Em 1960 estreou
no carnaval da Laguna o Bloco de rua carnavalesco-humorístico Cacareco,
nascido no bairro Magalhães.
Logo o bloco se
tornou a alegria das crianças e o queridinho do público. Mas também assustava com os malabarismos e performances de um hipopótamo, de um gorila e seu domador. Bem por
isso justamente o sucesso.
O carnaval lagunense começou mais cedo em 1960
Na noite do dia
primeiro de janeiro a Escola de Samba Brinca Quem Pode inovou, botou
o bloco mais cedo na rua e saiu desfilando pelas vias do centro histórico mostrando “o batuque de seus tamborins”.
O Xavante
do Magalhães não ficou atrás e também fez o mesmo, mas somente após uma quinzena,
quando desfilou na noite de 17 daquele mesmo mês de janeiro.
Era acompanhado
de seu Bloco infanto-juvenil Os Aymorés.
Choveu muito nos
dias dos desfiles oficiais de 1960, em fevereiro. Mas nada que prejudicasse a
alegria dos foliões.
Nos intervalos
dos aguaceiros o público se divertia, principalmente com a estreia do Bloco
Cacareco e seus bichos. Um sucesso!
Entre os
componentes Inaiá Rodrigues da Rosa (filho do maestro Felipe Rosa), Melquiades Soares, Ivo Simião da Luz, Íris Luz, João Maiate, Acary Palma, Carlos Felipe de Queiróz, Antônio Tavares
(que incorporava o gorila, dividindo-se com Gonçalo Barbosa de domador), Mozart (Carioca), Álvaro (Alvim) Ávila, Nereu Machado, Dodô do Pedro Maurício, César Guedes, entre muitos outros.
Carlos Felipe Queiróz desfilava sempre com um cabrito de nome "Cheiroso". Bem por isso "seo" Queiroz acabou recebendo esse apelido.
Maioria deles
morador da rua João Henrique, a conhecida rua do Valo, no bairro Magalhães.
Vários membros pertenciam às diretorias dos Clubes Ideal e 3 de maio, além de também
serem componentes da Bandinha Maluca e Os Palhaços de Momo.
Candidato Cacareco, o mais votado em São Paulo
Cacareco, o nome do
Bloco, foi em homenagem a um popular personagem que no ano anterior havia
entrado para o folclore-político-brasileiro.
Em 1959, ano de
eleições municipais, os eleitores de São Paulo mandaram um recado aos políticos
incompetentes.
Como na época se
escrevia na cédula o nome do candidato a ser eleito, os eleitores votaram num
rinoceronte (na verdade uma fêmea) chamado Cacareco.
O bicho havia
sido emprestado do Zoológico do Rio de Janeiro a pedido do governador de São
Paulo, Jânio Quadros que havia criado o Zoológico de São Paulo em 1957
(inaugurado em 1958).
Cacareco havia
sido o primeiro rinoceronte nascido em cativeiro na América do Sul.
A população
paulista compareceu em massa ao Zoológico, cujos bichos fizeram muito sucesso,
principalmente o Cacareco.
Foi o que bastou
para que o jornalista Itaboraí Martins, do jornal O Estado de São Paulo, numa
mesa de bar lançasse a candidatura de Cacareco para o cargo de vereador na
eleição de 4 de outubro de 1959.
Até “santinhos”
do bicho foram impressos e distribuídos. E teve jingle: “Cansados de tanto sofrer/E de
levar peteleco/Vamos agora responder/Votando no Cacareco”.
Resumindo: a
candidatura de Cacareco recebeu quase 100 mil votos, sendo estrondosamente o
mais votado. Sua votação daria para eleger os 15 vereadores mais votados na época.
É evidente que o
TRE-SP declarou como nulos os votos do Cacareco.
Dias depois,
certamente para evitar que o povo paulista empossasse na marra o rinoceronte,
ele foi devolvido ao Zoológico do RJ.
Anos mais tarde,
em 1988 no RJ, outro bicho seria consagrado nas urnas: o macaco Tião. Mas isso
é outra história.
Estreia do Bloco
Cacareco na Laguna
O jornal O
Albor registrou a estreia do Bloco Cacareco no carnaval lagunense de
1960:
“Menção especial
merece o Cacareco que quase “entrou bem”, numa história muito
particular.
Os integrantes
daquele conjunto que muito se divertiram com as arremetidas do hipopótamo-chefe, prometem para amanhã nova e sensacional apresentação daquela equipe e
que se denominará “Cacareco encontra Gorila”. Vamos ver”.
Taça do Bloco mais preferido em 1962
No carnaval de
1961 novamente o bloco esteve presente, trazendo inclusive um carro alegórico
intitulado “Foguete à Lua”, que fez grande sucesso entre o público.
No carnaval de
1962, o Bloco Cacareco recebeu da Rádio Difusora, então situada num prédio da Praça Vidal
Ramos, a “Taça do Bloco mais preferido”, juntamente com o Cordão
Carnavalesco Bola Preta, Bola Azul, Respingados e Xavante,
igualmente homenageados.
E pelos anos
seguintes, inclusive nos primeiros da década de 1970, o Cacareco participou
do carnaval lagunense, sempre com muita alegria e descontração, inovando,
trazendo novos bichos para as ruas da cidade, entre eles uma enorme galinha e mais sapos, cobras e lagartos.
Mas em seguida,
por um motivo ou outro, o Bloco Cacareco desapareceu do cenário do nosso
carnaval.
Da minha
infância lembro do saudoso Gonçalo Barbosa, que se dividia entre o personagem gorila e
o domador, tirando chispas dos paralelepípedos com sua lança-chicote com ponta de
metal.
À noite, o efeito
colorido das faíscas impressionava. Era teatral e assustador.
"A fera espalhava a multidão"
O lagunense Oclândio
Siqueira em seu livro “Em cantos da alma”, dá o seu testemunho sobre o
Bloco Cacareco:
“O Cacareco,
homenagem a um rinoceronte do jardim zoológico de São Paulo que, numa das
eleições municipais para vereador recebera a maior votação registrada a um
candidato a esse cargo eletivo, era agora objeto de tributo de um bloco de
carnaval, que vinha do Magalhães.
Devidamente
caracterizada, assim se compunha toda a turma do boteco do Íris. O rinoceronte,
muito bem-feito, sua confecção inspirada no estilo das bernunças dos
bois-de-mamão, bravio, espalhava a multidão e era vigorosamente contido por seu
domador, o próprio Íris, que, coberto com peles que nem um viking, segurava com
ares de força a inquietação da fera.
Carlos Queiroz,
vulgo “Cabrito”, auxiliava Íris a conter o ímpeto do bicho, que investia contra
a troça que o rodeava.
Também assim
acontecia com um enorme orangotango, preso por pesada corrente da qual de vez
em quando se soltava, e que, arrastando aqueles pesados grilhões pelos
paralelepípedos das ruas, tirava faíscas e amedrontava a todos.
Dizem, no
entanto, que o bafo que os componentes do bloco exalavam era,
surpreendentemente, de outra fera: o de “onça” ...
O retorno do
Bloco
Em 15 de agosto
de 1988 foi ensaiado o retorno ao carnaval lagunense do Bloco Cacareco,
numa tentativa de reerguê-lo, inclusive com registro oficial e constituição de
CNPJ. Quem encabeçava a volta era um velho componente, o Dodô do Pedro
Maurício.
O Cacareco, em nova fase,
desfilou nos carnavais de 1989 e 1990, juntamente com outros blocos que haviam
surgido em anos anteriores, como Saímos Sem Querer, Saímos na Marra,
Bloco da Pulguinha, Bloco da Latinha, além do Bloco Pirão
d’Água, da Roseta (atual bairro Progresso).
O Pirão
d’Água foi outra agremiação tradicional do nosso carnaval com registros de
sua participação desde a década de 1950.
Seu criador foi
Mané Pintado, sob a batuta do maestro Vicente. O bloco satirizava a pobreza
lagunense com suas cantigas e jogos de vozes e fazia muito sucesso.
Eis outra história
que também merece um futuro capítulo aqui neste Blog.





Que legal, não sabia desse bloco. Sempre descobrindo essas histórias.
ResponderExcluirValmir, riquíssimo esse resgate do do nosso carnaval. Quem conheceu como era a nossa festa hoje compara e dá uma tristeza. A turma era pobre, mas juntava o seu dinheirinho e se divertia sem esperar por ajudas oficias, emendas impositivas, etc. Brincava quem podia...
ResponderExcluirValmir, o Cacareco bem retrata os carnavais da Laguna de outrora. Criativo, irreverente, alegre. Bastava uma ideia, um grupo de amigos motivados, a vizinhança unida, e lá saía o bloco para animar o Carnaval. O povo nas ruas ficava na expectativa para saber qual seria a inédita atração. O Magalhães sempre contou com mentes inventivas, dispostas a inovar e fazer troça. Um mote, um figurino, um enredo, e pronto: lá ia o bloco. Muitas dessas apresentações do Cacareco, seus bastidores, seus desfiles, eram contados e recontados saudosamente pelo meu sogro, o Carlos Queiróz. Um belo e oportuno resgate. Parabéns!
ResponderExcluirAi que saudade daquelas brincadeiras sadias. Daquele carnaval que não volta mais. Era tudo tão inocente. Cacareco, Pirão d'água, Bandinha Maluca....
ResponderExcluirLendo essa ótima matéria sobre o carnaval lagunense fico pensando em quantos cacarecos a gente continua votando. Políticos que não nunca estiveram nem aí pra nossa cidade e povo, vivendo fora da realidade em um mundo paralelo, de Nárnia, traindo os votos da população. Pelo menos o cacareco bicho atraía a simpatia do povo.
ResponderExcluirValmir... mais uma excelente matéria para os saudosistas de plantão (que nem eu), relembrando o "saudável" Carnaval de outrora. Como morei no bairro do Magalhães, em relação ao Bloco Cacareco conheci praticamente todos integrantes da fase inicial, que se revelaram excelentes como atores do bloco... em suas fantasias e na coreografia dos "bichos". O rinoceronte Cacareco que deu nome ao Bloco, assim como, a sua utilização como demonstração dos paulistanos para ridicularizar os políticos da época... foi efetivamente o que diríamos hoje uma "grande sacada", que atingiu e superou o objetivo. Agora, do Bloco Cacareco creio que o animal que mais assustava o Gorila que sempre investia ferozmente contra a garotada... que disparava aos gritos.
ResponderExcluirGrande abraço do Adolfo Bez Filho - Joinville / SC.