sábado, 29 de julho de 2017

Parabéns Laguna pelos 341 anos

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Fundação da Póvoa de Santo Antônio dos Anjos da Laguna

Domingos de Brito Peixoto, o fundador, em 1676,
da Póvoa de Santo Antônio dos Anjos
da Laguna.
A Póvoa de Santo Antônio dos Anjos da Laguna foi fundada em 1676.
Quem disse isso?
Ora bolas! O próprio filho do fundador, o capitão-mor da Laguna Francisco de Brito Peixoto. E disse não uma, mas duas vezes.
Quem discorda?

Durante muitos anos a data de fundação da Laguna foi um tema bem discutido.
No início década de 70, nossos maiores historiadores chegaram a um consenso e por fim, o tricentenário foi comemorado em 1976.
O historiador, médico, escritor, deputado, lagunense Oswaldo Rodrigues Cabral, autor de inúmeras obras de relevo da história catarinense,  penso que condensou os vários estudos e versões sobre a Fundação da Laguna, e num extenso capítulo publicado no livro “Santo Antônio dos Anjos da Laguna – Seus valores históricos e humanos”, edição comemorativa da passagem do tricentenário de fundação da Laguna, publicado em 1976 pelo governo do estado, Imprensa Oficial – IOESC, no governo de Antônio Carlos Konder Reis, dissecou as várias correntes.
Mas vamos por partes, que o assunto e longo e apaixonante. Para quem gosta, evidentemente.

Há um documento, citado por Carvalho Franco, onde aparece o ano de fundação da Laguna. Ele está transcrito quase que integralmente no livro "Bandeiras e Bandeirantes de São Paulo" – Cia. Editora Nacional – Col. Brasileira – Vol. 181 – S. Paulo, 1940 – págs. 282/3/4.

Trata-se de uma petição ao Rei, assinada por Francisco de Brito Peixoto, o capitão-mor da Laguna, o filho do fundador e presente quando da fundação da póvoa, e anexa à provisão-régia de 6 de fevereiro de 1714.

Em minha humilde opinião, dos mais importantes documentos sobre a fundação da Laguna, de valor incalculável historicamente, porque é um depoimento, fonte primária insofismável, mesmo sendo feito 38 anos depois dos acontecimentos, que narra pormenores, como tempo desprendido da viagem pelos Brito Peixoto desde Santos, o ano, a quantidade de gente que trouxe, a morte do irmão Sebastião de Brito Guerra e a do pai Domingos de Brito Peixoto na Vila da Laguna.
O documento prova que a data, o ano de fundação da Póvoa de Santo Antônio dos Anjos da Laguna não foi escolhido aleatoriamente por alguns historiadores e legisladores três séculos depois visando comemorações de aniversário.
 Cabral transcreve a petição e também o fazemos aqui:


“Diz o Capitão Francisco de Brito Peixoto, morador na povoação de Santo Antônio dos Anjos, que fez e descobriu para as bandas do sul, em distância de cento e vinte léguas da Vila de Santos, que ele teve tão grandes desejos de merecer no serviço de Vossa Majestade e de lhe dilatar o Império, que, sendo das principais e mais abastadas famílias de todas aquelas vilas do sul, deixou sua casa e a própria mãe e se foi com outro seu irmão mais moço, chamado Sebastião de Brito Guerra, que era tenente da Ordenança, em companhia de seu pai, o Capitão Domingos de Brito Peixoto, a descobrir novas terras que não fossem de pessoa alguma habitadas, e com efeito, NO ANO DE 1676 saíram da Vila de Santos, donde eram moradores, levando consigo cinquenta escravos seus, com os quais bem feitorizavam as suas fazendas, que deixaram incultas e todo o mantimento necessário para a dita gente, e para dez homens brancos, que com ela iam, como também outras armas e provimento bastante de pólvora e chumbo, e ferramentas condizentes para o rompimento dos matos e feitorias de embarcações, em que fizeram uma despesa tão grande como se considera, e com este apresto saiu da dita Vila, em que meteu mantimento e mais ferramentas necessárias, dando-lhes ordem fossem dar fundos defronte da paragem chamada Lagoa dos Patos, e que aí estivessem, até que o suplicante, seu pai e irmão chegassem, para lhe apontarem a paragem em que iam desembarcar, que o dito seu pai já tinha sabido, por ter de antes ido examinar o dito sítio, e depois que gastaram quatros meses no caminho com romper os matos e buscar as passagens, foi o mesmo suplicante com os mais dar no sítio da Lagoa dos Patos, com imenso trabalho de tão áspero e dilatado caminho... e nesta viagem lhe morreram mais de vinte e cinco escravos... e assim chegou ao dito sítio da Laguna, fez pôr em terra os mantimentos e ferramentas que pelo mar tinha mandado na fragata, fundando povoação... dando o pai do suplicante notícia ao Sereníssimo Senhor Rei Dom Pedro (Pedro II, denominado o "Pacífico" N.A.), que a glória haja, pai de Vossa Majestade, que Deus guarde, foi servido mandar-lhe agradecer por carta este novo descobrimento e povoação, o que fez com promessa de lho remunerar, a qual carta se perdeu em uma das ditas embarcações, porém a viram muitas pessoas que dela testemunharão, e assim o dito seu pai, como o suplicante, enquanto foi vivo, gastaram muita fazenda neste descobrimento, e nele lhe morreu o outro filho solteiro, o tenente Sebastião de Brito Guerra, com muita quantidade de escravos, que lhe mataram e se perderam, e o dito capitão Domingos de Brito Peixoto, pai do suplicante se faleceu na mesma povoação, depois do dito seu filho, e por sua morte nenhum outro varão lhe ficou mais que o suplicante, Francisco de Brito Peixoto”.

Um único documento desses dirimiria qualquer dúvida quanto ao ano de fundação da Laguna, não é mesmo, leitor? Mas ainda há mais.

Moacir Domingues, em sua obra “A Colônia do Sacramento e o Sul do Brasil” – Porto Alegre – Sulina 1973 – pág. 239 – Doc. 27, transcreve outro documento.

É uma nova carta ao Rei de Portugal, essa datada de 20 de abril de 1730, portanto 16 anos mais tarde o que já havia declarado na petição de 1714, o mesmo Francisco de Brito Peixoto, já com certa idade (85 anos, vai falecer em 1735), diz o seguinte:


“(...) Resolveu-se meu Pai Domingos de Brito Peixoto, vassalo de V.R.M, sendo morador da Vila de Santos, e abundante de bens, na mesma Vila a vir com todo o empenho, trazendo-nos em sua companhia assim a mim como a um irmão meu Sebastião de Brito Peixoto, em uma fragata, que para esse fim mandou fazer trazendo em nossa companhia muitos escravos, com todos os preparos necessários para o descobrimento deste lugar chamado a Lagoa dos Patos, cujo descobrimento fizemos em era de seiscentos e setenta e seis, e chegando à dita Laguna fizemos assento em o mesmo lugar, que é hoje da Vila...”

E indaga Osvaldo Cabral sobre este segundo documento:
“Por que insistiria Francisco de Brito Peixoto no milésimo 1676, se não fora ele o verdadeiro, fixado de tal modo em seu subconsciente que, mesmo valetudinário e quebrado pelos anos e desenganos, ainda era o que lhe vinha à mente para citar?”

Cá pra nós leitor, se fossemos fazer uma ação, requerendo na Justiça, uma espécie de Certidão de Nascimento tardia da Laguna, eis dois documentos imprescindíveis – fontes primárias, repito – que estariam em anexos aos autos.

Ainda Osvaldo Rodrigues Cabral, nas páginas 82/83 do livro “Santo Antônio dos Anjos da Laguna – Seus valores históricos e humanos", diz que aceitam o ano de 1676, preferindo-o a qualquer outro, os seguintes autores/historiadores:
Basílio de Magalhães, Aurélio Porto, Lucas Alexandre Boiteux e Aníbal de Matos, além dele próprio, Cabral.

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E o mês e dia de fundação da Laguna?
Quanto ao mês e dia de Fundação, aí sim não existem documentos que comprovem a data. Os estudiosos se dividem nas opiniões.

Diz Cabral na obra que venho me reportando até aqui, que não se conhece com exatidão...
o dia em que o seu fundador, com sua gente - familiares, agregados, escravos, indígenas e homens de armas – pisou pela primeira vez, com propósitos de nele se fixar, o chão sulino e, olhando em torno, escolheu o local que lhe pareceu o melhor para deitar fundamentos a um povoado, dizendo aos circunstantes que acreditava ser aquele o sítio mais apropriados para fazê-lo, e ao mais que trazia em mente, e mandou que desenfardassem toda a tralha que traziam”. P. 57

Cabral salienta que Laguna “não seria a única de tantas povoações oriundas da expansão vicentista que perderia memória do dia exato em que se verificou o evento”.

Sabe-se que era praxe entre os descobridores de novas terras, batizá-las com o orago a que seria dedicada.
No caso de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, a dificuldade está justamente no complemento “dos Anjos”, sendo o nosso padroeiro o único santo com essa nomenclatura.
O saudoso professor Ruben Ulysséa debatia duas possibilidades:
13 de junho, data consagrada ao santo lisboeta – Santo Antônio de Lisboa, igualmente chamado de Pádua; e a data de 2 de outubro consagrado no hagiológio aos Anjos.

Hagiológio= Nome que se dá à descrição, estudo e tratado sobre a vida dos santos, no cristianismo.(N.A.)

Nail Ulysséa, estudiosa da nossa paróquia, escreveu todo um capítulo dedicado a Matriz Santo Antônio dos Anjos da Laguna, no livro em comemoração ao Tricentenário de Fundação.
Sobre o nome da Fundação, diz Nail “Que há um concerto uníssono em afirmar que a povoação foi fundada sob a invocação de Santo Antônio”.
“Porque “dos anjos”, isto sim, há diversas opiniões a respeito”, salienta.

Cita Ruben Ulysséa, para quem a povoação foi fundada a 2 de outubro, dia do Anjo da Guarda.

Nail Ulysséa também invoca a opinião de Frei Adalberto Ortmann, que em artigo publicado em 1958, no volume “Ensaios Paulistas, com o título de “Famílias de Piratininga e Franciscanos Paulistas”, afirma que frades franciscanos acompanharam Dias Velho, na fundação de Nossa Senhora do Desterro; e Domingos de Brito Peixoto, na de Laguna.
Franciscano que teria erigido “A capela de Santo Antônio dos Anjos, numa invocação típica dos franciscanos, lembrando a capelinha de Nossa Senhora dos Anjos, berço de sua ordem em Assis d’Itália”.

Nail Ulysséa também fala dos místicos, que se apoiam na lenda “de que a primeira imagem de Santo Antônio fora trazida pelos anjos e colocada na praia, onde foi encontrada”.

O historiador, pesquisador e colecionador Antônio Carlos Marega, em seu Blog, assim escreve sobre a data de fundação da Laguna:


“Chegando na Laguna no dia 02 de outubro, dia “dos Anjos”(Anjos Gabriel, Rafael e Miguel), Domingos de Brito Peixoto inteligentemente, não fugiu à tradição de oferecer a fundação ao santo do dia, só acrescentou antes o nome do santo de sua devoção (ouvi esta hipótese, pessoalmente do grande historiador Dr. Oswaldo Rodrigues Cabral). Fato é que veio com ele a primeira imagem de Santo Antônio, sendo colocada na capela de pau-a-pique, para devoção, devoção esta que chegou ao grau de intimidade entre o lagunense e o santo, como se tem para com um pai, um irmão ou para com um grande e melhor amigo. Santo Antônio dos Anjos é carinhosamente, o “Toninho”.
  
***
Voltemos ao início da década de 70. A data do tricentenário da Fundação da Laguna (1976) se aproximava e havia a necessidade de se marcar o dia e mês para as comemorações da Fundação. Mas qual dia? Qual mês do ano?
As opiniões se dividiam. Dia 13 de Junho? Dia 2 de outubro? Terceiro domingo de julho?

Legisladores lagunenses, junto aos historiadores e demais autoridades, optaram por 29 de julho. Lei Municipal nº 15/1975, de 02/05/75.
Por quê?
Dia e mês criados aleatoriamente, sem dúvida, mas onde também se pretendeu homenagear a República Catarinense (ou Juliana), com a criação de uma Semana em que se pudesse reverenciar a data, com exposições, concertos musicais, concursos literários, palestras, gincanas, etc...
Era o embrião da futura “Semana Cultural da Laguna”, criada em 1981 na gestão do prefeito Mário José Remor/João Gualberto Pereira, que visava unir a população no conhecimento de sua história e se tornar uma atração turístico-cultural no inverno, num mês “fraco” nesse aspecto.

Epílogo
História não é uma ciência exata, como a matemática, por exemplo. A qualquer momento, através de novos documentos e/ou depoimentos que surgem pelas mãos de pesquisadores, tudo por ser reescrito.

Que as autoridades da Laguna meditem:
Mesmo não sendo exata, a história segue uma dedução lógica. Ela não dá pulos, não se pode botar as carroças antes dos bois.
Se a data da fundação da Laguna for alterada para 50, 100 anos antes, como alguns propõem, obviamente deixa-se de se reconhecer a data de 1676 como a de sua fundação. Não há como ser diferente.
Risque-se, portanto, o nome do fundador Domingos de Brito Peixoto, mude-se o brasão e a bandeira do município e retire-se a estátua de Brito Peixoto de seu pedestal.
Altere-se também o nome de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, batizada que foi pelo seu fundador.
E mais que isso. Troque-se de padroeiro.

É o que querem? É o desejo do povo lagunense?

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fortim Atalaia da Ponta da Barra: memória histórica de uma Batalha Naval entre Farrapos e Imperiais

“A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro” (Le Goff).

Completamente abandonado, em ruínas - até 1976 ainda era possível ver algumas paredes -, o Fortim Atalaia, também chamado de Forte Garibaldi, situado na Ponta da Barra bem que poderia ser reerguido e restaurado.
Este fortim, em princípio chamado de Bateria da Barra da Laguna, um posto de artilharia da costa, armado com canhões, ao que se sabe foi construído por volta do ano de 1800. 
O Major Manoel Joaquim D'Almeida Coelho, em sua obra "Memória Histórica da Província de Santa Catarina, página 176, editada em 1854, informa: 

"Pouco antes do ano de 1880 o capitão-mór da Vila da Laguna, Jerônimo Francisco Coelho, fez construir à sua custa, no lado do sul daquela barra e para defesa da mesma, um forte que ainda existe; mas desmantelado. Foi desse forte que se aproveitaram os rebeldes em 1839 para impedir a entrada da esquadrilha imperial, causando bastantes mortes, ferimentos e danos às primeiras embarcações".

Como vimos, foi o forte reconstruído pelos Farroupilhas durante a República Catarinense, ou Juliana, em 1839. Servia também como depósito de armamentos.

A foto, tirada no último fim de semana, mostra a situação do local nos dias de hoje. É possível observar as pedras remanescentes das paredes do Fortim.

Não sei se o terreno onde se situa é propriedade particular. Presentemente está cercado e situado entre duas casas. Se verdadeiro, não seria o caso de uma indenização em prol da nossa história?

Em minhas pesquisas, encontrei o Decreto nº 28/82, de 27 de dezembro de 1982, assinado pelo então prefeito da Laguna Mário José Remor, "considerando tombado as ruínas do Forte José Garibaldi, em Ponta da Barra". O Decreto considerando a área pertencente ao Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de nosso município, foi publicado à página 5 do Jornal O Renovador, de 15 de janeiro de 1983.

É seguir o exemplo do que foi feito nas fortificações, fortalezas da Ilha de Santa Catarina, projetos do brigadeiro José da Silva Paes. 
Bem que a Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc) ou a Udesc ou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), juntamente com a prefeitura da Laguna, poderiam restaurar e revitalizar a área. Muitas das pedras que constituíram os alicerces e paredes da edificação ainda estão depositadas no local.
Depois, poderia ser aberto à visitação pública, como museu, já que se trata de monumento de arquitetura militar de nosso país. Réplicas de canhões, painéis e fotos contariam a história dos 106 dias da efêmera República Juliana, e da Batalha Naval que a pôs fim.
Teatro da Batalha Naval de 15/11/1839. Desenho de Lucas Boiteux.
O fortim é citado em livros e documentos importantes. O próprio Garibaldi em suas memórias ditadas a Alexandre Dumas, em 1860, faz referência ao local, quando fala sobre a batalha da Retomada da Laguna, em 15 de novembro de 1839. Vejamos:

“(...) Subi ao cimo da montanha mais próxima, a fim de observar o inimigo, e de pronto compreendi que o seu plano consistia em agrupar suas forças na entrada da laguna. Imediatamente, enviei uma mensagem ao general Canabarro com base na qual as suas ordens (sic) foram emitidas de uma forma igualmente expeditiva. Mas, a despeito da diligência de seu comando, nossos homens não chegaram a tempo para defender aquela entrada. Uma bateria que erguêramos na ponta do molhe, dirigida pelo bravo Capotto, não pôde opor aos imperiais senão uma frágil resistência, contando apenas com armas de pequeno calibre – de resto, mal manejadas por inábeis atiradores”.

Já Wolfgang Ludwig Rau, em sua monumental obra “Anita Garibaldi – O perfil de uma Heroína Brasileira”, ressalta à página 140:

(...) Pelas duas horas da tarde, surgem no mar os navios legalistas, vindos de Imbituba, sob comando de Frederico Mariath.
Do Morro da Barra, José Garibaldi, no forte ali existente, observava sua aproximação, tentando adivinhar-lhes os planos de ataque. São quase vinte embarcações variadas, mas todas apinhadas de material e de homens. Passam a forçar a barra sinuosa, um a um.
Representam enorme supremacia numérica. Deslizando a trinta metros, apenas da bateria do forte”(...)

Em nota de rodapé, Ludwig Rau diz:

“Em abril de 1969, o autor fotografou no local os restos ainda existentes da fortaleza: - alicerces e dois cantos de parede de alvenaria ciclópica da outrora pequena edificação. Na ocasião, ainda se notava perfeitamente a escavação do plano circundante, sobre um aglomerado de rochas escarpadas, rente às quais corria o velho canal da barra, hoje aterrado e deslocado para grande distância (uns 300 a 400 metros) da sua antiga posição. Somente localizados os vestígios da fortaleza destruída, é que o autor pode visualizar também a batalha naval de 1839, e compreender, só então perfeitamente, “o porquê” de atirarem mutuamente a queima roupa. As embarcações percorrendo o tortuoso canal da barra antiga, ao dobrarem no estreito sangradouro a curva rochosa sobre o qual se situa a fortaleza, chegavam a bater com a “carangueja” contra as pedras, e expunham os flancos aos canhões de Garibaldi, a poucos metros apenas de distância.
Consta que as forças imperiais, posteriormente, melhoraram a construção danificada pelo combate; utilizaram o mesmo fortim ainda durante muitos anos”.
Batalha Naval de 15 de novembro de 1839. Tela de Willy Zumblick pertencente a Newton Ramos.

Após a batalha de 15 de novembro, o Capitão de mar e guerra Frederico Mariath dirigiu ao Ministro da Marinha o seguinte ofício:
“E menos de uma hora estava o inimigo derrotado, vencido e algumas embarcações em fuga; eles se achavam ao pé da fortaleza em semicírculo” (...).
(...) “Tomamos 5 peças de artilharia da fortaleza” (...)

Oswaldo Rodrigues Cabral, em sua “História de Santa Catarina” ao abordar a queda da República Catharinense diz:

“John Griggs e José Henrique Teixeira morreram bravamente na carnificina. Os lances de coragem e de bravura assinalam-se de parte a parte. Canabarro cede. Garibaldi e Anita iniciam o transporte de armas e munições de bordo para terra numa frágil canoa, enquanto o combate prossegue violento. O forte da barra resiste – mas a impetuosidade dos imperiais é assombrosa”.

A foto, abaixo, é de 1976, e foi publicada no livro “Laguna – Memória Histórica”, do professor Ruben Ulysséa. Nota-se parte de uma das paredes ainda em pé.

Já as duas fotos publicadas abaixo são do livro de Wolfgang Ludwig Rau, uma das obras mais importantes – se não a mais – sobre a heroína lagunense.
São fotos antigas, captadas em 1969 pelo Arquiteto-Historiador-Escritor, que correu o mundo passando e visitando os locais por onde Anita pisou.


Penso que observando, estudando e analisando essas fotos é possível fazer um projeto de restauro do local.
Estou sonhando? Pois sonhar não custa nada, não é o que se diz? Quem sabe algum dia um político, uma autoridade ligada à cultura do nosso município se interesse por esse aspecto histórico e leve a ideia adiante, realizando-a. Quem sabe? Se bem que não cuidaram nem do acervo do Rau... os monumentos estão sujos e abandonados... roubaram até o sino do Museu...

 P S: Cá entre nós, e só entre nós leitor, imagine se este ponto de referência, citado por diversos escritores e até por Garibaldi, este lugar histórico, palco de sangrentas batalhas, fosse situado, já nem falo em outro país da Europa, como a própria Itália, mas em outro município, encostado ao nosso, em Tubarão, por exemplo? Garanto que virava ponto turístico e histórico dos mais importantes do Sul. Cantado e decantado em versos e prosas. Com ampla divulgação na mídia.
Mas o local fica aqui, e não se dá a devida importância. Lá está, em ruínas, aguardando o devido reconhecimento de nossas autoridades, através do restauro e revitalização. Eis um infeliz exemplo de um país sem memória. 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Relíquia: Urna contém terra da primeira sepultura de Anita Garibaldi

No dia 10 de fevereiro de 1980, o acervo da Casa de Anita, localizada na Praça Vidal Ramos, era revigorado com a solenidade de entrega de uma pequena urna (sarcófago) de madeira. Em seu interior, um punhado de terra retirada da Landa Pastorara, em Mandriole (Itália), local da primeira sepultura da heroína de dois mundos, Anita Garibaldi.
A doação à prefeitura da Laguna, feita pela “Societá Conservatrice del Capanno Garibaldi”, composta de garibaldinos da Emilia Romagna, coroava de êxito um trabalho do maçom Salun Jorge Nacif, irmão da Loja Fraternidade Lagunense e membro do Conselho Municipal de Cultura.
Salun durante cinco anos manteve intensa correspondência levando sua solicitação junto às autoridades italianas.
O garibaldino Guerrino Guerrini, presidente da Società, providenciou o envio. A urna contendo a terra da sepultura veio via diplomática das Embaixadas do Brasil e Itália. E trazida a Laguna pelo deputado federal Adhemar Guisi.
 
Local da primeira sepultura de Anita na Itália. Foto: Rádio Marconi
A entrega foi formalizada pelo vice-cônsul da Itália em Santa Catarina Arno Suarez Cuneo, com a presença do prefeito da Laguna Mário José Remor, do vice João Gualberto Pereira, do secretário de Educação e Cultura José Paulo Arantes, do diretor do Museu Anita Garibaldi Manoel Américo de Barros, do historiador Wolgang Ludwig Rau, do deputado Adhemar Ghisi, entre outras autoridades.
Presente também à solenidade, o major Mário Boronzi, membro da Associação Garibaldina, grafólogo, escritor e historiador, que veio da Itália para conhecer a nossa cidade.
Na oportunidade, o dr. Adib Abrahão Massih fez a alocução, ressaltando o valor histórico para o patrimônio municipal. (A madeira da urna necessita de restauração, tantos anos passados).

O arquiteto, historiador e escritor Rau também discursou e fez um pequeno relato sobre as sete sepulturas de Anita na Itália e explicava:

“A terra foi recolhida da primeira sepultura de Anita, na Landa Pastorara, a uma distância de 800 metros da Casa Guiccioli, em Mandriole, onde Anita morreu ao anoitecer de 4 de agosto de 1849, nos braços do marido Giuseppe.
O garibaldinos e seus adeptos, consagraram o local, construindo uma alameda de acesso, com uma monumental coluna erguida, com lápides de mármore contando o que ali aconteceu”.

E finalizou Rau:

“Considerando a universalidade da matéria e do espírito, onipresentes por força do Grande Arquiteto do Universo, Deus, esse punhado de terra arenosa da planície lacustre de Comacchio e de Ravena, ao ser “depositada” na “Casa de Anita”, formaliza o simbólico retorno ao rincão natal da famosa filha da Laguna, Ana Maria de Jesus Ribeiro, esposa dileta do grande José Garibaldi, da nossa Anita Garibaldi”.

sábado, 1 de julho de 2017

Quem foi Romeu Ulysséa

Professor Romeu Ulysséa.
Romeu Cabral Ulysséa nasceu na Laguna, em 15 de julho de 1890, filho de Ana Guimarães Cabral (dª Santa) e Ismael Pinto de Ulysséa.
Teve 18 irmãos (nem todos aqui nominados): Julieta, Heitor, Gilberto, Leonor, Renato, Ramiro, Otília, Juracy, Nicanor e Modeno, além de Laura, Tobias, Jandira, Aurora e Murilo. Esses cinco últimos faleceram em tenra idade.
Seu pai foi médico ilustre e o primeiro lagunense e primeiro no sul catarinense a formar-se em medicina. Também foi deputado estadual e constituinte em 1892.

Após os primeiros estudos feitos em nossa cidade, em 1902, aos 12 anos, Romeu Ulysséa foi para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Latino-Americano, dirigido pelo renomado filólogo José Oiticica e sua esposa Francisca Bulhões, que teve entre seus alunos Antônio Houaiss e Manuel Bandeira.
Problemas em sua saúde fizeram com que retornasse para Laguna, onde prestou concurso e foi aprovado para o magistério. Em 1915 foi nomeado Lente Catedrático da Escola Complementar, anexa ao Grupo Escolar Jerônimo Coelho, inaugurado em 1912 e onde por 44 anos lecionou Português, Francês, Latim, História Natural, Física e Química. Aposentou-se em 1958.

Em 1938, também professor do Ginásio Lagunense, fundado em 1932, e onde exerceu o cargo de diretor, Romeu Ulysséa juntamente com os demais professores daquele educandário que marcou época no ensino do sul catarinense, fundou a “Congregação dos Professores”. Entre os membros destacavam-se Sargento Egeus Laus, Dr. Paulo Carneiro, Oscar Leitão, Joaquim Cabral, Germano Donner, José Varela Júnior, Mário Cabral, Paulo Gailit, Antônio Dib Mussi e Ruben Ulysséa.
O órgão viria responder pela manutenção do estabelecimento escolar, que funcionou no mesmo prédio onde hoje se situa a Biblioteca Pública que leva seu nome, na rua Voluntário Fermiano, nº 101, centro.
A Congregação dos Professores do Ginásio Lagunense: Sargento Egeus Laus, Dr. Paulo Carneiro, Oscar Leitão, Joaquim Cabral, Germano Donner, José Varela Júnior e Mário Cabral. Sentados: Paulo Gailit, Romeu Ulysséa, Antônio Dib Mussi e Ruben Ulysséa.
Muitos dos seus alunos ainda hoje relembram suas aulas de Português e noções de Latim, com suas proposições, verbos e regências gramaticais.
Aliás, uma das insistências em suas aulas é quando ele ensinava aos alunos que não era indiferente reger o termo da oração com a preposição “a” ou a preposição “para”, quando se queria exprimir destino. O “a” indicava destino provisório, e “para” destino demorado ou definitivo.
Assim, explicava o renomado professor, se digo vou a Tubarão, quero dizer que vou a Tubarão e volto. Já se digo vou para Tubarão quero dizer que vou para lá e fico.
Quando professor do Ginásio Lagunense, Romeu Ulysséa por diversas vezes recebeu convites para lecionar no renomado Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Declinou de todos eles porque seu desejo foi sempre o de permanecer em sua terra natal.
Também lecionou na Escola Técnica de Comércio Lagunense.

Uma pequena história engraçada
José Bessa, em seu livro “Gente de Minha Terra”, narra uma história interessante e ao mesmo tempo engraçada.
Antes de contá-la, o autor frisa que considerava Romeu Ulysséa o melhor professor de português de todos os tempos. “Os seus ensinamentos ficaram de tal maneira impregnados, foram tão bem assimilados, que continuam presentes como se tivessem sido aprendidos ontem”.
Houve um período em que Romeu Ulysséa assumiu a direção do Ginásio Lagunense, mas logo renunciou ao cargo, devido ao seu temperamento introspectivo, fechado. Ele era extremamente tímido.
Vamos ao “causo”:

“Aula de latim. O professor Oscar Leitão, juiz de Direito, chega e imediatamente faz a chamada. Um dos alunos levanta-se para responder: “presente”, aliviando ao erguer-se a pressão no ventre e deixando escapar, quase ao mesmo tempo, um som bastante estranho para o momento e o local, uma sala mista de alunos e alunas: PUM! O professor indignado retira-se imediatamente. Vai chamar o diretor a quem comunica o fato.
O diretor Romeu, mestre no português, que não falava palavrões ou têrmos chulos, vai até a sala, mas sem nenhuma vontade de punir alguém. Constrangido, não sabe como relatar a queixa recebida:
- Contaram-me que um dos alunos soltou um... um... um....

Não encontrou um sinônimo adequado, mesmo sendo responsável pela cátedra de português. Até que falou:
- Um vento.

O riso, ou melhor, a gargalhada foi geral, até das moças. Mesmo todo vermelhão e envergonhado, o professor Romeu disse que o fato era muito desagradável, etc. e tal.
O aluno, autor do estranho ruído, levantou-se e assumiu a responsabilidade do “vento”, dizendo que tinha sido involuntário.
Tudo estaria resolvido se ao sentar-se novamente o infeliz aluno não tivesse soltado mais uma vez outro barulhento “vento”.
Com essa, o nosso bom, tímido e educado professor Romeu saiu porta afora, desconcertado e em busca de novos ares".

Romeu Ulysséa também foi membro da Comissão Regional de Escoteiro, fundada em 23 de dezembro de 1912 por René Rollin, o primeiro estabelecimento em Santa Catarina. Em 1917, foi vice-presidente da Comissão.

Do Rio de Janeiro trouxe a primeira bola pneumática para Laguna
Em seu período no Rio de Janeiro, Romeu Ulysséa foi um dos fundadores do time de futebol America, onde jogava ao lado de seu primo Francisco Pinho.
Datam de 1909 os primeiros jogos de futebol em nossa cidade. Alguns cronistas dizem que foi anterior a esta data. Enfim.
Renato, Ramiro e Almy, todos Ulysséa, usavam uma bola de borracha. Chegando de férias do Rio de Janeiro, Romeu trouxe uma bola pneumática, uma novidade à época, e a um dos times da Laguna deu o nome de América, tal como no Rio de Janeiro.

Em 1917 foi fundado na Laguna o “Tiro de Guerra 137”, tendo Jones Pinho como seu primeiro presidente e Saul Ulysséa como vice. Romeu Ulysséa foi seu primeiro diretor e integrado à diretoria da entidade por vários anos.

Romeu Ulysséa colaborou com muita frequência para o jornal O Albor, fundado em nossa cidade em 1901 e que existiu até 1965. Usava quase sempre o pseudônimo de Rosaldo.
Foi redator, juntamente com Ivo de Aquino e Lucas Bainha, do jornal diário A Tarde, surgido em 1º de julho de 1914, de propriedade dos irmãos Fernando e Lucas Bainha e dirigido pelo seu fundador, o médico Estelita Lins.
Em 1917, editoriou, juntamente com seu pai Ismael e Saul Pinto de ’Ulysséa, seu tio, o jornal A Nota, fundado por Hugo Brinck Fischer, que era casado com Salomé Pinho de Ulysséa, sua tia.

As três Bibliotecas Públicas da Laguna
Em 29 de maio de 1980, na gestão de Mário José Remor/ João Gualberto Pereira (1977-1983), foi organizada, atualizada e inaugurada no prédio ao lado do Museu Anita Garibaldi, a Biblioteca Pública Municipal Romeu Ulysséa. Uma homenagem em vida ao emérito educador lagunense. Era secretário de Educação, Saúde e Promoção Social à época, José Paulo Arantes.
A Biblioteca Romeu Ulysséa havia sido criada pela Lei 14/69, de 19 de agosto de 1969, pelo prefeito Juacy Ungaretti.
A Biblioteca Pública Romeu Ulysséa, quando de sua inauguração na
 Praça República Juliana em 29 de maio de 1980.
Biblioteca Pública Romeu Ulysséa nos dias de hoje, instalada no mesmo
imóvel onde funcionou o Ginásio Lagunense.
Ao longo da história da Laguna, era a 3º Biblioteca que se inaugurava em nossa cidade. 
A primeira foi em 1876, quando do 2º centenário de sua fundação. Funcionava na então Praça Conde D’Eu, atual Praça República Juliana, mediante mensalidade de alguns cidadãos. Sua diretoria era assim constituída: Diretores: Custódio José de Bessa e Francisco Izidoro Rodrigues da Costa; secretário e tesoureiro: Antônio Fernandes Vianna; Bibliotecário: Antônio Luiz de Carvalho.
A segunda Biblioteca pertenceu ao extinto Centro Cultural Antônio Guimarães Cabral, denominada Cruz e Sousa e funcionava na mesma Praça, naquele casarão defronte ao Museu.

O aniversário de um século de nascimento
Até o fim de sua vida, Romeu Ulysséa viveu na residência edificada no local da mesma casa onde nasceu, na rua Conselheiro Jerônimo Coelho, aos cuidados de sua irmã, a professora Otília Ulysséa Ungaretti.
Os quatro irmãos reunidos no aniversário de um século de Romeu.
Da esquerda p/direita: Romeu Ulysséa, Renato Ulysséa, Ramiro Ulysséa e Otília Ulysséa Ungaretti.
Foto: Miriam Massignani Glasenapp Ulysséa. Arquivo Rogério Ulysséa
Por ocasião do seu centenário de vida, em 15 de julho de 1990, uma solenidade foi realizada na Câmara de vereadores da Laguna, que contou com apresentação especial do Coral Santo Antônio dos Anjos no recinto e defronte à sua residência. Homenagens e discursos emocionados de ex-alunos.

O advogado e ex-deputado por Laguna Armando Calil Bulos, assim se manifestou nas páginas do jornal O Estado, sobre o aniversariante:

“Singular personalidade. Manteve-se longe da esquina, das rodas de bar e de café. Guardou a palavra para as salas de aula.
Ao ruído das ruas preferiu o silêncio da biblioteca onde sobressaía a gramática que conheceu em profundidade e na qual se tornou mestre admirado além do município natal.
Romeu Ulysséa. Bebi da límpida vertente desse talento. E alinho-me aos discípulos cuja memória resistiu à distância no tempo e hoje o abraçam com emoção. Um século de fecunda existência.
A classe em Santa Catarina confere-lhe destaque no quadro de seus maiores valores. E nós o vemos entre os humanos da predileção divina”.

Rui Marques, outro ex-aluno, escreveu:
“Todos relembram, com carinho e gostosa saudade, a figura ímpar do mestre culto, competente e responsável que tinha o dom especial de transmitir-lhes o saber de um modo todo seu, eficiente, fácil.
Dele emanava como que uma aura infundindo nos alunos respeito e admiração. A modéstia – apanágio dos sábios – trescalava em todo seu ser, em cada lição, em cada gesto, em cada palavra, mesmo quando corrigia um erro, com autoridade, suavemente, sem melindrar”.

Munir Soares, ex-aluno, em sua prestigiada coluna no jornal O Renovador, fiel ao seu estilo, recordou, saudoso:

“Quando passos firmes e cadenciados ecoavam por todo o pátio interno, tudo mudava na sala, os alunos colocavam assento na cadeira e esperavam “silenciosos e curvos como uma vírgula”. O professor Romeu Ulysséa estava chegando, de cabeça baixa, sempre com um único livro numa das mãos, em duas passadas alcançava a escrivaninha e iniciava sua aula.
A correção dos textos, a análise no diagrama, redação, conjugação de verbos, leitura, etc., tudo com método próprio, simples e eficiente. O mestre, considerado o maior linguista catarinense, tinha a humildade dos sábios e às vezes, talvez, nem percebesse o milagre que sua sabedoria produzia em todos nós.
Com ele, desvendávamos o mistério de cada palavra, penetrávamos o mistério de berço latino. Sabia como ninguém lidar com todos os elementos, gregos ou latinos, radicais ou não. Em pouco tempo, com a benfazeja chuva primaveril, ele produzia o milagre da floração, adquiríamos o ‘status’ de substantivo próprio. Rosas, narcisos e margaridas, perdiam a timidez pois já tiravam a língua de letra”.

Seu sobrinho, o desembargador Norberto Ulysséa Ungaretti, de saudosa memória, em artigo publicado no mesmo jornal, ressaltou:

“Vejo-o no seu quarto de celibatário, que era igualmente seu modesto gabinete de trabalho.
Ao longo da parede, as estantes de boa e antiga madeira guardavam os livros, muitos livros, amigos fiéis da sua vida inteira e que lhes preenchiam as longas horas de estudo e solidão.
Ao centro, a sua mesa, os lápis e lapiseiras cuidadosamente arrumados, o tinteiro que abastecia a bela caneta Parcker de tampa dourada, as folhas de papel com as suas anotações e não raro com os desenhos, esboços e caricaturas em que se comprazia, por mero desfastio, revelando ignorado talento de artista.
Era isto, aliás, assim como a sua própria letra, elegante e caprichada, nítida manifestação da sua sensibilidade estética.
É assim que Romeu Ulysséa chega à celebração destes dias, velho de um século, mas puro como criança, honrado pelo respeito da sua gente, acarinhado pela gratidão dos milhares dos hoje avós e bisavós a quem serviu e ajudou a formar, durante quase 50 anos, transmitindo-lhes lições que ficaram para sempre guardadas”.
E concluiu Ungaretti:

“Felizes dos que, como ele, aguardam o seu tempo, alcançando serenamente, sem inquietações e sem remorsos, este luminoso crepúsculo”.

Romeu Ulysséa faleceu em 8 de agosto de 1990, algumas semanas após completar seu centenário de vida. Manteve até o fim sua modéstia, cultura e nobreza de caráter, traços dominantes da sua personalidade.