Essa história aconteceu na Laguna há muitos e muitos anos, em meados da década de 1940.
Um circo se instalou na cidade, dentre tantos que aqui passavam regularmente. Sua lona foi montada numa vasta área gramada onde hoje está edificado o Cine Teatro Mussi.
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O leão escondido na soleira de uma porta, aguardando para dar o bote. Imagem criada por Inteligência Artificial. |
Alguém mais apavorado na plateia deu um tiro para o alto e a partir daí instalou-se o pânico. Fuga e correria pelas ruas do centro da cidade com gritos alarmantes de:
- O leão vem aí, o leão vem aí!
Muitos circos visitavam Laguna
Antigamente na
Laguna, muito mais que hoje, instalavam-se vários circos.
Cidade
portuária, polo econômico, com uma estrada de ferro interligando várias regiões
do sul do estado, a cidade juliana atraía muita gente para o seu centro
comercial.
Bem por isso, para
aproveitar esse intenso movimento, obrigatoriamente parques e circos por aqui se
instalavam.
Um dos locais
preferidos era o descampado onde hoje se situa o prédio do Cine Teatro Mussi,
inaugurado em 1950. Local privilegiado por se situar junto ao comércio e ao
velho porto.
Outra área
utilizada era a praça Lauro Muller, defronte à Carioca, local ainda sem qualquer
infraestrutura.
O espaço onde
hoje funciona um supermercado, no centro, durante muitos anos também recebeu circos
e parques.
O circo chegou, vamos todos até lá...
Pois lá pela década de 1940, um famoso circo
chegou na Laguna e depois de um breve desfile de apresentação pelas ruas do
centro, como de praxe, armou sua lona na área do futuro Cine Teatro Mussi.
Naquela época,
além de trapezistas, malabaristas, mágicos, palhaços, todo circo trazia muitos
bichos amestrados. Elefantes, leões, chipanzés, cachorros, pôneis, zebras,
ursos, leopardos...
Na falta de
outros divertimentos, os espetáculos tinham garantia de casa lotada. Eram sempre
um sucesso, principalmente as sessões dos finais de semana em suas concorridas
matinês.
Dentre os circos
mais famosos da época, que atravessaram décadas se apresentando pelo Brasil e
incluíram Laguna em seus roteiros, estavam o Circo Americano, Circo Riograndense,
Circo Cubano, Circo Robbatini, Circo Olympico, Circo Stevanovich, Circo Romano,
Circo Nelson, Circo Teatro Bibi, Circo Garcia, Grande Circo 9 Irmãos, Circo
Irmãos Marcovich, Grande Circo 12 Irmãos e Circo Missioneiro, entre tantos
outros famosos e não tão conhecidos.
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O Circo Irmãos Marcovich foi um dos que se apresentaram ao público lagunense, nas décadas de 1930 e 40. Jornal lagunense Correio do Sul de 7 de outubro de 1937. |
Naqueles tempos
a segurança era precária, não havia redes, nem grades separando o público do
picadeiro.
A fuga
Pois aconteceu
num sábado à noite. Por um descuido do domador após a apresentação do seu
número, o leão não retornou à cela como previsto. Escapuliu pelos fundos, rugindo,
mas sem atacar. E sumiu de cena.
Alguém deu o
alarme, gritando que o leão havia fugido. O aviso foi repetido por outros. Foi
o que bastou para apavorar todo mundo.
O tiro do Ludovico
Um sujeito na
plateia, de nome Joca Ludovico, tirou o revólver da cintura e deu um tiro para o
alto ou mirou na direção do chamado Rei das Selvas, isso nunca ficou bem esclarecido.
Deu-se o estouro.
Uma correria geral, tremenda confusão, com gente se jogando pelas
arquibancadas, pulando cadeiras, levantando a lona e saindo por debaixo,
partindo em grupos em várias direções.
A ordem era fugir porque o leão estava vindo atrás.
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Com um leão à solta, a fuga do circo, no pânico que tomou conta do público. Imagem gerada por Inteligência Artificial. |
E a partir daí
começou um vai-e-vem, um esconde-esconde, uma gritaria infernal num episódio
que entrou para a história, para o rol lagunense dos casos raros.
Desorientadas,
as turmas em alvoroço se dividiram pelas vias públicas.
Uma delas subiu
a rua Jerônimo Coelho em direção à Igreja Matriz, virando à esquerda na Praça
Vidal Ramos.
Outro grupo
tomou à esquerda na rua Raulino Horn e depois à segunda à direita na rua
Tenente Bessa, em direção à Carioca.
Havia ainda uma
terceira turma, formada por muitas mulheres levando crianças pelas mãos, entre
gritos e choros e que seguiram pela Gustavo Richard, depois subindo pela Barão
do Rio Branco.
"Bolos" de gente pra lá e pra cá
E os “bolos” de
gente vão se encontrando pelas esquinas, se esbarrando nas estreitas ruas mal iluminadas da
Laguna. O medo estampado em cada face, outros levando tudo na gozação ou
rindo de nervosos.
Havia quem
gritasse que o leão estava vindo naquela direção, que estava perto, postado ali
na esquina, escondido, só esperando atrás de um muro para dar o bote.
E os grupos se
esbarravam, se separavam, recuavam, corriam juntos.
E ficaram nesse
desce e sobe, no vai e volta, assustados, apavorados, uma confusão.
E onde estava o
leão?
Mas, afinal,
onde se encontrava o leão enquanto essas cenas transcorriam?
Estava tranquilamente
em sua jaula, ressonando.
Para entender o
que aconteceu, voltemos algumas cenas para o exato momento que o leão escapuliu
e provocou toda a correria.
O pessoal do
circo, com o domador à frente, logo partiu no encalço do chamado rei das feras e
o encontrou deitado, atrás de uns caixotes, mais assustado que todo mundo.
Rapidamente foi
capturado com as redes e conduzido para sua jaula, ganhando até um bife de
presente.
Sem olhar para trás
O problema é que
com a fuga e o estampido do tiro, o alvoroço já estava feito. Em debandada
correria o pessoal nem olhou para trás para testemunhar a captura.
Afinal, quem teria
coragem de retornar ao local?
E durante muitos
anos, nos cafés, bares, boticas e nos encontros sociais de famílias lagunenses, essa
história era contada pelos que a vivenciaram, entre risos dos adultos e os olhos
arregalados das crianças.







Me ri muito desse leão, imaginei a correria pelas ruas. Hoje não tem mais bichos.
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