quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Um poema de amor escrito por uma mulher na Laguna atravessa os séculos

Um poema escrito por uma mulher na Laguna em 13 de junho de 1880, Dia consagrado a Santo Antônio, homenageia o seu marido, exalta suas virtudes e demonstra seu profundo e fecundo amor.

Foi por acaso. Estava eu ano passado mergulhado em algumas pesquisas em antigos documentos e jornais da Laguna, depositados em nosso Arquivo Público – Casa Candemil, quando tive minha atenção despertada para um pequeno livreto nas estantes, entre outras publicações.

De capa de veludo, costurado e bordado à mão, inclusive com as iniciais de seu marido (APCC), trazia uma dedicatória e um pequeno escrito em bonita letra.
Logo percebi tratar-se de uma preciosidade. O fotografei e o devolvi às prateleiras.


Um poema, em quatorze estrofes, escrito em 13 de junho de 1880 pela senhora Maria Isabel Arantes Carneiro e dedicado ao seu marido, o Comendador português Antônio Pinto da Costa Carneiro, de cujo consórcio tiveram os filhos Álvaro e Otávio Pinto da Costa Carneiro.
Não sei se dª Isabel já encontrava-se enferma quando escreveu o poema, acredito que sim, porque além de todas as outras páginas do livreto estarem em branco, ela faleceu antes do fim daquele ano de 1880.

No início de 1882 Costa Carneiro contraiu segundas núpcias com outra Maria Isabel, esta de sobrenome da Cunha Carneiro, com quem teve os filhos Jorge, Silvio, Lúcio, Edgar, Carmem, Maria Isabel, Mário e Lauro, de extensa prole não somente em nossa cidade, mas por todo esse Brasil.

Antônio Pinto da Costa Carneiro
Antônio Pinto da Costa Carneiro está a merecer um estudo maior. Filho único de Custódio Pinto da Costa Carneiro e de dª Rosa Dias Carneiro era um dos homens mais ricos da Laguna. Naturalizado brasileiro foi fundador de diversos jornais. Nasceu na cidade de Porto, Portugal, em 13 agosto de 1849.

Foi nomeado pelo governador Intendente e presidente da Intendência Municipal da Laguna em 1891 não tendo assumido por conturbações políticas. Voltou ao cargo em 1898 e foi eleito para o quadriênio 1899 a 1902 e a dezembro de 1906. Muitas das obras na Laguna foram construídas por ele, inclusive o antigo Mercado Público. Foi dos primeiros, juntamente com seu amigo, o primeiro médico lagunense dr. Ismael Ulysséa, a professar a fé na religião espírita em nossa cidade.

Eleito deputado estadual em 1891 e reeleito sucessivamente, tendo assumido a presidência do Legislativo Catarinense.
Faleceu em 15 de agosto de 1908.
É nome de rua em nossa cidade e patrono de Grupo Escolar no município de Orleans.

Mas o poema lhe dedicado de sua primeira mulher Maria Isabel Arantes Carneiro fica aqui estampado, registro de seu profundo amor que atravessa três séculos. Atualizei somente a gramática:

Doce senhor da minha alma,
Que o destino a tua uniu,
Este álbum – onde caiu
D’ela a mais florente palma.

Hoje por mim verei falar-te,
na sequencia da mudez.
Da linguagem da ternura,
Do amor e da candidez.

Que para ti simboliza
Toda a essência todo o ardor
De quem se crê tão ditosa
À sombra do teu amor.

Que ele seja um evangelho
De paz serena e de luz,
Que os nossos filhos aproxima
Quanto amor que em ti pus.

Aguardam nele as verdades
Profundas do coração;
Que tudo tem uma história,
Um livro, uma tradução.

Traduz o de Cristo a ideia
D’um banho imenso de luz,
Em que o espírito dos tempos
Mais forte se reproduz.

Que este nosso tão mesquinho!
Mas evangelho também,
Lhes seja lição na vida
De afeto que ele contém.

Sim, do afeto consagrado
Pelos desígnios de Deus
Que de seu seio fecundo
Nos entorna lá dos céus.

Em nossa vida a ventura!
Em nossas almas o amor!
Que de tudo isto lhes seja
Um símbolo e um penhor.

Por minhas mãos fabricado
Este livro, mudo embora,
Quero eu te lembre sempre
Quanto minh’alma te adora

Por mim, por ti, valha ele,
Mais que em outro qualquer dia,
Neste em que a Igreja acrescenta
Do teu nome a alta valia.

Se Antônio por seus talentos,
Suas virtudes e exemplos,
Consegui ser venerado
Nas asas santas dos templos;

Se no coração do povo
Tem funda perpetuidade,
E é sua glória um legado
Passando de idade a idade.

Tu, que tens o mesmo nome,
Deixa que eu venha exalçar,
Com esta mesquinha oferta
Tuas virtudes sem par.



7 comentários:

  1. Quantos mistérios, segredos, casos de Laguna! Quantas histórias a serem descobertas e encontram-se guardadas, escondidas ou esquecidas neste Arquivo Municipal. Parabéns Valmir por desbravar esses encantos! Mari Ghedin

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  2. Bom dia!!!
    Fiquei encantada. Até porque me vem à mente, a curiosidade de saber essas inesquecíveis histórias de amor, que outrora reinavam absolutas em nossa amada cidade.
    Abraços!
    Fatima

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  3. Valmir, não atualizou mais o blog??
    Estou sentindo falta dos posts!!
    Abraços!
    Cléa

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  4. Sou neto de Ivaldo Viana Carneiro, filho de Otávio Pinto da Costa Carneiro e neto do Comendador Carneiro.
    Fiquei emocionado em ler um poema mostrando tamanha prova de amor entre meus trisavôs. Grato por compartilhar essa história!

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  5. Valmir, gratidão por trazer tal história para o meio virtual.
    Maria Isabel Arantes Carneiro e o Comendador português Antônio Pinto da Costa Carneiro são meus tataravós, sou bisneta de Otávio, neta de Ivaldo, filha de Rita de Cássia. Onde meus queridos antepassados estiverem, estão gratos por tal homenagem.

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  6. Valmir, minha mãe acabou de me contar que no Brasil ficou apenas o bisavô Otávio, os restantes dos filhos do tataravô Antônio, mudaram-se para Portugal.

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  7. Oi Amigo Valmir,
    Sabes de antemão que sou teu leitor e fã de tudo que escreves.
    Devido ao pouco tempo disponível, quase não teço comentários em teu Espaço,
    porém venho sentindo a falta da tua inteligente pena aoi registrar, comentar e redescobrir coisas da Nossa Velha Laguna.
    Um abraço, meu querido.
    Luiz Néry(Pacheco dos Reis)Miranda

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