sexta-feira, 14 de julho de 2017

Fortim Atalaia da Ponta da Barra: memória histórica de uma Batalha Naval entre Farrapos e Imperiais

“A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro” (Le Goff).

Completamente abandonado, em ruínas - até 1976 ainda era possível ver algumas paredes -, o Fortim Atalaia, também chamado de Forte Garibaldi, situado na Ponta da Barra bem que poderia ser reerguido e restaurado.
Este fortim, em princípio chamado de Bateria da Barra da Laguna, um posto de artilharia da costa, armado com canhões, ao que se sabe foi construído por volta do ano de 1800. Foi reconstruído pelos Farroupilhas durante a República Catarinense, ou Juliana, em 1839. Servia também como depósito de armamentos.

A foto, tirada no último fim de semana, mostra a situação do local nos dias de hoje. É possível observar as pedras remanescentes das paredes do Fortim.

Não sei se o terreno onde se situa é propriedade particular. Presentemente está cercado e situado entre duas casas. Se verdadeiro, não seria o caso de uma indenização em prol da nossa história?

Em minhas pesquisas, encontrei o Decreto nº 28/82, de 27 de dezembro de 1982, assinado pelo então prefeito da Laguna Mário José Remor, "considerando tombado as ruínas do Forte José Garibaldi, em Ponta da Barra". O Decreto considerando a área pertencente ao Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de nosso município, foi publicado à página 5 do Jornal O Renovador, de 15 de janeiro de 1983.

É seguir o exemplo do que foi feito nas fortificações, fortalezas da Ilha de Santa Catarina, projetos do brigadeiro José da Silva Paes. 
Bem que a Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc) ou a Udesc ou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), juntamente com a prefeitura da Laguna, poderiam restaurar e revitalizar a área. Muitas das pedras que constituíram os alicerces e paredes da edificação ainda estão depositadas no local.
Depois, poderia ser aberto à visitação pública, como museu, já que se trata de monumento de arquitetura militar de nosso país. Réplicas de canhões, painéis e fotos contariam a história dos 106 dias da efêmera República Juliana, e da Batalha Naval que a pôs fim.
Teatro da Batalha Naval de 15/11/1839. Desenho de Lucas Boiteux.
O fortim é citado em livros e documentos importantes. O próprio Garibaldi em suas memórias ditadas a Alexandre Dumas, em 1860, faz referência ao local, quando fala sobre a batalha da Retomada da Laguna, em 15 de novembro de 1839. Vejamos:

“(...) Subi ao cimo da montanha mais próxima, a fim de observar o inimigo, e de pronto compreendi que o seu plano consistia em agrupar suas forças na entrada da laguna. Imediatamente, enviei uma mensagem ao general Canabarro com base na qual as suas ordens (sic) foram emitidas de uma forma igualmente expeditiva. Mas, a despeito da diligência de seu comando, nossos homens não chegaram a tempo para defender aquela entrada. Uma bateria que erguêramos na ponta do molhe, dirigida pelo bravo Capotto, não pôde opor aos imperiais senão uma frágil resistência, contando apenas com armas de pequeno calibre – de resto, mal manejadas por inábeis atiradores”.

Já Wolfgang Ludwig Rau, em sua monumental obra “Anita Garibaldi – O perfil de uma Heroína Brasileira”, ressalta à página 140:

(...) Pelas duas horas da tarde, surgem no mar os navios legalistas, vindos de Imbituba, sob comando de Frederico Mariath.
Do Morro da Barra, José Garibaldi, no forte ali existente, observava sua aproximação, tentando adivinhar-lhes os planos de ataque. São quase vinte embarcações variadas, mas todas apinhadas de material e de homens. Passam a forçar a barra sinuosa, um a um.
Representam enorme supremacia numérica. Deslizando a trinta metros, apenas da bateria do forte”(...)

Em nota de rodapé, Ludwig Rau diz:

“Em abril de 1969, o autor fotografou no local os restos ainda existentes da fortaleza: - alicerces e dois cantos de parede de alvenaria ciclópica da outrora pequena edificação. Na ocasião, ainda se notava perfeitamente a escavação do plano circundante, sobre um aglomerado de rochas escarpadas, rente às quais corria o velho canal da barra, hoje aterrado e deslocado para grande distância (uns 300 a 400 metros) da sua antiga posição. Somente localizados os vestígios da fortaleza destruída, é que o autor pode visualizar também a batalha naval de 1839, e compreender, só então perfeitamente, “o porquê” de atirarem mutuamente a queima roupa. As embarcações percorrendo o tortuoso canal da barra antiga, ao dobrarem no estreito sangradouro a curva rochosa sobre o qual se situa a fortaleza, chegavam a bater com a “carangueja” contra as pedras, e expunham os flancos aos canhões de Garibaldi, a poucos metros apenas de distância.
Consta que as forças imperiais, posteriormente, melhoraram a construção danificada pelo combate; utilizaram o mesmo fortim ainda durante muitos anos”.
Batalha Naval de 15 de novembro de 1839. Tela de Willy Zumblick pertencente a Newton Ramos.

Após a batalha de 15 de novembro, o Capitão de mar e guerra Frederico Mariath dirigiu ao Ministro da Marinha o seguinte ofício:
“E menos de uma hora estava o inimigo derrotado, vencido e algumas embarcações em fuga; eles se achavam ao pé da fortaleza em semicírculo” (...).
(...) “Tomamos 5 peças de artilharia da fortaleza” (...)

Oswaldo Rodrigues Cabral, em sua “História de Santa Catarina” ao abordar a queda da República Catharinense diz:

“John Griggs e José Henrique Teixeira morreram bravamente na carnificina. Os lances de coragem e de bravura assinalam-se de parte a parte. Canabarro cede. Garibaldi e Anita iniciam o transporte de armas e munições de bordo para terra numa frágil canoa, enquanto o combate prossegue violento. O forte da barra resiste – mas a impetuosidade dos imperiais é assombrosa”.

A foto, abaixo, é de 1976, e foi publicada no livro “Laguna – Memória Histórica”, do professor Ruben Ulysséa. Nota-se parte de uma das paredes ainda em pé.

Já as duas fotos publicadas abaixo são do livro de Wolfgang Ludwig Rau, uma das obras mais importantes – se não a mais – sobre a heroína lagunense.
São fotos antigas, captadas em 1969 pelo Arquiteto-Historiador-Escritor, que correu o mundo passando e visitando os locais por onde Anita pisou.


Penso que observando, estudando e analisando essas fotos é possível fazer um projeto de restauro do local.
Estou sonhando? Pois sonhar não custa nada, não é o que se diz? Quem sabe algum dia um político, uma autoridade ligada à cultura do nosso município se interesse por esse aspecto histórico e leve a ideia adiante, realizando-a. Quem sabe? Se bem que não cuidaram nem do acervo do Rau... os monumentos estão sujos e abandonados... roubaram até o sino do Museu...

 P S: Cá entre nós, e só entre nós leitor, imagine se este ponto de referência, citado por diversos escritores e até por Garibaldi, este lugar histórico, palco de sangrentas batalhas, fosse situado, já nem falo em outro país da Europa, como a própria Itália, mas em outro município, encostado ao nosso, em Tubarão, por exemplo? Garanto que virava ponto turístico e histórico dos mais importantes do Sul. Cantado e decantado em versos e prosas. Com ampla divulgação na mídia.
Mas o local fica aqui, e não se dá a devida importância. Lá está, em ruínas, aguardando o devido reconhecimento de nossas autoridades, através do restauro e revitalização. Eis um infeliz exemplo de um país sem memória. 

4 comentários:

  1. Uma cidade que vive de história e turismo se dá ao luxo de perder parte do passado importante, vivido por estas bandas. Que triste!!

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  2. Não conhecia o local e essa história. Laguna tão rica. Pena que os governantes não aproveitam.vilmar Coelho Florianópolis.

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  3. Prezado Valmir...
    Excelente seu trabalho de pesquisa sobre mais uma parte da rica historia da Laguna, que infelizmente não recebe o devido tratamento por parte do poder público.

    A partir de uma verificação em livros (ex.: o livro História Militar da Ilha de Santa Catarina, escrita pelo Marechal Cândido Caldas e, publicado pela Editora Lunardelli em 1992) e, também em outras fontes , transcrevo abaixo alguns tópicos encontrados.
    A Bateria da Barra de Laguna, hoje em ruínas, estava localizada na margem direita do canal, na barra da Lagoa de Santo Antônio, na atual cidade de Laguna, no litoral sul do Estado de Santa Catarina. Também, foi conhecida como Forte de Laguna, Fortim do Atalaia ou ainda Fortaleza da Barra.
    Na data de 15 de novembro de 1839 um ataque imperial a Laguna, combinando tropas de infantaria, de cavalaria e da Marinha do Brasil, sob o comando do Capitão de Mar-e-Guerra Frederico Mariath, resultou na destruição da esquadra farroupilha ali fundeada e na consequente reconquista da cidade. Consta que, com a retomada da cidade, a bateria na barra, erguida pelos rebeldes, "foi demolida logo depois" (SOUZA, 1885:126).

    No entanto, é bem provável que esta bateria já existisse antes da chegada dos republicanos, sendo por eles depois ocupada. Segundo Henrique Boiteux (1985), já existia naquela época um pequeno forte no local, "(...) do lado oposto à vila e fronteiro à barra, forte este construído pouco antes de 1800, a sua custa, pelo então capitão-mor da Laguna, Jerônimo Francisco Coelho, para defesa daquele porto (...)". Segundo o mesmo autor, o Coronel Villas Boas, comandante geral das forças imperiais em Laguna, receando que esse forte fosse tomado pelos invasores,"(...) ordenou recolher a bordo da canhoneira Itaparica, todos os objetos nele existentes, do que deu conta à presidência em 16 do mesmo mês [julho de 1839] (...)" (BOITEUX, 1985: 113). Aliás, ainda segundo Boiteux, Jerônimo Coelho seria também o responsável pela construção da Bateria de Imbituba, 5 léguas ao norte de Laguna, em 1801 (BOITEUX, 1985: 121). Esse capitão-mor teria futuramente como neto o Brigadeiro Jerônimo Francisco Coelho, lagunense, que herdaria o mesmo nome do avô, e seria, além de um militar importante, o fundador da imprensa catarinense.
    Há informação de que em 1992, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), cadastrou as ruínas remanescentes dessa fortificação como um sítio arqueológico histórico, denominando-a de Fortim do Atalaia. A área do sítio foi registrada como sendo de 140 m2, localizada em terreno de propriedade privada, na margem direita (lado sul) do canal da Barra da Lagoa Santo Antônio. Apresentava-se então em situação de abandono, com integridade classificada como menor que 25%, notando-se, à época, vestígios de edificação a céu aberto. Em março de 2008, uma vistoria realizada pelo IPHAN constatou "(...) evidências de uma edificação, em pedra, que supostamente pertenceriam à edificação do Fortim em questão (...)".
    Adolfo Bez Filho – Joinville / SC

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  4. Em todo mundo os países transformam suas ruinas em ponto turisticos com arrecadação e entretenimento, no Brasil e em especial na Laguna derrubam as ruinas e apagam a historia. Lamentavel - Renato Souza

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