sexta-feira, 29 de setembro de 2017

As pedras pisadas do cais. Mas faz muito tempo...

“Não era feio o lugar, mas não era belo. Tinha, entretanto, o aspecto tranquilo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte”.
(Lima Barreto, em Triste Fim de Policarpo Quaresma)

Nas décadas finais do século XIX, com a chegada de imigrantes e o início da exploração do carvão no sul do estado e construção da Estrada de Ferro Donna Thereza Christina (EFDTC), uma onda de progresso começa a varrer a cidade da Laguna, principalmente em seu aspecto cultural.
Teatro, clubes, Sociedades Musicais e carnavalescas, escolas, jornais, biblioteca, hospital, mercado, são construídos e inaugurados. Pelo porto do centro da cidade escoavam produtos primários e chegavam os manufaturados. O tráfego com outras praças era intenso, inclusive com o Rio de Janeiro.
Rua da Praia (Gustavo Richard), no começo do século XX. Na maré cheia a água vinha quase até as edificações.
Mas a cidade ainda sofria com a falta de saneamento básico. As ruas não eram calçadas, não havia um cais para seu porto e existiam zonas alagadiças em pleno centro da cidade. Não havia praças e jardins urbanizados. Nem energia elétrica, nem telefonia. A infraestrutura da cidade era precária, praticamente inexistente.
Nas primeiras décadas do século XX tudo isso vai começar a mudar.

Na orla do centro da cidade, lixo, limo, podridão, urubus e gado
Saul Ulysséa em seu livro “A Laguna de 1880”, nos conta que as ligações do centro da cidade para os arrabaldes (Campo de Fora e Magalhães) eram feitas por caminhos. Já o centro da cidade era muito feio e fétido, no final do século XIX.
“Por toda a praia era despejado o lixo das casas próximas e os detritos da cozinha, durante o dia, o que era feito em latas e em caixotes.
Nessas ocasiões era grande o número de urubus que afluíam ao local, disputando com os cães o que podiam aproveitar”.

E continua Ulysséa, à página 15:
“À noite após o fechamento das casas comerciais varejistas, todos evitavam passar pela rua da Praia (atual Gustavo Richard), porque era a hora do despejo de matérias fecais, conduzidas em barris e latas por escravos ou criados”.

 Eram denominados “tigres”, porque a ureia por vezes derramada sobre o corpo provocava listras, como no felino.

“Davam-se por vezes episódios nojentos, provocados por indivíduos que pretendendo fazer espírito, empurravam os condutores de latas, na escuridão da noite.
Não havia então iluminação de espécie alguma. A iluminação pública a petróleo só foi inaugurada em 1891.
Na época em que o limo desprendido do fundo do mar, flutuava e era pela maré arrojado à praia, o gado solto, principalmente pela manhã, era atraído para ali.
Em vários pontos da praia viam-se vacas com bezerros, fartando-se na gratuita ração.
Quando o limo apodrecia e antes que fosse retirado dali, o que era demorado, produzia exalações fétidas que eram sentidas até nas ruas centrais”.
Em 1910, pode-se observar a base das Docas sendo construída.
Agora imaginemos nós leitores a fedentina que exalava por toda a extensão da Rua da Praia (Gustavo Richard), com seu lixo e detritos das cozinhas, urubus, urina e fezes despejados ao longo da orla, além do lixo podre e gado solto. Uma verdadeira pocilga a empestar com miasmas os ares dos habitantes e de quem chegasse pelos barcos, navios e canoas.

Além disso, a infraestrutura não existia. O mesmo Saul Ulysséa informa:
“O mar chegava geralmente à altura onde está edificado atualmente (em 1944, quando escreveu e publicou o livro) o passeio da atual rua Gustavo Richard. Somente no quarteirão do Rincão (rua Fernando Machado e Osvaldo Cabral), nos dias de maré alta, o mar atingia as soleiras das casas”.

E mais adiante:
“Não havia nivelamento, nem das ruas nem dos passeios, que eram feitos à vontade dos proprietários, quando os faziam. Variavam em altura e largura, feitos de pedras, sem traço”.

Quer dizer: uma verdadeira casa da mãe Joana. Plano diretor e código de posturas eram miragens. E se existiam algumas normas, elas não eram fiscalizadas nem cumpridas.

Isso que no fim do século XIX, o centro da cidade contava “com mais de 600 casas térreas e 30 sobrados”. Sem falar das ruas, becos e vielas.

Relatório Descritivo da Laguna feita pelo juiz da Comarca em 1881 mostra o feio aspecto
No “Relatório Descritivo da Laguna”, em seus aspectos geográficos, históricos e sociológicos, feito em 1881, pelo juiz de Direito da nossa Comarca, Francisco Isidoro Rodrigues da Costa, ele observa o feio aspecto da cidade e dá suas sugestões. O documento foi transcrito no livro “Laguna antes de 1880”, do padre João Leonir Dall’Alba:

“Aos habitantes da Laguna, especialmente aos proprietários da rua denominada Praia (como já observado, a atual Gustavo Richard), lembraríamos a necessidade de cada um contribuir para diminuir os obstáculos da barra, o que se conseguiria fazendo um cais ou rampa que não só aformosearia a cidade, como daria valor duplo a suas propriedades. Em toda a parte a entrada marítima é o lugar onde o povo e a municipalidade, se esmeram para apresentar asseio e beleza e atrair a vista do espectador. Nesta terra, porém, é o contrário. A principal rua conserva-se no estado primitivo”.
Foto de 1910. A orla ainda sem aterro.
Mais adiante o juiz, que era uma pessoa culta, escrevia para os jornais locais e apreciava as belezas naturais da região, observava sobre a higiene da cidade:

“Durante a nossa estada nesta cidade não cessamos, com nossa humilde pena, de clamar, chamando a atenção da municipalidade para o serviço de higiene, que é para onde esta deve ter a vista sempre presa”.
A Laguna, cidade importante da Província, não tem procurado melhorar o seu estado sanitário.
As emanações pantanosas, sobretudo, que favorecem a propagação de epidemias, não são extintas. A Providência favoreceu o povo com uma contínua mudança de ventos, que carregam os miasmas e contribuem para a salubridade, embora de 1874 a 1878 a epidemia da Varíola dizimasse a população. Estando em frequente comunicação com o Rio de Janeiro, facilmente se importa a Febre Amarela, as Bexigas e todas as espécies de epidemias. Deve-se por isso conservar as casas, as ruas, os valos e outros focos de miasmas sempre acionados, observando os preconceitos higiênicos”.
 
Diversos iates e dois navios a vapor ancorados, sem as Docas concluída.
Com o subtítulo “Necessidades locais”, o douto juiz analisava a situação e puxava a orelha dos administradores, dos maiorais da terra e da população:

“A Laguna, esta parte do paraíso terrestre do Brasil, berço natalício do finado Jerônimo Coelho, esse grande vulto do país que tão bons serviços prestou à pátria, tem, infelizmente, vivido esquecida dos cuidados administrativos, devido a uma política mal entendida, que mata as mais nobres aspirações de um povo independente e altivo como o catarinense.
Que será do município da Laguna se estiver a esperar tudo do governo?
A energia de um povo se manifesta pela iniciativa que toma no seu progresso material e moral.
O povo lagunense, é força confessar, liga pouca importância ao seu bem estar. Os cidadãos de fortuna e prestígio tratam exclusivamente dos seus interesses. Entendem que em tudo e para tudo deve haver a intervenção do governo. Estes que assim entendem querem a subordinação do poder público ao privado, a absorção daquele por este. Daí provém a indiferença que todos notam nos lagunenses abastados.
Muitas são as necessidades locais que já deixamos ditas no correr deste  trabalho tudo está por fazer: A barra necessita ser melhorada; cemitério, ser concluído; as suas ruas, calçadas, o mercado, o chafariz, construídos. Se pelo esforço comum não se levar a efeito os melhoramentos indispensáveis ao cômodo e bem-estar, construindo-se, assim uma certa independência dos favores do Estado, jamais, por outra forma, dar-lhe-á prova de vitalidade e prosperidade. A população almeja possuir tão importantes melhoramentos”.

E o juiz finalizava fazendo uma sugestão:
“É mister que o povo, por si, por meio de associações, faça alguma coisa, não espere pelo governo”.

Poucos anos depois o juiz foi embora para outra comarca, mas as palavras escritas em seu Relatório devem ter doído aos ouvidos de muita gente. Dizer que o lagunense pouco ligava para seu bem estar, que ficava esperando tudo do estado, que os cidadãos de fortuna e prestígio ligavam somente para os seus interesses... Magoou.
Evidentemente ninguém retrucou pelos jornais contestando as palavras do juiz, que eram verdadeiras e mostravam a realidade local.

Pelo sim pelo não, no começo do século seguinte houve o despertar do povo lagunense, seguindo o exemplo da capital do Brasil, o Rio de Janeiro, e comissões foram montadas com vistas aos melhoramentos urbanos da cidade, como veremos adiante.

No começo do século XX, no Rio de Janeiro, acontece o chamado bota-abaixo
No começo do século XX, o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos (1902-1906), promovia naquela cidade uma urbanização, saneamento e civilização da recente Capital da República. Era o chamado “bota-abaixo”.
O centro da cidade foi o local que sofreu as maiores transformações.
Avenidas foram abertas, morros desmanchados, mangues aterrados. Nem tudo deu certo, é bem verdade. Cortiços foram derrubados e sua população, sem ter pra onde ir e não querendo se afastar do centro, começou a subir os morros dando origem à ocupação desordenada até hoje.
Mas os maiores objetivos, que era o saneamento básico e a higiene foram conseguidos.  Pereira Passos quando estudou em Paris, tinha presenciado as reformas urbanas promovidas por Georges-Eugène Haussmann e as implantou no Rio de Janeiro.

Na Laguna, surge a Associação de Aformoseamento
Seguindo o exemplo da então capital do Brasil, nos primeiros anos do século XX, comerciantes, armadores e autoridades da Laguna se reuniram para dar uma nova cara à cidade.
Foi criada, em 14 de julho de 1907, por iniciativa de Ataliba Goulart Rollin e seu cunhado José Guimarães (Juca) Cabral, uma “Associação de Aformoseamento” para sugestões, projetos e arrecadação de numerários para as futuras obras.
Entre elas, praças, chafariz, a construção do cais em granito, passeios, calçamento de ruas, iluminação elétrica, etc.

Prolongamento dos trilhos do Campo de Fora até o centro
Desde o começo do século já havia uma campanha pedindo o prolongamento dos trilhos da Estrada de Ferro da Estação do Campo de Fora até o centro da cidade. Alegava-se que a estação ficava longe do comércio, do porto, nos dias de chuva era um lamaçal, etc...
O cais das Docas ainda por concluir. Foto anterior a 1933, já que pode-se observar que a igreja do Rosário no topo do morro ainda não foi demolida (1933).
O prolongamento vai acontecer em 1º de setembro de 1908, quando foi inaugurado ramal até o centro, passando pelo antigo “potreiro” (Largo do Rosário) e rua 13 de maio (antiga rua do cais), com uma estação provisória montada na rua Gustavo Richard. Como registra o jornal O Albor:

“Mais de 2 mil pessoas compareceram ao ato, acompanhadas da Banda União dos Artistas. À uma hora da tarde, um trem puxado pela locomotiva Princesa entrava na rua das Flores (atual Almirante Lamego), com bandeirolas, ao som de música, espocar de foguetes e prolongados vivas ao engenheiro da Estrada de Ferro, César Pinna”.

Ruben Ulysséa, no jornal Semanário de Notícias de 23 de abril de 1977, na crônica "Os galos não cantam mais...II", em que narra os tempos de sua meninice (nasceu em 17 de março de 1902), conta-nos sobre o fato:

"(...) Por solicitação do comércio local, há já algum tempo que os trens chegavam até a cidade. Vinham até a hoje Praça República Juliana. As locomotivas, rebocando os seus vagões, enfiavam-se por uma ruazinha estreita do Potreiro, entre uma cerca de tábuas e velhas casas de beirado, e apitando, roncando, resfolegando por todas as válvulas, num ensurdecedor ranger de ferros, entravam na praça da Cadeia. Aí o comboio largava os passageiros e deixava num desvio, uns poucos vagões para a descarga e o carregamento de encomendas. Era infernal. Os trens enfumaçavam e atravancavam a praça, mas, os comerciantes de então achavam que a estação do Campo de Fora ficava muito distante das suas casas de negócio e isto desanimava os fregueses do interior e encarecia o carreto. E conseguiram com a direção da estrada trazer os trens até ali, enquanto não se abria a passagem para a rua da Praia".
O primeiro trecho do cais já concluído. À direita da foto o campo do Lamego (hoje Ceal) e os trilhos da Estrada de Ferro que vinham do Campo de Fora. No centro da foto, os galpões de Arcângelo Bianchini (Hoje rodoviária).
Meses antes, em 8 de maio do mesmo ano, o superintendente (prefeito) da Laguna, José Maurício dos Santos, tinha autorizado a diretoria da Estrada de Ferro Thereza Christina “a atravessar terrenos baldios situados ao norte da cidade, tendo em vista modificação do traçado da via férrea”.
No final da década de 30, a estação ferroviária na rua Gustavo Richard. Observe que o antigo mercado  público  já encontra-se queimado (1939)
No mesmo mês, o prefeito assinou a Lei nº 217, que estabelecia diversas providências sobre construção de passeios, obrigando os proprietários de imóveis no perímetro urbano “a construir passeios cimentados na frente de seus terrenos e casas, dentro de 30 dias, sob pena de multa no valor de 25 mil réis. Não o fazendo, o infrator era cobrado no dobro da quantia e o serviço efetuado pela municipalidade”.
Era o Código de Posturas sendo implementado.

Em outubro de 1908, portanto um mês depois do prolongamento da Estrada de Ferro pelo Potreiro (Largo do Rosário), rua 13 de maio e Praça da Cadeia (República Juliana), já se falava em contornar com os trilhos o Morro do Rosário à beira da Lagoa,  com retirada de parte da pedreira, aterro e construção de um cais.
 
Ano 1900. Largo e Morro do Rosário. As águas da Lagoa Santo Antônio dos Anjos vinham até ali. No alto, os fundos da igreja do Rosário, que vai ser derrubada em 1933. A frente da igreja ficava para a Lagoa. Toda essa orla vai ser aterrada e parte da pedreira cortada para os blocos de pedra iniciais do cais. A primeira casa, de esquina, era moradia de Antônio Carneiro Pinto.
A construção do cais
Em 18 de agosto de 1909, os dois deputados estaduais por Laguna, João de Guimarães Pinho e José Johanny, do Partido Republicano Catarinense (PRC), apresentaram na Assembleia Legislativa, projeto de lei para construção do cais em nossa cidade.
Sim, sim, você leu bem, leitor. Tínhamos então dois deputados por nossa terra. José Johanny substituiu o deputado lagunense Costa Carneiro, falecido em 15 de agosto de 1908.
O Projeto de Lei nº 1, para construção do cais, apresentado na Assembleia Legislativa, em 18 de agosto de 1909, pelos deputados  lagunenses João de Guimarães Pinho e José Johanny, do Partido Republicano.
No porto antigo ancoravam em velhos trapiches, canoas, barcos e navios de cargas e passageiros, assim como carga e descarga de  produtos e mercadorias que vinham de outras regiões e municípios utilizando-se de rios e do complexo lagunar.

O projeto de construção do cais previa, em seu artigo primeiro, que “a linha do cais passará dois metros além do ponto marcado na planta elaborada pelo engenheiro Polydoro Olavo de Santhiago e Frederico Selva. Planta inicial então existente na Secretaria Geral do Estado”.
Antes, em 1902, houve um pré-projeto, de Joaquim Dias da Cunha, que era engenheiro fiscal da Estrada de Ferro.
Engenheiro Polydoro Olavo de Santhiago, quem elaborou a planta do cais e a planta inicial dos Molhes da Barra. Não verá suas conclusões, já que falece em 7 de maio de 1916.
Foram signatários do projeto, além obviamente de João Pinho e José Johanny, os deputados Eugênio Müller, Francisco Margarida, Tavares Sobrinho, Lúcio Caldeira, Emílio Brum, Thiago de Castro, Ferreira de Albuquerque e Carlos Buchele. O projeto foi aprovado por unanimidade por todos os deputados presente à sessão.

Dias depois, o governador Gustavo Richard sancionou a Lei nº 807, de 30 de agosto de 1909. Conforme a Lei previa em seu artigo 2º, foram nomeados três empresas da Laguna para comporem a comissão que administraria as obras do cais.
Eram eles: Firma Pacheco & Irmãos, Thomaz Pereira Netto e Cabral Irmão & Cia.

Para construir o cais do porto, no centro da cidade, havia sido criada, dois anos antes, em 29 de agosto de 1907, a Lei nº 735, aumentando a taxa de exportação em 30 réis sobre o volume exportado, dinheiro esse depositado em rubrica à parte, visando criar um fundo para as obras de infraestrutura e embelezamento da cidade, como o cais.
Quer dizer: o ônus da obra recaiu sobre a própria classe comercial lagunense, os armadores exportadores e importadores. O total arrecadado para início do empreendimento chegou a 50:000$000 (cinquenta contos de réis) Uma boa soma. Para efeito de comparação, um exemplar do jornal semanário O Albor custava 200 (duzentos réis).

Intrigas da oposição
Como vimos anteriormente, o projeto de lei recebeu aprovação unânime dos deputados presentes. Mas, por maledicência, desinformação, intriga ou mesmo por pura fofoca, alguém espalhou na Laguna – e foi publicada em nota no jornal O Albor em seu número 355 -, que o deputado, médico Ferreira Lima (de Tubarão) havia votado contra o projeto, portanto indo de encontro aos interesses da Laguna e sua população. Não era verdade.
O deputado, evidentemente, contestou a maledicência e em carta datada de 9 de setembro e publicada no jornal O Dia, de Florianópolis e O Albor, da Laguna, se dizendo surpreendido, afirmou:

“Não me manifestei contrário à passagem do projeto e isso frisei bem claramente ao começar o discurso que deu lugar àquela afirmação do mencionado jornal. Disse que não ia impugnar o projeto, mas apenas pedir uma explicação aos seus signatários”.

 E continuou o deputado em sua carta se defendendo e esclarecendo:
“Não sou, nunca seria contra a execução das obras do cais da Laguna. Votei a favor do projeto (que só vim a conhecer naquela sessão, a primeira em que tomava parte este ano) e falei sobre ele como já ficou dito, apenas para pedir explicações sobre um ponto que achei se afastar das praxes estabelecidas”.

O jornal O Albor teve que engolir a “barriga” jornalística e publicar o desmentido e esclarecimentos do deputado. Quem mandou seus jornalistas e colunistas, por mero bairrismo, não checarem a falsa informação.

Início das obras do cais
Em 22 de setembro de 1909 foram fincadas estacas ao longo da orla da Lagoa Santo Antônio dos Anjos, determinando o rumo da obra. Seu primeiro eixo ia do Morro de Nª Sª do Rosário até as imediações do Mercado Público (antigo prédio).
Operários, maioria de imigrantes italianos, no aterro e base do cais, em 1910. Ao fundo o antigo mercado público.
O pioneiro projeto do cais, como já vimos, era assinado pelo engenheiro responsável pela construção dos molhes da Barra da Laguna, Polydoro Olavo de Santhiago e Frederico Selva, feitos ajustes posteriores. A parte técnica coube ao engenheiro Augusto César de Pinna, superintendente da Estrada de Ferro Thereza Christina.

O construtor do cais, inicialmente, foi o tenente-coronel Manoel José Fernandes, que após a colocação das estacas de demarcação “reuniu alguns amigos no tradicional Café Tupy, esquina das ruas Raulino Horn com 15 de novembro, para solenizar o início das obras, obsequiando-os com profuso copo de cerveja”.

O jornal O Albor esteve presente na “boca-livre”, na pessoa do seu diretor Antônio (Tonico) Bessa, que “felicitou o operoso construtor pela auspiciosa inauguração das obras”, como deixou registrado na edição seguinte.
Era superintendente municipal da Laguna (prefeito), o coronel José Maurício dos Santos; e secretário geral da prefeitura, Tácito Pinho.

Nos primeiros 40 dias de serviços foram extraídos 500 metros cúbicos de pedra do Morro do Rosário e aterrado todo o braço da Lagoa em direção ao Campo de Fora, abrindo assim espaço para que os trilhos chegassem até o centro da cidade, contornando o Morro do Rosário em direção à rua Gustavo Richard.

O empreiteiro (tarefeiro) encarregado dos serviços foi Antônio Zamparetti, que já havia trabalhado em extração de pedras em estradas de Blumenau e São Paulo.
Numa prestação de contas realizada um ano depois, pode-se observar pagamentos efetuados a um engenheiro de nome Emillio Gallois, francês de nascimento, ao fiscal de obras Antônio Macuco, e a Cândido Manoel Belmiro, “por serviços em canoa, para sondagens e fincamento de estacas”.
O jornal O Albor faz uma homenagem e lista os nomes dos operários encarregados dos trabalhos: Thomé de Souza, Seryeste Bandini, Francisco Roque, João Carara, Articino Roque, Manoel Costa, Thomaz de Pieri, Luiz de Bona, Wetol Marco, Manoel Domingo, Ramiro Soares, Manoel Francisco, Angelo Francisco, Sizino Soares, Domingos Custódio, Antônio Epiphanio, Sebastião Fontana, Angelo Zamparethi, João Tomé, e Isais.

Em 17 de novembro de 1909, em cerimônia efetuada pontualmente ao meio-dia, teve início a construção propriamente dita, com a colocação das primeiras pedras da muralha do cais.
As pedras de granito róseo eram extraídas do Morro de Nª Sª do Rosário e talhadas no próprio local. “Será o único cais construído de material tão precioso em todo o Brasil”, explicava o empreiteiro aos presentes, entre eles o superintendente e conselheiros municipais, funcionários públicos federais e estaduais (estes certamente dando uma escapulida das repartições para assistir ao evento), comerciantes e populares. Muitos populares.
O Albor não registra, mas deve ter havido a queima de algumas caixas de foguetes, afinal do jeito que a cidade sempre foi fogueteira...

E foi essa centenária obra de engenharia, verdadeiro trabalho de arte, que em 2012, com autorização da prefeitura e do Iphan, teve trecho cortado e desmanchado para construção de uma rampa para os barcos da sede da Polícia Ambiental...

Arcângelo Bianchini assume a continuação das obras do cais
Em carta datada de 30 de outubro de 1911, a comissão encarregada das obras do cais informava, através do jornal O Albor, que Arcângelo Bianchini substituía o empreiteiro Antônio Zamparetti na continuação dos trabalhos. Não há explicações sobre o motivo da mudança.
 Eram as obras da chamada 2ª seção, em forma de elipse, que ia do antigo mercado público até a Ponta dos Martins (Ponta das Pedras), imediações do atual Iate Clube, incluindo aí construção das Docas para pequenas embarcações.
Em 1910, o caminho para o Magalhães, ainda sem o aterro e cais, que será construído por Arcângelo Bianchini. No centro da foto pode-se observar o casarão do capitão Francisco Fernandes Martins, onde hoje é o Colégio Stella Maris.
Bianchini já estava tocando as obras de construção do então Grupo Escolar Jerônimo Coelho, que seria inaugurado em 1912. Antes, em 1904, havia reformado todo o telhado da igreja Matriz. É dele também a murada de pedra do cemitério Santo Antônio dos Anjos, fundos da igreja Matriz. Suas oficinas, inclusive fábrica de móveis, situavam-se em galpões na área onde hoje funciona a rodoviária da Laguna. Bem por isso, a rua defronte às edificações recebeu seu nome, numa homenagem das mais justas da comunidade lagunense.
Arcângelo Bianchini foi casado com Bianca Pagani e após ter ficado viúvo, casou-se com dª Dosolina. Foi tronco de numerosa família.
Seu irmão, Tito Bianchini foi um desbravador e “rasgador de estradas” nas Serras do Bom Retiro, Urubici, Rio do Sul e Lages.

Um novo tempo
A construção do cais continuou e adentrou os anos e décadas seguintes, até o seu término, conforme previa o projeto. Laguna entrava num novo tempo nas primeiras décadas do século XX.

Datam de meados dos anos 1910, a chegada da energia elétrica a Laguna (27/07/1916), pela empresa Carl Hoepcke e da telefonia (06/08/1916), pelo empreiteiro João Schneider, que venceram as concorrências efetuadas. Dois cinemas funcionavam regularmente, os cines Natal e o Saturno; inauguração do prédio do Grupo Escolar Jerônimo Coelho e prédio do Fórum (1912), etc.
Nesta época já era superintendente (prefeito) da Laguna, o major Oscar Pinho e secretário geral do governo municipal, Antônio Guimarães Cabral.
Em 1921, o cais ainda estava em construção. Fundos do antigo Mercado Público.
E as mudanças foram tantas no aspecto de infraestrutura na Laguna, que um oficial da Marinha Brasileira que por aqui passou em 1916, em viagem de inspeção, deixou registradas nas páginas do jornal O Dia, de Florianópolis, suas observações da nossa cidade, comparando-a com a que encontrou seis anos antes.

 “E as observações são feitas por pessoa estranha ao nosso meio, o que quer dizer que são a expressão da verdade”, frisa o jornal O Albor que reproduziu a carta, na introdução da matéria:

“(...) A Laguna, velha e lendária, em plena decadência em 1910, ressurgiu qual fênix das suas cinzas em 1916.
Há seis anos era a vetusta cidade um amontoado de prédios enegrecidos pelos rigores de muitos invernos, outros em ruínas e ainda outros em abandono.
 Hoje, porém vemos um belo cais para atracação dos navios, com os trilhos da Estrada de Ferro até o Mercado; a lagoa de Oeste aterrada; os prédios limpos, pintados, reformados; um regular teatro em construção; um jardim bem cuidado e artístico; o novo prédio do fórum; o grupo escolar; vários prédios de estilo; o novo caminho da costa; as ruas limpas, bem alinhadas e bem abauladas; as casas comerciais bem sortidas, prenhes de artigos de procedência europeia e americana; o povo alegre, comunicativo, sem o ar aparvalhado do provinciano sedentário”.

"Sem o ar aparvalhado do provinciano sedentário", é de amargar. Mas era a Laguna adentrando um novo tempo e acompanhando o desenvolvimento econômico-social dos grandes centros urbanos. É o começo da Belle Époque, período caracterizado pelo otimismo, prosperidade econômica, inovações culturais, científicas e tecnológicas. São desses anos grande parte dos belos casarios levantados no centro da cidade.

Uma época de grandes transformações culturais que vai influenciar a forma de pensar e viver o cotidiano em todo o mundo.

5 comentários:

  1. Verdadeira aula de história.

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  2. Boa tarde!
    Como foi bom ler estes textos. Um retorno ao passado, sem dúvida. Verdadeira aula de história mesmo. Obrigada!

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  3. Que maravilha podermos ganhar de presente este conhecimento todo que o amigo nos deu... Viva Laguna... Sou uma pessoa muito orgulhosa por ter nascido nesta terra... Mais uma vez meu muito obrigado... Agradecer é pouco, eu sei, pois o trabalho deve ter sido imenso, mas é de coração...

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  4. Parabéns pela pesquisa e pelo texto e fotos, Valmir. Imagino o trabalhão que deu. Merecia ser discutido em salas de aulas de Laguna, mostrar para alunos e professores de história.
    José de Abreu

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  5. Prezado Valmir:
    Mais uma vez você nos surpreende... com uma excelente matéria sobre uma das fases importantes da nossa Laguna, marcada por um período onde ocorreram obras de vulto, que se constituíram em grande melhoria para a cidade.
    As fotos que enriquecem o texto, que acredito serem desconhecidas para a maioria, mostram como era e como foi se transformando o cais do antigo porto, que foi construído em duas etapas.
    Outro muito aspecto interessante diz respeito ao envolvimento dos empresários do comércio, assim como da classe política... mesmo, havendo a chamada “intriga da oposição”, que sempre irá existir... conforme comentário do jornal O Albor em seu número 355.

    Concordo com as palavras do comentário efetuado pelo Sr. José de Abreu, quando registra que este material “merecia ser discutido em salas de aulas de Laguna, mostrar para alunos e professores de história”.
    Adolfo Bez Filho – Joinville SC

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