Em se tratando de pesquisas históricas, o assunto nunca se encerra e
sempre podem surgir novas informações, através de documentos, jornais, fotos, depoimentos, diários...
A edição do jornal lagunense A Verdade de 4 de janeiro de 1885, conforme
divulgado em seu número anterior, traria ampla cobertura sobre a visita do
Conde d’Eu à Laguna.
O problema é que exatamente esta edição da cobertura da viagem não existe
no acervo da Biblioteca Pública de Santa Catarina que é compartilhada pela
Biblioteca Nacional em sua Hemeroteca Digital.
Por isso ficamos sem maiores detalhes da viagem e de como foi o dia passado em nossa
cidade.
Baseado nas poucas informações publicadas no dia e em edições anteriores do jornal A Verdade foi que
deduzi e informei que o Conde teria visitado prédios públicos, entre eles o
Paço Municipal e a Agência Telegráfica, almoçado em casa de alguma autoridade
ou comerciante abastado.
Após o post publicado no Blog, o jornalista Luiz Cláudio Abreu descobriu
e me remeteu a edição de 15 de janeiro de 1885 do jornal Gazeta de Notícias,
do Rio de Janeiro, que através de seu correspondente, veja só, estava presente
na comitiva imperial e trouxe maiores e importantes dados sobre a viagem.
Lamenta-se que o nome do correspondente não tenha ficado registrado para a história.
Conde d’Eu chegou pelo porto da Laguna, diz jornal
O jornal carioca inicia trazendo uma novidade para nós, ao informar que o
Conde deixou o porto de Desterro e desembarcou no porto da Laguna.
Outros jornais consultados, como o Jornal do Commércio de 27 de
dezembro de 1884, informam, erroneamente, que partindo de Desterro o Conde teria chegado ao
porto de Imbituba e dele partiu com sua comitiva nos vagões de passageiros da
Estrada de Ferro Teresa Cristina para a Estação da Laguna.
O desembarque na Laguna: “pessoas curiosas de ver o
Conde”
“Eram 5 ½ da manhã de hoje quando o vapor chegou a Laguna, tendo feito
uma excelente viagem”.
É importante transcrever aqui para o leitor essa chegada, conforme narra
o correspondente da Gazeta de Notícias:
“Esta cidade, de que falei em outra carta, estava elegantemente preparada
para receber a visita do ilustre príncipe.
O movimento era enorme, e no porto de desembarque, além de grande número
de pessoas curiosas de ver, o sr. Conde d’Eu, digno esposo da herdeira do trono,
achavam-se o presidente e vereadores da Câmara Municipal da cidade, o juiz de
direito da comarca, o conselheiro Mafra, deputado pelo 2º distrito da província,
o superintendente da estrada de ferro Thereza Christina, o sr. Warren Robert e
o Dr. Brant de Carvalho incumbido da exploração das minas de carvão do vale de
Tubarão, e grande número de pessoas gradas. No porto havia cerca de 60 navios
todos embandeirados.
A recepção feita a Sua Alteza o sr. Conde d’Eu, na cidade da Laguna, foi
espontânea, e via-se o contentamento em que exultava a população”.
Percorreu a pé a cidade
A Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro também informa que o Conde
percorreu a cidade a pé, visitando a repartição telegráfica, o edifício da
Câmara Municipal e depois foi à Igreja Matriz para ouvir e assistir um Te-Deum,
uma missa em Ação de Graças pela viagem.
Minhas deduções estavam corretas quanto aos prédios públicos visitados, os navios embandeirados no porto
Depois surge a segunda novidade: logo após a missa ele foi ao nosso Hospital
Senhor Bom Jesus dos Passos, que teve parte de suas instalações inauguradas em 4 de setembro de 1884, portanto, três meses antes da visita.
Assim escreve o correspondente que estava junto à comitiva:
“Depois da cerimônia religiosa, foi Sua Alteza visitar o hospital de
caridade, que é uma bela instituição e cujos serviços à humanidade são
incalculáveis.
Sua Alteza o Conde d’Eu ao retirar-se significou o seu contentamento,
assim como os cavalheiros que o acompanhavam, pela ordem, asseio e bom
tratamento que ali encontrou os enfermos”.
Banquete
E na reportagem surge a terceira novidade quando informa o nome do
anfitrião que recebeu o príncipe e sua comitiva para um banquete.
Trata-se do
cidadão Francisco Fernandes Martins.
Quem era Francisco Fernandes Martins?
De acordo com o que nos informa o ilustre e saudoso lagunense Norberto
Ulysséa Ungaretti em seu livro “Laguna um pouco do Passado”, era
conhecido como Chico Fernandes, da família Martins ali do Siqueiro.
Era comerciante, exportador e industrial. Casado com d. Francisca Torres
Fernandes Martins e deixou numerosa descendência.
“Na década de 1880 construiu para sua residência o imponente prédio em
que vai funcionar mais tarde (a partir de 1926 n.e.), o Colégio Stella Maris, no início
do Magalhães. Era na época, a melhor casa residencial da cidade”.
Segundo informação do historiador Saul Ulysséa, Francisco Fernandes
Martins “estabeleceu o primeiro engenho a vapor de beneficiar arroz em toda a
zona Sul da Provincia, engenho em que funcionava em um de seus depósitos no
Magalhães”.
Aliás, todo aquele extremo que hoje conhecemos como Ponta das Pedras era
de sua propriedade, chamada na época de “Ponta dos Martins”.
Ainda conforme Norberto, “muito deve Laguna a seu espírito empreendedor”.
Foi um grande doador para as obras do nosso hospital de caridade.
Conde visitou um sambaqui
Após o farto almoço, do qual não ficaram registrados quais pratos servidos,
o relato informa que o Conde d’Eu visitou um sambaqui.
Provavelmente, até por comodidade porque era passagem obrigatória, teria
sido o “Sambaqui das Alminhas”, citado por Saul Ulysséa em seu livro “A
Laguna de 1880.
Era situado justamente defronte ao palacete de Francisco Fernandes
Martins, nas encostas do Morro da Paixão, onde décadas depois foi construído o
prédio da Telesc, nas franjas do Morro do Peralta.
Prosseguindo viagem pelos trilhos
Depois o Conde d’Eu e sua comitiva
seguiram para a Estação da Estrada de Ferro, situada no Campo de Fora “a qual
achava-se enfeitada e apinhada de povo, que, ao partir o trem especial, deu
muitas vivas correspondidos sempre com entusiasmo”.
Na Ponte Ferroviária das Laranjeiras, então denominada de “Viaduto”, na
Cabeçuda, o Conde “fez parar o trem para examiná-la, e como ele todos ficaram
satisfeitos vendo a maneira de fazer girar o vão móvel e dar passagem aos
navios e outras embarcações”.
A viagem prosseguiu para Tubarão com admiração da comitiva pelos “importantes
trabalhos de engenharia, e entre eles, cortes feitos em rocha viva, de cinco a
seis metros de altura, no lugar denominado Laranjeiras e o grande aterro da
Estiva dos Pregos, cujo volume vai além de 50.000 metros cúbicos de terra e a
Ponte da Passagem”.
Embarque de retorno pelo porto de Imbituba
E assim se encerra a passagem do Conde d’Eu por Laguna. No dia 28 de
dezembro de 1884, no retorno de Tubarão seguiu direto com sua comitiva para
Imbituba.
Aí sim, embarcou às 17 horas no vapor Humaytá “que já o esperava e que
havia saído da Laguna ao meio-dia com destino a Desterro”, onde todos chegaram
às 23h30m.
Painéis contando a viagem
Se Laguna prezasse mais a história e o turismo histórico além de Anita Garibaldi, painéis contando num breve resumo a viagem e a passagem por aqui do Conde d'Eu deveriam ser instalados nesses prédios: Casa da Câmara (hoje Museu), Agência do Telégrafo (antigo Sine), Matriz Santo Antônio dos Anjos, Hospital Senhor Bom Jesus dos Passos e Colégio Stella Maris.
Mas sei que é pedir demais aos nossos governantes, tão ocupados com outras questões.




Parabéns pela pesquisa, agora com novas informações. Laguna devia aproveitar para divulgar turisticamente essa visita.
ResponderExcluirTem prefeito por aí que constrói pirâmide, avião, torre. Laguna tem tudo e muito mais e não aproveita. Também com esses governantes...
Sensacional a matéria! É impressionante descobrir como figuras tão importantes da nossa história caminharam por essas mesmas ruas. Parabéns pela escrita envolvente e pelo resgate cultural.
ResponderExcluirNosso patrimônio local merece esse destaque.
Isabel Lameira
Bom dia.
ResponderExcluirLinda pesquisa histórica, parabéns.
Como lagunense que sou, nascida no Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos e batizada na Igreja Matriz, gosto muito de saber da nossa história.
Obrigada por compartilhar 👍