Lagunense, filho de lagunenses, de tradicional família. Aprendeu a tocar
piano com sua mãe. Depois dos estudos iniciais cursou Direito no Rio de
Janeiro. Formado, retornou à terra natal para exercer a profissão. Foi
professor do Ginásio Lagunense, um dos fundadores do Cordão Carnavalesco Bola
Preta de nossa cidade. Casou-se com uma lagunense.
Retornando ao Rio de Janeiro, então Capital Federal, escreveu sobre
música em grandes jornais, apresentou programas em emissoras de rádio e acompanhou
ao piano cantores e cantoras da Música Popular Brasileira. Carmem Miranda foi
uma delas e Orlando Silva, Francisco Alves Carlos Galhardo e Dorival Caymmi...
Mário Cabral foi amigo dos maiores jornalistas e músicos da sua época.
Boêmio, viveu apaixonadamente o Rio de Janeiro das décadas de 40/50 e 60.
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O advogado, professor, crítico musical e pianista Mário Greenhalg Cabral. Revista Cidade Juliana (LG)-1947. |
“Laguna celeiro de boa gente”, diz a letra de Archimedes de Castro Faria
em seu Hino do Coral Santo Antônio dos Anjos, em versos tão lindos e melódicos,
que também poderia ser o nosso hino oficial, lado a lado com o de Osmar Cook.
O tempo passa, gerações se sucedem na marcha inevitável da vida.
Mas sempre devemos lembrar personagens que brilharam em nossa cidade e
por esse Brasil. De vultos que viveram e deixaram sua contribuição nas mais diversas
áreas.
Um desses personagens é o lagunense Mário Greenhalg Cabral. Advogado,
professor e músico.
Quem foi Mário Greenhalg Cabral
Mário Greenhalg Cabral nasceu na Laguna em 22 de fevereiro de 1911,
filho de Zulmira Greenhalg Cabral e João Guimarães Cabral.
Teve como irmãos Maria Cabral Mendonça (Marieta), casada com Pedro
Sérgio Mendonça (proprietário da tradicional Casa São Pedro, em nossa cidade);
Ruth Cabral Ulysséa, casada com o professor Ruben Ulysséa; e Yvonne Cabral
Baungarten, casada com Walter Baungarten Júnior.
Fez seus primeiros estudos em nossa cidade, depois no Colégio dos
Jesuítas, em Florianópolis.
Desde cedo aprendeu a tocar piano com sua mãe Zulmira.
Aos 15 anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro para que ele
seguisse carreira na Marinha. Mas não teve sucesso em ingressar na Escola
Naval.
Foi aluno da Faculdade de Direito na Universidade do Brasil na
então Capital Federal, onde formou-se em dezembro de 1937.
Teve como colegas de turma, entre outros, Barreto Pinto, Alzirinha
Vargas, João Condé, Dante Viggiani, Zé Honório Rodrigues e Marques Rêbelo.
Concluído o curso, retornou à Laguna onde sua família já estava morando
novamente.
Aqui advogou e foi professor no Ginásio Lagunense, além de
colaborador do jornal lagunense O Albor.
Em 3 de maio de 1939 compôs a diretoria da Sociedade Musical Carlos
Gomes como orador. Era presidente Francisco Fernandes de Oliveira
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Recorte da foto acima mostra o advogado e professor do Ginásio Lagunense Mário Greenhalg Cabral. Foto: Livro Laguna Memória histórica, de Ruben Ulysséa. |
Foi um dos fundadores em nossa cidade em 23 de dezembro de 1937, do Cordão
Carnavalesco Bola Preta e seu presidente de Honra.
Em paralelo à vida profissional, participava de saraus musicais em
reuniões sociais, familiares e em festas religiosas.
Em junho de 1939, por exemplo, juntamente com o musicista Ignácio Brandl
acompanhou ao piano a senhora Maria Batista Ferraro interpretando Ave Maria de
Gounod, na missa às 10 horas do dia 13 em honra a Santo Antônio dos Anjos
daquele ano.
Que se registre: Além de Cabral e Brandl, participaram os músicos Manoel
dos Santos Bessa, Pedro Maria dos Santos, Plácido Machado, Antônio Figueiró,
Ataliba Pacheco dos Reis, Manoel Theodoro, Ícaro Cândido e Sérgio Velozmoro.
No coro vocal: Constância Freitas, Norma Duarte, Alvany Alcântara,
Leonor Flores da Silva, Alice Duarte Bessa, Marieta Bessa Silveira, Alyrio
Alcântara, Arthur Teixeira, Roberto Francalacci e Fernando Eggert.
De 1942 a 1944 foi membro do Conselho Deliberativo do Clube Náutico
Recreativo Almirante Lamego, de nossa cidade.
Homenagens na Laguna em seus aniversários de 1938 e 1939
Concluído em dezembro de 1937 o curso de Direito na Faculdade no Rio de
Janeiro retornou à Laguna onde passou a advogar e ministrar aulas no Ginásio
Lagunense.
Em 22 de fevereiro de 1938, data de seu aniversário, recebeu uma grande
homenagem de seus amigos e familiares.
A data foi comemorada com almoço no Balneário Hotel, no Mar Grosso,
nosso primeiro hotel naquele bairro. Como era praxe na época, o homenageado foi
buscado em sua residência.
Os oradores se sucederam nos discursos, dentre eles Nunes Varella,
Armando Calil Bulos, Major Manoel Grott, Antônio Guimarães Cabral, João
Clemente de Carvalho.
Em 1939 as comemorações se
repetiram no mesmo dia 22 de fevereiro. Logo cedo pela manhã já recebia
inúmeros amigos na residência de seus pais, no centro da cidade, levando os
abraços pelo aniversário.
À noite o aniversariante foi levado ao Clube Anita Garibaldi no
bairro Campo de Fora. Foi acompanhado por vários componentes do Cordão Carnavalesco
Bola Preta.
Foi recebido à porta da tradicional sociedade pela diretoria que tinha à
frente o presidente Júlio de Oliveira.
O Cordão Carnavalesco Bola Branca também se fez representar
através do jovem Volnei de Oliveira, filho do advogado e jornalista João de
Oliveira.
Farta mesa com bebidas e doces foi servida aos presentes.
Arthur Machado o homenageou com uma crônica publicada no jornal O
Albor:
“(...) Dizia eu, de mim para mim: quanto vale, na vida, o indivíduo saber
conduzir-se.
O valor de Mário Cabral nasce do caráter puro que possue, da retidão do
seu proceder, da urbanidade de seu trato, da delicadeza de suas ações, da
honestidade impressa no exercício de sua profissão”.
Nas férias retornava ao Rio de Janeiro, onde possuía muitos amigos. Lá passava algumas semanas se apresentando como pianista e acompanhando intérpretes da música popular brasileira.
Mudou-se para o Rio de Janeiro
Nos primeiros meses de 1943 passou a morar definitivamente na Cidade
Maravilhosa.
Em fevereiro já participava de um chá-dançante promovido pela Liga da Defesa
Nacional em benefício de bônus de guerra.
Participaram, entre outros, Carlos Galhardo, Edmundo Maia e a cantora
Eny Costa acompanhada ao piano de Mário Cabral.
Em março de 1944 já apresentava na Rádio Cruzeiro do Sul (PRD-2) o
seu programa Pif-Paf onde se apresentava ao piano juntamente com muitos
de seus convidados.
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Anúncio Programa PIF-PAF apresentado por Mário Cabral. Gazeta de Notícias (RJ), de 28 de janeiro de 1945. |
Na mesma emissora, a partir de 1946, apresentará outro programa de muita
audiência chamado O Coração de uma Cidade, no ar diariamente a partir
das 21 horas.
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Jornal Diário de Notícias (RJ) de 12 de abril de 1946. |
Casamento
Em 4 de outubro de 1945 casou-se com a lagunense Abigail Rocha Cabral,
filha de Pedro Rocha e Córa Magalhães Rocha, em cerimônia realizada na Capela de Nossa Senhora da
Glória do Outeiro, no Rio de Janeiro, cidade onde os sogros residiam.
O casal tinha três filhas: Abigail, Adail e Maria Luísa.
Pedro Rocha era abastado comerciante na Laguna, proprietário da empresa Rocha & Cia, exportador das famosas marcas de farinha de mandioca Selecta e Sulina.
Córa era lagunense, filha de Luíza Rollin Magalhães e Eugênio Magalhães. Foi a primeira mulher lagunense aprovada em exame de direção de automóvel na Laguna, obtendo assim carteira de motorista. Aliás, tema de matéria já publicada Aqui em 25 de setembro de 2020.clique Aqui
Dias depois, o casal veio para Laguna por alguns dias em visita aos seus pais, parentes
e amigos.
O casal Mário e Abigail terá duas filhas: Ivone e Suzana.
Atuação na imprensa e em emissoras de rádios
Passou a escrever na Revista Sombra, do diretor Walter Quadros.
Depois, como crítico musical na Folha Carioca, no Jornal
Tribuna Popular e mais tarde, e durante muitos anos, no jornal Tribuna
de Imprensa, do jornalista Carlos Lacerda, seu amigo com quem dividiu um
apartamento no Edifício Olinda nos primeiros e difíceis anos morando no Rio.
Apresentou um programa sobre música na Rádio Ipanema.
Foi autor do verbete da Música Popular da Enciclopédia Barsa.
Foi membro de comissões julgadoras de concursos musicais, entre eles o 1º e 2º Festival Internacional da Canção. E chefe da Delegação do Festival de Cannes (1966).
Foi redator na Rádio Ministério da Educação e Cultura.
Estudou piano com o maestro espanhol Tomás Téran radicado no Brasil nas
décadas de 1940/50/60 e harmonia com o maestro Oscar Lorenzo Fernándes.
Trabalhou aos domingos no Programa Casé, de Ademar Casé, na Rádio
Philips do Brasil PRAX.
Foi um programa que revolucionou a história da mídia brasileira. O
primeiro a pagar cachê aos artistas, primeiro jingle e primeiro contrato de
exclusividade com artista.
Pelo programa passaram ícones como Noel Rosa, Carmem Miranda, Luiz
Gonzaga, Dorival Caymmi e Orlando Silva.
Mário Cabral acompanhou ao piano a maioria dos cantores e cantoras daquela
época e muitos passou a conviver.
Foi pianista de Carmem Miranda
Como pianista foi escolhido para, juntamente com Carmen Miranda e
Francisco Alves, divulgar a música brasileira no exterior.
Acompanhou a cantora Carmen Miranda e Roberto Vilmar numa excursão a
Buenos Aires, de grande sucesso nas apresentações nos Teatros San Martin e
Apolo.
Mário Cabral conviveu praticamente com todos os artistas da época e teve
entre seus amigos Haroldo Costa, Flávio Rangel, Carmem Miranda, Ruben Braga,
Fausto Wolff, Noel Rosa, Vinicius de Moraes, Silveira Sampaio, Fernando Lobo,
Paulo Tapajós, Antônio Bandeira, Paulo Mendes Campos, Álvaro Moreira, Manoel
Bandeira, Antônio Maria, Nestor de Holanda, Orestes Barbosa, Dolores Duran, Silvinha
Melo, Elisinha Coelho, Ismael Neto, Custódio Mesquita, Joel Silveira, Sérgio
Porto, Pomona Politis...
Bom boêmio, viveu a noite do Rio de Janeiro das décadas de 40/50 e 1960.
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Num encontro social, casal Mário Cabral e esposa Abigail Cabral Rocha (nas duas extremas) com o Embaixador da Rússia Iacov Suritz e sua filha Elisabeta Suritz. Revista Sombra (RJ) - julho /1946. |
A partir de 1966 passou a integrar o Conselho Superior de Música
Popular, entidade criada pelo crítico Ricardo Cravo Albin no Museu da Imagem
e Som.
Ao piano, com brilhantismo, executava valsas, sambas, sambas-canções,
marchas....
Quem o viu e o ouviu ao piano à época, testemunhava que em suas
execuções seus dedos davam uma harmonização própria, enriquecendo ainda mais a
canções.
Seus amigos diziam que Mário era o acompanhante favorito das estrelas da
música, aquele capaz de ouvi-las e de entendê-las.
Colaborou com artigos para a Revista de Música Popular, cujo
editor era Flávio Rangel.
Aliás, Rangel costumava dizer que “Mário Cabral mergulhava as mãos numa
solução de veludo, antes de ir para o piano, tal a suavidade que sabia tirar do
teclado”.
Título de Cidadão Carioca
Em março de 1960, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro concedeu o
Título de Cidadão Carioca ao músico e crítico de música Mário Greenhalg Cabral.
Proposta do vereador Murilo Miranda (UDN).
Assim o vereador justificou a concessão do título:
“Participando intensamente há mais de vinte anos do
nosso movimento artístico, Mário Cabral se tem revelado um animador incansável,
apoiando e estimulando os nossos verdadeiros valores, sem, entretanto, perder
aquele senso de equilíbrio e ponderação que constituem a base de toda a sua
atividade.
Por isso mesmo, a coluna que mantém em um dos
principais órgãos da imprensa carioca, reveste-se de prestígio e autoridade
indiscutíveis.
Além de destacar-se por sua atuação na imprensa,
Mário Cabral também se recomenda ao apreço e à gratidão dos artistas
brasileiros pelo carinho e solicitude com que, como advogado, se tem dedicado,
o mais das vezes de maneira desinteressada e com sacrifício dos seus próprios
interesses, a todos quantos necessitam de seus serviços profissionais,
empenhando-se nessa tarefa, com o mesmo escrúpulo, dedicação e proficiência que
tem assinalado a sua atividade na crítica musical”.
O "saudoso" Mário Cabral
Seu amigo Ruben Braga, numa crônica publicada na Revista Manchete em
1953, explicou porque quase todos os amigos de Mário Cabral o chamavam sempre
com o epíteto de “o saudoso”.
Contou o cronista Ruben que certa vez, em Petrópolis, no palco do Cinema
Capitólio, o cantor das multidões Orlando Silva se apresentava e entre um
número e outro exclamou:
-Agora, vou interpretar a valsa Rosa, de Pixinguinha, acompanhado ao
piano pelo “saudoso” Mário Cabral.
O apelido pegou e dali em diante sempre que era apresentado nos palcos
era chamado como “O saudoso Mário Cabral”.
O próprio Braga dizia que o apelido lhe dava “um certo ar ligeiramente
falecido”. Outro amigo reconhecia em Mário “um certo ar nostálgico”.
Falecimento aos 57 anos
O lagunense Mário Greenhalg Cabral faleceu aos 57 anos, às 14 horas do
dia 21 de junho de 1968 vitimado por uma fibrose pulmonar, no leito do Hospital
Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, deixando a esposa Abgail e as filhas Ivone
(18 anos) e Suzana (14 anos).
Seu velório aconteceu no Salão de Exposições do Museu Imagem e Som
(MIS).
Na ocasião, uma exposição plástica com o tema “Carolina” estava
acontecendo e continuou aberta ao público a pedido da esposa Abigail que
justificou: “Mário Cabral graças a sua identificação com a arte em seus vários
matizes, não se sentiria feliz se assim não o fosse”.
Foi sepultado no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de
Janeiro.
Sempre dizia aos amigos que achava excelente viver, mas se tivesse que
morrer, queria ouvir no momento do adeus “Jesus alegria dos homens” - Coral final
de uma cantata de Bach.
Seu falecimento foi noticiado em praticamente todos os jornais do Rio de
Janeiro, recebendo comentários e adeus de famosos jornalistas.
Em sua coluna sobre teatro na Tribuna de Imprensa de três de
julho de 1968, Fausto Wolff escreveu:
“Morreu o bom caráter Mário Cabral. E a gente não
tem outra coisa a fazer se não ficar olhando com cara de besta para esses
acontecimentos sem resposta.
Não há nada que me dê mais raiva que a morte de um
bom caráter. Acho que pretendem extinguir assim a espécie”.
Haroldo Costa, outro dos seus grandes amigos escreveu no Diário de Notícias de 26 de junho de 1968:
“Morreu Mário Cabral. A frase é tão violenta, tão crua, que se torna difícil articulá-la ou escrevê-la.
Poucos amaram o Rio e as suas manifestações artísticas quanto aquele pianista amador que tocava com desembaraço e integração uma composição de Ernesto Nazaré ou Antônio Carlos Jobim.
Seu sorriso permanente era uma festa para os seus amigos e o seu conhecimento de causa merecia todo o respeito dos seus pares. Foi um homem de muitos amigos.
Com o nosso Mário foi um pedaço bom deste Rio que ele amava cariocamente. Sua falta será sempre sentida. Foi um privilégio ter sido amigo do saudoso Mário Cabral".
A colunista e jornalista Pomona Politis no Diário Carioca de 25
de junho de 1968 escreveu assim o necrológio:
Ao velho amigo que se foi
“(...) Você partiu. Não é letra de samba, o samba
que você tanto cultivou. É a dura realidade na linguagem singela das palavras.
Aqui, deste canto que os seus olhos varavam todos
os dias, fica o pensamento sempre em você, quando eu tiver de enumerar
reconhecida os bons de alma os entes inesquecíveis. Adeus meu amigo, Mário
Cabral”.






