30 junho 2026

A jangada que veio do Norte e passou por Laguna

 
Entre o último trimestre de 1951 e os primeiros meses de 1952, uma viagem marítima movimentou o Brasil e foi acompanhada atentamente pela imprensa e população.
Cinco pescadores partiram de Fortaleza no Ceará a bordo de uma pequena jangada, num rally pela costa brasileira. Tinham como destino a cidade de Porto Alegre no Rio Grande do Sul.
No longo trajeto de quase 5 mil quilômetros vão adentrar à Barra da Laguna e navegar até às águas da Lagoa Santo Antônio dos Anjos, em frente ao cais do centro da cidade.

Acompanhe essa interessante história, a partir de agora:

A jangada que veio do Norte. Revista Eco de 15 de março de 1952.

      
A partida
Alvorecer de 14 de outubro de 1951, um domingo, Praia do Meirelles, Fortaleza, Ceará.
Cinco pescadores partem numa expedição de cerca de 5 mil quilômetros pelo litoral brasileiro, a bordo de uma pequena jangada com dois metros de largura por seis de comprimento.
Uma embarcação frágil, cujo “casco” é composto por cinco toras de madeira (piúba), unidas lado a lado, com um pequeno mastro para sustentar a vela com 60 metros de pano. Uma rede estirada servia como cama onde os tripulantes se revezavam.
A alimentação durante a longa viagem era formada por rapadura, carne seca, farinha de mandioca e peixe pescado, além de alguns galões d’água potável.
Detalhe: viajavam sem qualquer instrumento de navegação, como bússola ou uma carta náutica.
Eram guiados pelas estrelas, coloração das águas, ventos e sol.
O nome da jangada é Nossa Senhora da Assunção, padroeira do Ceará.
O projeto da viagem foi de Stênio de Azevedo, redator do jornal Correio do Ceará e patrocinado pelo O Globo, do Rio de Janeiro.
Um avião fretado especialmente pelo O Globo acompanhava por via aérea o percurso, pilotado pelo comandante Bonifácio Piechock, tendo a bordo o redator do daquele jornal, José Maria Neves.

Deu no New York Times
A façanha ganhou destaque na imprensa internacional. O sisudo jornal New York Times trouxe matéria.
O cineasta Orson Welles por causa da audaciosa aventura, produzirá um inacabado documentário intitulado É Tudo Verdade, sobre os personagens.
A tripulação da jangada era composta pelo mestre Jerônimo André de Souza, 49 anos, comandante.
Manoel Lopes da Silva (Mané Preto), 49 anos.
Raymundo Correia Lima (Tatá) 62 anos.
Manoel Lopes Martins (Frade) 61 anos e
João Batista de Oliveira (Trinta e um) 31 anos.

Os cinco jangadeiros. Jornal Imprensa Popular (RJ), de 20 de dezembro de 1951.

A travessia era uma forma inusitada de denunciar a precária situação dos pescadores do Ceará e de outros estados.
A jornada era uma aventura marítima transformada em ação política.
Traziam um memorial onde reivindicavam direitos sociais, como aposentadoria e criação de um sindicato para a categoria.
Pediam uma assistência mais concreta e eficiente aos pescadores de todo o Brasil.
O documento era para ser entregue ao presidente Getúlio Vargas.

As escalas pelo litoral
Fizeram várias escalas: Natal, Cabedelo, Recife, Maceió, Salvador, Vitória, Macaé.
Em cada porto eram recebidos como heróis por verdadeiras multidões. Eram entrevistados, fotografados e convidados para passeios e jantares.
No Rio de Janeiro chegaram em 16 de dezembro de 1951 no Posto 6 de Copacabana, após 63 dias de viagem. Desfilaram pela avenida Rio Branco sobre um caminhão. Por cortesia, hospedaram-se no Grande Hotel Presidente.
Foram recepcionados por Vargas no Salão de Despachos do Palácio do Catete, a quem entregaram em audiência o memorial com as reivindicações.

“O trecho sul é muito perigoso, até navios têm por ali desaparecido
Após a solenidade, foram aconselhados a não prosseguir a jornada, encerrá-la na então Capital Federal, afinal a tarefa estava cumprida.

Jornal O Estado - SC de 5 de fevereiro de 1952.

O Almirante da Marinha Frederico Vilar, experiente nas lides do mar, profundo conhecedor de toda a costa brasileira foi um dos que fizeram o pedido, justificando que de Santa Catarina até o Rio Grande do Sul o litoral era muito perigoso. Sobre o trecho sul realçou: 

“Até navios têm por ali desaparecido sem que se saiba o que lhes ocorreu. É muita temeridade enfrentar esses mares do sul com uma jangada. E essas vidas são preciosas. São valentes brasileiros que bem representam o espírito de arrojo e de patriotismo de tal classe”.

Mesmo com os insistentes apelos, a viagem prosseguiu. Mas um dos pescadores, Raymundo Correa Lima (Tatá) ficou para trás, internado num hospital da cidade maravilhosa, por ter contraído malária.
Em seu lugar, para cumprir a etapa final, embarcou Vinicius Lima, jornalista de O Globo.

Do Rio de Janeiro até Paranaguá
Partiram do Rio de Janeiro, da Praia de Copacabana às 12 horas do dia 3 de janeiro de 1952 em direção ao porto de Santos. Concluíram o trajeto em 72 horas chegando em Santos no dia 6 de janeiro.
Durante dez dias receberão inúmeras homenagens, participarão de jantares e visitarão outras cidades, como Campinas e a capital do estado.
Em 16 de janeiro partirão de Santos às 9 horas em direção ao porto de Paranaguá, no litoral do Paraná, aonde chegarão dois dias depois, em 18 de janeiro.
Novas homenagens e visitas, recebimentos de medalhas. Visitarão Curitiba, para onde a jangada será transportada via terrestre e ficará em exposição na Praça Tiradentes.
Partirão em 25 de janeiro em direção a Florianópolis.

Os jangadeiros em sua embarcação. Revista Eco RS, de 15 de março de 1952.

De Paranaguá até Florianópolis
Apesar dos ventos, chuvas e trovoadas, a jangada chegará na Baía Norte de Florianópolis ao meio-dia de 31 de janeiro de 1952, defronte ao Clube Náutico Aldo Luz.
Uma multidão calculada em 15 mil pessoas aguardava a embarcação e seus tripulantes, conforme cálculos da imprensa da época.
 A jangada foi retirada das águas pelos braços do povo, levada e depositada em frente ao Hotel La Porta, na Praça XV de Novembro onde ficou exposta.
Os pescadores e mais o jornalista foram recepcionados pelo prefeito Paulo Fontes e ficaram hospedados na cidade por oito dias.
A jangada só vai partir de Florianópolis no sábado, dia 8 de fevereiro, às 13h40
Por determinação do Almirante Carlos da Silveira Carneiro, comandante do 5º Distrito Naval sediado na capital catarinense, a partir de Florianópolis a jangada será acompanhada pelo Rebocador Tritão (R-21) até o Rio Grande do Sul.
O navio era comandado pelo capitão de Corveta Hélio Leôncio Martins.
O mesmo rebocador do Malteza's
Um detalhe curioso: este Rebocador Tritão (R-21) da nossa Marinha Brasileira será o mesmo que, muitos anos depois, em 26 de maio de 1979, atendendo pedido de SOS, tentará socorrer primeiramente o navio grego Malteza S quando este for encalhado na praia do Gy, na Laguna.

Jornal O Albor anunciou a previsão de chegada da jangada na Laguna
O jornal lagunense O Albor de 9 de fevereiro de 1952 noticiou a previsão de chegada da embarcação em águas da terra juliana, com o título: 

Jangadeiros Cearenses
“Conforme comunicação de Florianópolis, deverão ter saído esta madrugada daquele porto, os Jangadeiros nordestinos, cuja chegada é aguardada aqui às últimas horas da tarde de hoje.
Providências estão sendo tomadas pelas autoridades naval e municipal, no sentido de ser a jangada rebocada das proximidades da Ilha dos Lobos até o ancoradouro da Capitania do Porto local, e assim facilitar a entrada da Barra.
Caso contrário deverá abicar na praia do Mar Grosso.
Os Jangadeiros aguardarão neste porto a chegada do Rebocador Tritão da nossa Marinha de Guerra, especialmente enviado do Rio Grande do Sul, por determinação do Comando do 5º Distrito Naval para comboiá-los durante todo o trajeto deste Porto ao do Rio Grande”.

Jornal lagunense O Albor de 9 de fevereiro de 1952.

   Como já vimos, o Rebocador Tritão já se encontrava em Florianópolis e acompanhou a embarcação até o porto do Rio Grande, passando por Laguna.

De Florianópolis para o sul, passando por Laguna
Após mais de uma semana na Capital catarinense, em 8 de fevereiro de 1952, uma sexta-feira, às 7 horas partiram da Barra Sul de Florianópolis.
Passaram por Imbituba às 23 horas do mesmo dia.
No dia seguinte (9), sábado pela manhã, rebocados pelo Tritão, adentraram a Barra da Laguna até à Lagoa Santo Antônio dos Anjos, proximidades da Agência da Capitania dos Portos.

À direita na foto, a jangada com a vela arriada, junto ao cais da Laguna no fundo dos armazéns, ali na Paixão, imediações da Capitania dos Portos.

O povo lagunense vibrou de entusiasmo, se postando ao longo do cais do centro da cidade (como se pode observar na foto) para receber os pescadores e sua jangada, rebocada pelo Tritão da entrada da barra até as águas calmas da lagoa no centro.

No recorte da foto, pode-se observar melhor a Jangada.

Foram bastante aplaudidos em seu feito, com os lagunenses dando mais uma vez mostras de seu espírito fraterno.
A parada foi curta e na mesma manhã reiniciaram a jornada para o sul.
Em poucas horas já se encontravam passando pela Barra de Araranguá, viajando normalmente com ventos favoráveis.
No fim de tarde daquele mesmo sábado (9), por volta das 18 horas, passaram por Torres.
No dia 11 (segunda-feira), no começo da tarde foram avistados a três quilômetros da Barra do Rio Grande.
Por causa de um temporal, se abrigaram num trecho próximo à Barra, para no dia seguinte (12) adentrá-la.

Enfim, Porto Alegre
No dia 18 de fevereiro, e ainda acompanhado pelo Rebocador Tritão, os pescadores partiram do porto do Rio Grande em direção a Porto Alegre.

Jornal do Dia - RS, de 13 de fevereiro de 1952.

Após alguns percalços na Lagoa dos Patos, a jangada chegou à Praia de Belas às 15 horas do dia 19, comboiada por muitas embarcações e onde uma multidão os esperava.
Às margens do Guaíba o prefeito Ildo Meneghetti fez entrega simbolicamente das chaves da cidade e o governador Ernesto Dornelles discursou, dando boas-vindas.
Raymundo Correia Lima (Tatá) já aguardava para se juntar ao grupo, vindo do Rio de Janeiro dias antes em viagem aérea.
Os jangadeiros visitarão várias cidades gaúchas, numa outra maratona, desta vez terrestre e aérea.
Além de Rio Grande e Porto Alegre, foram a Caxias do Sul, São Borja, Uruguaiana, Santana do Livramento, Bagé, Santa Maria e Cruz Alta, entre outras. Um avião da FAB foi colocado à disposição.

Retornando para casa
Após todos esses dias no Rio Grande do Sul, partiram no dia 10 de março em avião da Cruzeiro do Sul de retorno ao Ceará, com escalas em Santos (SP) e Rio de Janeiro.
Na Capital Federal ainda ficarão por cerca de 20 dias, recuperando-se, recebendo mais homenagens e encontrando-se novamente com o presidente Getúlio Vargas.
Finalmente, no dia 31 de março de 1952 chegaram de volta ao Ceará.
Em Fortaleza foram recepcionados no aeroporto por uma multidão, além de diversas autoridades, entre elas o prefeito Paulo Cabral e o governador do estado. Desfilaram em cortejo pelas ruas da cidade.
Num palanque especialmente montado, foram condecorados com medalhas de ouro.

A jangada ficou no Museu Júlio de Castilhos
A jangada ficou para trás, doada para compor o acervo do Museu Júlio de Castilhos, do Estado do Rio Grande do Sul 
Numa solenidade realizada no dia 9 de março de 1952, com a presença dos jangadeiros, o prefeito de Porto Alegre, Ildo Meneghetti fez a entrega da embarcação cearense ao diretor do Museu, professor Dante de Laytano.

Benefícios sociais e econômicos conseguidos para a classe
Após vários meses, o Governo Federal acenou com algumas poucas medidas que visavam beneficiar os pescadores.
Entre elas estavam a criação de uma cooperativa de produção e consumo, fixação de um salário-mínimo base para a categoria, filiação dos pescadores a um instituto social, instalação de oficinas e construção de embarcações motorizadas em substituição às precárias jangadas.

6 comentários:

  1. Outra história que não conhecia. Meu Deus vir de lá numa jangada, em 5 pescadores?
    Parabéns por recuperar essas histórias e a Laguna sempre nelas .

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  2. Geraldo de Jesus30/06/2026, 13:50

    Quantas histórias hein Valmir? Isso mostra que Laguna não é só Anita Garibaldi como alguns pensam e falam.
    Pena que quase ninguém valoriza isso. Não sabia dessa. Muito bom .

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  3. Maria das Graças Silva Prudencio30/06/2026, 14:02

    História deveras interessante desses bravos homens !
    Merecem todos nosso respeito além de conquistarem direitos sociais para a classe🌟🌟🌟

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  4. Que bacana. Nunca tinha escutado essa história. Parabéns. Show
    Gero Perito

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  5. Valmir, ainda não estava por aqui para presenciar a chegada dos bravos jangadeiros cearenses, por certo descendentes de outros bravos marinheiros portugueses que por aqui aportaram a partir de 1500. E, também, vivi esse tempo todo sem saber dessa odisseia. Maravilha! Abraço

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  6. Parabéns Valmir!!!

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