04 abril 2022

Miguelito: o craque de bola que o tempo não esqueceu

 
Ele é lembrado no meio futebolístico da Laguna quando a conversa é sobre craques de futebol do passado.
Fez sua história nos campinhos de várzea ao lendário Barriga Verde F.C.
Do Hercílio Luz ao Esporte Clube Ferroviário.
E na Bolívia, onde jogou nos Clubes Aurora, Oriente Petrolero e Jorge Wilstermann, disputando jogos na Libertadores.
Um craque do futebol que o tempo não esqueceu.
 
Santelino Bonifácio Vieira assim está registrado em sua certidão de nascimento. Mas quem o procurar por este nome dificilmente o encontrará. Já Miguel... Miguelito é como ficou conhecido.
Miguelito com a camisa do Barriga Verde F.C. em 1967.

     Ele explica: “Quando criança eu ouvia no rádio as músicas do cantor mexicano Miguel Aceves Mejias. Vivia pela rua cantando os seus sucessos. Aí meus amigos de longe já sabiam quando eu vinha chegando:
   – Lá vem o Miguel cantando... Lá no México é o Miguel, aqui no Brasil, em Laguna é o Miguelito. Aí o nome pegou e ficou. No fim todos me conheciam assim, até gente da minha família, o meu pai mesmo me chamava assim”.

Bem. O Miguel mexicano brilhou na música e no cinema. O nosso daqui, prata da casa, vai brilhar no futebol.
Então vamos lá, porque a história só está começando.

Primeiros anos
Miguelito Bonifácio Vieira nasceu em São Tomaz, então distrito de Imaruí, em 4 de novembro de 1947, filho de Adílio Bonifácio Vieira e Maria Josina Vieira, a d. Cotinha.
Quando tinha quatro anos sua família veio morar na Laguna e ele foi matriculado na idade escolar no curso primário da Escola Básica Jerônimo Coelho.
Logo cedo começou a trabalhar. Primeiro como auxiliar/ajudante da família do seu Augusto Westphal. Depois no armazém do seu Lilico Machado, no Mercado Público.
Nos intervalos e fins de semana jogava num campinho improvisado que existia ali na Paixão, defronte ao Restaurante Peralta. Ouvia muito os jogos do Rio de Janeiro pela Rádio Globo, principalmente o Flamengo. Bem por isso virou flamenguista roxo. 
Depois o Wilfredo Silva que trabalhava e era locutor da Rádio Difusora montou um time chamado Banguzinho e Miguelito jogou numa posição que o consagraria no futuro: o de meia-esquerda.

No Barriga Verde F.C.
Depois, já aos 14 anos, em 1961, foi treinar no lendário Barriga Verde F.C. Logo a seguir passou a titular. Ele lembra:
“Foi um tempo muito bom, jogava Eraldo, Beto Pacheco, Juarez Fortes, Cacaio Pinho, Dido, Dalmo, Nereu, Odilon (que faleceu há poucos dias), Bel e tantos outros.”
Ressalta uma partida muito disputada entre Barriga Verde X Ferroviário, de Tubarão, onde o placar foi de 1 X 1, gol dele pelo Periquito. “Acho que o saudoso Bujú (José Carlos Natividade) foi quem fez o gol de empate pelo Ferrinho”.
Time do Barriga Verde em 1967. Em pé da esquerda p/direita: Tonico, Beto Pacheco, Ná Barzan, Rui, Dalmo Faísca e Cid Siqueira. Agachados: Juarez Fortes, Nereu, Eraldo, Miguelito e Dido. Foto: Bacha.
Certa vez, com o Barriga Verde de folga, a convite de amigos foi jogar pela Portuguesa do Magalhães numa partida em Torres (RS). “Aí um empresário viu o meu jogo, gostou e me convidou para o Comerciário, de Tubarão, onde jogava Valdomiro, Chiquinho, Parobé... fiquei uns seis meses e retornei para Laguna”.
Aqui continuou jogando futebol nos times da TEP (Turma da Esquina do Paulista), do Magalhães, Areal F.C. e pelo Veteranos do Flamengo.
Turma da Esquina do Paulista (TEP), do Magalhães. Em pé da esquerda p/direita: Orlei Pacheco, Décio Cabral, Lindomar (Nenem), Mizinho Cidade de Souza, Rui e Edésio Joaquim. Agachados: Valdemir (Mi), Juarez, Miguelito, Márcio Carneiro, Toninho Izidro e Mário José Barbosa.

Areal F.C. De pé da esquerda p/direita: Waldo, Mimo, Lilo, Milton, Zazá, Aírton, Silvinho Silveira e Lelo. Agachados: Djalma, Vavá, Zé Carlos, Miguelito e Paulo Sérgio.
No Ferroviário
O radialista Wilfredo Silva (olha ele aí de novo), fez contato com uns amigos do Ferroviário e Miguelito foi contratado. Em 1968 foi escolhido o craque do ano.
Esporte Clube Ferroviário - 1970. Em pé da esquerda p/direita: Chico Salgado, Acioli, dr. Gilberto, Adilson da Costa, Ernesto, Silvestri, César, Paulo César, Carlinhos, Gunga, Angelo Zabot, Gaiola (técnico), Alberto Botega, Domingos, Amilton e Geraldo (roupeiro). Agachados: Péricles, Miguelito, Márcio, Armando, Bahia, Rainoldo Vieira, Cesinha, Cissa e Eraldo.
Em 1970 o Ferroviário sagrou-se campeão do campeonato estadual. Em seguida Miguelito foi emprestado para o Hercílio Luz, onde ficou por seis meses e retornou para Laguna.
Miguelito e Eraldo jogando juntos no Esporte Clube Ferroviário.
Na Bolívia
Ele continua narrando sua história: “Neste meio tempo o Eraldo foi jogar na Bolívia, a convite de um empresário. Numa de suas visitas ao Brasil me convidou pra ir pra lá e lá fui eu jogar naquele país”.
Na cidade de Cochabamba Miguelito jogou pelo Clube Aurora, Clube Oriente Petrolero e Clube Jorge Wilstermann. “Fiz muitos jogos pela Libertadores contra o Boca Júniors (Argentina), River Plate (Uruguai) e Olimpia (Paraguai)”.
Jogando no Aurora da Bolívia. Miguelito é o terceiro em pé, da esquerda p/direita.

Diploma de Honra ao jogador Miguelito pelo título de vice-campeão do Clube Aurora em 1974.

A imprensa boliviana destacando os jogos. O ataque do Clube Jorge Wilstermann em 1978 formado por Oviedo, Vargas, Miguelito e Eraldo.
Miguelito ficou jogando na Bolívia até 1979. Antes disso casou aqui na Laguna com Ida Maria. Sua primeira filha Andréia nasceu naquele país. As outras duas, Aline e Amanda, nasceram no Brasil.

Entre o futebol e uma guerra civil
“Ai estourou uma guerra civil por lá. Uma disputa por território com o Chile. O peso se desvalorizou e quase todo o dinheiro que se ganhou sumiu. Ficou muito pouco na troca pelo nosso dinheiro, o cruzeiro. Não deu pra fazer um grande pé de meia”, lembra.
De fato o período foi bastante conturbado. Golpes de estado, regime militar, tensões entre a Bolívia, que buscava uma saída pelo mar pelo Mediterrâneo e o Chile. Houve protestos estudantis e de operários, congelamento de preços, bombas, etc. O país parou.

Retorno ao Brasil
“Retornei para o Brasil e fui treinar no Novo Hamburgo (RS), mas precisou um documento de lá da Bolívia me liberando para a transferência e não havia como buscar. Não tinha a facilidade de hoje com telefone e internet. Tudo era demorado e difícil e o time não podia esperar e aí puseram outro no meu lugar”, explica e lamenta Miguelito.
Miguelito retornou para Laguna e foi trabalhar em outras áreas em empresas do ramo de madeiras e alumínio e também como segurança no Clube Congresso Lagunense.

Dias atuais
Em 1984, a convite de alguns amigos, ingressou na Casan, no escritório da Laguna onde trabalhou até a sua aposentadoria, depois de 33 anos de serviço. Participou dos Jogos Abertos promovidos pela empresa.
Miguelito em seu apartamento na Laguna em abril de 2022.
Viúvo já há alguns anos, casou com Maria Regina Francisco. O casal reside no bairro Portinho em nossa cidade.
Em 2009 foi homenageado pelo desportista Amauri Luchina com um brasão do Barriga Verde F.C. escrito:
“Miguelito, todo lagunense orgulha-se de tê-lo como atleta do Barriga Verde F.C. e Copa do Torcedor”.

Aproveito estes dizeres acima para finalizar essas lembranças e também a minha homenagem ao craque de bola Miguelito, que o tempo não esqueceu.

28 março 2022

Primeira mulher médica em SC começou a atuar na Laguna em 1934

 
Wladyslawa Wolowska Mussi foi a primeira mulher médica em Santa Catarina e começou a atuar na profissão aqui na Laguna, em 1934.
Em nossa cidade, juntamente com seu marido, o também médico, lagunense Antônio Dib Mussi, montou consultório.
  
Wladyslawa Wolowska Mussi
Ela nasceu em 11 de agosto de 1910, em São José dos Pinhais, no Paraná, filha de pais poloneses.
Conheceu seu futuro marido Antônio Dib Mussi na Universidade do Paraná (atual UFPR), ambos alunos do curso de Medicina.
Ele era lagunense, nascido em 10 de maio de 1911, filho de Dib Mussi e Santa Elias Mussi.
O casal de médicos Wladyslawa e Antônio Dib Mussi. Foto: Acervo Memória Política de SC/Alesc 
Recém-formados, os dois médicos se casaram. Antônio Dib Mussi retornou à terra natal em 1º de janeiro de 1935 acompanhado da esposa. A Banda União dos Artistas foi recepcioná-lo, em sua residência na rua 1º de março (hoje Barão do Rio Branco), conforme registrou o jornal O Albor. Aqui o jovem casal montou em conjunto um consultório e passaram a atuar na profissão, logo se destacando na área da saúde.
Publicidade no jornal O Albor em 1935.
A "dona Doutora" e "doutora Wladys" como era também conhecida, se especializou como obstetra e ginecologista. Muita gente naquela época nasceu na Laguna por suas mãos.
O saudoso lagunense, desembargador Norberto Ulysséa Ungaretti foi um deles. 

Uma coluna no jornal O Albor
A partir do ano de 1937, em 4 de julho, a doutora Wladyslawa passou a colaborar com o jornal O Albor, semanário de nossa cidade, com uma coluna intitulada “A arte de ser Mamã”. Devido ao sucesso entre os leitores, chegou a ocupar metade da capa da publicação em algumas edições.
E foram seis publicações onde a médica, com seu conhecimento falava as fieis leitoras sobre hereditariedade, gravidez, gestação, nevralgias, prisão de ventre, manchas na pele e doenças infantis como coqueluche e sarampo. Abordava também sobre hábitos de higiene dos bebês e das novas mamães.

Médica relembrou Bessa e o jornal
Em entrevista à jornalista Lúcia Maria de Barros Silveira sobre o jornal O Albor, a doutora Wladys em outubro de 2011 relembrou sua colaboração para o periódico lagunense e o encontro com o editor Antônio Bessa:

“Logo que eu e meu marido chegamos em Laguna ele passou na casa de minha sogra para nos cumprimentar e dar boas-vindas. Era educadíssimo e muito simpático. Tinha um sorriso muito doce. Sabe aquelas pessoas em que passamos a confiar assim que vemos? O seu Bessa era assim.
Num aniversário onde estávamos todos reunidos, ele me ouviu falar sobre meus estudos em pediatria. Calmo, ele me chamou à parte e perguntou se eu não gostaria de escrever umas colunas para seu jornal sobre aquele assunto. Considerou que seriam de utilidade pública e ajudariam as mulheres a confiarem no meu trabalho. Aceitei de imediato. Sabia da importância que O Albor tinha aqui no Estado e o quanto era considerado pelas pessoas. Era um jornal que a gente recebia, lia e guardava. Não se botava fora.
Assim foi feito. Durante seis semanas eu escrevi para o jornal a coluna A Arte de ser Mamã e depois disso o meu consultório vivia cheio. Não era só gente rica não. O nível cultural de Laguna sempre foi excelente. Muito mais gente lia lá do que em qualquer outro lugar do Estado. Com essas colunas apareceu uma clientela e tanto”.
Jornal O Albor de 4 de julho de 1937.
Na coluna de estreia ela dizia: 
“A pedido de algumas mães, abrimos hoje essa pequenina e modesta coluna, desejando ardentemente, proporcione ela o benefício que outras mães, privilegiadas, encontram em obras de primeira ordem”.
 
Na edição de 9 de junho de 1937 numa nota social, o O Albor registrava o retorno do casal de médicos a nossa cidade vindo do Rio de Janeiro onde esteve em curso de aperfeiçoamento por seis meses. 

Professor e diretor do Ginásio Lagunense
No ano seguinte, em 1938, Antônio Dib Mussi foi diretor do Ginásio Lagunense, estabelecimento escolar em que já lecionava.
O casal aqui esteve até 1939 quando, convidado, Antônio Dib Mussi assumiu como médico e diretor do Hospital Santa Otília, em Orleans.
Foi prefeito daquela cidade por alguns meses nos anos de 1945 a 1947, nomeado por Interventores Federais.
Em 1947 elegeu-se deputado estadual pelo Partido Social Democrático (PSD) e passou a residir com a esposa em Florianópolis. Em 1949 foi nomeado diretor do Serviço de Assistência Médico Domiciliar de Urgência, o famoso SAMDU, de tantos serviços prestados.
O casal teve três filhos, os professores universitários Zuleika Wolowska Mussi Lenzi, Carlos Wolowski Mussi e o médico cardiologista de renome Mário Wolowski Mussi. 

Médica-voluntária
A doutora Wladyslawa clinicou até depois dos 70 anos. Era titular da Cadeira nº 9 da Academia de Medicina do Estado de Santa Catarina. Foi a primeira médica-voluntária em Florianópolis da Rede Feminina de Combate ao Câncer, cidade onde recebeu o título de Cidadã-Honorária. Foi fundadora da Sociedade Polônia na capital do estado.
Na festa de aniversário de seu centenário em 2010, a doutora Wladys discursou dizendo que “A verdadeira família é aquela que se reúne pelo sangue e também pelo espírito”.
E emocionou a todos os familiares e amigos presentes ao falar de coragem, força e trabalho, destacando que “Na vida há também a vitória sobre o sofrimento, a alegria de dar ciência e amor, a recompensa solitária de ter feito o melhor, a alvorada, a esperança...”.
Doutora Wladys em 2010. Foto: Oliveira Mussi/Álbum de família.
Suas relações com as pessoas, o gosto pela leitura, seu humor, sua personalidade admirável e força de trabalho representaram o pioneirismo, a coragem e a superação de desafios.
Foi uma profissional médica competente, esposa e mãe dedicada e que imprimiu sempre a sua família os valores da ética, moralidade e trabalho.
A médica Wladyslawa faleceu em Florianópolis em 14 de julho de 2012, aos 101 anos, um mês antes de seu aniversário, vítima de complicações cirúrgicas por fratura do fêmur.
Antônio Dib Mussi falecera muitos anos antes, em 19 de março de 1959. Foi homenageado com nome de rua em nossa cidade e na capital catarinense.
O casal está sepultado no Cemitério São Francisco de Assis, no Itacorubi, em Florianópolis.

21 março 2022

Laguna foi pioneira no futsal feminino em SC

 Em 1959, moças da Laguna formaram três times de futebol de salão (hoje conhecido como futsal feminino). As pioneiras partidas foram realizadas na recém-inaugurada quadra de cimento do Clube Blondin.
Os jogos atraíram muita gente, entre curiosos, jogadores e torcedores.
    O jornal O Albor editado em nossa cidade, registrou o fato como inédito em Santa Catarina.

A Portuguesa de Futebol de Salão Feminino (Futsal) formado por Walda, Mary, Cecê, Laura (goleira) e Gessy, além de Rosa (reserva) que não está na foto, em jogo de estreia em 7 de outubro de 1959 na quadra do Clube Blondin. Foto: Álbum de família/Cecê.

A nova sede social do Clube Blondin foi inaugurada em 12 de junho de 1943, tendo na presidência o médico Paulo Carneiro. 
Na verdade o Clube só atravessou a Praça Vidal Ramos, deixando o imóvel onde hoje funciona o escritório do Iphan e se mudando para o novo e amplo espaço ao lado da Matriz.
Memoráveis bailes, desfiles, jantares e demais eventos irão acontecer no local, marcando época em nossa tradicional sociedade.
 
Quadra Esportiva
Mas em 25 de julho de 1959 a inauguração de uma quadra esportiva (ou cancha, como então se chamava) na área situada nos fundos do Clube Blondin vai provocar uma revolução no futebol de nossa cidade.
Com piso cimentado, arquibancadas para 300 pessoas, rede protetora e oito postes com refletores para os jogos noturnos, o local vai se tornar um atrativo na área desportiva da Laguna e do Sul do estado. Será batizada de Quadra Capitão de Corveta Luiz Ferreira.
Abelardo Calil Bulos agora era o presidente do Clube Blondin e Carlos Prates o presidente da Liga Lagunense de Desporto Amador.
Os árbitros inscritos na Liga eram Flávio Delgado, Sinval Barreto, João Manoel Vicente, Gilson Ungaretti e Armando Mendes.
Além do vôlei ali praticado, o futebol de salão (futsal) vai atravessar as duas  décadas seguintes. Equipes surgirão disputando torneios e campeonatos. Torcidas serão organizadas e uniformizadas e uma acirrada disputa surgirá, com craques se destacando nesta modalidade, cujos nomes, dribles, jogadas e gols até hoje são lembrados pelos mais saudosistas.
Os jogos serão transmitidos pela Rádio Difusora da Laguna, através dos radialistas Evilázio e João Carlos Silveira, Álvaro e Luiz Lopes, com Jucemar Otávio Tomaz na técnica. O telhado do anexo lateral do clube servirá provisoriamente como “estúdio”. Mais tarde uma cabine de madeira será erguida.
 
Futsal feminino
Três meses depois da inauguração da quadra do Clube Blondin e com jogos já consolidados, outra novidade aguçará ainda mais o meio esportivo lagunense.
Será o surgimento de times femininos de futebol de salão. 
A ideia partiu de Arduino de Oliveira, telegrafista da Agência de Correios e Telégrafos da Laguna e presidente da Portuguesa F. C. do Magalhães, que já disputava jogos de futebol de campo e de salão. Seus filhos gêmeos, os jogadores Luiz Yzidro e Yzidro Luiz também participaram da fundação do time feminino, junto com outros diretores.
Os dois times da Portuguesa de Futebol de Salão em 1958 na quadra do Clube Blondin: Da esquerda p/direita: Arduino Oliveira (presidente), Pedro, Djalma, Luiz, Walda e Mary. Agachados: Benigno, Izidro, Laura, Gessy e Cecê. Foto/Álbum de Família/Laura Machado.

A notícia do jogo feminino de futebol de salão correu pela cidade. 
Na esquina do Café Tupy, point chic dos mais frequentados, situado na esquina da XV de Novembro com Raulino Horn, foi o assunto mais comentado (hoje chamaríamos de trending topics) durante os dias que antecederam a peleja, marcada para 7 de outubro de 1959, uma noite de quarta-feira.

1º jogo – 7 de outubro de 1959
Com camisas, calções, meias e tênis comprados, a Portuguesa (Lusa) do Magalhães estreou numa quarta-feira à noite seu futebol de salão feminino contra o Ypiranga F. C., time formado por moças moradoras no centro da cidade. Naquela época havia certa rivalidade entre bairros na Laguna. 
No portão lateral do Blondin uma multidão se espremia para adentrar ao recinto.
O time da Portuguesa, em seu uniforme nas cores verde e vermelho, formou com Maria Laura Machado (goleira) e sua irmã Sebastiana (Cecê) Machado, Walmeri, Walda e Gessy Araújo. Além de Rosa (Reserva).
Já o time do Ypiranga, organizado por Manoel Rodrigues de Oliveira, em seu uniforme nas cores azul e branco era formado por Edna Lopes, Mary R. de Oliveira, Maria da Glória Barão, Marilda M. Rocha, Necy Silva e Ilsa Fernandes.
O Ypiranga de futebol de salão (futsal) feminino formado por Edna Lopes, Mary R. de Oliveira, Maria da Glória Barão, Marilda M. Rocha, Necy Silva e Ilsa Fernandes. Na extrema direita o organizador do time, Manoel Rodrigues de Oliveira. Foto/Álbum de família/Laura Machado.

O placar registrou empate de 1 X 1, gols de Gessy e Marilda. O jornal O Albor na edição seguinte exultou: 

“Os dois times se digladiaram para gáudio da imensa torcida que não perdeu avidamente os lances de graça que por ora é o jogo das nossas atletas”. 

2º jogo – 10 de outubro de 1959
Já no sábado seguinte os dois times voltaram a “se digladiar”, para usar o mesmo verbo do tradicional semanário lagunense, de propriedade de Antônio Bessa.
A Portuguesa desta vez venceu pelo placar de 2 X 1, gols de Gessy e Sebastiana (Cecê). Pelo Ypiranga marcou a jogadora Marilda.
 
3º jogo – 24 de outubro de 1959
A novidade do futebol feminino de salão foi aprovada e surgiu um novo time, o Esporte Clube Cruzeiro que desafiou a invencibilidade da Portuguesa. O jogo foi realizado num domingo e o placar foi de 1 X 0 para a Portuguesa, gol de Gessy, o que demonstra que as meninas da Lusa eram feras no futebol de salão.
A Portuguesa formou com as jogadoras de sempre e o Cruzeiro formou com Leda, Dirce, Lenir, Francisca e Sonia. 

4º jogo – 30 de outubro de 1959
Houve ainda um quarto e derradeiro jogo. Foi contra o Ypiranga F.C., realizado numa sexta-feira à noite.
Desta vez a Portuguesa humilhou e goleou o adversário pelo placar de 6 X 0, com 4 gols de Gessy e 2 gols de Sebastiana (Cecê).
Dai em diante não há mais registros em jornais de jogos de futebol de salão feminino realizados em nossa cidade. 

Entrevista com a jogadora Cecê
D. Sebastiana (Cecê).
D. Sebastiana Machado Mattos, a Cecê, hoje com seus 80 anos de idade é moradora no Magalhães, viúva do saudoso Antônio Mattos, pais de Elísia e Giselle e avós de Rodolfo e Thafines e bisavós de Victor.
 
Ela relembra sua participação na Portuguesa, como artilheira e autora de vários gols nas partidas. D. Cecê é aposentada como atendente de saúde pública e trabalhou durante muitos anos no Posto de Saúde da Carioca (hoje Unidade Básica de Saúde).

Quem organizou o time?
Cecê - Quem organizou tudo, junto com outros diretores e foi também o nosso técnico, foi o seu Arduino de Oliveira, que comandava a Portuguesa e morava na rua Custódio Bessa.
Ele nos treinou nos meandros do esporte e nas regras do jogo e viu que levávamos jeito, que tínhamos futuro.
Muitas de nós já gostávamos de futebol. Eu e minha irmã Maria Laura já brincávamos de bola com irmãos e outros amigos ali num campinho que existia no Alagamar, hoje Vila Vitória. A gente foi criada assim e meu pai e tio também jogavam bola.
A gente também já era da torcida organizada da Portuguesa, tínhamos uniforme e tudo. A turma era muito animada.
O pessoal acreditava nos jogos femininos? Como era a mentalidade da época?
Cecê – Muita gente não acreditava, diziam que era um esporte violento, que futebol não era para ser jogado por mulheres. Mas mostramos que não era nada disso, que com treino e técnica também podíamos jogar, driblar e continuar com charme e feminilidade. Acho que em Santa Catarina fomos pioneiras.
Os jogos de futsal feminino atraiam muita gente?
Cecê – Muita. A quadra e arquibancadas do Clube Blondin lotavam. Havia torcidas organizadas. Era uma festa. Não havia televisão e os jogos eram atrações à noite. Não havia muito aonde se ir. Muita gente curiosa também aparecia para assistir.
Algumas vezes jogamos depois da partida masculina principal. Uma vez fizemos a preliminar.
Os jogos também atraiam paqueras?
Cecê – Acho que os rapazes e as moças além de assistir os jogos também iam para paquerar atletas e torcedoras. Imagino que as jogadoras vestidas com calções curtos e outras de minissaias também atraiam os olhares dos rapazes, afinal era o ano de 1959.
Cecê preparando-se para cobrar uma lateral pela Portuguesa. Observe que os torcedores nas arquibancadas da quadra do Clube Blondin ficavam coladinhos às jogadoras. Foto: Álbum de família/Cecê.

Algum lance para recordar?
Cecê – Fiz vários gols que me deram muita alegria e também alegraram a torcida. Mas teve um lance, não lembro qual partida e que já tinha feito um gol da vitória, quando foi marcado um pênalti para nós. Fui cobrar, mas bati com tanta força que a bola foi parar lá no Jardim. Fiquei com uma vergonha.
E por que os jogos de futsal feminino acabaram, depois de quatro partidas?
Cecê – Quem organizava tudo era o nosso técnico, o seu Arduino de Oliveira, como já falei. Aí ele se mudou de Laguna e não jogamos mais. Mas os jogos até hoje estão nas nossas lembranças e de muita gente que assistiu. Depois também muitas foram trabalhar, outras casaram e aí vieram os filhos. Foi um tempo muito bom e que ficou na saudade. Fomos desbravadoras.
 
Mulheres pioneiras
Desbravadoras sem dúvida, d. Cecê. Mas também mulheres pioneiras, feministas, conscientes, inspiradoras e empoderadas, como se diz hoje.
Sem esquecer que bem antes, em 14 de abril de 1941, o presidente Getúlio Vargas, havia assinado o Decreto-Lei nº 3.199 proibindo a “prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina”, entre eles o futebol.
No Brasil, a prática do futsal feminino foi somente oficializada em 8 de janeiro de 1983 pelo extinto Conselho Nacional de Desportos (CND).
Em 23 de abril do mesmo ano a prática foi oficializada pela FIFUSA (Federação Internacional de Futebol de Salão). A partir daí começaram a surgir campeonatos em vários estados brasileiros.
Então, registre-se para a história:
Na Laguna no ano de 1959, mulheres lagunenses foram pioneiras no futebol de salão feminino, o hoje decantado futsal que tem atualmente até campeonatos como a Taça Brasil e torneio mundial organizado pela FIFA.

15 março 2022

Uma Praça (ou seria novela?) chamada Seival

 
No passado era um descampado. Uma área abandonada, de cômoros e mato, usada também como lixão. Uma terra de ninguém, mas valiosa histórica e turisticamente, bem à entrada dos Molhes da Barra. Mas não servia nem para estacionamento.
Praça Seival em março de 2022.

Praça Seival em 2012.
Mas já houve até lançamento de pedra fundamental da Praça Seival e criação de um Monumento neste local, com solenidade, discursos, banda, fogos e descerramento de placa em 29 de julho de 1985, na IV Semana Cultural da Laguna.
Comemorava-se então o Sesquicentenário da Revolução Farroupilha.
Tenho a foto da placa de bronze que foi afixada e que depois, na calada da noite alguém surrupiou do local.
Foi em meados da década de 80, na primeira gestão do prefeito João Gualberto Pereira/Rogério Wendhausen (1983-1988), sendo secretário de Cultura Munir Soares e presidente do Conselho de Cultura Salun Jorge Nacif. 
Presenças no evento do governador de Santa Catarina Esperidião Amin Helou Filho, de José Richa, governador do Paraná e de Jair Soares, governador do Rio Grande do Sul.
Sim, sim, três governadores. Um luxo!
O arquiteto e escritor Wolfgang Ludwig Rau elaborou um projeto – veja a cópia colorida cá embaixo – da réplica do Barco Seival a ser construído ali, no exato local onde aconteceu a Batalha Naval de 15 de novembro de 1839 em que as tropas farroupilhas foram vencidas pelas imperiais. Foi a Retirada da Laguna. A primeira. A segunda, com este nome, aconteceu anos depois na Guerra do Paraguai, vocês sabem.
Retirada é uma expressão militar para substituir fuga. Um eufemismo. Mas isso é outra história.
Com a réplica (Monumento) do barco Seival o local se tornaria, sem dúvida, em mais um ponto turístico. Paisagismo, bancos, quiosques e até uma concha acústica. Mas o projeto nunca se concretizou. Em seu discurso (tenho cópia na íntegra) na tarde fria daquele dia 29 de julho de 1985, Ludwig Rau exultou:

“O início das obras de construção do vultoso monumento será mais um marco de pujança nacional, para orgulho dos catarinenses e para surpresa dos milhares de turistas visitantes dos Molhes do Mar Grosso.
A escolha do local foi acolhida com entusiasmo generalizado, o que evidencia o acerto da decisão”.

Na gestão de Célio Antônio (2005-2012) urbanizou-se a orla, fez-se o calçadão de pavers vermelhos na avenida Rio Grande do Sul, que trocou até de nome.
Logo depois, em 2013, gestão de Everaldo dos Santos (2013-2016) vieram as chamadas revitalizações e urbanizações da orla, com novo calçadão e estreitamento de canteiros. Ampliou-se também a rua Nilton Batista da Silva (via defronte aos prédios) e criou-se bolsões de estacionamento.
E dá-lhe pavers, que esse pessoal adora esses blocos de cimento. Já bancos, floreiras, árvores, parquinhos, lixeiras, nada disso existiu. O espaço vazio foi transformado num local para realização de eventos. “Praça de Eventos Seival”, conforme Lei Ordinária 1646/2013. Eventos particulares, of course. Privatizaram a praça nesses anos todos.

Praça do povo?
A frase “A praça é do povo como o céu é do condor”, no dizer poético de Castro Alves, não corresponde na Laguna.
Sim, sim, uma simples rampa de skate foi construída na orla, registre-se. Mas foi só. E há poucos meses derrubou-se um feio quiosque, abandonado há muito.

Passou o tempo, muita água entrou e saiu pelo canal da Barra, nas mudanças rotineiras de maré. Muita tainha foi tarrafeada ali bem perto, no pontal ou na tesoura e muitos nomes sentaram na cadeira de prefeito. Sentaram e saíram, na alternância democrática e efêmera do poder.  
Lá se vão 37 anos que colocaram a pedra fundamental da Praça Seival e seu monumento, no ano de 1985.
E ainda estamos discutindo regras, projetos, alterações, alternativas, mudanças de local de shows e qual o real aproveitamento futuro do local.
O tempo passa o tempo voa, mas a demora na Laguna continua numa boa...
Tem hora que cansa. Vocês não cansam?

14 março 2022

Portas abertas?

 

Alo, alo secretaria de Educação. 
O lagunense foi quase todo vacinado, as aulas municipais já retornaram há algumas semanas. O uso obrigatório de máscaras ao ar livre e em ambientes fechados caiu no sábado passado, mediante decreto estadual.
Mas a Biblioteca Pública Romeu Ulysséa continua fechada ao público, com atendimento somente mediante agenda.
Não está na hora de voltar à normalidade e ela também reabrir as portas?

12 março 2022

Seleção Bossa Nova - Sociedade Musical União dos Artistas - Laguna

Sociedade Musical União dos Artistas - Laguna
Seleção Bossa Nova
Concerto Alusivo ao Dia do Músico - 27 de novembro de 2021
Centro Cultural Santo Antônio dos Anjos
Maestro Gesiel Fernandes

11 março 2022

Muros e lamentações na Carioca

 
Por causa de uma árvore que despencou com as chuvas há quase um ano, um muro de pedras situado à esquerda da Carioca ameaça ruir. Está escorado e isolado, com o mato crescendo em volta.
Além do mais, precisou acontecer o pior, com atos de vandalismo nas imagens de santos em uma gruta na Casa Pinto d' Ulysséa, para mandarem consertar um muro que estava quebrado também há quase um ano.
Aliás, a própria edificação do solar onde funciona a Secretaria de Turismo e Lazer está em péssimas condições precisando urgentemente de conservação e reforma. Se nada for feito aquilo lá é bem capaz de despencar.
A verdade é que o Largo da Carioca, um dos pontos mais visitados por moradores e turistas, precisa de manutenção.
E o muro ao redor da Unidade Básica de Saúde? O que é aquilo? Minha nossa!!! Completamente sujo, encardido, carunchado e sem portões. E É UMA UNIDADE DE SAÚDE!!!
Não tem duas ou três latas de tinta para dar uma d’mão?
Agora me diz leitor, sinceramente, precisa de Plano de Turismo para 10 anos para arrumar essas coisas?

09 março 2022

Matagal toma conta

Sério isso? Um vereador precisa apresentar Requerimento na Câmara pedindo para capinar e cortar mato na principal rua do bairro Campo de Fora, a Almirante Lamego e adjacências?
Pois foi o que aconteceu na última segunda-feira (7), quando o vereador Luiz Otávio Pereira (Tavinho) (PSL) apresentou o pedido.
Não há um cronograma de limpeza? De roçadeira? De capinação? Principalmente nesta época de verão, que deveria ser mais constante?
É uma vergonha!
Aliás, o vereador podia estender seu Requerimento a diversas vias da cidade, incluindo praças, porque é desolador o matagal. E nem vou falar aqui nos buracos.
De que adianta Plano de Turismo para 10 anos se nem o imediato do básico é feito hoje?
Vejam:

Rua Almirante Lamego

Rua Almirante Lamego

Rua Almirante Lamego

Rua Tácito Pinho 

Rua Willy Strack

03 setembro 2021

Foto-Retrô

 

1978 – Nas oficinas do jornal Semanário de Notícias, de propriedade de Luiz Paulo Carneiro, as presenças de Jarbas Guedes Rosa (colunista de política); Mário (Marinho) Nobre (tipógrafo); Richard Calil Bulos (Chachá), jornalista, colunista e editor; Sílvio Silveira (colunista de esportes e tipógrafo); Jacques Calil Bulos, colaborador; e Ênio Agenor Marques, Aleir Rodrigues e Evilásio Fernandes, os três últimos tipógrafos da velha impressora Marianni.
Eram também colaboradores do Semanário de Notícias: Munir Soares, Márcio Carneiro, Ruben Ulysséa, Ivaldo Roque, Nêmesis de Oliveira, Manoel Américo de Barros, João Carlos Wilke, Valmir Guedes Júnior, José Carlos Natividade (Bujú), entre outros.
A redação e oficinas do Semanário ficava na Praça República Juliana nº 1, bem no começo da rua Raulino Horn.
Em meados de 1979, na gestão do prefeito Mário José Remor/João Gualberto Pereira (1977-1982), o Semanário de Notícias foi encampado pelo recém-fundado jornal O Renovador.
E aí começa uma nova história na imprensa lagunense. Foto: Geraldo Cunha (Gê).