29 maio 2026

Memórias das Festas de Santo Antônio dos Anjos da Laguna

 
Como programada, divulgada e ansiosamente aguardada, a tradicional Festa em Honra ao Padroeiro Santo Antônio dos Anjos da Laguna 2026 vai acontecer de 31 de maio a 14 de junho.
Um encontro religioso de muita fé e devoção que atravessa gerações.

Mas, no passado, Festas de Santo Antônio já foram adiadas e até cancelada
A título de curiosidade, ao longo da história católica lagunense há registros de adiamentos e até cancelamento dos tradicionais festejos em honra a Santo Antônio dos Anjos.
Pelos mais diferentes motivos: 

Ano 1886Coincidência com a data do Espírito Santo
As festividades em honra a Santo Antônio dos Anjos que seriam realizadas no dia 13 de junho desse ano de 1886 foram adiadas para o dia 20 do mesmo mês, precedidas de cinco novenas, com missa solene e procissão pelas ruas do centro.
Qual teria sido o motivo?
De acordo com aviso publicado no jornal Echo Lagunense em sua edição de 19 de junho daquele mês, a mudança foi provocada pela coincidência das festividades do Espírito Santo ter caído justamente no dia 13.
Na época existia em nossa paróquia uma Irmandade do Espírito Santo congregando muitos irmãos.
Nail Ulysséa em Três séculos na Matriz, informa que a Irmandade do Espírito Santo “Realizava a festa mais importante da cidade, suplantando a festa do padroeiro”.

Jornal Echo Lagunense de 19 de junho de 1886.

O aviso vinha assinado por José Monteiro Cabral, secretário da Irmandade do Santíssimo Sacramento e Santo Antônio dos Anjos.

Ano 1902 – Santo Antônio dos Anjos estava no Rio de Janeiro
Neste ano as festividades tradicionalmente programadas para o mês de junho não aconteceram.
Isso porque a imagem de Santo Antônio dos Anjos não se encontrava na Laguna. 
Como assim?
Explico. É que no início do ano a Irmandade decidiu enviá-la ao Rio de Janeiro para ser encarnada (restaurada) por técnicos da área.
Era para estar de volta após os trabalhos finalizados, ainda no começo do mês de junho, em tempo para as festividades.
Os dias passaram, junho se aproximava e nada do Santo retornar.

Clichê com desenho de Santo Antônio dos Anjos publicado no jornal lagunense Correio do Sul de 13 de junho de 1942. Notem que o Menino Jesus ainda estava sem sua tradicional roupinha.

Nesse meio tempo correu a notícia na Laguna que a imagem teria causado grande impressão entre religiosos e apreciadores de arte sacra no Rio de Janeiro desde que chegou. Bem por isso estaria havendo propostas para troca por outra imagem do santo casamenteiro.
Imagine o rebuliço que essa notícia causou na Laguna. O disse-me-disse pelas esquinas, cafés e boticas tomou conta da cidade.
Não se sabe se a notícia tinha algum fundamento ou foi uma fake news da época.
Logo aconteceram várias reuniões com pedidos de providências urgentes.
O provedor da Irmandade, que agora já era João Monteiro Cabral, o Janjão, foi convocado e tomou o primeiro navio com destino ao Rio de Janeiro. Missão: apressar os trabalhos e trazer a imagem de volta à Laguna.
Somente em 8 de julho o provedor retornou com a imagem do santo encaixotada à bordo do vapor Industrial.
Houve uma grande recepção. A imagem foi levada para a capela do Hospital com a transladação para a matriz prevista para o dia 19 do mesmo mês. No dia marcado caiu um temporal e o translado não aconteceu.
Somente no dia 26 de julho de 1902 é que a imagem, “com grande número de fiéis” foi transportada da Capela do Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos para seu altar na matriz.
No dia seguinte Missa cantada e Te-Deum pela volta da imagem.
Para ler com mais detalhes essa história já publicada neste Blog clique Aqui

Ano 1905 – Falta de recursos
O jornal O Albor em sua edição de 11 de junho deste ano publicava a notícia que por falta de recursos para bancar as festividades em honra a Santo Antônio dos Anjos, iria ser rezada “unicamente” uma missa cantada e terço à noite no dia 13 de junho.

Jornal O Albor 12 de junho de 1905.

O caixa deveria estar mesmo zerado. Outro motivo provável é porque a igreja matriz estava em péssimas condições físicas, necessitando de obras de manutenção e melhoramentos. Desde o ano anterior os jornais da cidade alertavam que o madeiramento do teto da igreja ameaçava ruir.
Tanto é verdade que o jornal O Albor dizia:
“Não há recursos para as obras mais urgentes e o sr. João Monteiro Cabral faz um apelo justíssimo ao povo lagunense para contribuir à medida de suas forças para que a matriz de nossa terra não desabe”.
A não realização da festa e procissão não deve ter caído muito bem junto à comunidade católica e as críticas foram muitas.

Quitéria Cabrita reclamou pelo jornal
Uma longa carta publicada na edição seguinte, de 18 de junho no mesmo O Albor com o título “O Nosso Padroeiro” reclamava da decisão.
Era assinada com o estranho pseudônimo de Quitéria Cabrita, que tanto podia ser alguma carola da igreja, um membro da Irmandade desgostoso com a decisão. Ou até mesmo alguém da redação do jornal. Vai saber.
Pois a Quitéria Cabrita reclamava que não acreditou quando leu a notícia em O Albor.
E logo a seguir sobrou para os membros da Irmandade quando ela diz: 

“Que os juízes não se importem com a festa, que neguem mesmo dinheiro e dedicação... lamenta-se, mas tolera-se... O que não se compreende, nem se tolera, nem se perdoa, é que os irmãos em Santo Antônio se reúnam e resolvam nada fazer por falta de dinheiro.
Uma missa cantada, três ladainhas, e uma procissão não consomem assim tanto dinheiro...”.

E depois de comentar sobre várias pessoas da comunidade que poderiam ajudar gratuitamente na realização da festa com ornamentação, velas e foguetes, ela continua dando pauladas:

“Só o que faltou, meu amigo, foi vontade da Irmandade, e isto digo mesmo nas bochechas de qualquer irmão.
Se se tratasse de um baile, de um grupo carnavalesco, de um espetáculo ou de uma eleição, o dinheiro não faltaria; mas como se trata de Santo Antônio, que só tem feito bem a todos... a crise é tremenda...”.
(...) “Uma missa rezada só... e Santo Antônio que se contente com isso, que a Irmandade não tem dinheiro...”.

E ela finaliza saudosista dos velhos tempos quando Laguna ainda era uma Vila e de seu finado marido, levando obviamente a gente concluir que ela era viúva:

“Pois olhem... – quando isto era Vila um só ano não se passou sem que a festa do miraculoso orago fosse feita inteirinha, com trezenas, missa solene, a procissão e sermão...
Aquilo é que eram tempos.... Ai! Que saudades eu tenho d’aqueles tempos e do meu defunto marido”.

Ano 1963 – Morte do Papa
Neste ano, tendo em vista a morte do Papa João XXIII ocorrida no dia 3 de junho de 1963, as festividades de Santo Antônio dos Anjos foram adiadas do dia 13 de junho para 23 do mesmo mês.

Jornal O Albor 28 de junho de 1963.

Mas já a partir do dia 11 as novenas foram realizadas, cantadas pelo Coral Santo Antônio dos Anjos, com alguns músicos das Bandas Musicais Carlos Gomes e União dos Artistas.
A Transladação na noite de 22 com a imagem veio da igreja Nossa Senhora Auxiliadora, na então Roseta, hoje bairro Progresso.
No dia 23 Missa solene pela manhã na Matriz com a presença do bispo Diocesano D. Anselmo Pietrulla.
À tarde aconteceu a procissão pelas ruas do centro.

Cartão-lembrança da Festa de Santo Antônio dos Anjos do ano de 1972. Acervo: Valmir Guedes Júnior.

Mesmo com o adiamento da transladação e procissão para os dias 22 e 23, respectivamente, todas as noites “havia concorridas barraquinhas, acompanhadas de músicas que alegravam o ambiente, até bem tarde”, diz O Albor de 29 de junho de 1963, de onde retirei essas informações.
Foram juízes da festa, Osmar Brum e Dilma Neto Mendonça.
E divulgados os nomes de Pedro Bascherotto e Cerize Rollin Remor como juízes do ano seguinte, 1964.
Na época chamava-se de juízes aos atuais festeiros, formados somente por um par (casal), não necessariamente casado.
Em tempo: O novo Papa escolhido em conclave para substituir João XXIII foi o cardeal Giovanni Montini que adotou o nome de Paulo VI.

Ano 1984 – Morte do padre
Estava tudo pronto para a realização da festa nesse ano. Iria acontecer de 1º a 17 daquele mês de junho.
Na noite de 31 de maio a cidade foi dormir mais tarde devido à carreata acontecida à partir da meia-noite. Naquela época dizia-se serenata.
No dia seguinte, uma sexta-feira após às 10 horas da manhã, a notícia chegou e percorreu rapidamente toda à cidade.
Um acidente automobilístico havia ceifado a vida do padre Luiz Agostinho Zocche Saccon, aos 20 anos de idade, pároco auxiliar ou vigário cooperador, como então se chamava, da Matriz Santo Antônio dos Anjos da Laguna.
Era um sacerdote amigo e conselheiro sempre prestes a ajudar o próximo. Era ligado aos grupos de jovens existentes na comunidade e comandava a Pastoral da Juventude.
Velório aconteceu durante todo o dia em nossa própria matriz. Fim de tarde seu corpo foi levado a a cidade de Meleiro, onde foi sepultado.

Jornal lagunense O Renovador de 8 de junho de 1984, com anúncio da festa e a data adiada para 8 a 17 de junho.

Por causa de seu falecimento, a festa em Honra ao padroeiro da Laguna foi adiada, só iniciando na sexta-feira seguinte, 8, após a realização da Missa de Sétimo Dia.
Padre Agostinho (e não Augustinho como está escrito na creche criada tempos depois em sua homenagem) estava escalado para ser o orador da primeira trezena.
Para ler mais sobre a trajetória de vida e o acidente que causou a morte do padre Agostinho leia Aqui

Ano 2020 – Pandemia – Covid
Por causa das restrições sanitárias causadas pela pandemia da Covid, as tradicionais festividades de junho de 2020 não ocorreram.
Inicialmente a festa foi transferida para o mês seguinte, período de 3 a 16 de agosto. Mas depois foi cancelada.
Sem a possibilidade da realização de trezenas, aconteceram de 1º a 12 de junho a partir das 19 horas devocionais ao padroeiro feitas pelos padres Lenoir Steiner Becker e Itamar Nunes Faísca, com mensagens a cargo dos festeiros de 2020/2021.
Transmissão pelo Facebook, além de mostras de vídeos e fotos de trezenas de anos anteriores.
No dia 13 aconteceu a Alvorada, com carreatas partindo de várias regiões da cidade.
Em seguida saudação à Carreata feita por Neusa Preuss e Gero Perito, com uma live logo após da Sociedade Musical União dos Artistas.
A imagem de Santo Antônio dos Anjos ficou exposta aos fiéis em frente à Matriz, tendo guarda de honra da Irmandade. Atendendo a pedidos, fiéis depositaram em frente quilos de alimentos a serem distribuídos às famílias necessitadas.

Imagem de Santo Antônio dos Anjos ladeada por dois guardas de honra da Irmandade em 7 de junho de 2020. Em primeiro plano na foto, quilos de alimentos depositados pelos fieis para serem distribuídos às famílias necessitadas. Foto: Valmir Guedes Júnior

Houve distribuição dos tradicionais pãezinhos.
Às 12 horas aconteceu repique de sinos em todas as igrejas das três paróquias.
Às 17 horas procissão motorizada. Às 18 horas live da Sociedade Musical Carlos Gomes. Às 19 horas na Matriz foi realizada Santa Missa em honra ao Padroeiro e às 20 horas Terço em honra ao Sagrado Coração de Jesus.

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