Entre o último trimestre de 1951 e os primeiros meses de 1952, uma viagem marítima movimentou o
Brasil e foi acompanhada atentamente pela imprensa e população.
Cinco pescadores
partiram de Fortaleza no Ceará a bordo de uma pequena jangada, num rally pela costa
brasileira. Tinham como destino a cidade de Porto Alegre no Rio Grande do Sul.
No longo trajeto de quase 5 mil quilômetros vão adentrar à Barra da Laguna e navegar até às águas da Lagoa Santo Antônio dos Anjos, em frente ao cais do centro da cidade.
Acompanhe essa interessante história, a partir de agora:
Alvorecer de 14
de outubro de 1951, um domingo, Praia do Meirelles, Fortaleza, Ceará.
Cinco pescadores
partem numa expedição de cerca de 5 mil quilômetros pelo litoral brasileiro, a
bordo de uma pequena jangada com dois metros de largura por seis de
comprimento.
Uma embarcação
frágil, cujo “casco” é composto por cinco toras de madeira (piúba), unidas lado
a lado, com um pequeno mastro para sustentar a vela com 60 metros de pano. Uma
rede estirada servia como cama onde os tripulantes se revezavam.
A alimentação
durante a longa viagem era formada por rapadura, carne seca, farinha de mandioca e
peixe pescado, além de alguns galões d’água potável.
Detalhe:
viajavam sem qualquer instrumento de navegação, como bússola ou uma carta
náutica.
Eram guiados
pelas estrelas, coloração das águas, ventos e sol.
O nome da
jangada é Nossa Senhora da Assunção, padroeira do Ceará.
O projeto da
viagem foi de Stênio de Azevedo, redator do jornal Correio do Ceará e
patrocinado pelo O Globo, do Rio de Janeiro.
Um avião fretado
especialmente pelo O Globo acompanhava por via aérea o percurso, pilotado
pelo comandante Bonifácio Piechock, tendo a bordo o redator do daquele jornal,
José Maria Neves.
Deu no New York
Times
A façanha ganhou destaque na imprensa internacional. O
sisudo jornal New York Times trouxe matéria.
O cineasta Orson Welles por causa da audaciosa aventura,
produzirá um inacabado documentário intitulado É Tudo Verdade, sobre os
personagens.
A tripulação da
jangada era composta pelo mestre Jerônimo André de Souza, 49 anos, comandante.
Manoel Lopes da
Silva (Mané Preto), 49 anos.
Raymundo Correia
Lima (Tatá) 62 anos.
Manoel Lopes
Martins (Frade) 61 anos e
João Batista de
Oliveira (Trinta e um) 31 anos.
A travessia era uma
forma inusitada de denunciar a precária situação dos pescadores do Ceará e de
outros estados.
A jornada era uma aventura marítima transformada em ação política.
Traziam um
memorial onde reivindicavam direitos sociais, como aposentadoria e criação de
um sindicato para a categoria.
Pediam uma
assistência mais concreta e eficiente aos pescadores de todo o Brasil.
O documento era
para ser entregue ao presidente Getúlio Vargas.
As escalas pelo
litoral
Fizeram várias
escalas: Natal, Cabedelo, Recife, Maceió, Salvador, Vitória, Macaé.
Em cada porto
eram recebidos como
heróis por verdadeiras multidões. Eram entrevistados, fotografados e convidados
para passeios e jantares.
No Rio de Janeiro chegaram em 16 de dezembro de 1951 no Posto 6 de
Copacabana, após 63 dias de viagem. Desfilaram pela avenida Rio Branco sobre um
caminhão. Por cortesia, hospedaram-se no Grande Hotel Presidente.
Foram recepcionados por Vargas no Salão
de Despachos do Palácio do Catete, a quem entregaram em audiência o memorial
com as reivindicações.
“O trecho sul é
muito perigoso, até navios têm por ali desaparecido”
Após a
solenidade, foram aconselhados a não prosseguir a jornada, encerrá-la na então
Capital Federal, afinal a tarefa estava cumprida.
O Almirante da
Marinha Frederico Vilar, experiente nas lides do mar, profundo conhecedor de
toda a costa brasileira foi um dos que fizeram o pedido, justificando que de
Santa Catarina até o Rio Grande do Sul o litoral era muito perigoso. Sobre o
trecho sul realçou:
“Até
navios têm por ali desaparecido sem que se saiba o que lhes ocorreu. É muita
temeridade enfrentar esses mares do sul com uma jangada. E essas vidas são
preciosas. São valentes brasileiros que bem representam o espírito de arrojo e
de patriotismo de tal classe”.
Mesmo com os
insistentes apelos, a viagem prosseguiu. Mas um dos pescadores, Raymundo Correa
Lima (Tatá) ficou para trás, internado num hospital da cidade maravilhosa, por
ter contraído malária.
Em seu lugar,
para cumprir a etapa final, embarcou Vinicius Lima, jornalista de O Globo.
Do Rio de
Janeiro até Paranaguá
Partiram do Rio
de Janeiro, da Praia de Copacabana às 12 horas do dia 3 de janeiro de 1952 em
direção ao porto de Santos. Concluíram o trajeto em 72 horas chegando em Santos
no dia 6 de janeiro.
Durante dez dias
receberão inúmeras homenagens, participarão de jantares e visitarão outras
cidades, como Campinas e a capital do estado.
Em 16 de janeiro
partirão de Santos às 9 horas em direção ao porto de Paranaguá, no litoral do
Paraná, aonde chegarão dois dias depois, em 18 de janeiro.
Novas homenagens
e visitas, recebimentos de medalhas. Visitarão Curitiba, para onde a jangada será
transportada via terrestre e ficará em exposição na Praça Tiradentes.
Partirão em 25
de janeiro em direção a Florianópolis.
De Paranaguá até
Florianópolis
Apesar dos
ventos, chuvas e trovoadas, a jangada chegará na Baía Norte de Florianópolis ao
meio-dia de 31 de janeiro de
1952, defronte ao Clube Náutico Aldo Luz.
Uma multidão
calculada em 15 mil pessoas aguardava a embarcação e seus tripulantes, conforme
cálculos da imprensa da época.
A jangada foi retirada das águas pelos braços
do povo, levada e depositada em frente ao Hotel La Porta, na Praça XV de
Novembro onde ficou exposta.
Os pescadores e
mais o jornalista foram recepcionados pelo prefeito Paulo Fontes e ficaram hospedados
na cidade por oito dias.
A jangada só vai
partir de Florianópolis no sábado, dia 8 de fevereiro, às 13h40
Por determinação
do Almirante Carlos da Silveira Carneiro, comandante do 5º Distrito Naval
sediado na capital catarinense, a partir de Florianópolis a jangada será
acompanhada pelo Rebocador Tritão (R-21) até o Rio Grande do Sul.
O navio era
comandado pelo capitão de Corveta Hélio Leôncio Martins.
O mesmo rebocador do Malteza's
Um detalhe
curioso: este Rebocador Tritão (R-21) da nossa Marinha Brasileira será o mesmo
que, muitos anos depois, em 26 de maio de 1979, atendendo pedido de SOS, tentará
socorrer primeiramente o navio grego Malteza S quando este for encalhado na praia do
Gy, na Laguna.
Jornal O
Albor anunciou a previsão de chegada da jangada na Laguna
O jornal
lagunense O Albor de 9 de fevereiro de 1952 noticiou a previsão de
chegada da embarcação em águas da terra juliana, com o título:
Jangadeiros Cearenses
“Conforme
comunicação de Florianópolis, deverão ter saído esta madrugada daquele porto,
os Jangadeiros nordestinos, cuja chegada é aguardada aqui às últimas horas da
tarde de hoje.
Providências
estão sendo tomadas pelas autoridades naval e municipal, no sentido de ser a
jangada rebocada das proximidades da Ilha dos Lobos até o ancoradouro da
Capitania do Porto local, e assim facilitar a entrada da Barra.
Caso
contrário deverá abicar na praia do Mar Grosso.
Os Jangadeiros
aguardarão neste porto a chegada do Rebocador Tritão da nossa Marinha de
Guerra, especialmente enviado do Rio Grande do Sul, por determinação do Comando
do 5º Distrito Naval para comboiá-los durante todo o trajeto deste Porto ao do
Rio Grande”.
![]() |
Jornal lagunense O Albor de 9 de fevereiro de 1952. |
De Florianópolis
para o sul, passando por Laguna
Após mais de uma
semana na Capital catarinense, em 8 de fevereiro de 1952, uma sexta-feira, às 7
horas partiram da Barra Sul de Florianópolis.
Passaram por
Imbituba às 23 horas do mesmo dia.
No dia seguinte
(9), sábado pela manhã, rebocados pelo Tritão, adentraram a Barra da
Laguna até à Lagoa Santo Antônio dos Anjos, proximidades da Agência da
Capitania dos Portos.
![]() |
À direita na foto, a jangada com a vela arriada, junto ao cais da Laguna no fundo dos armazéns, ali na Paixão, imediações da Capitania dos Portos. |
O povo lagunense
vibrou de entusiasmo, se postando ao longo do cais do centro da cidade (como se
pode observar na foto) para receber os pescadores e sua jangada, rebocada pelo Tritão
da entrada da barra até as águas calmas da lagoa no centro.
Foram bastante
aplaudidos em seu feito, com os lagunenses dando mais uma vez mostras de seu
espírito fraterno.
A parada foi
curta e na mesma manhã reiniciaram a jornada para o sul.
Em poucas horas
já se encontravam passando pela Barra de Araranguá, viajando normalmente com
ventos favoráveis.
No fim de tarde daquele
mesmo sábado (9), por volta das 18 horas, passaram por Torres.
No dia 11
(segunda-feira), no começo da tarde foram avistados a três quilômetros da Barra
do Rio Grande.
Por causa de um
temporal, se abrigaram num trecho próximo à Barra, para no dia seguinte (12)
adentrá-la.
Enfim, Porto
Alegre
No dia 18 de
fevereiro, e ainda acompanhado pelo Rebocador Tritão, os pescadores
partiram do porto do Rio Grande em direção a Porto Alegre.
Após alguns
percalços na Lagoa dos Patos, a jangada chegou à Praia de Belas às 15 horas do
dia 19, comboiada por muitas embarcações e onde uma multidão os esperava.
Às margens do
Guaíba o prefeito Ildo Meneghetti fez entrega simbolicamente das chaves da
cidade e o governador Ernesto Dornelles discursou, dando boas-vindas.
Raymundo Correia
Lima (Tatá) já aguardava para se juntar ao grupo, vindo do Rio de Janeiro dias
antes em viagem aérea.
Os jangadeiros visitarão
várias cidades gaúchas, numa outra maratona, desta vez terrestre e aérea.
Além de Rio
Grande e Porto Alegre, foram a Caxias do Sul, São Borja, Uruguaiana, Santana do
Livramento, Bagé, Santa Maria e Cruz Alta, entre outras. Um avião da FAB foi
colocado à disposição.
Retornando para
casa
Após todos esses
dias no Rio Grande do Sul, partiram no dia 10 de março em avião da Cruzeiro do
Sul de retorno ao Ceará, com escalas em Santos (SP) e Rio de Janeiro.
Na Capital Federal
ainda ficarão por cerca de 20 dias, recuperando-se, recebendo mais homenagens e
encontrando-se novamente com o presidente Getúlio Vargas.
Finalmente, no
dia 31 de março de 1952 chegaram de volta ao Ceará.
Em Fortaleza
foram recepcionados no aeroporto por uma multidão, além de diversas autoridades,
entre elas o prefeito Paulo Cabral e o governador do estado. Desfilaram em
cortejo pelas ruas da cidade.
Num palanque
especialmente montado, foram condecorados com medalhas de ouro.
A jangada ficou
no Museu Júlio de Castilhos
A jangada ficou
para trás, doada para compor o acervo do Museu Júlio de Castilhos, do Estado do Rio Grande do Sul
Numa solenidade
realizada no dia 9 de março de 1952, com a presença dos jangadeiros, o prefeito
de Porto Alegre, Ildo Meneghetti fez a entrega da embarcação cearense ao
diretor do Museu, professor Dante de Laytano.
Benefícios
sociais e econômicos conseguidos para a classe
Após vários
meses, o Governo Federal acenou com algumas poucas medidas que visavam
beneficiar os pescadores.
Entre elas
estavam a criação de uma cooperativa de produção e consumo, fixação de um salário-mínimo
base para a categoria, filiação dos pescadores a um instituto social,
instalação de oficinas e construção de embarcações motorizadas em substituição
às precárias jangadas.








Outra história que não conhecia. Meu Deus vir de lá numa jangada, em 5 pescadores?
ResponderExcluirParabéns por recuperar essas histórias e a Laguna sempre nelas .
Quantas histórias hein Valmir? Isso mostra que Laguna não é só Anita Garibaldi como alguns pensam e falam.
ResponderExcluirPena que quase ninguém valoriza isso. Não sabia dessa. Muito bom .
História deveras interessante desses bravos homens !
ResponderExcluirMerecem todos nosso respeito além de conquistarem direitos sociais para a classe🌟🌟🌟
Que bacana. Nunca tinha escutado essa história. Parabéns. Show
ResponderExcluirGero Perito
Valmir, ainda não estava por aqui para presenciar a chegada dos bravos jangadeiros cearenses, por certo descendentes de outros bravos marinheiros portugueses que por aqui aportaram a partir de 1500. E, também, vivi esse tempo todo sem saber dessa odisseia. Maravilha! Abraço
ResponderExcluirParabéns Valmir!!!
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