02 fevereiro 2026

Cacareco, o Bloco de carnaval que marcou época e foi sucesso na Laguna

 
Em 1960 estreou no carnaval da Laguna o Bloco de rua carnavalesco-humorístico Cacareco, nascido no bairro Magalhães.

Bloco Cacareco -1962 - Laguna -SC - Acervo: Valmir Guedes Júnior

Logo o bloco se tornou a alegria das crianças e o queridinho do público. Mas também assustava com os malabarismos e performances de um hipopótamo, de um gorila  e seu domador. Bem por isso justamente o sucesso.
 
O carnaval lagunense começou mais cedo em 1960
Na noite do dia primeiro de janeiro a Escola de Samba Brinca Quem Pode inovou, botou o bloco mais cedo na rua e saiu desfilando pelas vias do centro histórico mostrando “o batuque de seus tamborins”.
O Xavante do Magalhães não ficou atrás e também fez o mesmo, mas somente após uma quinzena, quando desfilou na noite de 17 daquele mesmo mês de janeiro.
Era acompanhado de seu Bloco infanto-juvenil Os Aymorés.
Choveu muito nos dias dos desfiles oficiais de 1960, em fevereiro. Mas nada que prejudicasse a alegria dos foliões.
Nos intervalos dos aguaceiros o público se divertia, principalmente com a estreia do Bloco Cacareco e seus bichos. Um sucesso!

No Cacareco, o gorila e Gonçalo Barbosa de domador com a corrente e a vara com ponta de ferro que arrancava faíscas nos paralelepípedos.  A criançada atenta adorava a brincadeira. À esquerda na foto, quase encoberto o então vereador (e futuro prefeito) João Gualberto Pereira.

Entre os componentes Inaiá Rodrigues da Rosa (filho do maestro Felipe Rosa), Melquiades Soares, Ivo Simião da Luz, Íris Luz, João Maiate, Acary Palma, Carlos Felipe de Queiróz, Antônio Tavares (que incorporava o gorila, dividindo-se com Gonçalo Barbosa de domador), Mozart (Carioca), Álvaro (Alvim) Ávila, Nereu Machado, Dodô do Pedro Maurício,  César Guedes, entre muitos outros.
Carlos Felipe Queiróz desfilava sempre com um cabrito de nome "Cheiroso". Bem por isso "seo" Queiroz acabou recebendo esse apelido.
Maioria deles morador da rua João Henrique, a conhecida rua do Valo, no bairro Magalhães.
Vários membros pertenciam às diretorias dos Clubes Ideal e 3 de maio, além de também serem componentes da Bandinha Maluca e Os Palhaços de Momo.
 
Candidato Cacareco, o mais votado em São Paulo
Cacareco, o nome do Bloco, foi em homenagem a um popular personagem que no ano anterior havia entrado para o folclore-político-brasileiro.
Em 1959, ano de eleições municipais, os eleitores de São Paulo mandaram um recado aos políticos incompetentes.
Como na época se escrevia na cédula o nome do candidato a ser eleito, os eleitores votaram num rinoceronte (na verdade uma fêmea) chamado Cacareco.
O bicho havia sido emprestado do Zoológico do Rio de Janeiro a pedido do governador de São Paulo, Jânio Quadros que havia criado o Zoológico de São Paulo em 1957 (inaugurado em 1958).
Cacareco havia sido o primeiro rinoceronte nascido em cativeiro na América do Sul.
A população paulista compareceu em massa ao Zoológico, cujos bichos fizeram muito sucesso, principalmente o Cacareco.
Foi o que bastou para que o jornalista Itaboraí Martins, do jornal O Estado de São Paulo, numa mesa de bar lançasse a candidatura de Cacareco para o cargo de vereador na eleição de 4 de outubro de 1959.

Rinoceronte Cacareco - Foto/Crédito: Alesp

Até “santinhos” do bicho foram impressos e distribuídos. E teve jingle: “Cansados de tanto sofrer/E de levar peteleco/Vamos agora responder/Votando no Cacareco”.
Resumindo: a candidatura de Cacareco recebeu quase 100 mil votos, sendo estrondosamente o mais votado. Sua votação daria para eleger os 15 vereadores mais votados na época.
É evidente que o TRE-SP declarou como nulos os votos do Cacareco.
Dias depois, certamente para evitar que o povo paulista empossasse na marra o rinoceronte, ele foi devolvido ao Zoológico do RJ.
Anos mais tarde, em 1988 no RJ, outro bicho seria consagrado nas urnas: o macaco Tião. Mas isso é outra história.

Estreia do Bloco Cacareco na Laguna
O jornal O Albor registrou a estreia do Bloco Cacareco no carnaval lagunense de 1960: 
“Menção especial merece o Cacareco que quase “entrou bem”, numa história muito particular.
Os integrantes daquele conjunto que muito se divertiram com as arremetidas do hipopótamo-chefe, prometem para amanhã nova e sensacional apresentação daquela equipe e que se denominará “Cacareco encontra Gorila”. Vamos ver”.

Taça do Bloco mais preferido em 1962
No carnaval de 1961 novamente o bloco esteve presente, trazendo inclusive um carro alegórico intitulado “Foguete à Lua”, que fez grande sucesso entre o público.
No carnaval de 1962, o Bloco Cacareco recebeu da Rádio Difusora, então situada num prédio da Praça Vidal Ramos, a “Taça do Bloco mais preferido”, juntamente com o Cordão Carnavalesco Bola Preta, Bola Azul, Respingados e Xavante, igualmente homenageados.

A enorme galinha do Bloco Cacareco, que tanto sucesso fez no carnaval lagunense.

E pelos anos seguintes, inclusive nos primeiros da década de 1970, o Cacareco participou do carnaval lagunense, sempre com muita alegria e descontração, inovando, trazendo novos bichos para as ruas da cidade, entre eles uma enorme galinha e mais sapos, cobras e lagartos.
Mas em seguida, por um motivo ou outro, o Bloco Cacareco desapareceu do cenário do nosso carnaval.

No Bloco Cacareco, Gonçalo Barbosa como domador e sua lança e o assustador (para a época) gorila.

Da minha infância lembro do saudoso Gonçalo Barbosa, que se dividia entre o personagem gorila e o domador, tirando chispas dos paralelepípedos com sua lança-chicote com ponta de metal.
À noite, o efeito colorido das faíscas impressionava. Era teatral e assustador. 

"A fera espalhava a multidão"
O lagunense Oclândio Siqueira em seu livro “Em cantos da alma”, dá o seu testemunho sobre o Bloco Cacareco:
 
“O Cacareco, homenagem a um rinoceronte do jardim zoológico de São Paulo que, numa das eleições municipais para vereador recebera a maior votação registrada a um candidato a esse cargo eletivo, era agora objeto de tributo de um bloco de carnaval, que vinha do Magalhães.
Devidamente caracterizada, assim se compunha toda a turma do boteco do Íris. O rinoceronte, muito bem-feito, sua confecção inspirada no estilo das bernunças dos bois-de-mamão, bravio, espalhava a multidão e era vigorosamente contido por seu domador, o próprio Íris, que, coberto com peles que nem um viking, segurava com ares de força a inquietação da fera.
Carlos Queiroz, vulgo “Cabrito”, auxiliava Íris a conter o ímpeto do bicho, que investia contra a troça que o rodeava.
Também assim acontecia com um enorme orangotango, preso por pesada corrente da qual de vez em quando se soltava, e que, arrastando aqueles pesados grilhões pelos paralelepípedos das ruas, tirava faíscas e amedrontava a todos.
Dizem, no entanto, que o bafo que os componentes do bloco exalavam era, surpreendentemente, de outra fera: o de “onça” ...

O retorno do Bloco
Em 15 de agosto de 1988 foi ensaiado o retorno ao carnaval lagunense do Bloco Cacareco, numa tentativa de reerguê-lo, inclusive com registro oficial e constituição de CNPJ. Quem encabeçava a volta era um velho componente, o Dodô do Pedro Maurício.
O Cacareco, em nova fase, desfilou nos carnavais de 1989 e 1990, juntamente com outros blocos que haviam surgido em anos anteriores, como Saímos Sem Querer, Saímos na Marra, Bloco da Pulguinha, Bloco da Latinha, além do Bloco Pirão d’Água, da Roseta (atual bairro Progresso).
O Pirão d’Água foi outra agremiação tradicional do nosso carnaval com registros de sua participação desde a década de 1950.
Seu criador foi Mané Pintado, sob a batuta do maestro Vicente. O bloco satirizava a pobreza lagunense com suas cantigas e jogos de vozes e fazia muito sucesso.
Eis outra história que também merece um futuro capítulo aqui neste Blog.

6 comentários:

  1. Que legal, não sabia desse bloco. Sempre descobrindo essas histórias.

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  2. Edison de Andrade02/02/2026, 19:43

    Valmir, riquíssimo esse resgate do do nosso carnaval. Quem conheceu como era a nossa festa hoje compara e dá uma tristeza. A turma era pobre, mas juntava o seu dinheirinho e se divertia sem esperar por ajudas oficias, emendas impositivas, etc. Brincava quem podia...

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  3. Valmir, o Cacareco bem retrata os carnavais da Laguna de outrora. Criativo, irreverente, alegre. Bastava uma ideia, um grupo de amigos motivados, a vizinhança unida, e lá saía o bloco para animar o Carnaval. O povo nas ruas ficava na expectativa para saber qual seria a inédita atração. O Magalhães sempre contou com mentes inventivas, dispostas a inovar e fazer troça. Um mote, um figurino, um enredo, e pronto: lá ia o bloco. Muitas dessas apresentações do Cacareco, seus bastidores, seus desfiles, eram contados e recontados saudosamente pelo meu sogro, o Carlos Queiróz. Um belo e oportuno resgate. Parabéns!

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  4. Ai que saudade daquelas brincadeiras sadias. Daquele carnaval que não volta mais. Era tudo tão inocente. Cacareco, Pirão d'água, Bandinha Maluca....

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  5. Lendo essa ótima matéria sobre o carnaval lagunense fico pensando em quantos cacarecos a gente continua votando. Políticos que não nunca estiveram nem aí pra nossa cidade e povo, vivendo fora da realidade em um mundo paralelo, de Nárnia, traindo os votos da população. Pelo menos o cacareco bicho atraía a simpatia do povo.

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  6. Valmir... mais uma excelente matéria para os saudosistas de plantão (que nem eu), relembrando o "saudável" Carnaval de outrora. Como morei no bairro do Magalhães, em relação ao Bloco Cacareco conheci praticamente todos integrantes da fase inicial, que se revelaram excelentes como atores do bloco... em suas fantasias e na coreografia dos "bichos". O rinoceronte Cacareco que deu nome ao Bloco, assim como, a sua utilização como demonstração dos paulistanos para ridicularizar os políticos da época... foi efetivamente o que diríamos hoje uma "grande sacada", que atingiu e superou o objetivo. Agora, do Bloco Cacareco creio que o animal que mais assustava o Gorila que sempre investia ferozmente contra a garotada... que disparava aos gritos.
    Grande abraço do Adolfo Bez Filho - Joinville / SC.

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