sábado, 23 de setembro de 2017

O falecimento do cantor e compositor Adilson Adriano

No último sábado (16), faleceu em Niterói (RJ), o cantor lagunense Adilson Adriano, aos 77 anos. 
Seu nome de batismo era Adilson dos Santos e daqui partiu na década de 60 para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Apresentou-se em diversos programas de emissoras de rádio como Tupi, Globo, Mauá, entre outras. Cantou inclusive na Discoteca do Chacrinha, Flávio Cavalcanti, J. Silvestre, Barros de Alencar, e foi um dos nomes em evidência do movimento musical chamado Jovem Guarda.
Seu primeiro disco saiu em 1968, o LP “Nasce um novo ídolo”, pela Gravadora Bemol, de Belo Horizonte.
Entre seus sucessos estão “Teu nome”, “Canta menina”, “A mesma porta” e “Amor demais”.



Num CD independente produzido há alguns anos trazendo diversas canções, compôs e gravou “Laguna rainha do sul”, apresentando-se com elas nos estúdios das rádios de nossa cidade.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sempre atual



quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Polícia Federal – A lei é para todos

Sem dúvida a melhor estreia do ano em filme nacional. O longa-metragem já levou meio milhão de espectadores ao cinema.

O filme é dirigido por Marcelo Antunez e dramatiza os bastidores da força-tarefa que investiga esquemas de propina e lavagem de dinheiro envolvendo empresários e políticos do alto escalão do Brasil. O filme é didático, em forma de trailler policial, e com muita cenas de ação, prende a atenção do início ao final.
No elenco Antônio Calloni, Flávia Alessandra, Ary Fontoura, Marcelo Serrado, Bruce Gomlevsky e João Baldasserini, entre outros.

O diretor da distribuidora Downtown Filmes, Bruno Wainer, em comunicado à imprensa disse: "O filme virou uma catarse coletiva, com aplausos ao fim da projeção. É como se o brasileiro tivesse encontrado na tela do cinema o grito contra a corrupção que estava preso na garganta."
Evidentemente tem gente por aí mais à esquerda que não viu nem gostou, é o tal negócio. Gosto é gosto é há quem prefira as insossas comédias brasileiras.

De fato, ontem, ao fim da projeção em que estávamos o público presente aplaudiu. Aplaudimos juntos, é claro. Recomendo. E há extras em forma de depoimentos ao final. Não levante da cadeira até os finalmente.

Tem político por aí achando que está fazendo tudo muito bem escondidinho, mas..


Reuniões suspeitas

Políticos sérios jamais deveriam se reunir com empresários em bares/restaurantes, a não ser em eventos públicos, em agendas oficiais e bem às claras!
Fora disso fica tudo muito suspeito.

Mas como exigir isso neste Brasil de hoje onde o público e privado se misturam numa grande orgia com o nosso dinheiro.

Eles dizem: Não tô nem aí para as redes sociais. Será mesmo?

Têm uns políticos engraçadinhos na Laguna, ainda pensam que enganam.
 Quando recebem críticas – que não suportam - dizem que não dão muita bola às opiniões das redes sociais, que quase não acessam essas páginas, e que elas não representam a população. Mas aí você vai conferir, esses políticos estão lá a todo o momento, as acessando até de madrugada e no horário de expediente, conferindo, postando notícias e fotos de seus poucos atos e pedindo o favor de compartilhamentos e likes.

Me engana que eu não gosto!

Temos algum “Nezinho do jegue” por aqui?

Os mais novos não o conheceram; e muitos de nós já mais antigos talvez nem lembrem mais.
 Mas na novela O Bem Amado, de Dias Gomes, que passou na Globo na década de 70, havia um personagem dos mais inspirados, dentre os tantos criados pela mente genial de Gomes.
Tratava-se do Nezinho do jegue, que quando estava bêbado falava mal do prefeito e quando estava sóbrio falava bem. Quer dizer: oscilava de opinião conforme o grau etílico.
Seus bordões eram: Morra Odorico! Ou Viva Odorico!

Será que existirão alguns “Nezinhos do jegue” na Laguna pelas redes sociais, clubes, bares e restaurantes da city?

sábado, 26 de agosto de 2017

As tentativas para trazer os restos mortais de Anita Garibaldi

Ao longo do tempo houve várias tentativas para trazer os restos mortais de Anita Garibaldi de sua sepultura na Itália, para Laguna, sua terra natal. Todas elas não lograram êxito.
Anita, em sua sétima sepultura, desde 2 de junho de 1932 descansa na Colina Gianícolo, em Roma, enquanto Giuseppe Garibaldi está sepultado em sua tumba na Ilha de Caprera, na Sardenha, ao lado de sua 3ª esposa Francesca Ambrosino. Anita e Garibaldi estão a quinhentos quilômetros de distância um do outro.
Monumento Anita Garibaldi na Colina Gianícolo, em Roma, onde repousam os restos mortais da heroína.
O monumento em nossa cidade com a imagem da heroína Anita Garibaldi, foi inaugurado em 20 de setembro de 1964, na então Praça da Bandeira, hoje República Juliana,
A obra em bronze, feita mediante escolha em concurso público, pelo escultor Antônio Caringi, considerado o maior escultor de obras épicas, já previa na parte posterior do pedestal, um local em forma de túmulo, inclusive com uma lápide que servisse futuramente de depósito aos restos mortais da heroína, como se pode observar na foto.
Monumento Anita Garibaldi, na Laguna, com a lápide projetada.
Na década de 1970 começaram 
as tentativas de translado
Conforme o pesquisador Wolfgang Ludwig Rau, “Em fins de 1973, estava tomando vulto na Laguna um movimento cívico com vistas à transladação dos restos mortais de Anita Garibaldi do monumento Gianícolo, uma colina na parte ocidental de Roma, na Itália para sua terra natal”. (O Perfil de uma Heroína Brasileira, pág. 481)
De fato, neste ano, o jornal Correio do Povo, editado em Porto Alegre–RS, e com grande circulação em Santa Catarina, promoveu ampla campanha com esse objetivo.
Mas o movimento logo encontrou resistências na Itália e não seguiu adiante em seu intento.


No início da década de 1980 nova tentativa
Em 1980, durante o governo do prefeito Mário José Remor, o assunto da repatriação voltaria à tona.
Novamente a campanha partiu da Companhia Jornalística Caldas Júnior, que editava o jornal Correio do Povo. Naquele ano, o jornal comemorava seu 85º de fundação.
No senado federal, o senador Jaison Barreto, lagunense, destacava o fato em pronunciamento, dizendo:
“Em Laguna, nossa terra natal, a iniciativa do Correio do Povo vem despertando o maior entusiasmo e alegria cívica”.

Wolfgang Ludwig Rau, entrevistado pelo jornal “Ofereceu-se para defender, junto às autoridades italianas, a campanha que ora se trava”.

Já o prefeito Mário José Remor, na mesma reportagem do periódico, assim se manifestava:
“A volta dos restos mortais de Anita Garibaldi é um velho sonho da comunidade lagunense. Penso que esta campanha do Correio do Povo será muito laboriosa, pelos esforços que exigirá. Teremos que convencer os italianos de que Anita Garibaldi tem mais importância para nós do que para eles”.

Imprensa catarinense se engajou na campanha
A imprensa catarinense também apoiava a iniciativa do Correio do Povo. O jornal Folha da Tarde, do RS, igualmente trazia várias reportagens sobre o assunto.
O sindicato dos jornalistas profissionais de Santa Catarina, através de seu presidente José Nazareno Coelho, enviou ofício à direção do Correio do Povo, expressando seu apoio à campanha. Em reunião de diretoria da entidade, foi aprovada por unanimidade “moção de aplausos ao jornalista Breno Caldas e ao Correio do Povo pela patriótica iniciativa de encetar a campanha”.

Os principais jornais de Santa Catarina, A Gazeta, O Estado, A Notícia e Jornal de Santa Catarina, destacavam a promoção do Correio do Povo. O jornal semanário A Ponte, de Florianópolis, trouxe matéria de capa sobre o assunto dizendo que vinha a público para “demonstrar que quer ser parte integrante do apoio que a campanha merece”.

Anita Garibaldi visita Laguna
Naqueles meses, visitava o Brasil, Anita Constance Garibaldi Hibbert, presidente da Européia Cultural Foudation, bisneta de Anita Garibaldi, filha do general Ezio Garibaldi, neto de Giuseppe Garibaldi.
Na foto pode-se observar Salun Nacif, Rau com a esposa Malvina, Anita Constance
com o marido Raymond Hibbert e o prefeito Mário José Remor. Arquivo Remor
Esteve no Rio Grande do Sul, inclusive na redação do Correio do Povo, em Santa Catarina e no Uruguai.
Conheceu a histórica Laguna, terra natal de sua famosa bisavó e posou para fotos aos pés da imagem da heroína, na Praça República Juliana.
Antes, indagada pela reportagem do Correio do Povo sobre a campanha de repatriação, a bisneta de Anita afirmou:

“Entendo o desejo dos brasileiros e especialmente dos lagunenses em terem de volta os restos mortais de Anita, mas considero difícil realizar a tarefa, pela expressão que ela também obteve na história italiana. Muita da força que Garibaldi teve para realizar a unificação da Itália e libertação do povo da dominação estrangeira provinha de Anita. Ela o marcou, com sua determinação, mesmo depois de morta e assumiu um papel que nenhuma outra mulher teve na história italiana”.

Com o passar dos dias, a campanha novamente caiu no esquecimento, devido às resistências dos descendentes e das autoridades italianas.

Em fins dos anos 90 novas ações
Anos depois, em 1998, novas ações foram empreendidas com vistas à realização do translado.
No começo do ano, em 27 de janeiro, uma comitiva de lagunenses, juntamente com o deputado federal Paulo Bornhausen buscou o apoio diplomático em Brasília, através do ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampréia, com vistas à transferência dos restos mortais.
Fizeram parte da comitiva o presidente do Fórum Sul de Debate Permanente, Mário Eduardo Barzan, o vereador lagunense Renato de Oliveira, o radialista João Batista Cruz e o secretário de turismo da Laguna Waldy Sant'Anna Júnior. Era prefeito da Laguna João Gualberto Pereira.

É também o ano em que o advogado Adílcio Cadorin e diversas entidades representativas da sociedade lagunense, conseguem na justiça (Ação de Justificação Judicial) o chamado registro tardio, a certidão de nascimento de Anita Garibaldi. O edital de Intimação de sentença foi emitido em 5 de dezembro de 1998 e o mandato para o registro tardio no cartório foi expedido em 11 de maio do ano seguinte, em solenidade na Casa de Anita, antecedida de uma passeata desde o Fórum da Comarca.

Matéria publicada em meu jornal Tribuna Lagunense, de 10 de julho de 1998 sobre a repatriação dos restos mortais de Anita Garibaldi dizia:

“Devemos envidar e concentrar nossos esforços para repatriar seus restos mortais, erigindo-lhe um memorial, como forma de resgatar o débito de gratidão que lhe devemos. Sepultada distante de sua terra natal e longe da companhia de seu eterno esposo, Anita hoje é apenas um monumento isolado, erguido no alto de uma colina italiana, que ainda não descansou definitivamente”.

Em 1999, em 22 de março, havia sido criada a Fundação Anita Garibaldi (hoje denominado Instituto) e formada uma Comissão pelo Repatriamento dos Restos Mortais de Anita Garibaldi.
Em maio do mesmo ano membros da Comissão entregam a Luiz Fernando Lampreia, Ministro das Relações Exteriores do Brasil, a certidão tardia e um dossiê com reportagens e diversos outros documentos, juntamente com o pedido da repatriação dos restos mortais, o que envolve articulações diplomáticas.

Delegação foi à Itália
O governador Esperidião Amin e Gilmar Knaesel presidente da Assembleia Legislativa de SC, assumem oficialmente a campanha pelo repatriamento. Uma viagem de deputados catarinenses já estava programada à Itália com vistas a tratar de outros assuntos e o repatriamento dos restos mortais entrou na pauta da viagem.
Faziam parte da delegação os deputados estaduais Gilmar Knaesel, Ivan Ranzolin, Volnei Morastoni, Reno Caramori, Rogério Mendonça, Romildo Titon, Ronaldo Benedet, Onofre Agostini, Gelson Sorgato, pelo deputado federal Pedro Bittencourt Netto, pelo representante do governador do estado, Mauro Beal e Adílcio Cadorin, presidente da Fundação Anita Garibaldi.
A delegação levou um dossiê contendo cópias de declarações de instituições e farto material jornalístico em torno da transferência dos restos mortais de Anita Garibaldi.
Em Roma, em audiência, o material foi entregue pela delegação à senadora e vice-ministra Patrícia Tóia, da Farnesina, o Ministério de Relações Exteriores daquele país. Presente também à reunião, que durou uma hora, Annita Garibaldi Jallet, bisneta da heroína.

Vice-ministra italiana joga ducha de água fria sobre o pedido
Patrícia Tóia à ocasião declarou apoio a todas as iniciativas que visem o incremento das relações culturais, políticas e econômicas com o Brasil. Sobre o pleito da transferência dos restos mortais foi objetiva: “Não é o momento de analisar o mérito do pedido”.
A delegação também foi recebida pelo Embaixador Brasileiro em Roma, Paulo Tarso Flecha de Lima, a quem solicitou apoio ao pleito. Flecha Lima com entusiasmo deu apoio à missão parlamentar catarinense, mas frisou: "Não será fácil. Os italianos a consideram a "mãe da Pátria". Antevejo dificuldades, mas não vamos desanimar. Levamos D. Pedro I para o Brasil. Por que não lutar pela volta de Anita?".

Jornal A Notícia publicou ampla pesquisa e entrevistas com descendentes de Anita
Em caderno especial em homenagem aos 150 anos da morte de Anita, intitulado “Aninha virou Anita”, publicado pelo Jornal A Notícia, em 4 de agosto de 1999, em projeto editorial, pesquisa e textos do jornalista Celso Martins e do arquiteto lagunense Dagoberto Martins, ambos lagunenses, a repatriação também é abordada. Texto, entrevistas e fotos feitos na Itália são do jornalista Moacir Pereira.

Com o título “Translado é tema delicado” há uma entrevista com Érika Garibaldi, casada com Ezio Garibaldi, já falecido e neto de Anita Garibaldi. Ela presidia a Federação das Associações Garibaldinas e já havia feito várias tentativas de transferir os restos mortais de Anita para a Ilha de Caprera onde está sepultado Garibaldi.
Érika já tinha estado em nossa cidade e sobre o pedido assim se manifestou:

“Acho muito positiva a bandeira levantada pelos catarinenses de transferência dos restos mortais de Anita para Laguna. Entendo a importância da causa, com ela até me solidarizo porque representa um resgate memorável”.
Mas advertia: “Acho que os italianos não aprovarão esta ideia. Anita Garibaldi foi morta aqui na Itália, lutou com Giuseppe pela unificação da Pátria, participou de vários e importantes combates, foi dignificada em vários atos oficiais e enaltecida pela materialização de vários monumentos, o maior dos quais em Gianícolo. Ela deve ficar junto do marido”.

“Anita Garibaldi é considerada mãe da Itália”, diz bisneta
Outra importante descendente de Anita, a bisneta Annita Garibaldi Jallet, que atuava no Conselho Geral dos Italianos no Exterior, principal órgão de intercâmbio internacional do Ministério das Relações Exteriores da República da Itália, considerava o pleito “Muito delicado”, enfatizando que “Anita Garibaldi é muito admirada na Itália, porque se constitui na única mulher símbolo da unificação”.
E prosseguia abordando a delicada questão:
“Anita Garibaldi é considerada por nós como a mãe da Pátria. O pai da Itália é Giuseppe, seu marido. Há muitas mulheres com desempenhos notáveis ao longo da história italiana. Podem ser encontradas muitas mulheres de expressão intelectual. Mas só Anita pegou em armas para defender os ideais de justiça e liberdade”.
“Em nome da Itália fala o governo italiano”, continua. “Mas é importante salientar que a Itália guarda com muito amor as cinzas de Anita Garibaldi. Não podemos dividir os seus restos mortais. Além disso, há outras maneiras de fazermos uma ponte entre Roma e Laguna, entre o Brasil e a Itália. Considero até secundário levar ou não levar suas cinzas para o Brasil”, afirmou, enfraquecendo a bandeira do repatriamento.

Diante dos fatos, o então secretário da Casa Civil do governo de Santa Catarina, professor Celestino Secco, em entrevista ao jornal A Notícia, de Joinville e publicada em 14 de julho de 1999, opinou sobre o assunto:

"Mais importante que transladar as cinzas de Anita Garibaldi da Itália, é reverenciar sua memória e exemplo. O mais importante é que haja o registro histórico da personagem e não a vinda das suas cinzas. Precisamos é reverenciar Anita como heroína. Não é imperativo a vinda das cinzas para Santa Catarina. O que importa é o que fica como grau cultural e não o grau material de um evento".

Desde então não houve mais movimento pela repatriação dos restos mortais de Anita da Itália para Laguna.

Wolfgang Ludwig Rau, considerado por muitos historiadores e escritores um dos maiores biógrafos de Anita Garibaldi, no prefácio de seu grandioso livro “O Perfil de uma Heroína Brasileira”, entendeu o grande valor de Anita Garibaldi na Itália e junto aos italianos, um povo que cultua verdadeiramente seus heróis, não tendo memória curta nem menosprezo pelos seus antepassados.
Rau sintetiza esse valor em sua obra:

“Compreendi, desde logo o quanto o “mito Garibaldi” representa na Itália; e compreendi, também – já nas primeiras horas – quanto de elevado valor representa especialmente a nossa lagunense Anita para o povo italiano, por ela mesma e por ter sido a esposa e amada companheira de seu Herói Nacional, Giuseppe Garibaldi”.
E finaliza o pesquisador e escritor, com chave de ouro:

“A voz do povo italiano, através da tradição oral, perpetuou-lhe uma lembrança cheia de admiração pelos seus feitos guerreiros, seu estoicismo nas maiores privações e pelo seu desprendimento tantas vezes comprovado”.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Quem foi René Rollin

Nascido na Laguna, em 13 de maio de 1881, René Rollin era filho de José Goulart Rollin e de Emilia Cândida da Silva, tronco da numerosa família Rollin de nossa cidade.
René Rollin
Goulart Rollin, seu pai, era telegrafista, nascido em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro e viera transferido para trabalhar como agente dos correios e telégrafos da Laguna.
Logo se incorporou à sociedade lagunense, granjeando inú- meros amigos e participando ativamente de atividades teatrais e musicais. Colaborou e muito para o soerguimento de nosso hospital. René Rollin, filho de José Goulart Rollin, faria juz aos axiomas de que o fruto não cai longe do pé ou de que filho de peixe, peixinho é.

Casado com Maria de Oliveira Pinho Rollin (dª Mariquinha), o casal teve os filhos: Célio, Cerize (mãe do ex-prefeito Mário José Remor) e Celi.
 Outro dos filhos de José Goulart Rollin foi Ataliba Rollin, baluarte na formação da chamada comissão de aformoseamento que visava dotar a nossa cidade de melhoramentos em sua infraestrutura, principalmente no que tange a seu embelezamento.
Por isso vamos encontrá-lo à frente da construção do Jardim Calheiros da Graça e da construção do cais do velho porto, junto com José Guimarães Cabral (Juca Cabral) que era seu cunhado, casado com sua irmã Cecy Rollin.

Mas voltemos a René Rollin. Funcionário público era coletor de impostos. Espírito abnegado, patriota, logo cedo demonstrou seu civismo e a vontade de ajudar os semelhantes. Com 29 anos fazia parte da diretoria do Centro Espírita Fé, Amor e Caridade de nossa cidade. Numa ata contendo exames de prestações de contas daquela entidade, em 1910, seu nome consta junto a outros membros, como Luiz Néry Pacheco dos Reis e Octávio Carneiro. Todos eles grandes amigos do médico lagunense dr. Ismael Ulysséa, fundador daquela Casa Espírita.

Em 1916, René Rollin, apaixonado pelos ensinamentos de Baden-Powell, introduz o escotismo em Santa Catarina. Mas somente em 1º de janeiro de 1917 funda oficialmente em nossa cidade uma escola de escoteiros, sendo seu primeiro instrutor.
Comissão Regional de Escoteiros da Laguna – Junho de 1918. Em pé: Sady Magalhães, Ruben Ulysséa, Arnaldo Carneiro, Ramiro Ulysséa, Dante Tasso e Hercílino Ribeiro. Sentados: René Rollin, Álvaro Carneiro e Luíz Sanchez Bezerra da Trindade. Fotos: Marega

A ele se aliam no ano seguinte mais dois idealistas: Álvaro Carneiro (patrono) e Luiz Sanchez Bezerra da Trindade (instrutor). O primeiro escrivão da mesa de rendas federais e o segundo, diretor do Grupo Escolar Jerônimo Coelho.
O trio e Escola de escoteiros bem por isso receberam a denominação de “Bela Trindade”. Outros membros da diretoria: Romeu Ulysséa (vice-presidente), Tancredo Pinto (secretário), Octávio Bessa (tesoureiro), Antônio Guimarães Cabral (orador) e os vogais, Lucas Bainha e Octávio Carneiro.

René Rollin foi também diretor do Tiro de Guerra 137, de nossa cidade. Logo a Escola de Escoteiros da Laguna estaria participando de marchas, desfiles e campanhas, com seus membros prontos a servir. Sempre alerta, como preza o lema dos escoteiros.
Como o mundo, Laguna também sofreu a epidemia da gripe espanhola, em 1918. René Rollin foi um dos primeiros a se lançar em ajuda aos infectados que eram isolados numa casa existente nos altos do Morro do Iró, denominada “lazareiro”, destinada a pessoas contaminadas com moléstias contagiosas.
Em pouco tempo o local se tornou pequeno para abrigar tantos enfermos.
Agenor Bessa numa de suas crônicas narra sobre a “espanhola” em nossa cidade, testemunha ocular dos fatos que foi, mesmo em tenra idade:

“Laguna foi atingida pela epidemia antes de dezembro de 1918. Não houve uma casa em que o germe não entrasse e, por vezes, atingindo todas as pessoas da família.
Do Hospital S. B. Jesus dos Passos saiam quase que diariamente numa carroça, para os cemitérios, pessoas que haviam falecido durante a noite. As enfermarias se achavam lotadas e além de todos os leitos ocupados com gente em tratamento, também nos corredores eram vistos pacientes em esteiras pelo assoalho, homens, mulheres e crianças que, por força da conjuntura, eram hospitalizadas.
Laguna, nessa época era atendida pelo dr. Aurélio Rotolo e pelo dr. Ismael Ulysséa. Ambos foram atacados pela “espanhola” que os surpreendera, afastando-os de quaisquer atividades.
O sr. Manoel Olavo da Rosa, farmacêutico que receitava aos pobres e o sr. Henrique Esteves, médico homeopata, também foram recolhidos ao leito, ficando a Laguna dependendo apenas do sr. Tácito Pinho, farmacêutico que receitava abertamente, mas que não dava conta do serviço”.

Foram vários os escoteiros que participaram do ato de ajuda humanitária, mas somente René Rollin acabou também se contaminando com a peste e que vitimou milhões de pessoas no mundo.
 No Brasil, por exemplo, matou no exercício do cargo o presidente Rodrigo Alves.
 Como não poderia haver contato sem risco, ao saber-se doente, depois de ter ajudado tantos enfermos e não querendo ser um agente transmissor, René Rollin voluntariamente se despediu dos familiares e amigos. Partiu sozinho pela estrada do morro. Foi em direção à casa de recolhimento no Iró, numa cena obviamente triste e que ficou na memória de muitos que a presenciaram.
Poucos dias depois, em 13 de dezembro de 1918, René Rollin estaria morto aos 37 anos.

Num escrito publicado no jornal O Dever, de 22 daquele mês, Álvaro Carneiro assim escreveu sobre o amigo falecido:

(...) “Quem poderia imaginar, então, que o benemérito introdutor do Escotismo em Santa Catarina seria uma das vítimas dessa covarde e miserável epidemia, tão covarde que se disfarça a cada minuto, apresentando aspectos vários, e tão miserável que, apesar da multiplicidade dos nomes, não se sabe ao certo como se chama? René Rollin morreu. A peste fatídica não o poupou, matando-o 10 dias depois de lhe ter vibrado o golpe traiçoeiro. O seu coração – coração de ardente patriota, onde se abrigaram e desenvolveram os mais elevados ideais – não ama, não sente, não pulsa mais, paralisado para sempre pelo sopro gélido da epidemia maldita. Entretanto ele vive! Vive pela sua obra; existe no coração de cada escoteiro; ressurge pelo poder de nossa saudade e pela força de nossa admiração”. (...)

O falecimento de René Rollin e a transferência de Luiz Trindade no início de 1919 para Lages paralisou o funcionamento da Escola. Foi a primeira fase do Escotismo na Laguna.
Em 1924 será reativado, em sua segunda fase, funcionando até 1927. Depois, vai ressurgir somente em 1939, com o nome de Associação dos Escoteiros da Laguna, na esteira do começo da 2ª Guerra e se estendendo até 1960.

Laguna homenageou René Rollin com nome de rua no Balneário Mar Grosso. 

A culpa é somente do sistema?

"O sistema entrega a mão pra salvar o braço.
O sistema se reorganiza, articula novos interesses, cria novas lideranças.
Enquanto as condições de existência do sistema estiverem aí, ele vai resistir.
Agora me responda uma coisa, quem você acha que sustenta tudo isso?
É… E custa caro. Muito caro. O sistema é muito maior do que eu pensava.
Pra mudar as coisas vai demorar muito tempo.
O sistema é foda".

(Trecho final do filme Tropa de Elite 2)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Então, então...

“Parece que as pessoas não mais  impressionam-se ou  espantam-se com mais nada.
Muitos já não se preocupam mais em usar máscaras.
É tudo às claras”.

(Emanuel Medeiros Vieira)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Fotógrafo lagunense expõe na Assembleia Legislativa

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina recebe, entre os dias 31/07 e 11/08, a exposição fotográfica “Laguna”, formada por 18 obras do fotógrafo Ronaldo Amboni.
Foto: Vitor Shimomura/Agência AL)
Esta é a primeira vez que o profissional realiza uma exposição, na qual estão retratados aspectos específicos do município do Sul do estado, tais como suas praias, a interação entre botos e pescadores, o casario colonial e a ponte Anita Garibaldi.
O artista, que até oito anos atrás atuava profissionalmente como representante comercial, explica que a fotografia entrou em sua vida como um hobby cultivado nas horas vagas, no qual procurava expressar sua paixão pelas paisagens naturais da sua terra natal.

A decisão por dedicar-se integramente à fotografia, afirma, aconteceu por acreditar que o melhor seria focar no que realmente lhe dava prazer. Desde então, encara cada trabalho como um momento especial, no qual procura compor cada imagem tal qual um pintor em uma tela. “A diferença é que na fotografia se desenha com a luz. Mas no momento em que dou o clic [na câmera] já sei se a fotografia sairá especial.”

A qualidade dos registros realizados por Amboni também foi reconhecida com a seleção de alguns de seus trabalhos para a composição do livro “Ponte Anita Garibaldi, a Construção de um Sonho”, editado pelo consórcio construtor da estrutura.

A exposição fotográfica “Laguna” tem a curadoria de Kiko Cervi.

Fórum vai discutir esgoto na Praia do Mar Grosso

Moradores da Laguna montaram um fórum de discussão, chamando os órgãos responsáveis para participar, sobre a questão do esgoto na praia do Mar Grosso. O encontro, com o tema “Mergulhando na realidade do saneamento do Mar Grosso”, vai ocorrer nos dias 16 e 17 de agosto, no auditório da Udesc, a partir das 19h. 

“Queremos acabar com o jogo do empurra-empurra entre os órgãos responsáveis. Nossa intenção é construir uma agenda positiva de soluções”, diz o presidente da Associação de Moradores do Mar Grosso (Ammar), Daniel Carneiro.

O encontro inicia com a explanação do engenheiro civil André Labanowski, antigo morador do bairro, sobre como ocorreu a evolução urbana do Mar Grosso, onde a construção de prédios e residências cresceram sem a rede de esgoto acompanhar o processo, e ausência de fiscalização, de acordo com a Ammar.


A ação, segundo a Ammar, será um importante passo para o enfrentamento da problemática do saneamento, a partir das palestras e discussões, buscar esclarecimentos da situação atual do sistema de efluentes, além de entender os reflexos da poluição para o ecossistema marinho e lagunar, finaliza os responsáveis pelo projeto.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Fundação da Póvoa de Santo Antônio dos Anjos da Laguna

Domingos de Brito Peixoto, o fundador, em 1676,
da Póvoa de Santo Antônio dos Anjos
da Laguna.
A Póvoa de Santo Antônio dos Anjos da Laguna foi fundada em 1676.
Quem disse isso?
Ora bolas! O próprio filho do fundador, o capitão-mor da Laguna Francisco de Brito Peixoto. E disse não uma, mas duas vezes.
Quem discorda?

Durante muitos anos a data de fundação da Laguna foi um tema bem discutido.
No início década de 70, nossos maiores historiadores chegaram a um consenso e por fim, o tricentenário foi comemorado em 1976.
O historiador, médico, escritor, deputado, lagunense Oswaldo Rodrigues Cabral, autor de inúmeras obras de relevo da história catarinense,  penso que condensou os vários estudos e versões sobre a Fundação da Laguna, e num extenso capítulo publicado no livro “Santo Antônio dos Anjos da Laguna – Seus valores históricos e humanos”, edição comemorativa da passagem do tricentenário de fundação da Laguna, publicado em 1976 pelo governo do estado, Imprensa Oficial – IOESC, no governo de Antônio Carlos Konder Reis, dissecou as várias correntes.
Mas vamos por partes, que o assunto e longo e apaixonante. Para quem gosta, evidentemente.

Há um documento, citado por Carvalho Franco, onde aparece o ano de fundação da Laguna. Ele está transcrito quase que integralmente no livro "Bandeiras e Bandeirantes de São Paulo" – Cia. Editora Nacional – Col. Brasileira – Vol. 181 – S. Paulo, 1940 – págs. 282/3/4.

Trata-se de uma petição ao Rei, assinada por Francisco de Brito Peixoto, o capitão-mor da Laguna, o filho do fundador e presente quando da fundação da póvoa, e anexa à provisão-régia de 6 de fevereiro de 1714.

Em minha humilde opinião, dos mais importantes documentos sobre a fundação da Laguna, de valor incalculável historicamente, porque é um depoimento, fonte primária insofismável, mesmo sendo feito 38 anos depois dos acontecimentos, que narra pormenores, como tempo desprendido da viagem pelos Brito Peixoto desde Santos, o ano, a quantidade de gente que trouxe, a morte do irmão Sebastião de Brito Guerra e a do pai Domingos de Brito Peixoto na Vila da Laguna.
O documento prova que a data, o ano de fundação da Póvoa de Santo Antônio dos Anjos da Laguna não foi escolhido aleatoriamente por alguns historiadores e legisladores três séculos depois visando comemorações de aniversário.
 Cabral transcreve a petição e também o fazemos aqui:


“Diz o Capitão Francisco de Brito Peixoto, morador na povoação de Santo Antônio dos Anjos, que fez e descobriu para as bandas do sul, em distância de cento e vinte léguas da Vila de Santos, que ele teve tão grandes desejos de merecer no serviço de Vossa Majestade e de lhe dilatar o Império, que, sendo das principais e mais abastadas famílias de todas aquelas vilas do sul, deixou sua casa e a própria mãe e se foi com outro seu irmão mais moço, chamado Sebastião de Brito Guerra, que era tenente da Ordenança, em companhia de seu pai, o Capitão Domingos de Brito Peixoto, a descobrir novas terras que não fossem de pessoa alguma habitadas, e com efeito, NO ANO DE 1676 saíram da Vila de Santos, donde eram moradores, levando consigo cinquenta escravos seus, com os quais bem feitorizavam as suas fazendas, que deixaram incultas e todo o mantimento necessário para a dita gente, e para dez homens brancos, que com ela iam, como também outras armas e provimento bastante de pólvora e chumbo, e ferramentas condizentes para o rompimento dos matos e feitorias de embarcações, em que fizeram uma despesa tão grande como se considera, e com este apresto saiu da dita Vila, em que meteu mantimento e mais ferramentas necessárias, dando-lhes ordem fossem dar fundos defronte da paragem chamada Lagoa dos Patos, e que aí estivessem, até que o suplicante, seu pai e irmão chegassem, para lhe apontarem a paragem em que iam desembarcar, que o dito seu pai já tinha sabido, por ter de antes ido examinar o dito sítio, e depois que gastaram quatros meses no caminho com romper os matos e buscar as passagens, foi o mesmo suplicante com os mais dar no sítio da Lagoa dos Patos, com imenso trabalho de tão áspero e dilatado caminho... e nesta viagem lhe morreram mais de vinte e cinco escravos... e assim chegou ao dito sítio da Laguna, fez pôr em terra os mantimentos e ferramentas que pelo mar tinha mandado na fragata, fundando povoação... dando o pai do suplicante notícia ao Sereníssimo Senhor Rei Dom Pedro (Pedro II, denominado o "Pacífico" N.A.), que a glória haja, pai de Vossa Majestade, que Deus guarde, foi servido mandar-lhe agradecer por carta este novo descobrimento e povoação, o que fez com promessa de lho remunerar, a qual carta se perdeu em uma das ditas embarcações, porém a viram muitas pessoas que dela testemunharão, e assim o dito seu pai, como o suplicante, enquanto foi vivo, gastaram muita fazenda neste descobrimento, e nele lhe morreu o outro filho solteiro, o tenente Sebastião de Brito Guerra, com muita quantidade de escravos, que lhe mataram e se perderam, e o dito capitão Domingos de Brito Peixoto, pai do suplicante se faleceu na mesma povoação, depois do dito seu filho, e por sua morte nenhum outro varão lhe ficou mais que o suplicante, Francisco de Brito Peixoto”.

Um único documento desses dirimiria qualquer dúvida quanto ao ano de fundação da Laguna, não é mesmo, leitor? Mas ainda há mais.

Moacir Domingues, em sua obra “A Colônia do Sacramento e o Sul do Brasil” – Porto Alegre – Sulina 1973 – pág. 239 – Doc. 27, transcreve outro documento.

É uma nova carta ao Rei de Portugal, essa datada de 20 de abril de 1730, portanto 16 anos mais tarde o que já havia declarado na petição de 1714, o mesmo Francisco de Brito Peixoto, já com certa idade (85 anos, vai falecer em 1735), diz o seguinte:


“(...) Resolveu-se meu Pai Domingos de Brito Peixoto, vassalo de V.R.M, sendo morador da Vila de Santos, e abundante de bens, na mesma Vila a vir com todo o empenho, trazendo-nos em sua companhia assim a mim como a um irmão meu Sebastião de Brito Peixoto, em uma fragata, que para esse fim mandou fazer trazendo em nossa companhia muitos escravos, com todos os preparos necessários para o descobrimento deste lugar chamado a Lagoa dos Patos, cujo descobrimento fizemos em era de seiscentos e setenta e seis, e chegando à dita Laguna fizemos assento em o mesmo lugar, que é hoje da Vila...”

E indaga Osvaldo Cabral sobre este segundo documento:
“Por que insistiria Francisco de Brito Peixoto no milésimo 1676, se não fora ele o verdadeiro, fixado de tal modo em seu subconsciente que, mesmo valetudinário e quebrado pelos anos e desenganos, ainda era o que lhe vinha à mente para citar?”

Cá pra nós leitor, se fossemos fazer uma ação, requerendo na Justiça, uma espécie de Certidão de Nascimento tardia da Laguna, eis dois documentos imprescindíveis – fontes primárias, repito – que estariam em anexos aos autos.

Ainda Osvaldo Rodrigues Cabral, nas páginas 82/83 do livro “Santo Antônio dos Anjos da Laguna – Seus valores históricos e humanos", diz que aceitam o ano de 1676, preferindo-o a qualquer outro, os seguintes autores/historiadores:
Basílio de Magalhães, Aurélio Porto, Lucas Alexandre Boiteux e Aníbal de Matos, além dele próprio, Cabral.

******
E o mês e dia de fundação da Laguna?
Quanto ao mês e dia de Fundação, aí sim não existem documentos que comprovem a data. Os estudiosos se dividem nas opiniões.

Diz Cabral na obra que venho me reportando até aqui, que não se conhece com exatidão...
o dia em que o seu fundador, com sua gente - familiares, agregados, escravos, indígenas e homens de armas – pisou pela primeira vez, com propósitos de nele se fixar, o chão sulino e, olhando em torno, escolheu o local que lhe pareceu o melhor para deitar fundamentos a um povoado, dizendo aos circunstantes que acreditava ser aquele o sítio mais apropriados para fazê-lo, e ao mais que trazia em mente, e mandou que desenfardassem toda a tralha que traziam”. P. 57

Cabral salienta que Laguna “não seria a única de tantas povoações oriundas da expansão vicentista que perderia memória do dia exato em que se verificou o evento”.

Sabe-se que era praxe entre os descobridores de novas terras, batizá-las com o orago a que seria dedicada.
No caso de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, a dificuldade está justamente no complemento “dos Anjos”, sendo o nosso padroeiro o único santo com essa nomenclatura.
O saudoso professor Ruben Ulysséa debatia duas possibilidades:
13 de junho, data consagrada ao santo lisboeta – Santo Antônio de Lisboa, igualmente chamado de Pádua; e a data de 2 de outubro consagrado no hagiológio aos Anjos.

Hagiológio= Nome que se dá à descrição, estudo e tratado sobre a vida dos santos, no cristianismo.(N.A.)

Nail Ulysséa, estudiosa da nossa paróquia, escreveu todo um capítulo dedicado a Matriz Santo Antônio dos Anjos da Laguna, no livro em comemoração ao Tricentenário de Fundação.
Sobre o nome da Fundação, diz Nail “Que há um concerto uníssono em afirmar que a povoação foi fundada sob a invocação de Santo Antônio”.
“Porque “dos anjos”, isto sim, há diversas opiniões a respeito”, salienta.

Cita Ruben Ulysséa, para quem a povoação foi fundada a 2 de outubro, dia do Anjo da Guarda.

Nail Ulysséa também invoca a opinião de Frei Adalberto Ortmann, que em artigo publicado em 1958, no volume “Ensaios Paulistas, com o título de “Famílias de Piratininga e Franciscanos Paulistas”, afirma que frades franciscanos acompanharam Dias Velho, na fundação de Nossa Senhora do Desterro; e Domingos de Brito Peixoto, na de Laguna.
Franciscano que teria erigido “A capela de Santo Antônio dos Anjos, numa invocação típica dos franciscanos, lembrando a capelinha de Nossa Senhora dos Anjos, berço de sua ordem em Assis d’Itália”.

Nail Ulysséa também fala dos místicos, que se apoiam na lenda “de que a primeira imagem de Santo Antônio fora trazida pelos anjos e colocada na praia, onde foi encontrada”.

O historiador, pesquisador e colecionador Antônio Carlos Marega, em seu Blog, assim escreve sobre a data de fundação da Laguna:


“Chegando na Laguna no dia 02 de outubro, dia “dos Anjos”(Anjos Gabriel, Rafael e Miguel), Domingos de Brito Peixoto inteligentemente, não fugiu à tradição de oferecer a fundação ao santo do dia, só acrescentou antes o nome do santo de sua devoção (ouvi esta hipótese, pessoalmente do grande historiador Dr. Oswaldo Rodrigues Cabral). Fato é que veio com ele a primeira imagem de Santo Antônio, sendo colocada na capela de pau-a-pique, para devoção, devoção esta que chegou ao grau de intimidade entre o lagunense e o santo, como se tem para com um pai, um irmão ou para com um grande e melhor amigo. Santo Antônio dos Anjos é carinhosamente, o “Toninho”.
  
***
Voltemos ao início da década de 70. A data do tricentenário da Fundação da Laguna (1976) se aproximava e havia a necessidade de se marcar o dia e mês para as comemorações da Fundação. Mas qual dia? Qual mês do ano?
As opiniões se dividiam. Dia 13 de Junho? Dia 2 de outubro? Terceiro domingo de julho?

Legisladores lagunenses, junto aos historiadores e demais autoridades, optaram por 29 de julho. Lei Municipal nº 15/1975, de 02/05/75.
Por quê?
Dia e mês criados aleatoriamente, sem dúvida, mas onde também se pretendeu homenagear a República Catarinense (ou Juliana), com a criação de uma Semana em que se pudesse reverenciar a data, com exposições, concertos musicais, concursos literários, palestras, gincanas, etc...
Era o embrião da futura “Semana Cultural da Laguna”, criada em 1981 na gestão do prefeito Mário José Remor/João Gualberto Pereira, que visava unir a população no conhecimento de sua história e se tornar uma atração turístico-cultural no inverno, num mês “fraco” nesse aspecto.

Epílogo
História não é uma ciência exata, como a matemática, por exemplo. A qualquer momento, através de novos documentos e/ou depoimentos que surgem pelas mãos de pesquisadores, tudo por ser reescrito.

Que as autoridades da Laguna meditem:
Mesmo não sendo exata, a história segue uma dedução lógica. Ela não dá pulos, não se pode botar as carroças antes dos bois.
Se a data da fundação da Laguna for alterada para 50, 100 anos antes, como alguns propõem, obviamente deixa-se de se reconhecer a data de 1676 como a de sua fundação. Não há como ser diferente.
Risque-se, portanto, o nome do fundador Domingos de Brito Peixoto, mude-se o brasão e a bandeira do município e retire-se a estátua de Brito Peixoto de seu pedestal.
Altere-se também o nome de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, batizada que foi pelo seu fundador.
E mais que isso. Troque-se de padroeiro.

É o que querem? É o desejo do povo lagunense?

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fortim Atalaia da Ponta da Barra: memória histórica de uma Batalha Naval entre Farrapos e Imperiais

“A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro” (Le Goff).

Completamente abandonado, em ruínas - até 1976 ainda era possível ver algumas paredes -, o Fortim Atalaia, também chamado de Forte Garibaldi, situado na Ponta da Barra bem que poderia ser reerguido e restaurado.
Este fortim, em princípio chamado de Bateria da Barra da Laguna, um posto de artilharia da costa, armado com canhões, ao que se sabe foi construído por volta do ano de 1800. 
O Major Manoel Joaquim D'Almeida Coelho, em sua obra "Memória Histórica da Província de Santa Catarina, página 176, editada em 1854, informa: 

"Pouco antes do ano de 1880 o capitão-mór da Vila da Laguna, Jerônimo Francisco Coelho, fez construir à sua custa, no lado do sul daquela barra e para defesa da mesma, um forte que ainda existe; mas desmantelado. Foi desse forte que se aproveitaram os rebeldes em 1839 para impedir a entrada da esquadrilha imperial, causando bastantes mortes, ferimentos e danos às primeiras embarcações".

Como vimos, foi o forte reconstruído pelos Farroupilhas durante a República Catarinense, ou Juliana, em 1839. Servia também como depósito de armamentos.

A foto, tirada no último fim de semana, mostra a situação do local nos dias de hoje. É possível observar as pedras remanescentes das paredes do Fortim.

Não sei se o terreno onde se situa é propriedade particular. Presentemente está cercado e situado entre duas casas. Se verdadeiro, não seria o caso de uma indenização em prol da nossa história?

Em minhas pesquisas, encontrei o Decreto nº 28/82, de 27 de dezembro de 1982, assinado pelo então prefeito da Laguna Mário José Remor, "considerando tombado as ruínas do Forte José Garibaldi, em Ponta da Barra". O Decreto considerando a área pertencente ao Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de nosso município, foi publicado à página 5 do Jornal O Renovador, de 15 de janeiro de 1983.

É seguir o exemplo do que foi feito nas fortificações, fortalezas da Ilha de Santa Catarina, projetos do brigadeiro José da Silva Paes. 
Bem que a Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc) ou a Udesc ou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), juntamente com a prefeitura da Laguna, poderiam restaurar e revitalizar a área. Muitas das pedras que constituíram os alicerces e paredes da edificação ainda estão depositadas no local.
Depois, poderia ser aberto à visitação pública, como museu, já que se trata de monumento de arquitetura militar de nosso país. Réplicas de canhões, painéis e fotos contariam a história dos 106 dias da efêmera República Juliana, e da Batalha Naval que a pôs fim.
Teatro da Batalha Naval de 15/11/1839. Desenho de Lucas Boiteux.
O fortim é citado em livros e documentos importantes. O próprio Garibaldi em suas memórias ditadas a Alexandre Dumas, em 1860, faz referência ao local, quando fala sobre a batalha da Retomada da Laguna, em 15 de novembro de 1839. Vejamos:

“(...) Subi ao cimo da montanha mais próxima, a fim de observar o inimigo, e de pronto compreendi que o seu plano consistia em agrupar suas forças na entrada da laguna. Imediatamente, enviei uma mensagem ao general Canabarro com base na qual as suas ordens (sic) foram emitidas de uma forma igualmente expeditiva. Mas, a despeito da diligência de seu comando, nossos homens não chegaram a tempo para defender aquela entrada. Uma bateria que erguêramos na ponta do molhe, dirigida pelo bravo Capotto, não pôde opor aos imperiais senão uma frágil resistência, contando apenas com armas de pequeno calibre – de resto, mal manejadas por inábeis atiradores”.

Já Wolfgang Ludwig Rau, em sua monumental obra “Anita Garibaldi – O perfil de uma Heroína Brasileira”, ressalta à página 140:

(...) Pelas duas horas da tarde, surgem no mar os navios legalistas, vindos de Imbituba, sob comando de Frederico Mariath.
Do Morro da Barra, José Garibaldi, no forte ali existente, observava sua aproximação, tentando adivinhar-lhes os planos de ataque. São quase vinte embarcações variadas, mas todas apinhadas de material e de homens. Passam a forçar a barra sinuosa, um a um.
Representam enorme supremacia numérica. Deslizando a trinta metros, apenas da bateria do forte”(...)

Em nota de rodapé, Ludwig Rau diz:

“Em abril de 1969, o autor fotografou no local os restos ainda existentes da fortaleza: - alicerces e dois cantos de parede de alvenaria ciclópica da outrora pequena edificação. Na ocasião, ainda se notava perfeitamente a escavação do plano circundante, sobre um aglomerado de rochas escarpadas, rente às quais corria o velho canal da barra, hoje aterrado e deslocado para grande distância (uns 300 a 400 metros) da sua antiga posição. Somente localizados os vestígios da fortaleza destruída, é que o autor pode visualizar também a batalha naval de 1839, e compreender, só então perfeitamente, “o porquê” de atirarem mutuamente a queima roupa. As embarcações percorrendo o tortuoso canal da barra antiga, ao dobrarem no estreito sangradouro a curva rochosa sobre o qual se situa a fortaleza, chegavam a bater com a “carangueja” contra as pedras, e expunham os flancos aos canhões de Garibaldi, a poucos metros apenas de distância.
Consta que as forças imperiais, posteriormente, melhoraram a construção danificada pelo combate; utilizaram o mesmo fortim ainda durante muitos anos”.
Batalha Naval de 15 de novembro de 1839. Tela de Willy Zumblick pertencente a Newton Ramos.

Após a batalha de 15 de novembro, o Capitão de mar e guerra Frederico Mariath dirigiu ao Ministro da Marinha o seguinte ofício:
“E menos de uma hora estava o inimigo derrotado, vencido e algumas embarcações em fuga; eles se achavam ao pé da fortaleza em semicírculo” (...).
(...) “Tomamos 5 peças de artilharia da fortaleza” (...)

Oswaldo Rodrigues Cabral, em sua “História de Santa Catarina” ao abordar a queda da República Catharinense diz:

“John Griggs e José Henrique Teixeira morreram bravamente na carnificina. Os lances de coragem e de bravura assinalam-se de parte a parte. Canabarro cede. Garibaldi e Anita iniciam o transporte de armas e munições de bordo para terra numa frágil canoa, enquanto o combate prossegue violento. O forte da barra resiste – mas a impetuosidade dos imperiais é assombrosa”.

A foto, abaixo, é de 1976, e foi publicada no livro “Laguna – Memória Histórica”, do professor Ruben Ulysséa. Nota-se parte de uma das paredes ainda em pé.

Já as duas fotos publicadas abaixo são do livro de Wolfgang Ludwig Rau, uma das obras mais importantes – se não a mais – sobre a heroína lagunense.
São fotos antigas, captadas em 1969 pelo Arquiteto-Historiador-Escritor, que correu o mundo passando e visitando os locais por onde Anita pisou.


Penso que observando, estudando e analisando essas fotos é possível fazer um projeto de restauro do local.
Estou sonhando? Pois sonhar não custa nada, não é o que se diz? Quem sabe algum dia um político, uma autoridade ligada à cultura do nosso município se interesse por esse aspecto histórico e leve a ideia adiante, realizando-a. Quem sabe? Se bem que não cuidaram nem do acervo do Rau... os monumentos estão sujos e abandonados... roubaram até o sino do Museu...

 P S: Cá entre nós, e só entre nós leitor, imagine se este ponto de referência, citado por diversos escritores e até por Garibaldi, este lugar histórico, palco de sangrentas batalhas, fosse situado, já nem falo em outro país da Europa, como a própria Itália, mas em outro município, encostado ao nosso, em Tubarão, por exemplo? Garanto que virava ponto turístico e histórico dos mais importantes do Sul. Cantado e decantado em versos e prosas. Com ampla divulgação na mídia.
Mas o local fica aqui, e não se dá a devida importância. Lá está, em ruínas, aguardando o devido reconhecimento de nossas autoridades, através do restauro e revitalização. Eis um infeliz exemplo de um país sem memória.