22 junho 2026

A noite que o leão fugiu do circo e o pânico tomou conta das ruas da Laguna

 Essa história aconteceu na Laguna há muitos e muitos anos, em meados da década de 1940.
Um circo se instalou na cidade, dentre tantos que aqui passavam regularmente. Sua lona foi montada numa vasta área gramada onde hoje está edificado o Cine Teatro Mussi.

O leão escondido na soleira de uma porta, aguardando para dar o bote. Imagem criada por Inteligência Artificial.

     Era um sábado à noite, casa cheia. Após uma apresentação com seu domador, um leão se recusou a retornar à jaula e entre mil rugidos fugiu pelos fundos do circo. 
Alguém mais apavorado na plateia deu um tiro para o alto e a partir daí instalou-se o pânico. Fuga e correria pelas ruas do centro da cidade com gritos alarmantes de: 
- O leão vem aí, o leão vem aí!

Antigamente na Laguna, muito mais que hoje, instalavam-se vários circos.
Cidade portuária, polo econômico, com uma estrada de ferro interligando várias regiões do sul do estado, a cidade juliana atraía muita gente para o seu centro comercial.
Bem por isso, para aproveitar esse intenso movimento, obrigatoriamente parques e circos por aqui se instalavam.
Um dos locais preferidos era o descampado onde hoje se situa o prédio do Cine Teatro Mussi, inaugurado em 1950. Local privilegiado por se situar junto ao comércio e ao velho porto.
Outra área utilizada era a praça Lauro Muller, defronte à Carioca, local ainda sem qualquer infraestrutura.
O espaço onde hoje funciona um supermercado, no centro, durante muitos anos também recebeu circos e parques.

O circo chegou, vamos todos até lá...
Pois lá pela década de 1940, um famoso circo chegou na Laguna e depois de um breve desfile de apresentação pelas ruas do centro, como de praxe, armou sua lona na área do futuro Cine Teatro Mussi.
Naquela época, além de trapezistas, malabaristas, mágicos, palhaços, todo circo trazia muitos bichos amestrados. Elefantes, leões, chipanzés, cachorros, pôneis, zebras, ursos, leopardos...
Na falta de outros divertimentos, os espetáculos tinham garantia de casa lotada. Eram sempre um sucesso, principalmente as sessões dos finais de semana em suas concorridas matinês.
Dentre os circos mais famosos da época, que atravessaram décadas se apresentando pelo Brasil e incluíram Laguna em seus roteiros, estavam o Circo Americano, Circo Riograndense, Circo Cubano, Circo Robbatini, Circo Olympico, Circo Stevanovich, Circo Romano, Circo Nelson, Circo Teatro Bibi, Circo Garcia, Grande Circo 9 Irmãos, Circo Irmãos Marcovich, Grande Circo 12 Irmãos e Circo Missioneiro, entre tantos outros famosos e não tão conhecidos.

O Circo Irmãos Marcovich foi um dos que se apresentaram ao público lagunense, nas décadas de 1930 e 40. Jornal lagunense Correio do Sul de 7 de outubro de 1937.

Naqueles tempos a segurança era precária, não havia redes, nem grades separando o público do picadeiro.
Pois aconteceu num sábado à noite. Por um descuido do domador após a apresentação do seu número, o leão não retornou à cela como previsto. Escapuliu pelos fundos, rugindo, mas sem atacar. E sumiu de cena.
Alguém deu o alarme, gritando que o leão havia fugido. O aviso foi repetido por outros. Foi o que bastou para apavorar todo mundo.
Um sujeito na plateia, de nome Joca Ludovico, tirou o revólver da cintura e deu um tiro para o alto ou mirou na direção do chamado Rei das Selvas, isso nunca ficou bem esclarecido.

Deu-se o estouro. Uma correria geral, tremenda confusão, com gente se jogando pelas arquibancadas, pulando cadeiras, levantando a lona e saindo por debaixo, partindo em grupos em várias direções.
A ordem era fugir porque o leão estava vindo atrás.

Com um leão à solta, a fuga do circo, no pânico que tomou conta do público. Imagem gerada por Inteligência Artificial.

E a partir daí começou um vai-e-vem, um esconde-esconde, uma gritaria infernal num episódio que entrou para a história, para o rol lagunense dos casos raros.
Desorientadas, as turmas em alvoroço se dividiram pelas vias públicas.
Uma delas subiu a rua Jerônimo Coelho em direção à Igreja Matriz, virando à esquerda na Praça Vidal Ramos.
Outro grupo tomou à esquerda na rua Raulino Horn e depois à segunda à direita na rua Tenente Bessa, em direção à Carioca.
Havia ainda uma terceira turma, formada por muitas mulheres levando crianças pelas mãos, entre gritos e choros e que seguiram pela Gustavo Richard, depois subindo pela Barão do Rio Branco.
E os “bolos” de gente vão se encontrando pelas esquinas, se esbarrando nas estreitas ruas mal iluminadas da Laguna. O medo estampado em cada face, outros levando tudo na gozação ou rindo de nervosos.
Havia quem gritasse que o leão estava vindo naquela direção, que estava perto, postado ali na esquina, escondido, só esperando atrás de um muro para dar o bote.
E os grupos se esbarravam, se separavam, recuavam, corriam juntos.
E ficaram nesse desce e sobe, no vai e volta, assustados, apavorados, uma confusão.

E onde estava o leão?
Mas, afinal, onde se encontrava o leão enquanto essas cenas transcorriam?
Estava tranquilamente em sua jaula, ressonando.

Leão dormindo. Imagem criada por Inteligência Artificial.

Para entender o que aconteceu, voltemos algumas cenas para o exato momento que o leão escapuliu e provocou toda a correria.
O pessoal do circo, com o domador à frente, logo partiu no encalço do chamado rei das feras e o encontrou deitado, atrás de uns caixotes, mais assustado que todo mundo.
Rapidamente foi capturado com as redes e conduzido para sua jaula, ganhando até um bife de presente.
O problema é que com a fuga e o estampido do tiro, o alvoroço já estava feito. Em debandada correria o pessoal nem olhou para trás para testemunhar a captura.
Afinal, quem teria coragem de retornar ao local?
E durante muitos anos, nos cafés, bares, boticas e nos encontros sociais de famílias lagunenses, essa história era contada pelos que a vivenciaram, entre risos dos adultos e os olhos arregalados das crianças.

Um comentário:

  1. Me ri muito desse leão, imaginei a correria pelas ruas. Hoje não tem mais bichos.

    ResponderExcluir