Hoje,
mais um capítulo pra gente conversar sobre história, visando complementar artigos que venho escrevendo aqui. O texto é longo, eu sei, mas penso que interessante.
Comecemos do começo.
O que é fonte primária?
O que é fonte primária?
É
um termo utilizado em várias disciplinas.
Diz
a Wikipédia, em excelente definição:
“Na
chamada historiografia, a chamada fonte primária – também denominada por muitos
de “original”, é um documento, gravação ou outra fonte de informação,
como um documento escrito ou uma figura por exemplo, criado no tempo em que se estuda, por uma fonte autoridade, geralmente uma com conhecimento pessoal direto
dos eventos descritos. Serve como fonte original da informação sobre
o tópico.
Uma
fonte primária pode ser uma fonte em primeira mão sobre o passado, como um
diário ou um artefato. Fontes primárias são descritas como fontes mais próximas
à origem da informação ou ideia em estudo”.
Fontes
primárias são descritas como fontes mais próximas à origem da informação ou
ideia em estudo. Fontes primárias proporcionam aos pesquisadores
"informação direta, sem mediação sobre o objeto em estudo."
São
exemplos comuns de fontes primárias:
- correspondências e diários
- assentos de registros públicos ou
privados (civis, imobiliários, censitários, financeiros etc.)
- Periódicos
- textos literários e
narrativos
Fontes
primárias são bem diferentes de fontes secundárias, que na maioria das vezes
citam, comentam sobre, ou constroem conclusões baseadas em fontes primárias.
Vou
dar três exemplos das chamadas fontes primárias. Somente três pra gente não se
estender em demasia nesse tema.
O
primeiro é sobre a história do Brasil e seu descobrimento, já comentado há
alguns dias aqui; os outros dois exemplos são cá da nossa história lagunense e
vou puxar a brasa para ela.
Que
o leitor deste blog, sempre muito interessado, preste atenção neles, porque
servirão de base para o próximo escrito (post) a ser publicado, e que vai
tratar sobre a FUNDAÇÃO DE SANTO ANTÔNIO
DOS ANJOS DA LAGUNA, em 1676, ano que não foi criado aleatoriamente, como veremos
e provaremos.
Três
exemplos de fontes primárias:
1º exemplo:
Descobrimento do Brasil em 22 de abril
de 1500 e a carta de Pero Vaz de Caminha.
Até
o início da chamada Revolução de 1930, o Brasil comemorava seu Descobrimento no dia 3
de maio, como já vimos aqui, há alguns dias, em matéria publicada.
O
dia 3 de maio era a data de Descobrimento, segundo o historiador lusitano
Gaspar Correia que a deduziu do fato
de Cabral ter batizado a terra de “Vera Cruz”, nome depois mudado pelo rei dom Manuel
para “Santa Cruz”, em função da comemoração religiosa de mesmo nome, que ocorria
a 3 de maio.
Mas ai surgiu um documento que por três séculos
ficou esquecido nos arquivos portugueses e que acabou vindo para o Brasil com
D. João VI e toda a família imperial, em 1808. Era a Carta do escrivão da frota
de Cabral, Pero Vaz de Caminha, testemunha ocular da história.
A descoberta do documento deveu-se ao pesquisador
e padre Aires de Casal, que o publicou no ano de 1817.
Mesmo assim, a data só entrou oficialmente para o
calendário no início da Revolução de 30.
Quem
iria contestar o escrivão de Cabral, que estava ao seu lado no convés, quando
se avistou as novas terras?
2º exemplo:
Garibaldi conhece Anita
As
memórias de Garibaldi, suas notas ditadas a Alexandre Dumas, constitui um rico
depoimento sobre sua participação na Guerra dos Farrapos (Revolução Farroupilha) e sobre a mal fadada
República Catarinense (ou Juliana, como queiram).
Escrita
alguns anos após os acontecimentos, é um rico documento para se entender o que
foram aqueles dias e bem por isso, farto material para pesquisadores,
historiadores e escritores.
Muitos
já escreveram sobre isso, evidentemente, e não vou me alongar. O intuito é
trazer mais um exemplo de fonte primária. Aqui, no caso, onde e como se
conheceram os dois personagens, Anita e Garibaldi:
(...)
da minha cabina no Itaparica, eu dirigia o meu olhar à ribeira. O morro da
Barra encontrava-se próximo e, do meu bordo, eu descobria as belas jovens ocupadas
nos seus diversos afazeres domésticos. Uma delas atraía-me mais especialmente
que as outras...
Dada
a ordem de desembarque, tomei o caminho da casa sobre a qual havia já algum
tempo fixara-se toda a minha atenção. O meu coração disparava, mas também
encerrava, malgrado a sua comoção, uma dessas resoluções que jamais esmorecem.
Um homem (eu já o avistara) convidou-me a entrar. Tentasse fazê-lo bruscamente
e ele me teria impedido.
“Virgem
criatura, tu serás minha!”, foi o que disse ao ter a jovem diante de mim. E
com tais palavras eu forjava uma aliança que somente a morte haveria de
romper”.(...).
Veja
você leitor, que Garibaldi afirma que avistou e conheceu Anita pela primeira
vez na Barra “onde o Morro encontrava-se próximo”.
Conjecturar
fora disso para o primeiro encontro deles dois, é licença poética de qualquer
autor. E são muitos. Mas não passa disso: conjecturas.
Se
o próprio Garibaldi afirma que encontrou Anita próximo ao Morro da Barra, não
sou eu, nem você, nem ninguém que vai afirmar o contrário.
O
manezinho tem uma expressão, tão repetida atualmente e que resume bem o que
poderia ser uma chamada fonte primária:
-
Se tu dix...
E
é bem isso. Se ele, Garibaldi, que estava presente e era parte interessada no
encontro, diz que os fatos se deram assim em suas memórias, quem somos nós para
contestarmos?
3º exemplo:
Anita Garibaldi e a certidão de
casamento em Montevidéu, no Uruguai, onde ela afirma ser lagunense.
Até hoje, vez por outra, o local de nascimento de
Ana de Jesus Ribeiro, a nossa Anita Garibaldi, é contestado. Há até autores, no
passado, que afirmam ter ela nascido em Lages; e há também os que a defendem gaúcha.
O livro de registro de batismo da nossa Paróquia abrangendo o período de 1821 a 1824, encontra-se desaparecido.
Mas um documento, fonte primária fidelíssima, cita
como sendo ela lagunense.
Qual é?
É a certidão de seu segundo casamento e as
anteriores atas antenupciais – documentos em cópias trazidos ao conhecimento na
obra “O Perfil de uma Heroína Brasileira”, e “Onde nasceu a lagunense
Anita Garibaldi”, de Wolfgang Ludwig Rau.
No registro de matrimônio realizado em Montevidéu,
Uruguai, entre Anita e Garibaldi, em 26 de março de 1842, consta, entre as
declarações pessoais (as já citadas atas antenupciais):
“D. José Garibaldi natural de Nice na Itália,
filho legítimo de Domingos Garibaldi e de Dona Rosa Raimundo; ante V.S. me
apresento e digo: Que tenho determinado tomar estado de matrimônio com Dona Ana
Maria de Jesus, natural de Laguna, no Brasil, e desejando realizá-lo
segundo a ordem estabelecida pela nossa Santa Madre Igreja Católica Apostólica
Romana (...).
Não há o que discutir. Se ela, a
própria Anita declarou ser natural de Laguna, quem ousa contestar?
Agora ter nascido aqui e ali (Morrinhos?
Mirim?), aí é motivo de controvérsias. Mas tudo era Laguna, então lagunense ela
o é, sem dúvida alguma.
Aliás, de tão importante, esse é um dos
documentos – UMA FONTE PRIMÁRIA, FRISO MAIS UMA VEZ - que serviu
para embasar a ação judicial movida pelo advogado Adilcio Cadorin, quando do
pedido na Justiça, da emissão da chamada “Certidão de Nascimento tardia”
de Anita e que logrou êxito em maio de 1999.
Viram a importância da chamada “fonte
primária”?
Ela pode ser contestada? Evidentemente
que sim, por outra fonte primária do mesmo peso e valor e/ou por acontecimentos
posteriores que provem muito bem provadinho ter sido errônea àquela informação primeira.
O autor de uma fonte primária pode estar mentindo ou ter-se enganado quanto à datas, lugares, nomes e fatos. Mas como contestar? É preciso bons e sólidos argumentos e contraprovas.
O autor de uma fonte primária pode estar mentindo ou ter-se enganado quanto à datas, lugares, nomes e fatos. Mas como contestar? É preciso bons e sólidos argumentos e contraprovas.
Na próxima matéria, abordo o ano da
Fundação de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, por Domingos de Brito Peixoto,
no ano de 1676.
E trago a fonte primária, inconteste, que
prova isso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário