23 julho 2026

O padre assassinado na Laguna, durante a República Catharinense em 1839

     22 de julho de 1839. Após vencer as forças legais do Império, os farroupilhas-republicanos vindos do Sul tomam a Vila da Laguna.
Sete dias depois, em 29, é proclamada a República Catharinense, tendo Laguna como primeira capital, denominada Cidade Juliana.
O povo exulta em festas pelas ruas. O pároco local, Francisco Villela de Araújo reza missa em Ação de Graças na matriz Santo Antônio dos Anjos. Faz brilhante oração. É adepto fervoroso da nova forma de governo.
Quase quatro meses depois o cenário será outro. Desmandos, violência e o saque de Imaruí, entre outros fatores, põem em xeque o sistema implantado.
Há contestações, protestos, revoltas, conspirações e perseguições aos descontentes com os rumos.

O padre lagunense Villela, preso e posteriormente morto pelos farrapos-republicanos na República Catharinense em 1839. Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA).

A Laguna que antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Por isso, cerca de 60 pessoas serão encarceradas nos porões de navios. Dentre elas o padre Villela, que ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos.
O vigário será morto na véspera da Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, na Barra da Laguna, onde os republicanos serão derrotados pelas forças legais marítimas lideradas pelo Almirante Frederico Mariath.
Um processo de Inventário da nossa Comarca comprova o assassinato do sacerdote lagunense. (Veja abaixo a cópia da Capa do Processo de Inventário).

“Um mártir da verdade”, diz Bispo
No começo deste ano, em 18 de janeiro de 2026, um domingo, aconteceu a posse canônica dos novos padres da igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos.
A acolhida dos novos sacerdotes em suas novas missões foi durante a Missa das dezenove horas presidida pelo Bispo Diocesano Dom Adilson Pedro Busin.
Antes de abençoar a todos os presentes, Bispo Adilson lembrou de um padre que foi morto aqui na Laguna.
 “Li sua história, ele foi um mártir da verdade”, ressaltou Busin.
O sacerdote referido foi o padre Francisco Villela de Araújo, trucidado pelas tropas farroupilhas em 1839.

Um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes
Após 117 dias da Tomada da Laguna em 22 de julho de 1839 e da Proclamação da República Catharinense em 29 do mesmo mês, tendo com capital provisória a Cidade Juliana da Laguna, os farrapos bateram em retirada pelos campos da Passagem da Barra e do Camacho em direção ao Sul, onde tomaram rumos diferentes.
A fuga deveu-se à derrota na Batalha Naval de 15 de novembro de 1839, à entrada da Barra da Laguna.
Deixaram no passado as esperanças liberais de uma nova forma de governo, o republicano.
Ficaram também para trás um período de violência, arbitrariedades e muitas mortes.
Mesmo antes de os farroupilhas aparecerem por aqui, já haviam muitos adeptos de doutrinas liberais vivendo em nossa região, inclusive os que faziam parte do clero que exerciam enorme poder sobre a população.
 Basta dizer que o primeiro padre a presidir a República Catharinense foi Vicente Ferreira dos Santos, vigário da Enseada de Brito.

Villela: “Um padre cheio de patriotismo e fervor republicano”
Outro padre que se destacou naqueles tempos foi o vigário da Paróquia da Laguna, Francisco Villela de Araújo. Republicano de primeira hora, recebeu de braços abertos a chegada dos farroupilhas.
“Um dos mais entusiasmados, que rezou missa em Ação de Graças em vibrante oração, cheia de patriotismo e de fervor republicano”, escreveu o historiador Henrique Boiteux.

Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos em foto do século XIX, ainda sem as duas torres, erguidas em 1894. Foi nesta igreja que o Vigário da Laguna Francisco Villela de Araújo rezou missa em Ação de Graças quando da chegada dos Farrapos-Republicanos. Quase quatro meses depois seria preso e morto pelos mesmos revolucionários.

“O sonho converteu-se em pesadelo”
Passados os primeiros meses o ambiente mudou radicalmente. Com a barra fechada à navegação comercial, nada saía nem entrava pelo porto lagunense. O comércio ficou estagnado.
Comerciantes e armadores começaram a se queixar por não conseguirem movimentar seus negócios pelo porto e ainda terem que sustentar toda uma estrutura militar e civil instalada.
Ninguém apoia um movimento, uma revolução para ver piorar sua vida e a vida da população.
“O sonho converteu-se em pesadelo”, no dizer do historiador Oswaldo Cabral.

Da alegria ao desespero
A população lagunense da alegria dos primeiros dias passou à preocupação e ao desespero pela falta de alimentação e outros gêneros. Além do mais, o general David Canabarro ordenou o confisco de gêneros alimentícios que porventura ainda existissem.
E aí desordens de todo tipo e perseguições aos descontentes e aos que não aceitavam os atos do novo governo começaram a acontecer.
A Laguna, que antes conspirou contra o Império, passou a conspirar contra os farroupilhas-republicanos.
Tudo isso culminou com o Massacre de Imaruí, nos dias 9 e 10 de novembro de 1839, que abalou de vez a República recém-criada.
A Freguesia de São João Batista de Imaruí foi criada em 1833. No mesmo ano, em 23 de março, passou a ser Distrito da Laguna. Somente em 27 de agosto de 1890 foi desmembrada da Laguna.

“Essa freguesia muito sofreu”
Francisco Isidoro Rodrigues da Costa, que foi juiz de Direito na Laguna, deixou um precioso manuscrito datado de 1881 onde descreve Laguna e região.
Sobre o saque a Imaruí escreveu: 

“Essa Freguesia muito sofreu por ocasião da guerra civil dos Farrapos ou rebeldes do Rio Grande, entrando estes nela de assalto, saquearam as casas de negócio e de moradia. Isso em 1839”.

“O saque e massacre foram terríveis”
Sobre o saque (massacre) de Imaruí, o padre, pesquisador e historiador João Leonir Dall Alba registrou em sua obra Laguna Antes de 1880:

“O saque foi ordenado por David Canabarro, em represália à revolta da povoação contra a prepotência do Governo da República da Cidade Juliana da Laguna. Garibaldi em suas memórias lamentou sua participação no episódio. O saque e massacre foram terríveis”.

“Olhos arrancados e punhaladas”
Padre Villela ficou ao lado dos perseguidos e oprimidos e, por isso, enfrentou a força do General Canabarro.
Lindolfo Collor em sua obra o descreveu: “Canabarro era prepotente, áspero, caráter intolerante, não captava simpatia, não agremiava dedicações, nem semeava entusiasmos”.
Aliás, o próprio Garibaldi em suas memórias a Alexandre Dumas sobre Canabarro disse: “O instinto de ódio e de vingança se aninhava na alma daquele chefe farroupilha”.
Sua fúria se fez sentir na Laguna, onde foi impiedoso contra os revolucionários, agora desiludidos.
Por sua ordem sessenta lagunenses foram presos nos porões dos navios, tendo quinze deles morridos carbonizados no porão da escuna Itaparica que voou pelos ares na Batalha de 15 de novembro de 1839, conforme Boiteux.

Sobre a morte do padre Villela, o já citado Henrique Boiteux registrou em sua grandiosa obra A República Catharinense Notas para sua história - Imprensa Naval, 1927:

 “Quando se viram perdidos os republicanos viraram-se os soldados rio-grandenses contra os filhos da província com inaudita brutalidade. O padre Villela e o major da Guarda Nacional da Laguna, Francisco Gonçalves Barreiros, autores de uma reação e que se achavam presos foram assassinados.
O cadáver do padre Villela, foi encontrado na barra junto à fortaleza com os olhos arrancados e crivado de punhaladas. Conduzido para a Vila ali foi enterrado.
O do major Barreiros que foi castrado também teve idêntico enterramento”.

Barreiros preso na corveta Itaparica
O maior pesquisador sobre a lagunense Anita, Wolfgang Ludwig Rau em sua grandiosa obra Anita Garibaldi O Perfil de uma Heroína Brasileira não abordou o assassinato do padre Villela.
Sobre a prisão do major Barreiros, Rau escreveu:

“Também em Laguna houve excessos e vinganças de última hora, praticadas por maus elementos componentes dos retirantes farroupilhas.
Francisco Gonçalves Barreiros, legalista, tinha um navio pronto no estaleiro quando entraram os farrapos, que tomaram conta da embarcação. Ao chegarem as forças legais, Barreiros foi conduzido preso para bordo da Itaparica”.

Exclusivo: O Inventário do padre Villela
Alguns historiadores e pesquisadores duvidam do assassinato do padre Villela pelos farrapos-republicanos. Tanto que nem abordam essa morte em suas obras e pesquisas.
Mas o processo de Inventário existe e ele mostra que o padre deixou poucos bens. Na capa do processo está escrito: "Assassinado pelos rebeldes da Província do Sul".
         

Arquivo da Comarca da Laguna - Ano de 1839 - Capa do Inventário do Vigário Francisco Villela de Araújo "assassinado pelos rebeldes da Província do Sul".

Uma cômoda e dois aparadores de jacarandá, doze cadeiras de palha da mesma madeira, uma mesa de abas com gavetas, uma marquesa armada de cama, uma mesa de jantar, de cedro, um selim, manta e freio.
Como só restaram as peças de montaria, certamente o cavalo pertencente ao padre foi confiscado pelos farrapos.
O padre Villela possuía um escravizado de nome João. Conforme anotação na própria Capa do Inventário, João “fugiu com os rebeldes” (farroupilhas).
É bem provável que tenha partido livre com a tropa dos Lanceiros Negros, do general Antônio de Souza Neto.
Nos autos do processo emitido pela nossa Comarca, ainda no próprio ano de 1839, no mês de dezembro, ficamos sabendo que consta o Requerimento de João Villela residente em Portugal se apresentando como único herdeiro.
Assinam o Inventário: como Curador dos Bens Arrecadados: Manoel José Garcia. Juiz de Paz: Bento José da Silva. Juiz de Órfãos Interino: Pedro Francisco da Silva. Escrivão Interino: Francisco Pacheco dos Reis. Escrivão dos Órfãos: Manoel Joaquim da Costa. Escrivão: Vicente José Góes Rebelo.
 
“Metade das casas em ruínas ou abandonadas”
Laguna vai levar muitos anos para se recuperar daqueles quase quatro meses da tomada republicana.
O engenheiro e pesquisador belga Charles Van Lede que aqui esteve em 1843, portanto, apenas quatro anos depois dos acontecimentos em nossa cidade, dedicou em sua obra Colonização do Brasil, algumas linhas:

 “A Vila da Laguna tem perdido muito de sua importância desde a invasão dos Farrapos em 1839. A metade de suas casas estava em ruínas ou abandonadas.
Na verdade, ela começava a se refazer dos desastres de então, e algumas novas construções com mais cuidado e elegância tinham já substituído as antigas.
Mas, no entretanto ela não estava inteiramente restabelecida da rude prova que acabava de resistir”.
 
Nem tudo foi paz e amor
Como vemos, nem tudo foi paz e amor como alguns romantizam a violência daquele período da nossa história.
A paixão de Anita e Garibaldi foi um capítulo à parte. Gloriosas páginas de amor, coragem e superação, não restam dúvidas e que devem ser sempre valorizadas, mostradas e contadas às novas gerações.
Exatos cinquenta anos depois, em 15 de novembro de 1889 a República no Brasil foi proclamada também pela força das armas.
Mas desta vez os agentes foram militares. Não houve guerra civil e a República não esperou o amanhecer para nascer. 

3 comentários:

  1. Olha só que história. Não sabia que um padre tinha sido morto na República. A gente acha que só existiu o romance de Anita e Garibaldi. As mortes, a violência tem autores que nem abordam. Agora fica provado com o Inventário que o padre foi morto pelos soldados farroupilhas. Quantas mortes entre brasileiros por um ideal. A morte desse padre é um capítulo a parte, dá uma novela, um filme. Parabéns Valmir por nos trazer essa história.

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  2. Karmensita Cardoso24/07/2026, 11:26

    Parabéns Valmir Guedes, importante que todos saibamos que a história contata muitas vezes é diferente da real vivida, e poder compreender nossas dificuldades através do que nossos antepassados viveram nos impulsiona a buscar reescrever, vivendo de maneira mais consciente de nossos atos. Gratidão!

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  3. Geraldo de Jesus24/07/2026, 12:29

    Valmir, sempre ouvi falar da morte de um padre pelos revolucionários mas nunca encontrei dados. Muitos pesquisadores e escritores famosos nem trouxeram esse fato. Agora mostras e contas todinha a história, inclusive com provas. Como dissesses, muita gente romantiza a guerra que é feita de muita dor, mortes, perseguições, sofrimentos e nesse casos foi entre brasileiros.
    Pela verdadeira história meus parabéns.

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