Elas foram
amigas de infância. Conviveram num local afastado, zona rural, em Morrinhos de
Tubarão, caminho e parada de tropeiros que iam e vinham da serra catarinense,
dos campos de Lages.
Uma das meninas
chamava-se Ana Maria de Jesus Ribeiro, mais conhecida como Aninha do Bentão; a
outra menina era Maria Fortunato da Conceição, a Licota.
Duas vidas, dois
destinos traçados e completamente diferentes.
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Maria Fortunato da Conceição, a Licota, amiga de infância de Ana Maria de Jesus Ribeiro, a futura Anita Garibaldi. Foto: Acervo IHGSC. |
Aninha aos doze
ou treze anos, vai se mudar com a família de Morrinhos de Tubarão para a Carniça,
hoje Campos Verde.
Depois, para a localidade
da Barra e ainda mais uma vez para o centro da Laguna, na estreita rua Fernando
Machado, mais conhecida como rua do Rincão, numa pequena casa de porta e janela.
Essas foram as
sequencias de mudanças de Aninha, de acordo com alguns historiadores, entre
eles Wolgang Ludwig Rau.
O restante é
história
Num casamento
arranjado por sua mãe, com vistas à melhores condições de vida para a família, se
casará com apenas quatorze anos na Igreja Matriz da Laguna.
Quatro anos mais
tarde conhecerá um revolucionário italiano, lutará ao seu lado por um ideal, irá
embora da Laguna com ele, percorrerá e conhecerá outras gentes, lugares,
cidades, estados e até países. Terá filhos.
Entrará para a
história como Heroína de Dois Mundos. E morrerá nos braços do marido, ainda muito
jovem, com apenas 28 anos.
Já Licota
continuará morando por toda sua vida no local onde nasceu. Se tornará parteira,
ajudando a pôr dezenas, centenas de bebês no mundo. Também irá se casar, ter
filhos, netos, bisnetos. Morrerá centenária.
Depois das
mudanças de endereços de Aninha, as duas amigas nunca mais se encontraram.
Somente muitos anos depois, Licota saberá das peripécias de sua amiga.
Em busca do
passado de Anita
Quando Aninha já
era a famosa Anita Garibaldi com seus feitos e glórias contados para o mundo
pelo marido Giuseppe em seu livro de memórias ditadas a Alexandre Dumas, curiosidades surgirão.
Jornalistas,
pesquisadores e historiadores buscarão maiores dados sobre aquela lendária e
guerreira mulher do general italiano. Quem foi? Onde nasceu? Quem a conheceu?
Como ela era?
Queriam saber
mais sobre suas origens. Não a heroína destemida que rompeu as regras da
sociedade da época, com sua feminilidade, determinação e coragem.
Mas a figura da
criança, da jovem, da mulher em seus privados anos antes de conhecer e partir
com o guerreiro italiano.
Eis que surge
Licota
Nessa procura
descobrirão Licota. Maria Fortunato da Conceição era seu nome, companheira,
amiga de infância de Anita.
Licota estava
viva, sim senhor. Bem velhinha, mas ainda lúcida e de boa memória.
Em busca de
maiores informações lá se foram os curiosos em caravanas entrevistá-la,
fotografá-la no sertão de Morrinhos de Tubarão onde continuava vivendo naqueles
primeiros anos do século XX.
Quem primeiro a
procurou e conversou com Licota sobre o passado de sua amiga Anita foi José (Joe)
Luiz Martins Colaço que em escrito publicado no jornal O Livro de 4 de
agosto de 1906, editado em Florianópolis, contou que em 1903 entrevistou
Licota, amiga de infância da futura Anita Garibaldi.
Alguns anos
depois, em 1911, quando cursava Medicina no Rio de Janeiro, Joe Colaço repetirá
o texto, com acréscimos, para o jornal Folha do Comércio editado na
então capital federal.
Naqueles tempos
de difícil comunicação, foi através de Joe Colaço que Licota ficou sabendo dos
feitos de sua amiga de infância.
De acordo com
Colaço ela até então só tinha a informação que “um italiano tinha lhe virado a
cabeça”.
Ao saber que sua
amiga de infância Aninha tinha se tornado Anita Garibaldi, das guerras e
batalhas em que participou, de sua coragem e valentia, Licota comentou:
- “Não duvido,
ela era mulher para isso”.
“Mostrando as
ruínas da casinha histórica”
Joe Colaço
informa em seu artigo que várias vezes procurou Licota em Morrinhos para
conversar e ela sempre contava a mesma história, mostrando a casa onde afirmava
ter nascido e morado Ana Maria de Jesus Ribeiro.
“Bondosamente lá
ia, passo firme, mostrar as ruínas da casinha histórica”.
Em uma das visitas
Colaço levou a tiracolo Artur Praça que com sua máquina fotografou Licota com
seu neto ao colo.
Ela mais uma vez
lhe mostrou sua modesta casa e a casa onde dizia ter nascido e morado Aninha do
Bentão.
E Colaço nos
traz mais uma frase pronunciada por Licota ao ser fotografada:
- “Ora, esses
rapazes tiraram retrato da gente depois de velha, só porque se conheceu Anita”.
Com essas informações
ficamos conhecendo a autoria das fotos que constam do acervo do IHGSC, e que
ora são estampadas nesta página.
Outro que lá
esteve foi o jornalista Diniz Júnior. Em um pequeno artigo publicado no jornal A
Pátria e depois reproduzido no jornal República de 8 de dezembro de
1923, ambos editados em Florianópolis, Diniz informa que visitou Morrinhos de Tubarão acompanhado do poeta e
escritor Virgílio Várzea:
“Em 1908,
visitei, com Virgílio Várzea, eminente escritor e o mais autorizado escritor de
Garibaldi na América, os sítios de nascimento e mocidade da heroína.
Estive em
Morrinhos, pobre paisagem do Vale do Tubarão. Ali veio ao mundo. Vivia ainda
uma das suas companheiras de infância, a octogenária Licota”.
Diniz informa
que ao cronista Joe Colaço, Licota disse:
“Que Anita era
uma rapariga de alto lá com ela e que dera muito que falar de si”.
Walter Zumblick
em seu livro Aninha do Bentão, reproduz um diálogo da época que teria
havido quando contaram a Licota sobre Anita:
- “Quem, a
Aninha, a filha do Bentão?
- Aquilo foi a
guria mais levada da redondeza, credo!”
Aliás, por falar
em Zumblick, ele reproduz em seu livro a foto de Licota (a mesma do
acervo do IHGSC) sentada ao lado de sua casa com a legenda:
“Licota de
cabelos brancos e o seu rancho velho. Ali perto, em Morrinhos nasceu Ana Maria
de Jesus Ribeiro, de quem foi amiga de infância”.
Anita nasceu em
Morrinhos de Tubarão, concorda a maioria dos historiadores
A quase
totalidade de pesquisadores e historiadores aceita Morrinhos de Tubarão como
local de nascimento de Anita Garibaldi, na época pertencente à Laguna. Dentre
os nomes podemos citar os irmãos Boiteux.
José Boiteux
numa pequena biografia de Anita diz: “Natural do lugar Morrinhos, na
proximidade da hoje cidade de Tubarão, pertencente, à data do seu nascimento, à
comarca da Laguna”.
Seu irmão
Henrique afirma: “Anna de Jesus Ribeiro, filha de Bento Ribeiro da Silva e de
Maria Antônia de Jesus, nasceu em Morrinhos, no Tubarão”. (Revista
Catarinense de História Vol II – 1913, pág. 321).
Wolfgang Ludwig Rau
considerado o maior biógrafo de nossa heroína, em sua obra Anita Garibaldi –
O Perfil de Uma Heroína Brasileira, escreve:
“Após várias
mudanças de residência na região, a família fixou-se à margem do Rio Tubarão
(Rio Seco), no Rincão de Morrinhos, minúsculo povoado a seis quilômetros da
Freguesia de Tubarão. (pág. 39).
E na página 41 frisa:
“Embora contrariando outras opiniões, o autor se definiu por Morrinhos de
Tubarão como sendo o lugar de nascimento de Anita”.
Único e verdadeiro retrato de Anita Garibaldi feito em Montevidéu pelo pintor ítalo-uruguaio Galino em forma de miniatura aquarelada. |
Lindolfo Collor
em seu livro Garibaldi e a Guerra dos Farrapos cita Morrinhos de Tubarão
como local de nascimento de Anita.
E mais os
historiadores Virgílio Várzea, Alfredo Taunay, Walter Zumblick, entre outros.
Já os
historiadores lagunenses Saul Ulysséa e Ruben Ulysséa, baseados em alguns
relatos orais, entre eles um sobrinho de Anita de nome João Fraga, defendiam
que Anita teria nascido em Morrinho de Mirim e um tempo depois se mudado para
Morrinhos do Tubarão.
Mas todos eles
reconhecem que, nascida em Morrinho de Mirim ou Morrinhos de Tubarão, Anita é
lagunense porque os locais citados pertenciam à Laguna.
E mesmo porque
hoje existe a chamada certidão de nascimento tardia emitida pela Justiça em
1999.
E foi por causa
do testemunho de Licota a Joe Colaço e Diniz Júnior, que em 18 de dezembro de
1932 foi inaugurado em Morrinhos de Tubarão, um monumento em homenagem à Anita,
assinalando aquele local como de seu nascimento.
Um incidente
provocou a mudança de Aninha e sua família para a Carniça (Campos Verde)
A mudança de
Anita com sua família para a região de Campos Verde teria sido causada por um
incidente em Morrinhos de Tubarão.
Temendo
vingança, a família de Anita resolveu mudar-se.
Wolfgang Ludwig
Rau narra que “Lá pelos idos de 1833 terão chegado à Carniça (atual Campos
Verde) Anita e suas irmãs e irmãos, e a mãe Maria Antônia.
Propostas
vulgares e o chicote
E cita Lindolfo
Collor que explicou o motivo da mudança baseado na tradição oral:
“A família de
Anita tivera que afastar-se de Morrinhos de Tubarão em virtude de um incidente
precisamente com ela, Aninha, mas no qual, parece, não tivera nenhuma culpa.
Pelo contrário, mães e irmãs reconheciam que ela agira muito bem, castigando o
audacioso que lhe faltara o respeito.
É que um filho
de um amigo da família, lhe fez propostas vulgares, querendo segurá-la,
corajosamente reagira, batendo-lhe com um chicote e cuspindo-lhe na cara
cínica, acabando por meter-lhe nos olhos o palheiro que ele mesmo estava
fumando”.
No que o
historiador Walter Piazza realçou: “Muitos traços e caracteres da personalidade
de Anita lhe advieram do pai, Chico Bento, tendo-lhe herdado a energia e
coragem pessoal, maneiras de agir e reagir”.
Sobre o
incidente (hoje seria considerado assédio sexual) contado por Collor e
transcrito em sua obra, Rau concordava: “Dado o caráter de Anita, por ela
revelado posteriormente, o evento narrado é bem plausível”.
Falecimento de Maria
Fortunato da Conceição, a Licota, em 1911
Maria Fortunato
da Conceição, a Licota, morreu centenária, em 1911.
O jornal
lagunense O Albor noticiou em texto poético seu falecimento e a matéria
foi reproduzida no jornal de Florianópolis O Dia de 23 de junho de 1911
e Folha do Commércio, do RJ de agosto do mesmo ano com o título:
“Companheira de
Anita"
"Faleceu no lugar
denominado Morrinhos, a velhinha Maria Fortunato, conhecida por Licota, antiga
e inseparável companheira de Anita Garibaldi – gloriosa heroína dos dois
mundos, que teve o seu berço neste caro pedaço de terra tubaronense.
O enterro da
conhecida velhinha foi realizado a 14 do corrente, no cemitério desta cidade,
com o obscurantismo da mais completa modéstia.
A estas horas
ninguém mais se lembra de Licota!
E sobre sua
sepultura ainda fresca e palpitante, no mais humilde e obscuro recanto do
cemitério, paira, desde já, o nefando abutre do esquecimento.
E por um
contraste sublime, as avezinhas pipilam, na festiva cavatina dos ninhos, enchendo o campo-santo
de uma harmonia divina...
Paz ao seu jazigo e
glória à sua alma!”.
E para finalizar
essa matéria do Blog, somos obrigados a concordar com Licota que deve ter verdadeiramente vivido
sua infância ao lado de Aninha do Bentão, a futura Anita Garibaldi e conhecido
bastante sua forte personalidade desde cedo.
E que quando soube,
muitos anos depois, da coragem, das guerras e batalhas em que sua amiga participou
nos dois mundos disse:
- “Não duvido,
ela era mulher para isso”.
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Juro, eu não sabia dessa amiga de Anita Garibaldi. Sempre me perguntei isso, de seus familiares, dos amigos, pensei que ninguém tinha pesquisado sobre isso. Olha só a Licota... Então Anita desde criança era do porrete mesmo. Com ela era no laço, quer dizer, no chicote. Eita mulher valente. Parabéns pela matéria Valmir.
ResponderExcluirValmir o que a gente percebe com o depoimento da Licota é que Anita era valente e destemida desde a infância. Mulher braba, por isso era valente e enfrentava na guerra como o Garibaldi contou. Deve ter puxado ao seu pai o Bentão, tropeiro acostumado a dar duro com o gado e enfrentar a difícil vida do campo. Parabéns por ter trazido essas história, não conhecia também.
ResponderExcluirMuito bom texto Valmir, esclarecimentos sobre um passado histórico que hoje se sabe da importância ao povo da Laguna. Isso é Cultura. Parabéns!
ResponderExcluirAgora veja só se uma mulher assim desde criança, com essa personalidade forte, iria ficar casada com o Manoel Duarte ele bem calmo a consertar sapatos e botas o dia inteiro. Quando o guerreiro Garibaldi chegou ela foi atrás mesmo. Ótima matéria Valmir
ResponderExcluirParabéns, Walmir pela ótima matéria e divulgação sobre detalhes até então pouco conhecidos da biografia de Anita Garibaldi .Valeu !!
ResponderExcluirObrigada
Anita mulher valente. Ah uma Anita hoje pra dar com o relho em alguns políticos de Laguna.
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