05 maio 2026

Um Príncipe na Laguna

 
Além de D. Pedro I que esteve na Laguna, aqui pernoitou e assistiu missa em dezembro de 1826, história já publicada Aqui neste Blog em 2012, outro membro da família imperial do Brasil visitou a nossa cidade.
Trata-se do Príncipe Luís Felipe Maria Fernando Gastão de Orleans, marido da Princesa Isabel, mais conhecido por nós e nos livros escolares de história como Conde d’Eu.
O Príncipe chegou na Laguna um dia após o Natal de 1884. 

O Conde d'Eu. Imagem: Alberto Henschel/Wikipédia/Domínio público 

Desde os primeiros meses daquele ano do século XIX o Conde d’Eu já era ansiosamente aguardado por aqui, conforme anunciou o jornal lagunense A Verdade em sua edição de 25 de maio de 1884.

Hóspede ilustre – Corre como certo que brevemente teremos entre nós S.A. o Sr. Conde d’Eu, que vem assistir a inauguração da estrada de ferro D. Theresa Christina, seguindo depois para o Rio Grande do Sul, onde irá em comissão do ministério da Guerra”.

Jornal lagunense A Verdade de 25 de maio de 1884.

A Estrada de Ferro Teresa Cristina foi inaugurada em 1º de setembro de 1884, sem as presenças do Conde d’Eu e da Princesa Isabel.
Mas quando chegou dezembro daquele mesmo ano, aí sim foi confirmada a viagem do ilustre Casal Real à diversas cidades do sul do Brasil, inclusive Laguna.
O Conde d’Eu nascido francês em 28 de abril de 1842 era filho de Luís de Orlean e da Princesa Vitória de Saxe-Coburgo Koháry. Fazia parte da Casa Orléans, ramo cadete dos Bourbon. Seus avós paternos eram o rei Luís Filipe I da França, e a Princesa Maria Amélia de Nápoles e Sicília.
Portanto, Gastão era príncipe francês de nascimento e recebeu o título de Conde d’Eu.
Aos 13 anos iniciou sua carreira militar, cursou artilharia e obteve a patente de capitão.
Participou de várias batalhas, inclusive da Guerra do Paraguai, também chamada de Tríplice Aliança.
Em 15 de outubro de 1864 se casou com a Princesa Isabel, herdeira do trono brasileiro, tornando-se assim “Príncipe Imperial Consorte do Brasil”.
A título de curiosidade o nome completo da princesa Isabel é Isabel Cristina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança.

 Anúncio oficial e convite aos cidadãos lagunenses
Com o anúncio oficial da vinda, o jornal lagunense A Verdade em sua edição de 23 de novembro de 1884, já convidava os cidadãos para os festejos no mês seguinte de recepção ao casal Imperial:

 “Constando que SS. AA., o Senhor Conde e Condessa D’Eu, n. p. mês, chegarão a esta cidade, a Câmara Municipal convidou à diversos cidadãos para os festejos de recepção de SS. AA.”

O redator do jornal aproveitava a ocasião e na mesma nota pedia: 

 “Aplaudindo este ato da Câmara Municipal, por nossa vez, também pedimos aos senhores proprietários que mandem passar uma caiação, na frente de seus prédios, especialmente na Rua da Praia (atual rua Gustavo Richard) que, na maior parte, se acham em estado lamentável”.

Jornal lagunense A Verdade de 23 de novembro de 1884.

Limpeza e embelezamento sempre na véspera
Eita Laguna! No século XIX já deixava tudo para última hora, procurando limpar e embelezar a cidade somente ao receber visitantes ilustres e por onde passa o santo, como se diz. Alguma diferença dos dias atuais?
Era tipo um pedido de mutirão para dar um “tapa” no visual da cidade. E tem político ainda hoje que acha mutirão uma novidade.
Afinal, era o genro e a filha de D. Pedro II que chegavam. Ela a herdeira do trono brasileiro! Futura Imperatriz do Brasil.

Cais da Laguna no começo do século XX ainda sem o cais em granito em forma de elipse.

O jornal também criticava o péssimo estado das cercas de tábuas ao redor de terrenos em pleno centro da cidade e pedia providências.
Cá para nós, devia ter muita cerca podre, quebrada, encarunchada. Uma vergonha!

“Aos sr. Fiscal chamamos sua atenção para as cercas de tábuas e paus, que fecham diversos terrenos dentro da cidade que, além de estarem foram do alinhamento, devem seus proprietários ser obrigados a reformá-los, a bem do aformoseamento da cidade”.

 Não sei se os proprietários mandaram pintar suas casas, se houve fiscalização e se os melhoramentos solicitados foram efetuados como alinhamento, conserto e pintura das cercas.
Nas edições seguintes e até a chegada das visitas o jornal nada fala sobre isso.
O Conde d’Eu visitou grande parte do Brasil, quase sempre acompanhado de sua esposa a Princesa Isabel.
Partiu do Rio de Janeiro em 8 de dezembro de 1884 acompanhado da esposa e visitou as três Províncias do Sul.
Depois do Paraná, esteve em São Francisco do Sul, Joinville (dia 12), Itajaí (16) e Blumenau (17).

O Conde d'Eu com a princesa Isabel e os filhos D. Pedro, D. Luiz e D. Antônio. Imagem: Alberto Henschel/Wikipédia/Domínio público

A Princesa Isabel não se sentindo bem de saúde, embarcou direto de São Francisco do Sul para Nossa Senhora de Desterro (atual Florianópolis) para onde o marido depois também se deslocaria para prosseguir viagem.
Com a herdeira do trono brasileiro estavam os filhos príncipes D. Pedro, D. Luíz e D. Antônio.

A viagem para Laguna
Em 25 de dezembro de 1884 o Conde embarcou às 21 horas em Desterro no vapor Humaytá cujo comandante chamava-se Natividade e partiu com destino ao Sul às 22 horas.

Jornal do Comércio, de Desterro de 25 de dezembro de 1884.

O Humaytá era um vapor - olha só que luxo, em 1884! - que fazia viagens regulares entre Rio de Janeiro-São Francisco do Sul-Itajaí-Desterro e Laguna.
Naqueles dias a Barra da Laguna estava impraticável, com maré baixa e o banco de areia atrapalhando a entrada e saída de navios.
Conforme noticiava a imprensa, várias embarcações estavam em nosso porto então situado no centro da cidade aguardando melhores condições para partirem.
Fosse esse o motivo ou porque o Conde desejava iniciar sua viagem pelo Sul no ponto inicial da Estrada de Ferro Teresa Cristina, o Conde d’Eu desembarcou do vapor Humaytá em Imbituba com toda a sua comitiva, com exceção da princesa Isabel e os filhos que ficaram em Desterro lhe aguardando o retorno.
Não esquecendo que Imbituba naquela época ainda pertencia à Laguna tornando-se município somente em 30 de agosto de 1923 e instalado de fato em 1º de janeiro de 1924.
O Conde com toda sua comitiva nos vagões de passageiros pelos trilhos da Teresa Cristina após o desembarque no porto seguiu para Laguna.
Entre os membros que o acompanhavam estavam o comendador José Carlos de Carvalho, Manoel Moreira da Silva, general Miranda Reis, além de seu secretário particular major Oliveira Santos.
Na Bifurcação (Barbacena) virou à esquerda em direção à Estação Ferroviária situada no Campo de Fora.
Saul Ulysséa em seu livro “Coisas Velhas” (pág. 20) referindo-se ao marido da Princesa Isabel, assim escreveu: 

“No início do tráfego da Estrada de Ferro D. Teresa Cristina, esteve o Conde D’Eu em Laguna e no interior servido pela via férrea”.

Chegada na Laguna do Conde d’Eu no amanhecer de 26 de dezembro de 1884
O jornal lagunense A Verdade em sua edição de 28 de dezembro de 1884 noticiou a chegada:
 
Visita honrosa – Às 5h e 30 minutos de sexta-feira (26) tivemos a honrosa visita de S.A. o sr. Conde D”Eu.
Depois de pequena demora, suficiente para visitar os edifícios públicos, assistir ao “Te-Deum” e fazer uma refeição, seguiu S. A. para o Tubarão, em trem especial que pôs à sua disposição o sr. Charles W. Roberts, superintendente da “D. Theresa Christina”.

Jornal lagunense A Verdade de 28 de dezembro de 1884.

Como ainda não havia os trilhos até o centro da cidade, o que vai acontecer somente em 1º de setembro de 1908, o Conde desembarcou na Estação Ferroviária do Campo de Fora.
Ele e sua comitiva podem ter vindo de lá a cavalo pela rua Almirante Lamego. Mas o mais provável é que tenham tomado “carros” (carruagens) puxadas a bestas (burros).
E esses veículos já existiam nessa época. Com a inauguração da Estação Ferroviária três meses antes, em setembro, ficando distante do comércio do centro, houve necessidade de se criar esse tipo de serviço.
A rua até lá (a Almirante Lamego) ainda não calçada, era um lamaçal em dias de chuvas e com muita poeira nos dias quentes com sol.
Quem explorava o serviço de transporte era Manoel Antônio Amante da Silva. Eram carroças e carruagens puxadas a duas bestas, com capacidade para até 4 pessoas cada uma, além das malas de viagem.
O embarque e desembarque no centro da cidade se dava defronte ao Hotel Lagunense de propriedade do próprio Amante. Prédio assobradado e que será adquirido dali a algumas décadas pela Sociedade Recreativa União Operária, na rua Santo Antônio.

Visita aos prédios públicos
E como vimos na nota acima do jornal, o Conde visitou os edifícios públicos da Laguna.
Dentre os mais importantes prédios públicos da época estava o do Paço Municipal, onde funcionavam a Câmara, a Cadeia e o Tribunal de Júri e que é o atual Museu Histórico Anita Garibaldi.
O famoso sino do povo no alto da escadaria deve ter sido bastante tocado avisando a todos da chegada da ilustre visita.
A título de informação, era presidente da Câmara de vereadores naquela época e exercendo a chefia do Executivo, João Thomaz de Oliveira.
Mais alguns nomes?
Entre os vereadores podemos citar Marcolino Monteiro Cabral, Francisco Josephino Maria da Silva, Manoel Pinho, Francisco Cabral, Thomaz Netto e João Thomaz de Oliveira Júnior (secretário da Mesa Legislativa e filho do presidente, notaram o nepotismo?), entre outros.
O juiz de Direito era Manoel do Nascimento da Fonseca Galvão e Ernesto Galvão de Moura Lacerda o Promotor Público.
Além dos civis havia também autoridades militares, todas elas perfiladas para as obrigatórias continências.
Outra tradição eram os navios fundeados no porto que embandeiravam-se em regozijo aos ilustres visitantes.
Oswaldo Cabral diz que essas visitas de gente importante sempre faziam a alegria do povo. “Eram animadas, eram concorridas, havia sempre novidades, caras novas, correrias para comentar depois o porte, o traje, a barba, o que fosse...”.
Os olhos provincianos deviam brilhar de admiração por tão Augusta visita, afinal, era um príncipe, genro do imperador, marido da princesa Isabel.

Laguna já havia homenageado o Conde com o nome da principal praça
A Praça em frente ao Paço Municipal (hoje República Juliana) levava o nome de Conde d’Eu em homenagem a sua participação na Guerra do Paraguai.
Na verdade, o local era um mero descampado em forma de triângulo, coberto de relva. Mas era o centro nevrálgico da Laguna.
Em seu entorno funcionavam, além dos serviços públicos já mencionados, inúmeros estabelecimentos comerciais, como armazéns, escritórios de advocacia, barbearias, alfaiatarias, boticas, clubes, associações, biblioteca, ateliê fotográfico, panificadora, fábricas, cartório e Correios, este último tinha como agente José Caetano Teixeira.
Além de várias residências.
Na região também funcionava o Telégrafo, situado na esquina da rua Direita (Raulino Horn), com 1º de Março (Barão do Rio Branco), que conhecemos hoje popularmente como prédio do SINE, que ali funcionou durante anos.
Era através do Telégrafo, tendo como Agente José Goulart Rollin na época, que chegavam e partiam as notícias, os avisos da Corte, as matérias para os jornais.
O local foi um “senadinho” dos mais famosos, o primeiro em nossa cidade, chamado pelo povo de “Esquina do ABC”.
Havia ainda a Mesa de Rendas (não sei o local em que funcionava, bem provável que na rua Raulino Horn), cujo Administrador era Francisco Maria da Silva.

“Te Deum” na Matriz
O Conde d’Eu, trajando uma pala de seda finíssima, diz o jornal, ainda assistiu um “Te-Deum” na Matriz Santo Antônio dos Anjos, mandado celebrar pela ilustríssima Câmara Municipal em Ação de Graças pela chegada do príncipe.
Os sinos bimbalhavam.
Imaginemos nós que a igreja deveria estar adornada com gosto. À entrada foi recebido pelo pároco lagunense Padre Manoel João Luiz da Silva. A assistência deve ter sido numerosa, todos em pé. Ainda não havia bancos, só instalados em 1912.
O jornal não diz, mas certamente o cortejo pela cidade contou com as presenças das Bandas Musicais União dos Artistas (fundada em 1860) e Santa Cecília, fundada em 1882, esta última a atual Banda Carlos Gomes.
E muitos foguetes devem ter espocado no ar, afinal a cidade, como sabemos, foi fogueteira desde sempre.
Por essa ilustre visita, bem que a Fundação Lagunense de Cultura poderia providenciar a instalação de pelo menos três placas registrando a visita do Conde d'Eu: no Museu, na Igreja Matriz e no prédio do então Correios e Telégrafos.
É delirar, eu sei.

Almoço e partida para Tubarão e região
Depois de uma refeição ser servida aos membros da comitiva e autoridades locais (onde terá sido? O jornal não informa, mas provavelmente na casa de alguma autoridade municipal), o Conde d’Eu partiu para a Vila de Nossa Senhora da Piedade do Tubarão.
Foi em trem especial colocado à disposição pelo superintendente da Estrada de Ferro Teresa Cristina, engenheiro Charles W. Roberts.

Colônia Grão-Pará: um dote de terras no casamento
Na vizinha cidade foi recebido pelo major Luiz Martins Collaço, chefe do Partido Conservador, que lhe ofereceu e aos seus convidados um jantar e o pernoite em seu solar.
No dia seguinte o Conde e comitiva partiram para visitar a colônia Grão Pará, criada em 1882 e que visava ser ocupada com imigrantes, principalmente italianos, alemães e poloneses.
A Colônia havia nascido no contexto do casamento entre a princesa Isabel e o conde d’Eu, através de um dote de terras determinado pelo Imperador D. Pedro II.
A gleba de terras sugerida e aprovada no sul do Brasil abrangia 12 léguas entre os Rios Tubarão e Braço do Norte, onde hoje se situam os municípios de Orleans, parte de São Ludgero, Grão-Pará, Rio Fortuna, Santa Rosa de Lima, além de abranger parte de Anitápolis, Armazém, São Martinho e São Bonifácio.

 Orleans nasce em homenagem à família do Conde d’Eu
O Conde e comitiva visitaram o canteiro de obras do trecho da Estrada de Ferro que estava sendo construído em terras da Colônia Grão-Pará e lhe foi mostrada a região mais segura para sede da Colônia.
Sobre o local, o Conde d’Eu disse: “Aqui nascerá a sede da parte meridional da Colônia Grão-Pará e terá o nome de Orleans em homenagem à minha família na França”.

Monumento ao Conde d'Eu em Orleans. Foto: Wikipédia

E é esta frase que está registrada na base da estátua do Conde, executada pelo escultor Paulo Afonso Pereira e inaugurada em 30 de agosto de 2003 no centro da cidade de Orleans, em Santa Catarina.

Retornando à Desterro
No dia 28 de dezembro de 1884, retornando, o Conde e comitiva embarcaram em Imbituba com destino à Desterro aonde chegaram por volta das 23h30.

Jornal do Comércio, de Desterro, de 30 de dezembro de 1884.

E no dia 29 de dezembro às 19 horas, o Conde d’Eu com toda sua comitiva, incluindo sua família partiu de Desterro no paquete Rio Pardo com destino ao Rio Grande do Sul, a terceira Província do Sul a ser visitada.
De lá retornou somente dia 3 de março direto para o Rio de Janeiro, tendo feito uma parada forçada em Desterro por conta de temporais e partido no dia 8.

Exílio e morte
Após a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889 toda a família imperial foi exilada na Europa.
Em agosto de 1922, já bastante adoentado, falecia o Conde d’Eu aos 80 anos a bordo do navio Massilia com destino ao Rio de Janeiro.
Sua esposa, a princesa Isabel, já havia falecido na França um ano antes, em 14 de novembro de 1921, aos 75 anos.
Desde 1920 o banimento do Brasil da família imperial havia sido cancelado pelo governo republicano brasileiro, através do presidente Epitácio Pessoa.
Os restos mortais do casal foram repatriados para o Brasil em 1953 e reenterrados em 1971 na Catedral de Petrópolis, ao lado de D. Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina.

Um comentário:

  1. Olha só não sabia disso. Então quer dizer que d. Pedro I e o Conde d"eu já estiveram em nossa cidade?
    Devia ter placas informando isso e também nas escolas para os alunos.

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