Viúvo de Anita, Giuseppe
Garibaldi casou mais duas vezes. O segundo
casamento terminou à porta da igreja e no terceiro matrimônio ele teve mais
filhos.
Anita Garibaldi
foi o grande amor de Giuseppe Garibaldi, disso sabemos todos nós, afinal o
romance do casal é contado em prosas, versos, peças teatrais e filmes.
Mas depois do
casamento no Uruguai, dos filhos e do falecimento de Anita em Mandriole, na
Itália em 1849, Garibaldi casou de papel passado mais duas vezes.
O segundo
casamento foi desmanchado à porta da igreja, mediante um bilhete que Garibaldi
recebeu. O matrimônio levou vinte anos para ser anulado.
O que teria
acontecido?
Já com a
terceira esposa, Garibaldi teve mais filhos.
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| Livro de Rau "As Sucessoras de Anita Garibaldi". Na capa, além de Garibaldi, suas três esposas: Anita Garibaldi (centro), Giuseppina e Francesca. |
Não sabia disso?
Os historiadores, pesquisadores e escritores de uma maneira geral não abordam
esse assunto. Preferem se deter no grande romance com a nossa heroína.
Mas Rau, o maior
pesquisador sobre Anita e Garibaldi, dedicou um livro ao assunto, intitulado
“As sucessoras de Anita Garibaldi”.
Sobre Rau basta repetir
aqui as palavras do historiador Nereu Corrêa que disse: “É o autor da mais
completa biografia que se escreveu até hoje sobre a imbatível companheira do
corso italiano”.
Sem dúvida. Seu livro “Anita
Garibaldi, o Perfil de uma Heroína Brasileira” é uma vasta e riquíssima biografia
da lagunense.
Mas Rau foi
adiante, e nos trouxe episódios da segunda e terceira núpcias de Garibaldi,
adentrando à vida privada do guerreiro romântico e idealista, que tanto lutou
pela liberdade dos povos.
Ele também cita autores
italianos que abordaram o assunto, como Vittorio Polli, A. Luzio, além de Mino
Mulinacci com “La Bela Figlia del Lago”; e “Garibaldi – Giuseppina Raimond –
Gigio Caroli”, de Vittorio Polli.
O primeiro
casamento em 1842: Anita Garibaldi
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Anita Garibaldi em pintura de Willy Zumblick |
Ana de Jesus
Ribeiro, a nossa Anita Garibaldi, conheceu seu futuro marido em nossa cidade, em 1839, aos 28 anos de idade. Casou-se com Garibaldi em 26 de março de 1842
em Montevidéu, no Uruguai. Da união nasceram os filhos Menotti, Rosita,
Terezita e Ricciotti.Após a morte da
esposa em Mandriole, nos pântanos de Comacchio, na “Retirada de Roma”, de San
Pancrazio a San Marino, na Itália, em 4 de agosto de 1849, passou-se dez anos.
Durante esse
tempo, exilado de sua pátria, Garibaldi circunavegou o globo terrestre, onde
visitou, entre outros lugares, os Estados Unidos, a China, a Austrália e a Inglaterra. Conheceu muitas mulheres nesse período.
Na volta, autoexilou-se
na Ilha de Caprera.
O segundo
casamento em 1860: Marquesa Giuseppina Raimondi
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Giuseppina Raimondi Foto do livro de Rau. |
Diz Rau em sua
obra, que Garibaldi conheceu a Marquesa Maria Carolina Giuseppa Raimondi,
chamada de Giuseppina na noite de 25 de maio de 1859.Giusepina era
uma jovem moça de 18 anos, filha de marquês. Seu pai Giorgio Raimondi era riquíssimo,
militante e admirador de Garibaldi.
Apesar da
diferença de idade, 34 anos, o general Garibaldi por ela se enamorou. Passado
um tempo, e depois de intensa troca de cartas, a pediu em casamento.
Informa Rau que
Giuseppina era criada em ambiente mazziano da “Jovem Itália”.
O general a
fascinava, “mas não amava o maduro general. Para ela nada havia de
especialmente excitante”.
Além do mais, ela
já namorava às escondidas há mais de um ano, “um brioso oficial de cavalaria do Regimento de
Saluzzo, o rico Bergamasco Luigi Caroli”.
Rau analisa
dizendo: “Sua vaidade de moça de dezoito anos a dominou: o homem mais amado da
Itália, herói e quase mito, a quem de certa forma também ela mesmo admirava,
desejava-a para esposa. Feita sucessora de Anita, seria distinguida e invejada
por toda parte”.
Marcada a data do
festivo casamento em 24 de janeiro de 1860 entre o general cinquentão e a jovem
mulher, num palacete em Fino Mornasco, residência do sogro.
Para lá se
dirigiu Garibaldi onde se hospedou. Não era a primeira vez. Por conta de uma
queda de cavalo um mês antes ali já havia estado por mais de uma quinzena.
Rau diz que
teria havido enlaces noturnos, encontros íntimos entre os nubentes. Para Rau, intenção era “construir
certeiro álibi para confundir a data de uma concepção”.
O que muitos não sabiam é que Giuseppina estava em gestação de dois meses. Grávida, mas não do noivo e sim do
oficial de cavalaria, Luigi (Gigio) Caroli.
Uma carta é entregue
Terminado o ato
oficial, tendo como celebrante o padre Felippo Gatti, os recém casados deixam a
capela particular da Villa. E é só nesse momento que Garibaldi recebe uma carta
anônima “que denunciava, com detalhes irrefutáveis, a mais recente das
persistentes infidelidades da mulher que acaba de desposar”.
O general lhe
estende o papel e indaga se é verdadeiro o conteúdo.
- É vero?
Ela não contesta.
A carta chegou
com atraso de uma hora, para escândalo dos mais de duzentos convidados.
O general se
retirou para Milão e de lá, pelo porto de Gênova, seguiu para sua Ilha de
Caprera.
Giuseppina
retirou-se para a Suíça, juntamente com oficial Luigi. Em agosto daquele ano de
1860 deu à luz a um natimorto. Antes disso, o oficial já a havia abandonado.
Nunca mais se encontraram.
Mais tarde Luigi escreverá dezenas de cartas para ela, que não as responderá.
Vinte anos para anulação
E durante mais
de vinte anos o general Garibaldi lutou pela anulação do matrimônio.
“O maior entrave
às démarches anulatórias era a posição assumida por Giuseppina que a manteve irredutível
até o fim da vida, negando sempre ter estado grávida de outrem quando desposou
Garibaldi”.
Só em 14 de
janeiro de 1880, passados vinte anos, a Corte de Apelação em Roma declarou a
tão almejada Nulidade do Casamento.
Aceitou-se a fórmula
do “casamento realizado, mas não consumado”.
Garibaldi voltou
a condição de viúvo de Anita.
Já Giuseppina,
também desimpedida, casou-se em 1881 com Ludovico Mancini, que veio a falecer
em 1913.
Em 1918, aos 77
anos de idade, faleceu Giuseppina, viúva e sem filhos.
Já o oficial de
cavalaria Luigi “não mais obteve louros na carreira militar”. Foi repudiado pelos garibaldinos.
Somente em 1863 foi aceito no Corpo de Voluntários Italianos para lutar a favor da Revolução Polonesa contra a Rússia. Morreu
prisioneiro em Kadaya, ao norte da Mongólia, em 8 de junho de 1865, aos 31 anos
de idade.
Mais tarde descobriu-se que quem escreveu a carta anônima foi um primo de Giuseppina, o marquês Pietro Rovelli, que tinha um verdadeiro dossiê de todas as suas aventuras.
O motivo teria sido vingança por ter sido repelido ou abandonado pela prima.
Rau entende que “A
História do Ressurgimento Italiano não pode omitir a marquesa Raimondi; mas
coloca-a discretamente à margem e bastante inferiorizada”.
“Não representou
para a vida pública do Herói dos Dois Mundos mais do que um importuno “acidente”, ressalta.
O terceiro
casamento em 1880: Dona Francesca Armosino
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Dona Francesca Armosino Garibaldi. Foto do livro de Rau. |
Após a anulação,
Garibaldi casou-se em cerimônia discreta em 26 de janeiro de 1880 com Dona
Francesca Armosino Garibaldi e pode assim legitimar seus últimos filhos Clélia
e Manlio Garibaldi, já com treze e sete anos, respectivamente. Houve ainda
Rosa, falecida em tenra idade.Dona Francesca
era governanta da casa de Garibaldi em Caprera. Competente e fiel enamorou-se
do maduro general. Dirigiu a vida doméstica e sempre esteve ao seu lado.
Garibaldi
faleceu com 75 anos, em 2 de junho de 1882, na Ilha de Caprera, única
propriedade que deixou, hoje tombada como monumento nacional da Itália e onde
está sepultado.
Francesca
faleceu em 1923.
Em 1932, a filha
Clélia, não permitiu a transladação dos restos mortais de Anita Garibaldi de
Nice para Caprera, obrigando Benito Mussolini a optar pelo Monte Gianicolo, em
Roma, onde jazem os restos mortais da heroína.
Clélia faleceu
aos 92 anos, em 1959.
Final
E finaliza Rau em sua
obra: “Na vida de um homem pode haver amores, - mas um só Amor”.
E sobre os
amores de Garibaldi:
“Nenhuma das
sucessoras conseguiu preencher a lacuna que lhe ficou com a morte de Anita.
Nenhuma
tornou-se o esteio íntimo que perdera; nenhuma foi capaz de renovar-lhe aquele
discreto, mas eficiente apoio moral de que todo homem de ação necessita de
parte de sua companheira no ideal”.