FIM

15 abril 2021

Um Palacete abandonado no Centro Histórico

Ele já foi de moradia. Ele já sediou a chamada Coletoria (depois Exatoria) da Fazenda Estadual. Nele já funcionou a 18ª Delegacia Regional de Polícia e Ciretran. Ele já foi local da secretaria Municipal de Educação.
Hoje o palacete situado na rua Santo Antônio, no Centro Histórico da Laguna está abandonado, em estado precário de conservação, com suas obras de arte no muro lateral aguardando um futuro que não chega. 
O Palacete da rua Santo Antônio nº 24.
Dois cachorros de porcelana portuguesa, silenciosos, postados em dois pilares do portão lateral, não latem para o descaso.
O imóvel de arquitetura luso-brasileira, telhado arrematado com platibandas ornamentais  virou há tempos um depósito de inservíveis, do que não se usa mais, do lixo. Arquivo-morto de um tempo que passou.
Suas paredes carunchadas, tricolores, guardam lembranças etéreas que se perderam no tempo. Vozes distantes, imagens difusas.
Lá está a casa atravessando os anos e gestões, aguardando uma restauração que nunca vem.
Poderia servir para sediar a secretaria Municipal de Turismo ou a Fundação Lagunense de Cultura. É um belo prédio. De rica arquitetura, centenário, histórico, central, turístico.
Precisa ser restaurado. Quem sabe um fundo perdido? Uma emenda impositiva conseguida através de um deputado? Um projeto em busca de verbas à cultura estadual ou nacional? 
Um projeto à secretaria Especial de Cultura? Ao Ministério do Turismo? Ao BNDES? Ou uma verba tal e qual à concedida para o PAC de cidades históricas que tão bem restaurou a sede da Banda Carlos Gomes, a Casa de Anita, Casa Candemil e os Clubes Operária, Blondin e Congresso Lagunense?
Qual vereador e deputado poderiam abraçar essa causa? Qual entidade?
Até quando assistiremos a mais um imóvel público se deteriorando, este em pleno centro histórico, enquanto a prefeitura paga vultosos aluguéis para suas instalações?
Até quando?

Histórico
Em suas lindas janelas ogivais pessoas se debruçaram e foram partícipes e testemunhas de gerações que passaram pela rua Santo Antônio nº 24, acompanhando procissões, desfiles cívico-militares, o dia-a-dia da rotina da vida lagunense.
O imóvel foi construído no final do século XIX por João Guimarães Pinho (Jones), filho de Manoel José Dias Pinho e dª Maria Guimarães Pinho.

Quem foi João Guimarães Pinho
João Guimarães Pinho nasceu na Laguna em 20 de março de 1865. Depois de alfabetizado foi para o Rio de Janeiro onde estudou no Colégio Abílio e no Dom Pedro II.
João Guimarães Pinho. Fonte: Memória Política de Santa Catarina/Carlos Humberto Pederneiras/Os Governantes de Santa Catarina de 1739 a 1982. Editora da Ufsc, 1983.
Depois retornou a sua terra natal para trabalhar com seu pai e irmãos Salvato e Oscar Guimarães Pinho. Juntos com o progenitor eram sócios na empresa Manoel Pinho & Filhos, uma das mais importantes na Laguna, ligada ao ramo de importação e exportação, proprietária de navios e de moinho de arroz.
Aqui foi também juiz de Paz e suplente de juiz Federal.
João Guimarães Pinho pelo Partido Republicano Catarinense (PRC) foi eleito oito vezes deputado estadual. Chegou a assumir como presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina e nesta condição assumiu a interinidade do governo do estado em 1914.
Foi provedor do nosso Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos.

João Guimarães Pinho casou com dª Maria Otília Martins Pinho em 26 de abril de 1884.
Entre os filhos do casal, além de Cecy, Iracema, Manoel e Francisco, está dª Diva (Martins) Pinho Gomes, casada com João Rodolfo Gomes (Joca Moreira).
Dos filhos deste casamento, está dª Nelly (Pinho) Gomes Mattos, casada com Tancredo (Donga) Mattos, futuro proprietário do imóvel.
A árvore genealógica de ascendentes e descendentes é extensa, mesclando-se posteriormente a outros tradicionais sobrenomes lagunenses: Cabral, Ulysséa, Carneiro, Grott... Não é objetivo aqui, para esta matéria, estendê-la em demasiado.
No ano de 1929, João Guimarães Pinho mudou-se para o Rio de Janeiro onde faleceu em 12 de fevereiro de 1948.
Durante muitos anos colaborou com o jornal O Albor escrevendo a coluna "Cartas do Rio", usando o pseudônimo Arthur Machado, abordando assuntos da política nacional.
Em sua homenagem uma das principais vias do Mar Grosso na Laguna recebeu seu nome: avenida João Pinho; ainda em vida foi homenageado com o nome do pequeno jardim defronte à Casa Paroquial, ao lado da matriz. 
Em Braço do Norte em 1950 criou-se o Curso Normal Regional (mais tarde Ginásio Normal João Guimarães Pinho), anexo à EEB Dom Joaquim.

Posteriormente, como já informado, Tancredo (Donga) Mattos adquiriu o imóvel, chamado até então de “palacete dos Pinho” e vai nele residir com a esposa Nelly (neta, portanto, de João Guimarães Pinho). 
Ali nascem e vão ser criados todos os filhos: Edson, Nelson, Nancy, Sérgio e Norton.
Na gestão do governador Irineu Bornhausen (31/01/1951 a 31/01/1956), o imóvel é vendido por Tancredo (Donga) Mattos ao estado de Santa Catarina que nele instala a repartição da Coletoria Estadual. Vai funcionar ali durante anos, transformando-se em ponto de referência. 

Cachorros de porcelana portuguesa
O local vai ser referência por causa daquela importante repartição pública e, principalmente, por dois tradicionais cachorros de porcelana portuguesa postados em dois pilares do portão lateral, no recuo com escadaria.
Os dois cachorros de porcelana portuguesa.
Verdadeiras obras de arte. Apreciadíssimas, importadas pelo primeiro proprietário, Guimarães Pinho, da Fábrica DEVEZAS/José P. Valente, fundada em 1884 em Vila Nova de Gaia, em Porto, Portugal.
Devezas era uma fábrica especializada em louças de cerâmicas decorativas, azulejaria figurada e plástica ornamental. Tornou-se conhecida mundialmente pelas qualidades das peças, hoje objetos raros de coleções, antiquários e museus.
 Os dois cachorros de porcelana também estão precisando de restauro. Mais uma vez. Mas na Laguna parece que quase ninguém mais se importa com as nossas obras de arte. 

Restauro mais uma vez?
Sim. Em 1990 as duas peças de porcelana precisavam igualmente de reparos. Chamei atenção pelos jornais, protestei através das rádios.
Pouco depois foi conseguido pelo chefe do escritório do então Sphan (hoje Iphan) da Laguna, arquiteto Dagoberto Martins um restauro nas Oficinas do Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis.
Os dois pedestais sem os cachorros em 1990.
Os cachorros foram retirados dos pedestais e para a capital do estado foram levados. Demoraram a retornar. Passaram meses, mais de ano. Problemas burocráticos quanto ao orçamento/empenho/pagamento a serem feitos pelo estado emperraram o processo. O pessoal na Laguna, já calejado pelo desaparecimento de outras peças, começou a cobrar das autoridades.
Artista Plástico e Restaurador Aldo Nunes (já falecido), recuperando os cachorros de porcelana em 1991. Foto: Valmir Guedes Jr.
Por conta própria fiz uma visita às oficinas do CIC. Lá estavam eles sendo restaurados por Aldo Nunes e José Carlos Boaventura. Fotografei as peças e o saudoso artista plástico e restaurador Aldo Nunes junto a elas. 
Fiz a matéria para o jornal Gazeta Lagunense de dezembro de 1991, em minha coluna A Bernunça.
Jornal Gazeta Lagunense de dezembro de 1991.
Semanas depois, com toda a pressão feita, inclusive com cobrança realizada pelo então prefeito Nelson Abrahão Netto (1989-1992) retornavam os cachorros de porcelana à Laguna e eram recolocados nos devidos lugares. Lá estão até hoje.
Mas precisam novamente ser restaurados e preservados com toda segurança.

Últimos anos
Com a saída da Exatoria Estadual da Laguna para Tubarão em 1991 (ficou um postinho com apenas dois funcionários que depois também foi extinto) o local ficou desocupado, até que em 31 de janeiro de 1998, após uma pequena reforma o governo do estado, seu proprietário, na gestão do governador Paulo Afonso o ocupou novamente, nele instalando a 18ª Delegacia Regional de Polícia Civil – 18ª Ciretran.
No meu Jornal Tribuna Lagunense de 6 de fevereiro de 1998, destaquei a inauguração.

Inauguração em janeiro de 1998 da 18ª Delegacia Regional de Polícia Civil.
Com a transferência da Delegacia anos depois, o prédio ficou fechado, sendo cedido pelo estado ao município da Laguna que nele instalou em seu anexo a secretaria Municipal de Educação, em março de 2013, por conta de um vendaval e invasão de pombos no Centro Administrativo Tordesilhas.
Pouco depois, por falta de condições físicas (umidade, mofo, cupim, infiltrações, goteiras, etc.) o prédio da rua Santo Antônio foi desocupado e desde então se encontra fechado, com o anexo dos fundos utilizado eventualmente como depósito. Já houve furtos em seu interior no ano passado.
Pergunto mais uma vez: Até quando?

08 abril 2021

A 1ª greve na Laguna foi dos Aguadeiros da Carioca

 
A primeira greve (paralisação) de serviços que aconteceu na Laguna e que ficou registrada em nossa imprensa, aconteceu em 1902.
Quem a organizou foram os chamados (na época) aguadeiros, os carroceiros que transportavam água da Fonte da Carioca em pipas e a comercializavam porta em porta aos moradores e comerciantes lagunenses, na hoje chamada venda em domicílio. 

“-Não há água! Não há água!”
Era segunda-feira, 24 de março de 1902. Laguna amanhecia sonolenta, acordando aos poucos para iniciar a semana. Uma Semana Santa pelo calendário católico, saliente-se.
Um carroceiro (aguadeiro) na Laguna no início do século XX. Acervo: valmirguedes.blogspot.com
Moradores, comerciantes e populares nas ruas eram surpreendidos por um desfilar de carroças em fila indiana pelas ruas da cidade, conduzidas, logicamente, por seus muares e cavalares e respectivos motoristas.
O cortejo deve ter cruzado toda a extensão da rua Raulino Horn, descido a Conselheiro Jerônimo Coelho e retornado pela rua Gustavo Richard, as vias mais movimentadas do centro da velha cidade.
Dezenas de aguadeiros gritavam:
-Nâo há água! Não há água! protestando pelo racionamento do líquido buscado à Fonte da Carioca.
A contenção na entrega d’água nas torneiras da Carioca pelo zelador havia sido decretada pela municipalidade, através do superintendente (prefeito) coronel José Fernandes Martins.
1ª greve na Laguna. Jornal O Albor de 28 março de 1902. Acervo: valmirguedes.blogspot.com
O ato visava economizar o líquido devido à seca que vinha assolando toda a região sul do estado desde o ano anterior. Naqueles dois primeiros meses do ano de verão não havia chovido uma gota sequer.
O racionamento de entrega de água na Carioca diminuía, obviamente, os ganhos daqueles profissionais autônomos que vendiam à população, em domicílio, a água retirada da tradicional fonte. Bem por isso o protesto. 

Números de pipas
O jornal O Albor de 13 de março de 1902, portanto dez dias antes da greve, informava que os aguadeiros venderam em janeiro e fevereiro daquele ano, 1.676 pipas d’água. Cada uma delas transportava 480 litros.
Foram comercializados 804.480 litros naqueles 60 dias iniciais do ano. Uma média de 400 mil litros mensais.
Infelizmente não é informado o número existente de carroças aguadeiras na cidade e não sabemos qual era média de litros retirados em anos anteriores.
Fonte da Carioca em corte de cartão postal de 1910. Ainda não havia sido construído o muro de arrimo de pedra pelo lado do morro. Note-se o chafariz aberto aos aguadeiros com a água jorrando para se fazer a Foto. Acervo valmirguedes.blogspot.com
Saul Ulysséa em seu livro “Laguna de 1880” (pág. 17), conta que no ano que dá título a sua obra “As carroças d’água eram cinco ou seis que forneciam água à população a 40 réis o pote. Não usavam latas, mas barris de madeira com arcos e asa de ferro, padronizados pela Câmara Municipal”.
Ulysséa também informa em sua obra (pág. 93): "Como não havia chafariz na praia e para evitar despesas com carroças, a aguada para os navios era feita em pipas conduzidas pelos marinheiros: pipas pintadas de branco com arcos de cores vivas, principalmente encarnada, que eles enchiam na Carioca e rolavam pelas ruas até os trapiches".

Vinte e dois anos depois, em 1902, ano da greve, o número de aguadeiros deveria ser bem maior, mas não ficaram registros da quantidade. 

Convocação e fim da greve
Houve quem reclamasse da atitude dos grevistas, taxando-a de desnecessária, precipitada e oportunista.
Outros moradores eram solidários à paralisação, aliás, como sempre acontece nesses atos de protesto.
Além da seca, alguns entendidos atribuíam a diminuição do fluxo d’água na Carioca à construção no local em 1898 de alguns pilares e um muro de pedras para contenção das enxurradas.
Logo os grevistas foram convocados para uma reunião com o Conselho Municipal e o superintendente que explicaram da necessidade da racionalização d’água: ou era isso ou nada mais seria retirado da Fonte da Carioca até sua normalização.
Com tão "democrática" decisão a greve foi encerrada no mesmo dia.
Encerrada com a promessa de criação de uma comissão que seria formada por profissionais gabaritados para estudar o problema, quais suas causas e possíveis soluções, exarando assim um parecer.

Comissão de Estudos
A comissão foi formada pelos engenheiros João Carlos Greenhalg e Joaquim Dias da Cunha.
Dias depois, estudado e analisado o problema, os dois profissionais elaboraram um relatório que foi entregue ao superintendente.
Nele concluíram que a causa maior da diminuição do fluxo d’água na Fonte da Carioca era realmente a ausência de chuva.
Descartaram a construção no local de pilares e muros de contenção como causas influenciadoras.
Fonte da Carioca ao fundo, ao lado a casa do tenente-coronel Joaquim José Pinto de Ulysséa. Edificação construída em 1866. Primeira com platibanda, conforme Saul Ulysséa. Ainda sem a figueira plantada em frente. A Praça Lauro Muller é um descampado. Foto: Acervo Marega
Sugeriram que o desmatamento dos morros que circundam à Carioca fosse proibido com medidas enérgicas, através de multas e prisões dos infratores.
E que fosse feito nos morros o plantio de mudas de árvores de rápido crescimento.
E terminava o relatório com a proposta do aumento das dimensões da caixa de captação e/ou construção de um reservatório maior.

Desmatamento dos Morros
O desmatamento dos nossos morros sempre foi uma preocupação constante das autoridades lagunenses no passado.
Os jornais de nossa cidade ao longo do século XX trazem várias reportagens-alertas sobre o problema. Isso quando nem se falava em meio-ambiente, ecologia e preservação ambiental.
O grande problema naqueles anos era que muitos moradores na falta de condições ou até mesmo por economia, não compravam para seus fogões as achas de lenha que chegavam dentro dos porões de canoas nas docas.
Era barato e simples atacar as árvores dos morros que circundam a cidade, ato que provocava desmatamentos.
Para fugir à fiscalização se criavam vários golpes. O jornal O Albor alertava sobre um deles:
“A fim de evitarem ruídos, muitos lenhadores servem-se de serrotes e trazem a lenha à noite”. 

O superintendente então fez valer sua autoridade dando ordens aos zeladores para que fiscalizassem o desmatamento dos morros da cidade.
“Acompanhado de um praça (policial), o zelador Antônio Fernandes Machado percorre diariamente os morros, a fim de punir os infratores”, informava o jornal.

Era para chover de mansinho, como na canção
Com a seca prolongada, devotos oravam por chuva para amenizar a situação e havia mesmo quem fizesse promessas aos santos. Missas foram rezadas nesse intuito pelo vigário Pe. Manoel João, conforme registram os jornais da época.
É bom lembrar que naquele mês de março a imagem de Santo Antônio dos Anjos estava longe, levada ao Rio de Janeiro para ser encarnada (restaurada), conforme já contei aqui. Irá retornar em julho daquele ano, depois do dia em sua homenagem.
Mas foram tantos os pedidos ou alguém dançou a dança da chuva tão bem dançada, com tanta devoção, que São Pedro atendeu aos pedidos, ouviu às lamúrias da população.
E a chuva veio. Muita. Chuvas torrenciais que inundaram a cidade.
Choveu todos os dias e bastante no domingo, 6 de abril e terça-feira, 8 de abril daquele ano. Eram as águas de março atrasadas caindo no início de abril e fechando o verão. Com isso a situação da Carioca se normalizou.
Mas a chuva foi tanta que logo o povo começou a suplicar que ela cessasse. Que São Pedro fechasse as torneiras do céu. 

“Águas em cataratas, de plúmbeas alturas e flamíneos raios”
Com isso, pelas páginas do O Albor, alguém se utilizando do pseudônimo Armando de Clemont dizendo que escrevia da cidade da Laguna, “nas vizinhanças do mar gemente”, salientou a contradição do ser humano, sua inconstância e eterna insatisfação de desejos. 
Pela beleza do texto poético, o transcrevo: 

“Água! Água! – era o clamor geral!
Água! Água! – era a prece fervorosamente dirigida ao Senhor.
Água! Água! – era o desejo veemente da população, ao ver decrescer o precioso líquido na principal nascente de nossa terra.
Água! Água – era a aspiração ardente do lavrador, ao verificar que as plantações, tão esperançosamente feitas, feneciam à mingua de chuvas, queimadas pelos raios ardentes do sol!
Clamor, prece, desejo, aspiração, foram após longo tempo finalmente ouvidos... E domingo à noite – noite sombria – e terça-feira de dia – dia tenebroso, abriram-se as cataratas do céu e a água – água abundante – água em catadupas – despenhou-se das plúmbeas alturas sobre a cidade sequiosa.
Então, vendo que Deus atendera as suas constantes súplicas... acoimaram-no de prodígio e água! água! não foi mais o clamor geral; a prece fervorosamente balbuciada; o desejo veemente da população, a aspiração ardente do lavrador, que agora receia que as chuvas lhe matem as plantações tão esperançosamente feitas!
Clamor, prece, desejo, aspirações, foram então substituídos por:
-Basta, Senhor! Basta!...
E Deus – bom e compassivo – ouvi-os de novo e de novo o sol ardente dardejou sobre a terra os flamíneos raios!...
São assim os homens! Sempre insatisfeitos, sempre contraditórios, sempre volúveis!...
Humanidade! Humanidade!
Quando te julgarás satisfeita?!... Quando deixarás de ser inconstante?!... Quando deixarás de ser a eterna contradição?!...”. 

Providências pelo governo
Mas a seca prolongada de 1901/1902 que tanto fustigou a população lagunense não foi esquecida. Tanto é verdade que o jornal O Commercio de 5 de julho de 1903 relembrava: 

“Ainda é bem recente o período angustioso que atravessou a população por ocasião da falta d’água”. E foi essa triste lembrança que levou o novo superintendente municipal da Laguna José Maurício dos Santos a se decidir em outubro de 1903 pela construção de um novo reservatório na Carioca, ampliando-a, conforme sugestão daqueles dois engenheiros um ano antes.
E assim, um mês depois, em novembro daquele ano, iniciaram as obras do novo reservatório da Carioca pelo lado sul, com direção dos trabalhos a cargo de Manoel Pinho (médico) e Polydoro Olavo Santiago, com planta e desenho do frontispício de Frederico Selva, os dois últimos engenheiros na construção dos Molhes da Barra da Laguna. 

O chafariz do Mercado
Outra obra também foi construída nesta época. Trata-se de um chafariz ao lado do Mercado Público para abastecer moradores, comerciantes e navios no cais do porto com água da Carioca através de encanamento sob o leito da rua Tenente Bessa, assim encurtando distâncias e dispensando o transporte pelos aguadeiros.
O jornal O Commercio de 24 de julho de 1904 informava:

“Acha-se concluído e entregue ao público o chafariz construído pela Intendência Municipal, na rua da Praia ao lado do Mercado.
O Chafariz ao lado do antigo Mercado Público, incendiado em 1939. A Casa Brasil, de Luiz Severino Duarte hoje é um prédio de nome Judith Batista tendo no térreo a lanchonete Estrela, entre as ruas Gustavo Richard e Tenente Bessa.

É de construção simples e elegante, cheio de ornatos, contendo duas torneiras cujas águas são lançadas em duas bacias de cimento.
O desenho foi feito pelo sr. Frederico Selva e a obra executada pelo sr. Marcos Gazola”.
A jarra superior veio do Rio de Janeiro pelo vapor Industrial, como registrou o mesmo jornal.
Jornal O Commercio de 24 de julho de 1904.
Gazola também será o responsável pela construção do chafariz do Jardim Calheiros da Graça, dali a alguns anos, em 1915.
Com o incêndio do Mercado em 1939 e a construção do novo, inaugurado em 19 de janeiro de 1958, onde terá ido parar esse Chafariz? Foi derrubado? Que fim levou? Quem o levou? 

A nova caixa d’água da Fonte da Carioca comportava 48 mil litros e foi inaugurada em 1906. A mais antiga acolhia apenas 8 mil litros.
No que o jornal O Albor de 12 de agosto daquele ano registrou, já fazendo jus a fama que atravessa os séculos desde então:
“A Carioca da nossa água afamada, generosa dádiva da providência, de cuja posse tantos nos orgulhamos”. 

Bem por isso o prédio da Fonte da Carioca, construído em duas etapas, tem as datas em seu frontispício de: 1863 e 1906.