22 maio 2026

Licota, a amiga de Anita Garibaldi

 
Elas foram amigas de infância. Conviveram num local afastado, zona rural, em Morrinhos de Tubarão, caminho e parada de tropeiros que iam e vinham da serra catarinense, dos campos de Lages.
Uma das meninas chamava-se Ana Maria de Jesus Ribeiro, mais conhecida como Aninha do Bentão; a outra menina era Maria Fortunato da Conceição, a Licota.
Duas vidas, dois destinos traçados e completamente diferentes.

Maria Fortunato da Conceição, a Licota, amiga de infância de Ana Maria de Jesus Ribeiro, a futura Anita Garibaldi.  Foto: Acervo IHGSC.

Aninha aos doze ou treze anos, vai se mudar com a família de Morrinhos de Tubarão para a Carniça, hoje Campos Verde.
Depois, para a localidade da Barra e ainda mais uma vez para o centro da Laguna, na estreita rua Fernando Machado, mais conhecida como rua do Rincão, numa pequena casa de porta e janela.
Essas foram as sequencias de mudanças de Aninha, de acordo com alguns historiadores, entre eles Wolgang Ludwig Rau.
 
O restante é história
Num casamento arranjado por sua mãe, com vistas à melhores condições de vida para a família, se casará com apenas quatorze anos na Igreja Matriz da Laguna.
Quatro anos mais tarde conhecerá um revolucionário italiano, lutará ao seu lado por um ideal, irá embora da Laguna com ele, percorrerá e conhecerá outras gentes, lugares, cidades, estados e até países. Terá filhos.
Entrará para a história como Heroína de Dois Mundos. E morrerá nos braços do marido, ainda muito jovem, com apenas 28 anos.
Já Licota continuará morando por toda sua vida no local onde nasceu. Se tornará parteira, ajudando a pôr dezenas, centenas de bebês no mundo. Também irá se casar, ter filhos, netos, bisnetos. Morrerá centenária.
Depois das mudanças de endereços de Aninha, as duas amigas nunca mais se encontraram. Somente muitos anos depois, Licota saberá das peripécias de sua amiga.
 
Em busca do passado de Anita
Quando Aninha já era a famosa Anita Garibaldi com seus feitos e glórias contados para o mundo pelo marido Giuseppe em seu livro de memórias ditadas a Alexandre Dumas, curiosidades surgirão.
Jornalistas, pesquisadores e historiadores buscarão maiores dados sobre aquela lendária e guerreira mulher do general italiano. Quem foi? Onde nasceu? Quem a conheceu? Como ela era?
Queriam saber mais sobre suas origens. Não a heroína destemida que rompeu as regras da sociedade da época, com sua feminilidade, determinação e coragem.
Mas a figura da criança, da jovem, da mulher em seus privados anos antes de conhecer e partir com o guerreiro italiano.
 
Eis que surge Licota
Nessa procura descobrirão Licota. Maria Fortunato da Conceição era seu nome, companheira, amiga de infância de Anita.
Licota estava viva, sim senhor. Bem velhinha, mas ainda lúcida e de boa memória.
Em busca de maiores informações lá se foram os curiosos em caravanas entrevistá-la, fotografá-la no sertão de Morrinhos de Tubarão onde continuava vivendo naqueles primeiros anos do século XX.
Quem primeiro a procurou e conversou com Licota sobre o passado de sua amiga Anita foi José (Joe) Luiz Martins Colaço que em escrito publicado no jornal O Livro de 4 de agosto de 1906, editado em Florianópolis, contou que em 1903 entrevistou Licota, amiga de infância da futura Anita Garibaldi.
Alguns anos depois, em 1911, quando cursava Medicina no Rio de Janeiro, Joe Colaço repetirá o texto, com acréscimos, para o jornal Folha do Comércio editado na então capital federal.
Naqueles tempos de difícil comunicação, foi através de Joe Colaço que Licota ficou sabendo dos feitos de sua amiga de infância.
De acordo com Colaço ela até então só tinha a informação que “um italiano tinha lhe virado a cabeça”.
Ao saber que sua amiga de infância Aninha tinha se tornado Anita Garibaldi, das guerras e batalhas em que participou, de sua coragem e valentia, Licota comentou:
- “Não duvido, ela era mulher para isso”.
 
“Mostrando as ruínas da casinha histórica”
Joe Colaço informa em seu artigo que várias vezes procurou Licota em Morrinhos para conversar e ela sempre contava a mesma história, mostrando a casa onde afirmava ter nascido e morado Ana Maria de Jesus Ribeiro.

Casa situada em Morrinhos, em Tubarão, indicada por Licota como local de nascimento e moradia de Ana de Jesus Ribeiro, a futura Anita Garibaldi. A foto mostra algumas pessoas defronte à casa, provavelmente José (Joe) Luiz Martins Colaço está entre elas. Foto: Artur Praça. Acervo: IHGSC

“Bondosamente lá ia, passo firme, mostrar as ruínas da casinha histórica”.

Licota com um neto ao colo posa defronte a sua casa em Morrinhos. Foto. Artur Praça. Acervo: IHGSC

Em uma das visitas Colaço levou a tiracolo Artur Praça que com sua máquina fotografou Licota com seu neto ao colo.
Ela mais uma vez lhe mostrou sua modesta casa e a casa onde dizia ter nascido e morado Aninha do Bentão.
E Colaço nos traz mais uma frase pronunciada por Licota ao ser fotografada:
- “Ora, esses rapazes tiraram retrato da gente depois de velha, só porque se conheceu Anita”.
Com essas informações ficamos conhecendo a autoria das fotos que constam do acervo do IHGSC, e que ora são estampadas nesta página.

Outro que lá esteve foi o jornalista Diniz Júnior. Em um pequeno artigo publicado no jornal A Pátria e depois reproduzido no jornal República de 8 de dezembro de 1923, ambos editados em Florianópolis, Diniz informa que visitou Morrinhos de Tubarão acompanhado do poeta e escritor Virgílio Várzea:

“Em 1908, visitei, com Virgílio Várzea, eminente escritor e o mais autorizado escritor de Garibaldi na América, os sítios de nascimento e mocidade da heroína.
Estive em Morrinhos, pobre paisagem do Vale do Tubarão. Ali veio ao mundo. Vivia ainda uma das suas companheiras de infância, a octogenária Licota”. 
Diniz informa que ao cronista Joe Colaço, Licota disse:
“Que Anita era uma rapariga de alto lá com ela e que dera muito que falar de si”.

Walter Zumblick em seu livro Aninha do Bentão, reproduz um diálogo da época que teria havido quando contaram a Licota sobre Anita:
- “Quem, a Aninha, a filha do Bentão?
- Aquilo foi a guria mais levada da redondeza, credo!”
Aliás, por falar em Zumblick, ele reproduz em seu livro a foto de Licota (a mesma do acervo do IHGSC) sentada ao lado de sua casa com a legenda:
“Licota de cabelos brancos e o seu rancho velho. Ali perto, em Morrinhos nasceu Ana Maria de Jesus Ribeiro, de quem foi amiga de infância”.
 
Anita nasceu em Morrinhos de Tubarão, concorda a maioria dos historiadores
A quase totalidade de pesquisadores e historiadores aceita Morrinhos de Tubarão como local de nascimento de Anita Garibaldi, na época pertencente à Laguna. Dentre os nomes podemos citar os irmãos Boiteux.
José Boiteux numa pequena biografia de Anita diz: “Natural do lugar Morrinhos, na proximidade da hoje cidade de Tubarão, pertencente, à data do seu nascimento, à comarca da Laguna”.
Seu irmão Henrique afirma: “Anna de Jesus Ribeiro, filha de Bento Ribeiro da Silva e de Maria Antônia de Jesus, nasceu em Morrinhos, no Tubarão”. (Revista Catarinense de História Vol II – 1913, pág. 321).
Wolfgang Ludwig Rau considerado o maior biógrafo de nossa heroína, em sua obra Anita Garibaldi – O Perfil de Uma Heroína Brasileira, escreve:
“Após várias mudanças de residência na região, a família fixou-se à margem do Rio Tubarão (Rio Seco), no Rincão de Morrinhos, minúsculo povoado a seis quilômetros da Freguesia de Tubarão. (pág. 39).
E na página 41 frisa: “Embora contrariando outras opiniões, o autor se definiu por Morrinhos de Tubarão como sendo o lugar de nascimento de Anita”.

Único e verdadeiro retrato de Anita Garibaldi feito em Montevidéu pelo pintor ítalo-uruguaio Galino em forma de miniatura aquarelada.

Lindolfo Collor em seu livro Garibaldi e a Guerra dos Farrapos cita Morrinhos de Tubarão como local de nascimento de Anita.
E mais os historiadores Virgílio Várzea, Alfredo Taunay, Walter Zumblick, entre outros.
Já os historiadores lagunenses Saul Ulysséa e Ruben Ulysséa, baseados em alguns relatos orais, entre eles um sobrinho de Anita de nome João Fraga, defendiam que Anita teria nascido em Morrinho de Mirim e um tempo depois se mudado para Morrinhos do Tubarão.
Mas todos eles reconhecem que, nascida em Morrinho de Mirim ou Morrinhos de Tubarão, Anita é lagunense porque os locais citados pertenciam à Laguna.
E mesmo porque hoje existe a chamada certidão de nascimento tardia emitida pela Justiça em 1999.

Memorial Anita Garibaldi em homenagem à heroína, situado em Morrinhos, Tubarão-SC.

E foi por causa do testemunho de Licota a Joe Colaço e Diniz Júnior, que em 18 de dezembro de 1932 foi inaugurado em Morrinhos de Tubarão, um monumento em homenagem à Anita, assinalando aquele local como de seu nascimento.
 
Um incidente provocou a mudança de Aninha e sua família para a Carniça (Campos Verde)
A mudança de Anita com sua família para a região de Campos Verde teria sido causada por um incidente em Morrinhos de Tubarão.
Temendo vingança, a família de Anita resolveu mudar-se.
Wolfgang Ludwig Rau narra que “Lá pelos idos de 1833 terão chegado à Carniça (atual Campos Verde) Anita e suas irmãs e irmãos, e a mãe Maria Antônia.
 
Propostas vulgares e o chicote
E cita Lindolfo Collor que explicou o motivo da mudança baseado na tradição oral: 

“A família de Anita tivera que afastar-se de Morrinhos de Tubarão em virtude de um incidente precisamente com ela, Aninha, mas no qual, parece, não tivera nenhuma culpa. Pelo contrário, mães e irmãs reconheciam que ela agira muito bem, castigando o audacioso que lhe faltara o respeito.
É que um filho de um amigo da família, lhe fez propostas vulgares, querendo segurá-la, corajosamente reagira, batendo-lhe com um chicote e cuspindo-lhe na cara cínica, acabando por meter-lhe nos olhos o palheiro que ele mesmo estava fumando”.

No que o historiador Walter Piazza realçou: “Muitos traços e caracteres da personalidade de Anita lhe advieram do pai, Chico Bento, tendo-lhe herdado a energia e coragem pessoal, maneiras de agir e reagir”.
Sobre o incidente (hoje seria considerado assédio sexual) contado por Collor e transcrito em sua obra, Rau concordava: “Dado o caráter de Anita, por ela revelado posteriormente, o evento narrado é bem plausível”.
 
Falecimento de Maria Fortunato da Conceição, a Licota, em 1911
Maria Fortunato da Conceição, a Licota, morreu centenária, em 1911.
O jornal lagunense O Albor noticiou em texto poético seu falecimento e a matéria foi reproduzida no jornal de Florianópolis O Dia de 23 de junho de 1911 e Folha do Commércio, do RJ de agosto do mesmo ano com o título:
 
“Companheira de Anita"
"Faleceu no lugar denominado Morrinhos, a velhinha Maria Fortunato, conhecida por Licota, antiga e inseparável companheira de Anita Garibaldi – gloriosa heroína dos dois mundos, que teve o seu berço neste caro pedaço de terra tubaronense.
O enterro da conhecida velhinha foi realizado a 14 do corrente, no cemitério desta cidade, com o obscurantismo da mais completa modéstia.
A estas horas ninguém mais se lembra de Licota!
E sobre sua sepultura ainda fresca e palpitante, no mais humilde e obscuro recanto do cemitério, paira, desde já, o nefando abutre do esquecimento.
E por um contraste sublime, as avezinhas pipilam, na festiva  cavatina dos ninhos, enchendo o campo-santo de uma harmonia divina...
Paz ao seu jazigo e glória à sua alma!”.

E para finalizar essa matéria do Blog, somos obrigados a concordar com Licota que deve ter verdadeiramente vivido sua infância ao lado de Aninha do Bentão, a futura Anita Garibaldi e conhecido bastante sua forte personalidade desde cedo.
E que quando soube, muitos anos depois, da coragem, das guerras e batalhas em que sua amiga participou nos dois mundos disse:
- “Não duvido, ela era mulher para isso”.

6 comentários:

  1. Juro, eu não sabia dessa amiga de Anita Garibaldi. Sempre me perguntei isso, de seus familiares, dos amigos, pensei que ninguém tinha pesquisado sobre isso. Olha só a Licota... Então Anita desde criança era do porrete mesmo. Com ela era no laço, quer dizer, no chicote. Eita mulher valente. Parabéns pela matéria Valmir.

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  2. Geraldo de Jesus22/05/2026, 21:16

    Valmir o que a gente percebe com o depoimento da Licota é que Anita era valente e destemida desde a infância. Mulher braba, por isso era valente e enfrentava na guerra como o Garibaldi contou. Deve ter puxado ao seu pai o Bentão, tropeiro acostumado a dar duro com o gado e enfrentar a difícil vida do campo. Parabéns por ter trazido essas história, não conhecia também.

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  3. Pedro Henrique23/05/2026, 09:13

    Muito bom texto Valmir, esclarecimentos sobre um passado histórico que hoje se sabe da importância ao povo da Laguna. Isso é Cultura. Parabéns!

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  4. Edison de Andrade23/05/2026, 12:15

    Agora veja só se uma mulher assim desde criança, com essa personalidade forte, iria ficar casada com o Manoel Duarte ele bem calmo a consertar sapatos e botas o dia inteiro. Quando o guerreiro Garibaldi chegou ela foi atrás mesmo. Ótima matéria Valmir

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  5. Parabéns, Walmir pela ótima matéria e divulgação sobre detalhes até então pouco conhecidos da biografia de Anita Garibaldi .Valeu !!
    Obrigada

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  6. Anita mulher valente. Ah uma Anita hoje pra dar com o relho em alguns políticos de Laguna.

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