Era uma manhã
de segunda-feira, 24 de outubro de 1921. A cidade se preparava para receber o
navio Laguna, proveniente do Rio de
Janeiro, que realizava este trajeto de cabotagem há muitos anos. Algumas
pessoas, amigos e familiares dos passageiros já se dirigiam ao cais do centro
da cidade para recepção, como era de costume.
Já nas
primeiras horas do dia o posto semáforo situado na elevação mais alta da
cidade, conhecida como Morro do Pau de Sinal (hoje Morro da Glória), já
assinalava a aproximação da embarcação à barra dos molhes e seu adentramento.
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Vapor Laguna
encalhado nas pedras da Barra da Laguna. Foto: acervo do autor.
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O mesmo
semáforo minutos depois alertava, através do hasteamento de três bandeiras, que
o navio havia encalhado. Logo a notícia correu pela cidade.
O Vapor Laguna era um paquete de porte médio,
com 49m8cm de comprimento, 8m6cm de largura, pesando 525 ton.
Fabricado pelo
Estaleiro inglês Seath T. B. & Cia. Batizado com o nome de Alexandria, o
vapor foi incorporado em 1890 à frota da Empreza Esperanza Marítima, sediada no
Rio de Janeiro, então capital da República.
Em 1920 havia
sido vendido ao Lloyd Brasileiro, continuando a fazer o mesmo trajeto de quase
30 anos entre Laguna e a então capital federal, transportando passageiros e
mercadorias.
Era bastante
conhecido da população lagunense, sempre participando das festividades de Nossa
Senhora dos Navegantes, onde, ancorado no cais, embandeirava seus mastros. Vários
de seus marinheiros eram nascidos na Laguna.
O Vapor Laguna transpôs a barra e o seu
conhecido e perigoso banco de areia. Porém, logo após rebentou o gualdrope, que
são cabos que vão por cada bordo enrolar no tambor da roda do leme onde o timoneiro
governa a embarcação.
Desgovernado,
o Laguna encalhou nas pedras do
costão do Morro da Ponta da Barra, abrindo água na proa. Felizmente, todos os passageiros
foram salvos juntamente com a tripulação.
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Detalhe da foto ampliada mostra tripulantes e passageiros ainda a bordo do Vapor Laguna à espera de salvamento. |
Um rebocador
facilmente o teria retirado dali, conduzindo-o ao estaleiro para reparos. Mas,
por incrível que pareça, não havia rebocador no movimentado porto da Laguna.
Os seguintes
oficiais compunham o paquete Laguna:
Comandante: Ranulfo José de Souza
Imediato: Francisco José da Rocha
Chefe de Máquinas: José Antônio
de Souza
1º piloto: Orlando Pires
2º piloto: Pedro Cabral
Comissário: Antônio Boaventura
Entre os
passageiros que estavam a bordo, o coronel João Pinho, Salvato Pinho e Junqueira
Botelho, comandante do Vapor Flamengo; além de Eugênio Magalhães e João Afonso.
Botelho, na
qualidade de comandante de embarcações, disse à imprensa ser o acidente
lamentável, “não cabendo nenhuma responsabilidade ao comandante do paquete Laguna.
O gualdrope que partiu era novo”, sublinhou por fim.
Rebocadores são chamados
O agente do
Lloyd Brasileiro em Florianópolis era o dr. Heitor Blum, que recebeu um
telegrama às 11 horas da manhã, remetido pelo comandante do Vapor Laguna, comunicando o desastre.
O documento
solicitava que fosse imediatamente enviado ao local o rebocador Florianópolis. O comandante desconhecia
que este rebocador estava encostado, condenado pela Capitania dos Portos.
Outro
rebocador, de nome Lomba foi enviado.
Às 12 horas um novo telegrama informava que a situação era crítica e que as
máquinas já estavam paradas.
Às 19h30 o
rebocador Lomba, abastecido de carvão,
seguiu para Laguna. No comando o capitão-tenente Adalberto Cotrim Coimbra.
Também foi
requisitado o rebocador Eolo, de
Itajaí, comandado por Apolinário Brandão, que chegou à capital às 22 horas
partindo em seguida para Laguna e levando a bordo o almirante Portilho Bastos; o comandante do porto, Manoel de Gouvêa Coutinho e Euzébio Machado, funcionário
do Lloyd Brasileiro.
“O Eolo foi antes a Fortaleza de Santa
Cruz, receber mangotes para serem aplicados às bombas e de lá seguiu para Imbituba,
onde foi buscar uma chata da Companhia Lage e rebocá-la para o porto da
Laguna”, diz o jornal O Estado, de
Florianópolis, em sua edição de 25, dia seguinte ao encalhe.
Nesse ínterim,
com as horas passando à espera dos rebocadores, as águas invadiram o porão da
proa e o compartilhamento de máquinas do vapor.
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Rebocador Eolo,
ancorado no Porto da Laguna, que veio de Itajaí para ajudar no resgate do Vapor
Laguna. Acervo do autor.
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Ao chegar ao
local do sinistro para verificar sua extensão e abrir o inquérito marítimo, o
capitão do porto Manoel de Gouvêa Coutinho e o almirante Portilho Bastos afirmaram
ser possível o salvamento do navio, desde que os serviços começassem
imediatamente.
O capitão do
porto declarou preliminarmente que o acidente foi devido a imprevistos
materiais e naturais.
Os serviços de
descarga já haviam sido iniciados e também o desmonte de equipamentos para
aliviar o peso da embarcação, que estava presa por quatro espias. Um guindaste
a vapor foi providenciado e retirava equipamentos metálicos que vinham a bordo
para a Companhia Carbonífera de Urussanga.
Proveniente de
Florianópolis, a bordo do navio Max da firma Hoepcke Irmão & Cia, um dia depois chegou à Laguna, o comandante
Carlos de Abreu para dirigir os trabalhos de salvamento do navio.
Com o mesmo
objetivo, juntos também chegaram o maquinista Colombo Pires e o escafandrista
de nome Luiz Hubert, cedido pela firma Lage & Irmãos. Este último profissional
veio se juntar ao seu colega de profissão, escafandrista Athanásio Feijó, da
Companhia de Melhoramentos da Barra da Laguna.
O Max também trouxe em seus porões uma
bomba centrícula, ferros e uma espia.
O que parecia
fácil e de rápida solução foi se tornando demorado, com opiniões divergentes
quanto a métodos de salvamento.
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O navio Laguna ancorado no cais do velho porto (imediações da Capitania dos Portos), todo embandeirado na Festa dos Navegantes, na década de 1910. |
Um mês se passou
Passado quase
um mês, no dia 20 de novembro, o jornal O Albor noticiava numa pequena nota que
haviam retornado no dia 19 a Florianópolis pelo rebocador Lomba e pelo paquete Oyapock,
respectivamente, o almirante Portilho Bastos e Manoel Gouvêa Coutinho, membros
encarregados da comissão de salvamento do navio.
Na mesma
edição, O Albor trazia estampada a
informação de que havia chegado a Laguna o paquete Oyapock, de passageiros e mercadorias, da mesma companhia proprietária
do Vapor Laguna, a Lloyd. Trazia a
bordo uma nova comissão para continuar os trabalhos de salvamento do vapor Laguna. Vinha direto do Rio de Janeiro,
designada pelo diretor do Lloyd Brasileiro, Buarque de Macedo.
A comissão era
composta pelo inspetor de máquinas João Vicente da Cruz, pelo prático-mor José
Antônio de Araújo e mais treze operários, entre escafandrista, carpinteiros, bombeiros
e maquinistas.
Sobre o navio Oypock que havia chegado ao porto lagunense,
O Albor se derrama em elogios,
descrevendo que era elegante e luxuoso e que havia sido muito visitado durante
a estada no porto. Era dotado de “intensa iluminação elétrica, inúmeros,
espaçosos e higiênicos camarotes de primeira classe, uma elegante sala para
senhoras e um vasto salão para refeições”.
Ao fim da
nota, o editor aproveitava para ressaltar que os comerciantes da Laguna iriam
se dirigir à diretoria do Lloyd Brasileiro a fim de que este navio substituísse
o Vapor Laguna em viagens regulares
Rio de Janeiro-Laguna. Com isso a publicação já demostrava que não havia mais
esperanças de salvamento para este navio.
Ressalte-se
que durante muitos anos a imprensa e comerciantes lagunenses também fizeram
ampla campanha junto ao governo federal solicitando um rebocador permanente
para o porto da Laguna. Nunca foram atendidos.
Uma entrevista provoca protestos
Em sua edição
de 22 de novembro de 1921, o jornal O Estado,
de Florianópolis, trouxe uma entrevista com o contra-almirante Portilho Bastos,
sobre o encalhe do Vapor Laguna com explicações sobre os serviços de salvamento que foram efetuados durante quase
um mês.
Bastos
preliminarmente conta à reportagem como recebeu a notícia do encalhe do navio Laguna e os preparativos que empreendeu
para a viagem até Laguna. Depois narra as providências tomadas. É um verdadeiro
relatório pormenorizado dos trabalhos efetuados, repleto de termos técnicos.
Julgo
interessante reproduzi-lo aqui, em seus principais trechos, até para enriquecer
esta pesquisa e melhorar o entendimento dos serviços de salvamento realizados,
há quase cem anos, num navio encalhado na Barra da Laguna:
“Ali chegados, tratamos de melhorar o espiamento
do paquete e demos começo à descarga de seus porões, serviço este já iniciado
por bordo, com talhas patentes, visto que os guinchos para este serviço só
podiam funcionar com vapor”.
Tratamos de procurar em terra e colocar a bordo
uma caldeira e bem assim bombear a vapor para atacar o esgotamento preliminar,
necessário neste caso.
Efetuada a descarga dos porões, com os dois
mergulhadores, fomos conhecer da verdadeira situação do navio.
Para o aparelhamento do esgoto, retiramos uma
bomba a vapor de 70 ton do rebocador “Eolo”; outra de 25 ton do paquete
inutilizado “Paulo de Frontin”; outra de 25 ton da obra do porto e outra que
requisitamos do rebocador “Florianópolis”.
O serviço foi coroado de excelente êxito, ficando
inteiramente esgotado, com exceção do porão de vante onde existem os rombos.
Foram vedadas por meios diferentes as anteparas
dos compartimentos estanques do porão de vante para as caldeiras e máquinas e
assim, os da máquina para o porão de ré, como também a cravação do túnel da hélice,
que passa por esse porão.
Depois de executar este serviço, verificamos
existir no porão de vante 4 rombos, sendo um de 1m60cm de comprimento por
1m20cm de largura e os outros de 25cm mais ou menos; o maior está situado ao
centro da braçola da escotilha a vante, junto ao pé de carneiro, e os outros a
bombordo e dois a boreste.
Foram fabricadas duas camisas de colisão, feitas
de lona nova, dobrada.
Depois da execução daqueles serviços, ficamos
convencidos que precisávamos aliviar a proa do navio, parte em que está situado
o porão, o qual permanecia cheio d’água, acompanhando o nível da maré e onde se
apoiava, tendo pela parte interna uma pedra no maior rombo com 11 e meia
polegada para dentro. Assim tratamos de retirar deste mesmo porão, três grandes
tanques de ferro, que pelas suas capacidades, nos dariam um deslocamento
suficiente, e mais setenta e três barris de óleo vazios, obtidos na estrada de
ferro.
Aqueles tanques foram preparados com dois tubos,
um suficiente para o seu completo esgotamento e outro para entrada de ar, os
quais, um foi por nós colocados em posição conveniente, isto é, a boreste, à ré
do porão, sendo que o outro das mesmas dimensões deveria ser colocado à mesma
posição a bombordo e o terceiro à meia nau, por entre a ré do porão de vante,
todos no mesmo porão já citado e assim os barris deveriam ser colocados,
distribuídos convenientemente atracados ao fundo do porão por meios de cabos
nos pés de carneiro.
Ordens foram dadas para que as amarras, ferros,
paus de carga, enfim, todo peso existente à proa fosse retirado de bordo ou
passado para a ré do navio.
Dois foram os ensaios feitos para esgotar o porão
das máquinas e caldeiras, os quais deram excelentes resultados tendo-se
esgotado até abaixo dos estrados e daí não baixando mais. Assim deixou-se
equilibrar o navio sobre o fundo.
O porão de ré, assim como os compartimentos para
ré, depois de esgotados foi mantido com pouca água, pois era isso de toda
conveniência”.
No final do
texto, no último parágrafo, o contra-almirante informava que essa foi a
situação deixada à nova comissão que havia sido enviada pelo Lloyd Brasileiro à
Laguna para assumir a continuação dos trabalhos.
Encalhado sobre pedras?
De tudo o que
foi dito, do extenso relatório técnico bem produzido e publicado no jornal O Estado, o que causou indignação e
revolta às autoridades e imprensa lagunense, levantando os ânimos críticos, foi
uma afirmativa logo no começo do texto: a de que o paquete Laguna estava “encalhado sobre pedras existentes no banco da
entrada da barra”.
Eis um tema
que despertava paixões, uma invenção maldosa que já vinha de alguns anos, parecendo
ser até uma campanha orquestrada, se dizia, para desqualificar a barra da
Laguna e prejudicar seu porto. Hoje falaríamos, utilizando uma expressão atual,
tratar-se de uma fake news.
O tempo
realmente mostrou que nunca existiu naquele local um obstáculo em forma de
pedra ou laje.
Na verdade, o
encalhe do Vapor Laguna se deu após a
transposição do banco de areia, já dentro das águas da barra, por um problema mecânico,
o encalhando desgovernado nas pedras do costão da Ponta da Barra.
Na edição de 4
de dezembro, em forte editorial com o título “Respondendo”, o jornal lagunense O Albor comprou a briga e contestou a
tal afirmação do almirante:
“Custa-nos a
crer que um oficial da nossa Marinha de Guerra, com a responsabilidade que lhe
devia pesar os assuntos hidrográficos da nossa costa, tivesse a facilidade de
incorrer em tamanho deslize profissional.
Ora, todo o
mundo sabe que o banco existente em nossa barra sempre foi constituído
simplesmente por camadas de areias móveis, que ora se deslocam para a direita,
ou para a esquerda; daí o se constatar que hoje a barra está para o sul, e
amanhã para o norte.
Também, é do
conhecimento de todos que à proporção que o molhe tem avançado para o mar, o
banco da nossa barra vai recuando para fora, o que fica exuberantemente provado
não existir rochedo algum no banco da nossa barra e sim que ele é constituído
por camadas arenosas que se movem ao léo das correntes marítimas e das águas do
Rio Tubarão.
Em resumo: o “Laguna”
não bateu em pedra alguma no banco, porquanto no banco não há pedra”.
Divergências
Houve desde o
início dos trabalhos, divergências entre os técnicos e os chefes da comissão de
salvamento do Vapor Laguna.
De acordo com
a Revista Santelmo, publicação
editada na Laguna por Lucas Bainha, em sua edição de nº 1, de 1º de janeiro de
1922, o resgate da embarcação, encalhada em 21 de outubro, poderia ter sido
efetuada até o dia 2 de novembro, já que o mar até a esta data manteve-se
calmo.
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Vapor Laguna
dois meses após seu encalhe, já sem a chaminé, sendo desmontado.
Foto: Acervo
do autor.
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Após esta data
“caiu forte vento nordeste, a barra engrossou e o navio começou a ser fustigado
pelas ondas, alargando o rombo produzido pelo mar”.
A revista
também afirma que o escafandrista Athanásio Feijó propôs que o único meio para
salvar o navio “seria o emprego de flutuantes: pipas, balões, etc”. Também
sugeria que não era possível tapar os dois buracos da embarcação porque em cada
um havia a ponta de uma pedra “que devido aos movimentos do navio estavam em
constante movimento, crescendo e aparecendo outros”. Os encarregados não lhe deram
ouvidos.
Uma quadrinha zombeteira
Na mesma
edição alguém usando o pseudônimo Nico, publicou umas quadrinhas com o título
“Roça no mar?” zombando da situação do navio. Fez uma troça, como então se
dizia:
Chamar ao “Laguna” roça?!..
É coisa de algum brejeiro
Mas, ainda mesmo de troça
Convém mais, ser verdadeiro.
No mar, que o arrecife coça,
Há pescado, há pesqueiros,
Navios que sem deixar mossa.
O cortam, belos, ligeiros.
Em nobres fins, diferentes
Barras por abrir, fechar...
Náufragos de suas correntes...
Para as medir - comissões,
Como também de salvar...
- Com faces de tubarões.
Em sua edição
de nº 3, a Santelmo lamenta que os serviços de resgate no navio Laguna estavam
parados:
“Tivemos
sempre um pouco de esperança enquanto víamos prosseguir os trabalhos para o seu
salvamento, mas, agora que tudo está paralisado, foram-se, também, as nossas
esperanças, não só de vermos novamente aquele belo paquete cortar as águas da
nossa baía, como também a de ver outro paquete substituí-lo”.
Proposta de salvamento recusada pelo Lloyd
Em outro
trecho da mesma reportagem somos informados que uma proposta de salvamento da
embarcação, feita por um conhecido industrial da Laguna, havia sido recusada.
“Parece-nos
que o Lloyd Brasileiro tem interesse que o Laguna
não seja salvo, porquanto sabemos que se recusou a aceitar a proposta do sr.
Arcângelo Bianchini. Que prejuízo podia ter o Lloyd em aceitar essa proposta?
Nenhum”.
Bianchini era
um forte industrial de nossa cidade, construtor do cais de granito em forma de
elipse do velho porto, da grande murada de pedra do cemitério da Irmandade e da
construção do prédio do então Grupo Escolar Jerônimo Coelho, inaugurado em
1912, entre outros empreendimentos de vulto.
O fim
A mesma
revista em sua edição nº 5 do mês seguinte, 28 de fevereiro, trouxe a triste
notícia final: “O vapor Laguna vai
ser abandonado por se tornar impossível o seu salvamento”.
De fato. Os dias se passaram formando inexoráveis
meses e anos. Nem a primeira ou segunda comissão de técnicos para salvamento do
navio conseguiram resgatá-lo.
Retirada a
maior parte de suas peças e casco de madeira lá ele ficou depositado. Seu
esqueleto, carcomido pela maresia e indiferença dos homens desapareceu sob as
águas do mar grosso.
Ficou sua
história e o seu passado glorioso de viagens idas e vindas entre o Rio de
Janeiro e Laguna. Ficaram suas fotografias em preto & branco, amareladas
pelo tempo que a tudo corrói e tudo consome.