sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Obelisco do centenário da República Catarinense

Aproximava-se o aniversário do centenário da República Catarinense, com sua tomada da Laguna e o histórico e romanceado encontro de Giuseppe Garibaldi com Anita.
Em 29 de julho de 1939 faria cem anos da data em que aconteceu a proclamação da República Catarinense, da janela do prédio do Paço Municipal, onde hoje funciona o Museu Anita Garibaldi.
O Obelisco, após sua inauguração em 1939.
Pouco mais de um ano antes, em março de 1938, Antônio Bessa, proprietário do jornal O Albor, e os colunistas do semanário encetaram ampla campanha em prol da comemoração da futura data do centenário.
Em maio de 1938 uma comissão de festejos foi criada. Dentre os nomes, certamente muitos antepassados de leitores aqui do Blog. Ficou assim constituída:

Comissão de festejos
Presidente de honra: Nereu Ramos. Presidente: Giocondo Tasso. 1º vice-presidente: Antônio P. da Silva Medeiros. 2º vice-presidente: Padre Bernardo Philippi. 1º secretário: José Freitas. 2º secretário: Alyrio J. Alcântara. 1º tesoureiro: Pompílio Pereira Bento. 2º tesoureiro: João Nunes Netto.
Membros: Oscar Leitão, João Guimarães Cabral, Álvaro Catão, Salvato Pinho, Jacinto Tasso, Luiz Severino Duarte, Saul Ulysséa, Humberto Zanella, João Silva de Oliveira, Olímpio Pacheco dos Reis, Francisco Martins Fonseca e Júlio de Oliveira.
Comissão de publicidade: Antônio Bessa, João de Oliveira, José Freitas, João Rodolfo Gomes, Mário Mattos, Ruben Ulysséa, Romeu Ulysséa, Acari Silva, Acari Fiúza Lima, Mário Cabral, José Pinto Varela Júnior, Saul Ulysséa, Otávio Bessa, Rui Marques, Manoel Bessa, João Clemente de Carvalho e Álvaro Pinto da Costa Carneiro.
Comissão de finanças: João Guimarães Cabral, Luiz Severino Duarte, Francisco Martins Fonseca, Álvaro Catão, João Silva de Oliveira, Salvato Pinho, Euzébio Mendonça Nunes, Pedro Rocha, Antônio Batista da Silva, Humberto Zanella e Olímpio Pacheco dos Reis.
 Quatro anos antes desses acontecimentos, em 20 de setembro de 1935, o Rio Grande do Sul havia comemorado com brilhantismo, e em grande solenidade, o Centenário Farroupilha, numa promoção dos governos, federal e estadual.

Os do contra
Quando a Laguna se propôs a comemorar a histórica data de sua própria República, algumas vozes se levantaram contra a efeméride.
Alguns historiadores catarinenses da época alegavam os crimes cometidos, principalmente o chamado saque a Imaruí e a morte cruel do padre Araújo Vilela que, a favor em princípio da República, depois se rebelou contra as atrocidades cometidas por ela.
Alguns historiadores chegaram a emitir pareceres ao Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina “de que não se deve festejar o centenário em virtude de se ter verificado muitos fatos deploráveis no desenrolar daquele acontecimento histórico”.
Aventou-se também, que o clero era contra as comemorações do centenário por causa da participação da maçonaria na República. Mas depois, provou-se não ser verdade esse motivo, tanto que missa campal foi realizada pelo pároco local, como veremos adiante.

Desânimo
Num editorial de capa, o jornal O Albor insurge-se aos contrários, dizendo: “O esplendor da festa que estava programada está, pois, imensamente comprometida, tendo o desânimo contaminado à alma dos próprios moços, tanto assim que os brilhantes literatos José (Zeca) Freitas, Ruben Ulysséa, Romeu Ulysséa, João Rodolfo Gomes e Mário Cabral, desistiram de fazer circular a “Revista Farroupilha”.
Era uma publicação prevista em contar pelas mãos e pontos de vistas de vários escritores e jornalistas lagunenses, a história da Revolução Farroupilha e o capítulo abrangendo Laguna. Imaginem o valor histórico e literário da revista nos dias atuais.
O Albor ainda ressalta a coincidência de datas e a incoerência de historiadores e autoridades catarinenses contrários aos festejos, tendo em vista que a República Catarinense findou na Laguna, em 15 de novembro de 1839, derrotados os farroupilhas na batalha naval à entrada da Barra.
No mesmo dia, 50 anos depois, em 1889, A República seria proclamada no Brasil pelo marechal Deodoro da Fonseca.
A primeira República plantada pela ponta da espada de David Canabarro; já a segunda pela ponta de outra espada, a de Deodoro.

Sugestões às comemorações
Como sempre acontece, uma comissão foi formada com vistas aos preparativos ao evento. O jornal O Albor por sua vez, dava sugestões pelas suas páginas:
·        Inauguração dos prédios do Posto de Saúde e Agência da Capitania dos Portos;
·        Inauguração do Campo de Aviação (Aeroporto);
·        Inauguração do Busto de Jerônimo Coelho;
·        Inauguração da moderna e nova sede do Clube Blondin;
·        Inauguração de uma Escola Profissionalizante, pelo Governo do estado;
·        Inauguração da nova Estação da Estrada de Ferro no bairro Campo de Fora;
·        Lançamento da pedra fundamental do Asilo de Mendicidade;
·        Procissões de Santo Antônio dos Anjos e Nossa Senhora dos Navegantes, fora de suas datas consagradas;
·        Lançamento de selo com a esfinge de Anita Garibaldi;
·        Obras de arte, como pinturas e busto de Anita Garibaldi;
·        Revista Farroupilha;
·        Etc.

Era um ambicionado programa que, por um motivo ou outro, acabou não se realizando naquela data.
Mas as comemorações aconteceram. Mais modestas, é bem verdade, mas nem por isso deixam de ser dignas de registro.
Praticamente a maioria das obras propostas e elencadas acima seria concretizada meses, anos e até décadas depois, como foi o caso do busto de Jerônimo Coelho, no Largo do Rosário, inaugurado somente em 28 de julho de 1981.
Faltando poucas semanas para a data, o jornal O Albor ainda protestava e se indignava, dizendo:

“Parece que pouco se fará e talvez nada se viesse a fazer se o ilustre prefeito Giocondo Tasso – constituindo-se a sentinela vigilante das glórias do nosso passado – não mandasse erigir um artístico Obelisco na antiga Praça da República, diante do qual irão desfilar os colegiais, os esportistas e os atiradores do Tiro de Guerra 137”.

Curiosidade
A título de curiosidade: a Praça da República era chamada anteriormente a antiga Praça do Paço do Conselho (conhecida popularmente como Praça da Cadeia), depois denominada Praça Conde D’eu, Praça da República, Praça Conselheiro Mafra, Praça Anita Garibaldi, Praça da Bandeira e finalmente, pela Lei nº 14/71, assinada pelo prefeito Saul Ulysséa, a atual Praça República Juliana.
A então Praça Conselheiro Mafra (hoje República Juliana), à direita, em 1910.
Comemorações
Assim, em 22 de julho de 1939, um sábado, deu-se início as comemorações, no que hoje poderíamos chamar de uma variável cívico-militar de uma Semana Cultural, esta evidentemente criada décadas depois.
Neste dia, há cem anos, explicava o jornal O Albor didaticamente aos seus leitores, foi proclamada a República Catarinense pelo decreto nº 22 do Governo Juliano. “O povo lagunense desde os fins do século passado se habituou a rever nesta data um dos episódios mais fascinantes do seu longo passado histórico”.
Já no dia 29 de julho de 1839 ocorreu a sessão solene da Proclamação da República Catarinense, com confecção de ata pelos vereadores no Paço do Conselho.

Cidade Juliana e não República Juliana
Saliente-se que a denominação “Juliana” não foi conferida à República, mas à Vila da Laguna, elevada à categoria de cidade e de capital. “Cidade Juliana”, assim foi denominada naquele curto período e que consta em documentos da época e em matérias no jornal O Povo, órgão de imprensa que publicava os ideais e as notícias republicanas.

Programação
A programação do centenário foi extensa, com sessões cívicas, cerimônia religiosa, muitos discursos, bandas, hinos, foguetes (não poderiam faltar) e baile. Penso ser interessante um resumo aos leitores. No dia 22, no mesmo horário das 16 horas, aconteceram simultaneamente duas Sessões Cívicas, uma no Ginásio Lagunense e outra no Cine Palace. Em idêntico horário. Coisas da Laguna.

No Ginásio Lagunense
No tradicional estabelecimento escolar, a sessão contou com grande número de autoridades, professores, alunos e familiares.
Presidiu a sessão e compondo a mesa, o diretor do Ginásio, Germano Donner; Ari Pereira Oliveira, juiz de Direito da Comarca; Marcílio João da Silva Medeiros, promotor público; professor Paulo Gailit, secretário; e os professores Ruben Ulysséa, José Pinto Varela Júnior, Mário Greenhalgh Cabral, Romeu Ulysséa e Joaquim Brasil Cabral.
A tarde ia ser longa e prometia em discursos, como era usual à época.
Tomou à palavra o diretor Germano Donner, justificando as homenagens aos heróis de 1839.
Em seguida discursou a aluna da 5ª série, Edith Menezes d’Aquino, lendo estudo sobre a República Catarinense.
Logo após, a aluna Rosa Janeiro Fortes, 4ª série, narrou como os fatos se desenrolaram nos 106 dias da República.
Já as figuras heroicas de Anita Garibaldi e João Henrique, foram exaltadas pelos alunos da 3ª série, Maria Lígia de Oliveira e Nagib Feliz.
O Combate de 15 de Novembro foi relembrado pelo aluno da 4ª série Aderbal Alcântara, “arrancando merecidos aplausos da culta assistência”.
Os acontecimentos de 1839 “em palavras repassadas de patriotismo”, foram proferidas pelo aluno da 5ª série, Aurélio Oliveira Costa.
Usou ainda da palavra, fechando o ciclo dos alunos, Antônio Roxo Filho, da 3ª série, que teceu sobre os heróis de um século atrás.
O pessoal já tinha tomado uma aula de história por quase duas horas, quando, por fim, o professor José Pinto Varela Júnior “evocou o homérico episódio do transporte, por terra, da frota naval farroupilha”.
A cerimônia foi encerrada com todos cantando o Hino Nacional e assinaturas na ata da sessão. Muita gente gostou e se apressou para assistir a outra Sessão Cívica que acontecia naquele instante a poucos metros dali.

No Cine Palace
No Cine Palace (ex-Cine Central), hoje Centro Cultural Santo Antônio dos Anjos), na Praça Vidal Ramos, a sessão já tinha começado.
A dependência daquela casa de diversões (Naquela ocasião, arrendada ao Sr. Epiphânio Joaquim Nunes Medeiros, mais tarde proprietário do Cine Roma), já se encontrava lotada muito antes da hora do início do evento.
“Numerosas famílias, figuras representativas das nossas classes conservadoras, comissões de alunos e professores, além da Banda União dos Artistas, davam um aspecto imponente ao recinto”, realça O Albor.
Abriu a sessão o prefeito Giocondo Tasso, ladeado por Ari Pereira Oliveira, juiz substituto em exercício da Comarca.
Em seguida a palavra foi dada ao professor Ruben Ulysséa.
O educador lagunense fez uma exposição pormenorizada das causas que determinaram a República Catarinense. Com testemunhos e citando documentos, mostrou que os lagunenses não foram adesistas de última hora. Que a insatisfação social, política e econômica já vinha há muitos anos sendo gestada na sociedade lagunense e sulina.
Analisou ainda as figuras de Garibaldi, Anita, Canabarro, João Henrique Teixeira e padre Villela de Araújo.
Foi aplaudidíssimo pelos presentes.
Este discurso pode ser lido em sua íntegra no livro “Laguna Memória histórica/Ruben Ulysséa.- Letra Ativa, 2004. Págs. 86 a 92.
Usou da palavra logo após, o promotor público da Comarca, Marcílio Medeiros (futuro desembargador), que discorreu sobre as tradições de honradez e patriotismo da gente lagunense. Terminou por concitar a juventude a imitar o exemplo de seus antepassados.
Em seguida, a jovem Francelina Barreto, em nome da mulher brasileira, reverenciou a memória de todos os que tombaram em defesa dos ideais republicanos da terra barriga-verde.
Em visita aos seus familiares à ocasião, e convidado, discursou o acadêmico Pery Barreto, que falou aos seus conterrâneos, “demonstrando largos recursos oratórios”.
Por fim, encerrando a sessão, o jovem lagunenses acadêmico de Direito, Armando Calil Bullos (futuro deputado estadual por Laguna, dali a alguns anos), mostrou toda sua eloquência. “Não foi, pois, surpresa a sua magnífica oração, num final que empolgou toda a numerosa assistência”, sublinha o jornal O Albor, periódico que me socorri para escrever estas páginas.
A Sessão Cívica terminou com todos cantando o Hino Nacional.

No dia 29, a inauguração do Obelisco

Às 10 horas da manhã, sábado seguinte, em altar especialmente erguido na então Praça Conselheiro Mafra (defronte ao futuro Museu Anita Garibaldi), o vigário da paróquia Bernardo Philippi celebrou missa campal.
O Albor assim descreveu a cena:

“Foi uma cerimônia sobremaneira impressiva. Na manhã radiosa, aquele logradouro, literalmente cheio pela multidão que acorrera a assistir ao ato religioso, oferecia um aspecto imponente.
Formando os lados de um grande triângulo, postavam-se, em perfeito alinhamento, os atiradores do Tiro de Guerra 137, e os alunos do Ginásio Lagunense, dos Grupos Escolares Jerônimo Coelho e Professora Ana Gondin, do Colégio Stella Maris e da Escola Comendador Rocha.
No vértice, sob as respectivas bandeiras, as Bandas Carlos Gomes e União dos Artistas”.

Cerimônia religiosa
A cerimônia religiosa contou com a presença do representante do Interventor Federal no estado de Santa Catarina, Nereu Ram, Asteróide Arantes, do prefeito da Laguna, Giocondo Tasso, autoridades, estudantes, professores e populares.
Um “afinado coral de vozes entoou cânticos sacros durante a celebração da missa”.
Padre Bernardo Philippi lembrou os deveres dos cidadãos para com a pátria. “Evocou o heroísmo dos lagunitas da epopeia farroupilha”.
Ao ser erguida a santa hóstia, a Banda Musical União dos Artistas executou o Hino Nacional.
Terminada a cerimônia religiosa, aconteceu a inauguração do monumento. Num gesto simbólico, prefeito Giocondo Tasso, e Asteróide Arantes cortaram a fita que prendia o pavilhão nacional à base de granito. Duas placas de bronze destacavam-se, uma de cada lado:
“À Anita Garibaldi, Heroína dos Dois Mundos, sua terra natal”.
“Aos heróis lagunenses da epopeia de 1839”.

Anos depois, mais duas placas serão afixadas no Obelisco.
A primeira delas em 1987, na 1ª gestão de João Gualberto Pereira/Rogério Wendhausen (1983-1988), trazia os nomes dos lagunenses Voluntários da Pátria, na Guerra do Paraguai.
A outra, em 1989 quando da passagem do Sesquicentenário da República, na gestão Nelson Abrahão Neto/Zeno Alano Vieira (1989-1992). Ambas as placas foram furtadas. 
Eis as fotos das duas placas:

Continuando a cerimônia, o prefeito Giocondo subiu ao pedestal e proferiu seu discurso, dizendo em breves palavras:

“Erigido pelo governo municipal, para perpetuar a memória dos bravos lagunenses tombados pelo ideal republicano na gloriosa jornada de 1839, e principalmente concretizar uma homenagem da Laguna à intrépida mulher que conquistou na história o título de Heroína dos Dois Mundos. Este Obelisco transformará o local onde está plantado em altar das mais caras tradições. E nos grandes dias de nacionalidade, quando o pavilhão auriverde tremular neste mastro assinalando as glórias de nossa pátria vos podereis recordar que os lagunenses em todos os tempos também lutaram e se sacrificaram pela grandeza do Brasil”.

O redator do jornal O Albor, presente ao ato, estava inspirado. Anota e descreve em sua pequena caderneta palavras poéticas sobre o Obelisco de granito:

“Há um tempo sóbrio e majestosos nas suas linhas verticais, que pretendem ganhar a altura, como o sonho de liberdade daqueles cuja memória perpetua, o Obelisco da Praça Conselheiro Mafra é um monumento que vem, sem dúvida, enriquecer o patrimônio da cidade. Como um marco, a assinalar o local onde o povo, vibrante de entusiasmo, ouviu, há um século, a proclamação da Câmara Municipal, evoca ainda a figura extraordinária da Heroína dos Dois Mundos e a bravura dos heróis que pereceram em 1839, legando à posteridade o exemplo do seu sacrifício e da sua fé nas instituições democráticas”.

No Ginásio Lagunense
Às 14 horas daquele dia, novamente aconteceu uma recepção no Ginásio Lagunense (hoje prédio da Biblioteca Pública Romeu Ulysséa).
Membros do Centro Acadêmico XI de Fevereiro (Faculdade de Direito) e da Associação Cultural Luiz Delfino, de Florianópolis, foram recepcionados pelo diretor Germano Donner, do então tradicional estabelecimento escolar de ensino. Os visitantes, juntamente com os alunos e professores, foram reunidos no salão principal.
O aluno Volnei Colaço de Oliveira (filho de João de Oliveira), com apenas 11 anos fez uso da palavra. O professor Mário Cabral saudou os acadêmicos, em nome dos alunos do Ginásio.
Em nome do Centro Acadêmico XI de Fevereiro e Associação Cultural Luiz Delfino, usaram da palavra os acadêmicos Nunes Varella e Walmor Wendhausen, entidades das quais eram presidentes, respectivamente.

Caravana da saudade
Naquele mesmo horário, uma caravana dirigiu-se à Barra da Laguna para depositar sobre as águas do canal, braçadas de flores como símbolo de viva homenagem aos intrépidos lagunenses que ali sucumbiram pelo ideal republicano de 1839.
Às margens do canal encontravam-se, o representante do interventor federal no estado, o prefeito municipal, membros da comissão de festejos, populares e os músicos das Bandas União dos Artistas e Carlos Gomes.
Usou da palavra, José Dias Barreto, inspetor de Rendas do estado.
Em seguida o prefeito e o representante do interventor tomaram a lancha “Souza Bandeira”, de propriedade da Fiscalização do Porto, e percorreram um longo trecho do canal, bem defronte ao Fortim Atalaia, onde se deu a Batalha de 15 de novembro de 1839. No local, sobre as águas, lançaram braçadas de viçosas flores.

Inauguração da Cruz Iluminativa e procissões
Já às 15 horas, no centro da cidade, padre Bernardo Philippi benzia a Cruz Iluminativa, que foi colocada no topo do Morro Santo Antônio, atrás da matriz, onde até hoje se encontra (sobre esta cruz, ver post publicado anteriormente aqui).
Em seguida, as homenagens do Centenário de 1939 foram finalizadas no período diurno com as procissões pelas ruas da cidade das imagens do padroeiro Santo Antônio dos Anjos e Nª Sª dos Navegantes. “A esse cortejo, diz o jornal em ampla reportagem, incorporaram-se todas as associações religiosas, colégios, grupos escolares e grande massa popular”.
As festas comemorativas encerraram-se somente naquela noite, já madrugada, com um baile promovido pela prefeitura nos salões do Clube Congresso Lagunense.

Em 1964 o Obelisco é retirado e transferido
Nos últimos dias de julho de 1964, portanto vinte e cinco anos após sua badalada inauguração, o Obelisco, na já então denominada Praça da Bandeira, é retirado e transferido para a pequena Praça Almirante Lamego, no início do bairro Campo de Fora.
O Obelisco hoje, na Praça Almirante Lamego.
 A mudança do local do Obelisco se deu sem maiores pompas, sem bandas, discursos e maiores questionamentos. Uma transferência sem razão de ser, em minha opinião. Totalmente errônea.
Era o velho monumento que se ia, com o novo tomando o seu lugar. Como na vida.
Lá está esquecido, sem qualquer cerimônia ao longo dos anos, até os dias atuais.
Em seu lugar original foi levantado o pedestal com a Estátua de Anita Garibaldi, monumento inaugurado em 20 de setembro de 1964.
Mas aí é outra história.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Salve 7 de Setembro - Por um Brasil melhor, sem crimes à democracia


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Extintores do Museu Anita Garibaldi estão vencidos desde 2013

Fotos feitas nesta quinta-feira (6) demonstram que as recargas dos extintores do Museu Anita Garibaldi estão vencidas há mais de cinco anos!

Nas etiquetas constata-se que os aparelhos contendo gás carbônico (CO2) age por abafamento), venceram suas recargas em julho de 2013, isso é, no primeiro ano da gestão passada.
Já os testes hidrostáticos nos aparelhos venceram no ano de 2017. Além disso, faltam extintores contra incêndios em alguns recintos do prédio, como a primeira sala no piso superior onde só existe a placa de aviso na parede.
Luzes de emergência também não funcionam e algumas estão desligadas das tomadas.
Como se constata, na gestão passada do ex-prefeito Everaldo dos Santos não foi feita a recarga dos extintores e a atual gestão de Mauro Candemil, em quase dois anos, também não executou a manutenção periódica.
O preço de um extintor CO2 6 quilos está em torno de R$300,00 a unidade.
Em Nota de Esclarecimento divulgada na última quarta-feira (5),  após reportagem no Diário do Sul, a Fundação Lagunense de Cultura diz que "está ciente da situação para regularizar o projeto de combate a incêndio junto com a secretaria de Planejamento".
Esclarece também “que já foi solicitada a normalização do preventivo de incêndio do Museu, como a colocação de chamado vital (alarme que é ligado ao Corpo de Bombeiros), regularização dos extintores, sinalização de rotas de fugas e luzes de emergência”.
Aguardemos as "urgentes" providências.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Museu Anita Garibaldi e a falta de sistema e manutenção contra incêndio

Por causa do incêndio no Museu Nacional no Rio de Janeiro, aqui na Laguna os olhos se voltaram para o nosso Museu Anita Garibaldi. É sempre assim: porta arrombada, mesmo a do vizinho, corre-se a pôr tranca de ferro.
Reportagem do Diário do Sul desta quarta-feira aborda seguranças contra incêndio nos museus da região e diz, conforme informação do Corpo de Bombeiros da Laguna sobre o nosso Museu, que “o prédio não está regularizado conforme as normativas da corporação”.
Para ler a matéria na íntegra aqui

Nota de esclarecimento
No início da tarde a Fundação Lagunense de Cultura publicou uma nota de esclarecimento informando que “já foi solicitada a normalização do preventivo de incêndio do Museu Anita Garibaldi, como a colocação de chamado vital (alarme que é ligado ao Corpo de Bombeiros), regularização dos extintores, sinalização de rotas de fugas e luzes de emergência”.

Mas o que muitos devem estar se perguntando na Laguna é porque somente agora, passados mais de um ano e oito meses da atual gestão, resolveram abordar e resolver a questão? Não é feita periodicamente a manutenção dos extintores?

As obras no Museu
O Museu Anita Garibaldi foi fechado ao público em 24 de março de 2010, com as obras de reforma e revitalização iniciando somente em 17 de agosto do mesmo ano.

Em 28 de julho de 2012 foi entregue ao público. Dois anos e quatro meses fechado para obras. Instalaram rampas de acesso, elevador interno, iluminação, reformas nas paredes internas e externas, telhado e pintura.
Seis anos se passaram desde então. Custa-me a crer, sinceramente, que uma obra que custou R$ 423.130,39 à época, fora eventuais aditivos e captações residuais, não tenha sida contemplada com um moderno sistema contra incêndio.

Como estão os outros prédios?
É de se perguntar: se o Museu Anita Garibaldi, onde entram centenas de visitantes, entre crianças e idosos, está sem equipamentos de prevenção de incêndios e/ou sem sua devida manutenção, como estarão os outros prédios públicos municipais?
Será que as Unidades Básicas de Saúde estão regulares? Os prédios das escolas? Os imóveis onde funcionam as Fundações e secretarias?
Estão tudo dentro dos conformes? Tudo dentro da lei e com seus respectivos alvarás em dia?

Qual o número de visitantes, origens e arrecadações nos Museus da Laguna?

Não é a primeira vez que abordo este assunto.
Em gestões passadas, como as dos prefeitos Mário José Remor, João Gualberto Pereira e Nelson Abrahão Neto, era praxe, até por uma questão de transparência, a publicação mensal ou trimestral, da quantidade e origens dos visitantes dos nossos Museus. Os números eram obtidos através de simples pesquisas feitas nos livros de visitantes. Também eram divulgadas as arrecadações e aplicações com a renda da venda dos ingressos.
Hoje a Casa de Anita encontra-se fechada, em reforma/revitalização, mas o Museu Anita Garibaldi continua aberto à visitação.
Seria interessante, até para tomada de decisões de profissionais e empresas da área de turismo, que esses números fossem conhecidos pela população.
Com a palavra a Fundação Lagunense de Cultura.

Cadê o vice-prefeito?

Esta era a pergunta que muitos faziam nos senadinhos políticos da cidade. 
Nos últimos meses o vice-prefeito Júlio Willemann não foi mais visto nas solenidades do município ou em reuniões na prefeitura.  As fotos dos eventos não mais o estampavam. 
Muitos dos seus eleitores e amigos já estavam preocupados e indagavam quais as causas para o sumiço. O que teria acontecido? Nem nos eventos da Semana Cultural, Willemann esteve presente.

Pois bem. Na última terça-feira, 4, finalmente o vice-prefeito apareceu em público, participando da solenidade em homenagem à Semana da Pátria, na Praça República Juliana. A secretária de Educação e Esportes Karmensita Rocha Cardoso, é do seu partido, o PSD. Coincidência? Prestígio a uma correligionária?
O que se percebe e o próprio vice-prefeito já declarou em entrevistas nas rádios tempos atrás, é que ele estaria sendo sub-aproveitado nos trabalhos e decisões da prefeitura. Willemann já disse que em sendo chamado, convidado, estará sempre presente e atuante em prol do município e de seus cidadãos.

PS: Fui buscar no site da prefeitura a foto que anteriormente tinha visto, do vice ao lado da secretária de Educação no evento, para estampar neste post. Mas não encontrei mais o registro na galeria de fotos do site. Problema técnico ou foi mera impressão minha?

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Vereador diz que rasgou convite para Semana Cultural

Ainda na sessão de ontem do Legislativo lagunense, o polêmico vereador Kléber (Kek) Roberto Lopes Rosa fez da tribuna contundente discurso sobre a Semana Cultural que findou.
Disse o vereador que rasgou seu convite para participar do evento.
O motivo foi a não inclusão de grupos teatrais e de vários artistas da cidade.
“Deus foi muito bom para Laguna, nos deu muitos artistas, como eles não são convidados?” indagou o vereador a todos os presentes e aos que o assistiam pela internet.
O vereador Kek também destacou em sua fala que na via gastronômica (Largo do Rosário, Praça República Juliana, Rua Raulino Horn, 13 de Maio, etc.), conforme Lei nº 351/17 aprovada na Câmara, “não será permitido o uso de estrutura móvel de comercialização de produtos alimentícios, bebidas e ambulantes”.
“Pra que lei? Passei por ali e vi a Praça tomada por carrinhos”, indagou.
E finalizou seu discurso dizendo: “Vou procurar o jurídico aqui da Casa para ver o que se pode fazer”.

Mudança na data da Semana Cultural não atendeu às expectativas

A data da Semana Cultural foi alterada este ano por decisão do prefeito Mauro Candemil numa determinação apoiada pelo presidente da Fundação Lagunense de Cultura. O motivo alegado para retirá-la do mês de julho foi o de ampliar a participação da rede escolar do município.
Pois bem. O que menos se viu foram estudantes nos eventos. Os próprios alunos da Udesc pouco participaram.
O prefeito na quinta-feira (30) na solenidade em honra ao nascimento de Anita Garibaldi, realizada na Praça República Juliana, indagou em seu discurso ao pequeno público presente: onde estão as escolas?
A dinâmica secretária Karmensita, de Educação e Esportes, sempre muito elogiada por alunos e professores, estava bem ao seu lado.
A verdade é que a mudança da data da Semana Cultural este ano, quebrando uma tradição de 36 anos e os propósitos, as propostas em que ela foi criada para ser realizada no mês de julho, mostrou que foi uma decisão errônea do prefeito, aliás, como já havia sido prevista aqui no Blog, em 10 de maio de 2018.

Vereador quer prestação de contas da Festa de Santo Antônio dos Anjos

O vereador Kléber (Kek) Roberto Lopes Rosa (PP) protocolou na sessão da Câmara da noite de ontem, requerimento nº 339/18, solicitando ao provedor da Irmandade Santo Antônio dos Anjos, a prestação de contas das festividades deste ano.
O vereador pede “cópia integral de contas do ano de 2018, em especial aos recursos públicos recebidos, com remessa das notas fiscais e comprovantes de prestação dos serviços/fornecimento dos produtos”.
Num aparte a seu pronunciamento da tribuna, o vereador Patrick Mattos (PP), disse que “já há denúncias na polícia, de algumas bandas que tocaram na festa”. “Está rolando até inquérito”, ressaltou o vereador.
Na justificativa ao seu requerimento, aprovado por unanimidade mas assinado por doze dos treze vereadores da Casa (exceção do vereador Adilson Paulino-PSD, que estava presente), e inclusive pelo presidente Cleosmar Fernandes (PMDB), o vereador Kek alega que está entre as atribuições dos vereadores, a fiscalização na aplicação dos recursos públicos.
Requerimento aqui

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Padre Manoel João: 57 anos na Paróquia da Laguna

“Alto, magro, claro e corado. Olhos azuis, cabelos grisalhos. Inteligente e preparado, todos os respeitavam”.
Assim Saul Ulysséa em seu livro Laguna de 1880 (pág. 55), descreve o padre Manoel João Luiz da Silva, ou padre Maneca como era carinhosamente chamado, que paroquiou Laguna durante 57 anos.
Nail Ulysséa em Três Séculos na Matriz Santo Antônio dos Anjos diz sobre o padre Manoel João que era “inteligência brilhante, caráter exuberante, orador sacro magnífico, uma bonita voz de tenor e extremamente hábil em angariar simpatia”.
E realça: “É indiscutível que a população lhe devotava uma amizade e uma carinho, que chegava às raias da veneração, e com isto conseguiu manter acesa a luz da fé em seus paroquianos”. (Pág. 193).

Nascimento
Padre Manoel João nasceu na então Vila da Laguna em 19 de dezembro de 1827. Filho de Maria Luíza de Jesus e João Luiz da Silva. Foi batizado na igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos em 1º de fevereiro de 1828, pelo vigário Manoel Fernandes da Cruz. Aliás, padre que casou em nossa Matriz, Ana de Jesus Ribeiro, futura Anita Garibaldi, na data de seu aniversário de 14 anos, 30 de agosto de 1835, com seu primeiro marido Manuel Duarte de Aguiar.
Nascido em família pobre, desde criança o futuro padre Manoel João ajudava em pequenos afazeres no comércio de nossa cidade, a fim de se manter e colaborar no sustento familiar. A partir dos 12 anos de idade tornou-se caixeiro da casa comercial do seu padrinho de batismo, na então Freguesia de Imaruí.

Inteligência rara desde menino
Dotado de uma inteligência rara – e quem conta é o amigo do padre Manoel João, o jornalista lagunense José Johanny em sua Revista Catharinense 1º volume -1911-1912, pág. 29 –, o menino Manoel João logo conquistou o padre João Jacinto de São Joaquim, então o pároco da Laguna, que o tomou a seu cargo, ministrando-lhe ensinamentos de gramática, português, francês, latim história e filosofia. O aluno correspondeu.
Um domingo após a missa o aluno Manoel João falou ao padre Joaquim de seus sonhos na vida sacerdotal.

Da Laguna para o Rio de Janeiro
Padre Joaquim já havia se adiantado e correspondido com o reitor do Seminário São José do Rio Comprido, no Rio de Janeiro. Os recursos financeiros seriam dispendidos por ele, o que ocorreu até sua morte, um ano depois.
Mas o seminarista Manoel João não ficou desamparado. Na continuidade e conclusão de seus estudos o ajudaram o próprio reitor, professores do Seminário e os lagunenses José Ignácio Rocha (o comendador Rocha, mecenas de muitos artistas, entre eles Victor Meirelles), Antônio da Silva Maiato e Joaquim Rodrigues Torres,
Sete anos depois de ter deixado Laguna, em maio de 1853, Manoel João concluída seu curso eclesiástico. Em 4 de agosto do mesmo ano recebeu ordenação de sacerdote pelas mãos do bispo Dom Manoel do Monte Rodrigues de Araújo. Em 15 do mesmo mês fez concurso para o vicariato da Paróquia da Laguna.

Na Revista Santelmo nº 2, de 15 de janeiro de 1922, lê-se que o padre Manoel João aos 19 anos saiu pela barra da Laguna a bordo da escuna Santa Maria para estudar na então Capital Federal do Brasil. A bordo da embarcação fez um voto a Nossa Senhora do Parto para que o protegesse em seus estudos. Se assim se sucedesse prometeu que faria sua primeira missa de sacerdócio em homenagem à Santa, celebrando missa solene todos os anos, até sua morte.
Padre Manoel João foi fiel a seu voto, “pois todos se recordam como o velho, o simpático vigário, todos os anos oficiava a tradicional desta”, finaliza o texto da Revista.
Uma das fotos mais antigas da Laguna. A igreja Matriz, ainda sem as duas torres, que serão construídas em 1894 por Marcos Gazola e Batista Uliano; e o relógio, colocado em 1935.
Primeira Missa na Laguna
De fato, ao retornar a nossa terra natal em 1854, celebrou sua primeira missa na Laguna junto ao altar de Nossa Senhora do Parto (Cfe. O Albor de 4 de junho de 1911). Até seu falecimento foi tesoureiro desta Irmandade.
Naquela época, além desta havia várias outras Irmandades, dentre elas a do Santíssimo Sacramento, Senhor dos Passos, Nª Sª do Rosário, Divino Espírito Santo e a de Santo Antônio dos Anjos.
Padre Manoel João paroquiou nossa cidade por 57 anos, e por alguns anos administrou todas as paróquias do sul do estado. Por exemplo: Foi colado de Nossa Senhora da Piedade de Tubarão (1855), vigário interino de Vila Nova (1856). Encarregado de São João Batista de Imaruí (1987-1877), e de Santana do Mirim (1899).
Reconstruiu a igreja Matriz e criou um colégio
Diz José Johanny, em sua Revista Catharinense:

“Seus primeiros quatros anos de vida paroquial constituem a época mais brilhante da sua vida.
Encontrara a igreja Matriz da Paróquia em quase ruínas e reconstruiu-a logo, obtendo parte dos recursos necessários do governo da província e parte dos seus conterrâneos. Sabendo avaliar, por experiência própria, das dificuldades e dos males oriundos da falta de professores, fez-se mestre de seus conterrâneos, instituindo um colégio, onde se instruíram, entre outros, os distintos lagunenses Francisco Gonçalves da Silva Barreiros, José Martins Cabral, João Cabral de Mello, Antônio Gonçalves da Silva Barreiros, Marcolino Monteiro Cabral, Manoel Gonçalves da Costa Barreiros, Bento Monteiro Cabral, etc.”.

Na política
Ingressou na política pelo Partido Liberal e foi deputado Provincial (estadual), como suplente convocado à 12ª legislatura (1858-1859).

Jubileu de ouro em 1904
“Em 5 de junho de 1904, diz Nail Ulysséa, quando completou seu jubileu de ouro sacerdotal, padre Manoel João teve a maior homenagem que Laguna já prestou a um de seus filhos. Ao encerramento das festividades, subiu ao púlpito, junto ao altar de Nossa Senhora do Parto, sua madrinha, e a quem dedicara sua primeira missa, para agradecer ao povo e formulou a mais bela peça oratória de sua carreira. Dirigiu-se aos paroquianos pedindo perdão por não os ter dirigido melhor, pedindo, entre lágrimas, que esquecessem todas as faltas que havia cometido. O auditório chorava juntamente com ele”.

O jornalista lagunense José Johanny é quem melhor descreve a cerimônia:

“Em 1904, por ocasião de lhe serem tributadas imponentes homenagens de gratidão e de estima, na passagem do seu jubileu sacerdotal, o velho pároco encerrou o ciclo dos seus trabalhos oratórios de uma fórmula surpreendente, atendendo-se, especialmente, a sua idade e ao quebrantamento do psíquico, em convalescência de enfermidade melindrosa e prolongada.
Raramente poder-se-á ouvir oração que de modo tão intenso eleve e comova, como a última que proferiu aos lagunenses.
O auditório enorme que enchia literalmente a igreja Matriz, naquela memorável tarde de maio, extasiava-se ante a catadupa (grande volume) das palavras energicamente profundas e belamente matizadas do seu velhinho pastor...
E ao chegar à peroração, fora tal o vigor e o sentimento de eloquência com que ele suplicava aos seus paroquianos o perdoassem dos erros ou faltas cometidas, que os circunstantes o interromperam unissonamente pedindo-lhe não prosseguisse, porque já era sobre-humana e poder-lhe-ia ser fatal aquela exuberância de oratória e de emoção indescritível”.

De fato, o padre Manoel João já demonstrava sinais de enfermidade. Naquele início de ano (1904) o jornal O Albor já noticiava que ele encontrava-se enfermo, sendo substituído “nas sagradas funções de pároco”, pelo padre José Francisco Bertero, coadjutor da paróquia.
Em março ele ainda se encontrava “em convalescença no arraial da Barra”.
Sua residência, conforme Saul Ulysséa era uma das três casas geminadas situadas à esquerda no início da rua Tenente Bessa, descendo pelo morro. 1904 era também o ano de jubileu da Imaculada Conceição, por ser o quinquagésimo aniversário de definição do seu dogma.

Omaggio dedicada ao padre Manoel João
Padre José Francisco Bertero, então padre-coadjutor, dedicou-lhe em 3 de junho de 1904, pelas páginas de O Albor, uma homenagem (Omaggio), toda escrita em italiano:

“Luz que a estrada difícil da vida ilumina”
Em dezembro de 1905, o jornal O Albor estampou uma poesia intitulada “”, dedicada ao padre Manoel João. O texto é assinado por João Carlos Greenhalgh que havia sido engenheiro fiscal quando da construção da Estrada de Ferro Thereza Christina e grande amigo do padre Manoel João.
Na Laguna casou-se com Amélia Bessa Grenhalgh, filha do coronel Antônio José de Bessa. Foram filhos deste casal: Zulmira Greenhalg Cabral, que se casou com o major João Guimarães Cabral.
João Carlos Greenhalh foi também diretor do Instituto Municipal de Instrução da Laguna, estabelecimento de ensino segundário, criado e mantido pela administração municipal.
Naquela ocasião já morava no Rio de Janeiro, deixando muitos amigos na Laguna. Da então Capital Federal escrevia e remetia seus textos para os jornais de nossa cidade, entre eles O Albor, do qual era colaborador assíduo:
Falecimento
Padre Manoel João faleceu aos 84 anos em 29 de maio de 1911. Seu sepultamento ocorrido no dia seguinte foi acompanhado por mais de 1.200 pessoas, numa população total de 7 mil.
Inúmeros oradores fizeram uso da palavra, entre eles Antônio Guimarães Cabral (o Pereira) e o professor David do Amaral e Silva.
Narra Nail Ulysséa que naquele ano (1911) “sentindo-se velho, cansado e doente, pediu a sua renúncia de vigário colado, tendo sido atendido por Dom João Becker, então bispo de Florianópolis, que o nomeou Vigário Geral Honorário da Diocese, com uma pensão de 125$00 mensais e a côngrua do governo federal. A 1º de maio assinava seu termo de renúncia, e a 26 de junho pediu confissão e viático e a 29 daquele mês morria placidamente”.
O féretro foi acompanhado pelas Bandas Carlos Gomes e União dos Artistas que executaram marchas fúnebres. Todas as sociedades musicais e recreativas da cidade conservaram durante três dias suas bandeiras em funeral (meio mastro).

Apoiou a construção do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos
Padre José Artulino Besen, escritor, pesquisador e historiador, em sua página publicada na internet, num resumo bibliográfico sobre o padre Manoel João, escreveu em certo trecho:

“Padre Manoel João esteve profundamente ligado à sua terra, buscando seu desenvolvimento.
Foi um dos maiores interessados e apoiadores na construção de um novo hospital para Laguna. O terreno pertencia à Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos. Apoiou a arrecadação de recursos para começar a obra. Imóveis pertencentes à Irmandade foram vendidos em busca de recursos.
Como a instituição era mantida por esta Irmandade, foi solicitada ao governo da Província a alteração do nome do Hospital de São Francisco de Assis para Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos, o que foi aprovado pela Lei nº 1.017, de 10 de maio de 1883.
A pedra fundamental do nosso hospital foi colocada em 6 de setembro de 1879, com a benção do padre Manoel João. Em 7 de setembro de 1884 o novo hospital foi inaugurado.
Com a criação da diocese de Florianópolis, em 1908, os antigos padres “brasileiros”, formados no Padroado Imperial, patriarcas em sua comunidade, não eram bem vistos pelo novo bispo e pelo clero alemão e italiano, particularmente por serem casados. Buscou-se aposentá-los. Foi o que Dom João Becker sugeriu ao padre Manoel João que detinha o título vitalício de vigário colado, portanto inamovível: deu-lhe o título de Vigário Geral Honorário da Diocese de Florianópolis em 30 de abril de 1911. No dia seguinte, 1º de maio, o padre Manoel renunciou ao benefício de vigário colado. Diferente de Dom José e de Dom Duarte, o alemão Dom João Becker, primeiro bispo de Florianópolis, media o padre a partir do celibato, sem levar em consideração o heroísmo desses sacerdotes que, por décadas, na solidão de pequenas e distantes paróquias, não tiveram nem retiro espiritual, nem acesso à formação.
Já apresentava sinais de doença e muita fraqueza, acentuadas pela promoção/punição da Igreja que o afastava do rebanho. Em 26 de junho do mesmo ano de 1911 pediu a confissão e o viático. Três dias depois, na Festa de São Pedro e São Paulo, morria placidamente.
Laguna deve muito a ele o forte catolicismo lagunense e das adjacências. Afinal, educou na fé católica quase três gerações”.

Um fato pitoresco
Numa crônica publicada no jornal Semanário de Notícias, de 17 de agosto de 1974, o músico Agenor dos Santos Bessa, e colunista do citado periódico, escreveu sobre o sepultamento do padre Manoel João e relembrou um fato inusitado e pitoresco que aconteceu à ocasião e foi narrado por gerações, entrando para o anedotário popular da Laguna:

“Mõnreu ou não mõnreu?”
“No dia do falecimento do padre Manoel João, o seu velório foi concorridíssimo. Laguna vestiu-se de luto. Não só o mundo católico, mas também os espíritas, pois naquele tempo só havia estas duas correntes religiosas aqui, e todos os espíritas eram amigos do vigário.
Para o seu enterro não ficou uma única pessoas em casa. Todo mundo foi prestar a sua última homenagem ao extinto.
Ao chegar o féretro ao cemitério, começaram os discursos. Falou o orador oficial da Laguna, Antônio Guimarães Cabral (o Pereira), e disse que o padre Manoel João não havia morrido porque continuaria vivendo na nossa saudade.
Falou um espírita (teria sido o dr. Ismael?), dizendo que o padre morreu para a matéria  mas que a alma continuaria vivendo, porque o espírito é imortal.
Quando um terceiro orador falou e disse que o padre Manoel João continuaria vivendo em espírito com seu povo, uma voz fanhosa no meio da multidão perguntou:
- Afinal, o homem mõnreu, ou não mõnreu?
Era o seu Alípio Bertinho, pessoa dada ao gosto pelo álcool, o que fazia tornar-se expansivo e curioso. Era bem fanho e mordaz. Àquelas horas já se achava com a “pressão” bem alta”.  
                            
O busto em sua homenagem
Em 13 de junho de 1954, em meio às comemorações em honra ao padroeiro da Laguna, precisamente às 15 horas, foi inaugurado na pequena praça João Pinho então existente, defronte à Casa Paroquial da Matriz, um busto em homenagem ao padre Manoel João.
A cerimônia foi abrilhantada pelas Sociedades Musicais, União dos Artistas e Carlos Gomes, como consta na programação da festa e também pode ser observado em uma das fotos abaixo.
A inauguração do Busto em 13 de junho de 1954. Foto: arquivo Marega
As duas bandas postadas frente à frente. Foto: arquivo Marega
 Era uma feliz iniciativa da Irmandade Santo Antônio dos Anjos, de Manoel Américo de Barros e Agenor da Silva Brun. 
No pedestal, a placa com os dizeres: “Laguna católica. A seu filho Padre Manoel João Luiz da Silva, vigário da Paróquia de 1854 a 1911”.
Uma rua no bairro Magalhães também recebeu seu nome.