sexta-feira, 18 de maio de 2018

O mistério da tela do Comendador

O sempre lembrado professor Ruben de Lima Ulysséa numa ótima crônica intitulada “O retrato do Comendador”, publicada no jornal Semanário de Notícias, de 24 de abril de 1976, conta-nos a história do sumiço da tela original do lagunense José Inácio da Rocha, o Comendador Rocha, pintura atribuída a Victor Meirelles.

Pois bem, esta tela, doada pelo Capitão Claudino Rocha, sobrinho do Comendador, foi colocada no salão principal da então Escola Isolada Comendador Rocha, inaugurada em 1909. Em 1926 funcionava num prédio situado no bairro Campo de Fora, na rua Almirante Lamego.
Posteriormente o local foi o Samdu (Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência, é o Samu de hoje em dia) e mais tarde , no imóvel, funcionou a Casa da Sopa e a instituição social Bem Querer.

O Comendador Rocha, que amealhou uma fortuna no Rio de Janeiro com suas empresas, e vivendo na corte, nunca esqueceu sua terra natal e foi sempre um benfeitor caridoso, principalmente do Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos. Foi um grande mecenas de Meirelles em escolas de arte, inclusive na Europa e financiou os estudos do lagunense padre Manoel João. 
Ao falecer, em 16 de novembro de 1886, deixou em testamento imóveis na Laguna que foram vendidos expressamente com a finalidade de construção de uma escola.

Depois, em 1956, quando da construção do novo prédio do estabelecimento estadual, agora chamado de Grupo Escolar Comendador Rocha, na Avenida Calistrato Müller Salles, a pintura, óleo sobre tela, para lá foi levado e colocado no saguão de entrada. (Este prédio não mais existe, outro foi construído em 2004, mais moderno e funcional).

Mas continua Ruben Ulysséa:
“Um espertalhão que conhecia muito bem o valor do quadro substituiu a tela preciosa por um retrato em preto e branco, uma fotografia ampliada e retocada a “crayon”, por sinal que em papel já muito amarelado”.
Retrato em preto e branco, retocada a "crayon" do Comendador Rocha, que substituiu a
 preciosa e desaparecida tela original pintada por Victor Meirelles. 
E demonstra todo o seu inconformismo com o acontecimento, com o furto da tela, com palavras, leitor(a) que poderiam facilmente, sem tirar nem por, ser utilizadas nos dias atuais:

“Não é gozação, creia; é isto mesmo. Mas, o melhor é que ninguém reparou, ninguém viu, ninguém protestou, porque parece que nesta pobre terra todos abdicaram do direito de protestar. O fato é que o quadro desapareceu e ficou por isso... Incrível, hein?”

E diz mais, num brado de protesto, finalizando o seu texto e demonstrando como muita coisa do nosso patrimônio desapareceu:

“Deste modo é que se foi consumido o que havia de valioso em nosso patrimônio comum. Primeiro foram mercadores que enquanto houve campo para explorar, passavam aqui pela cidade e pelas localidades vizinhas a comprar de herdeiros necessitados, a preço de banana, joias antigas, objetos de prata, móveis de jacarandá, velhas imagens dos oratórios domésticos, que levavam consigo para revender, com bom lucro, aos antiquários do Rio e São Paulo. Depois, a ação de alguns colecionadores, sempre de olho nas peças do nosso museu e da nossa velha matriz”. (...).

 Há ainda muito por contar sobre esses “sumiços”, de documentos e objetos na Laguna. Ainda voltarei outras vezes ao tema.

Um comentário:

  1. Valmir, estais de parabéns. Bom saber que Comendador Rocha fez tanto pela Laguna. Gostei. Silguedes

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