14 setembro 2026

Maria Macarini: Parteira de gerações de lagunenses

 

Nascida em 1905 em Nova Veneza, no sul do estado, Maria Macarini ainda jovem veio morar na Laguna. Aprendeu o ofício de parteira e durante décadas, a partir de 1936, atuou em nossa cidade. Foram mais de 14 mil partos realizados de lagunenses. Todos os nascimentos devidamente anotados em cadernos, com as respectivas datas, nomes das crianças e pais. Nunca perdeu um só bebê, ela dizia.

Maria Macarini Ferreira (1905-1995).

A parteira Maria Macarini nasceu no então Distrito de Nova Veneza, no sul catarinense, em 1905, filha de imigrantes italianos.
Os pioneiros do sobrenome “Macarini”, integraram as levas de imigrantes que chegaram à antiga Colônia de Nova Veneza na década de 1891. Vieram de Bérgamo, na região de Lombardia, norte da Itália.
Em sua juventude, Maria Macarini, em busca de melhores condições de vida, veio para Laguna, hóspede de Catarina de Bona Crippa e de seu marido Leandro Crippa. 
Macarini continuou seus estudos em nossa cidade e cedo aprendeu o ofício de parteira, passando a atuar na comunidade lagunense atendendo parturientes em suas próprias residências, inclusive em localidades do interior do município onde só se chegava a bordo de canoas.
Depois, a partir da década de 1940, passou a atuar no Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos, auxiliando o corpo clínico daquela casa hospitalar.

Construção da Maternidade
Em 1954 Maria Macarini foi nomeada para exercer a função de enfermeira-obstetra pelo Departamento de Saúde Pública Estadual.
Em setembro de 1955 foi inaugurada a Maternidade do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos com dez quartos.

Fachada do prédio do antigo Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos, em 1905.

Lembrando que o nosso hospital recebeu essa denominação pela Lei nº 1017, de 10 de maio de 1883.

A parteira Maria Macarini, em pé na foto, na ala da Maternidade do Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos, Laguna - SC.

Estranha-se que atualmente a palavra “Senhor” tenha sido retirada de sua denominação histórica.
Maria Macarini também exerceu o cargo, a partir de 1960, no Posto de Puericultura da Laguna.

O enfermeiro e marido João
Aqui na Laguna Maria Macarini conheceu o enfermeiro João Ferreira, com quem se casou.
João era uma pessoa muito popular na cidade, bondoso, sorridente, simpático. Atendia a todos que o procuravam com alegria e responsabilidade. Aplicava injeções e trabalhava em Institutos de Previdência.
Mais tarde, com a junção de todos os Institutos, irá trabalhar no Instituto Nacional de Seguridade Social (INPS).

João Ferreira.

O casal também trabalhou no Serviço de Atendimento Médico Domiciliar de Urgência (SAMDU), na gestão do prefeito Walmor de Oliveira na década de 1950.
João Ferreira foi membro do Coral Santo Antônio dos Anjos, reorganizado na década de 1970 pelo padre e maestro Antônio Gerônimo Herdt. Inclusive João está na foto junto aos demais coralistas do primeiro LP gravado pelo Coral, em 1979.
O casal mantinha cadernos onde anotavam todos os nascimentos em que Maria Macarini participou como parteira. E foram mais de 14 mil atendimentos.

Também nasci pelas mãos de Maria Macarini em 22 de janeiro de 1960.
Um trabalho de parto difícil, demorado, iniciado lá em casa, na rua Voluntário Benevides e finalizado em nosso hospital com o auxílio do doutor Aurélio Pinho Rótolo, conforme narrava minha mãe.
O registro de nascimento consta, entre milhares de outros lagunenses, nos livros da parteira Maria Macarini.

Lembranças da dª Selma Ávila
Dª Selma Ávila foi vizinha do casal Maria Macarini e João Ferreira durante muitos anos na rua Oswaldo Aranha, no Centro Histórico.
Selma, viúva do saudoso músico Orgel Ávila, conta que Maria e João formavam um casal harmonioso e muito trabalhador.

“Maria Macarini, devido às muitas dificuldades que passou na vida era de uma personalidade muito forte, mas tinha um coração brando e bom. Era sincera ao extremo”.
Dª Selma diz que foi muito feliz tendo eles como vizinhos. Inclusive Maria Macarini foi a parteira de seus filhos.
Ela relembra:
“Depois da aposentadoria dos dois eles viajaram muito. Ela gostava muito dos nossos vizinhos, do seu Pedro Bascherotto e família, do seu Claudimiro Rosa e da filha Tereza Oliveira.
Quando ficou enferma e foi internada no hospital, lhe fiz companhia em várias ocasiões.
Temos que sempre nos lembrar dessas pessoas valorosas que passaram por nossa Laguna, para que elas nunca fiquem no esquecimento”. 

Frases fatídicas sobre a morte e que se cumpriram
Em outubro de 1959, quando chegou em sua casa pela manhã após ter feito um show e participado de festas no Rio de Janeiro, a cantora e compositora Dolores Duran disse brincando e sorrindo para sua empregada:
- Não me acorde. Estou cansada. Vou dormir até morrer.
E assim se despediu do mundo, vítima de infarto enquanto dormia para nunca mais acordar.
Uma variação dessa fatídica frase e desfecho trágico, também aconteceu aqui na Laguna com João Ferreira, o João da Macarini, como era mais conhecido.
E quem nos conta o fato é novamente dª Selma Ávila que, como já informei, foi amiga e vizinha:

“Era uma quinta-feira, 3 de maio de 1984, o dia estava ensolarado, muito bonito e quente.
Por volta das 10 da manhã o João apareceu à porta da minha cozinha, deu bom-dia e disse:
- Selma, tenho que falar contigo, contar um segredo. Eu estava toda atarefada, preparando o almoço, meu irmão Luiz estava conversando comigo. Respondi indagando se a conversa não podia ser mais tarde. Ele respondeu que sim e ao sair pelo corredor disse bem alto:
- Que dia lindo para morrer.
Dali a alguns minutos ouvi a Arina, sobrinha deles, que morava com eles, correndo e gritando pelo corredor ao lado, que seu tio João havia caído na varanda".

João faleceu naquele exato momento, vítima de infarto fulminante. E levou seus segredos que tanto queria contar.
Assim como Dolores Duran, João também se despediu do mundo, mas não da memória de muitos que o conheceram e que com ele conviveram.

Agraciada com a Comenda Domingos de Brito Peixoto
Em 29 de julho de 1992, numa sessão solene realizada no Centro Cultural Santo Antônio dos Anjos, o município da Laguna homenageou Maria Macarini Ferreira com a Comenda Domingos de Brito Peixoto.

Maria Macarini Ferreira em 29 de julho de 1992, aos 87 anos, quando foi homenageada com a Comenda Domingos de Brito Peixoto.

Era a última noite da Semana Cultural daquele ano, gestão de Nelson Abrahão Neto-Zeno Alano Vieira (1989-1992).

Os homenageados com a Comenda Domingos de Brito Peixoto em 1992: Agenor dos Santos Bessa, representado pelo seu sobrinho Marianto Bessa Fernandes. Empresários Emilio Batistella e Santos Guglielmi. Atrás: Walter Baumgarten Júnior, representado por sua filha Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião,  Maria Macarini Ferreira e o jogador Mengálvio Figueiró. Foto: Álbum de família de Fernando Lopes Fernandes.

   Os demais homenageados foram o jogador de futebol Mengálvio Figueiró, o maestro e músico Agenor dos Santos Bessa, representado na ocasião por seu sobrinho Marianto Bessa Fernandes; Walter Baumgarten Júnior, representado por sua filha Amélia Baumgarten de Ulysséa Baião e os empresários Santos Guglielmi e Emilio Batistella.
Sobre a homenagem à parteira lagunense o colunista Munir Soares, fiel ao seu estilo escreveu:

“Quem disser que não acredita na cegonha, jamais ouviu falar de Maria Macarini.
Por suas mãos, 14 mil seres vieram ao mundo. Macarini, a parteira de mãos de fada. Seus dedos, movidos por fios divinos, buscavam no interior de cada mulher, o sagrado fruto do seu ventre. Nunca perdeu um só nenê.
Com os próprios ouvidos, colados à mãe, ela estudava e analisava cada som, cada movimento acontecido no útero.
Macarini fazia como ninguém, a ultrassonografia de ouvido.
Ironicamente, Maria Macarini, mãe de 14 mil filhos, dos outros, nunca teve seus próprios filhos.
Este é o destino da Cegonha, parceira do Criador no supremo ato da concepção, do amor, como fonte de vida.
Maria Macarini, meus filhos também vieram ao mundo por tuas mãos e com a graça de Deus”.

Falecimento de Maria Macarini
Maria Macarini Ferreira depois de vários períodos enferma na Laguna, foi morar com familiares em Caravaggio, Nova Veneza, sua cidade natal, onde faleceu em 29 de abril de 1995, aos 90 anos e foi sepultada no cemitério municipal daquela cidade.
Com ela partiam milhares de histórias sobre partos e nascimentos de lagunenses que atravessaram gerações.
Deixou um legado através de cada um dos 14 mil lagunenses que nasceram com ajuda de suas mãos e seus conhecimentos.

4 comentários:

  1. 14 mil partos...olha só. Minha mãe falava dela acho que fez parto fo meu irmão mais velho.

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  2. “Dinha e Dinho” como chamavamos( eram padrinhos do meu primo Beto), só nos deixaram boas lembranças. Saudades💙♥️

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  3. Boa tarde.
    Também nasci na Laguna, pelas mãos da Maria Macarini e do Dr. Paulo Carneiro.
    Lembro bem dela, alta, ruiva, de olhos azuis.
    Ia sempre na casa da minha vó Aurora aplicar injeções.
    Eu gostava de acompanhar todo o preparo.
    Ela tinha um pequeno rechaud onde colocava a seringa de vidro, o êmbolo e a agulha para ferver (não havia nada descartável na época).
    Depois montava tudo, pegava a ampola do medicamento e cortava com uma pequena lixa.
    Então aspirava o medicamento para dentro da seringa e partia para aplicar a injeção.
    Nunca esqueci.
    Uma figura mesmo inesquecível.

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  4. É Valmir, assim como tu, eu também vim ao mundo amparado pelas mãos da Dona Maria Macarini e, assim, quantos outros que ainda estão por aí, lendo a tua crônica. Eu nasci nas primeiras horas do dia 1.º de abril de 1954; já no anterior, dia 31 de março daquele mesmo ano, nascia o Silvinho (Dr. Sílvio), que me antecedeu por horas, também trazido ao mundo pelas mãos da Dona Maria Macarini. Abraço

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