segunda-feira, 25 de junho de 2018

A “Pedra da Paixão” levada da Laguna

A primeira preciosidade histórica levada da Laguna, cujos desdobramentos ficaram registrados em jornais da época e nos Anais históricos, foi denominada “A Pedra da Paixão”.

O episódio se deu em fins do século passado, precisamente no recuado ano de 1887.
No início daquele ano, jornais daqui e de Desterro noticiaram que alguns exploradores, inclusive estrangeiros, estavam em nossa região em busca de preciosidades arqueológicas.
A Pedra da Paixão que foi levada da Laguna teria sido uma itacoatiara "pedra com inscrição rupestres", à exemplo desta existente na Praia do Campeche, em Florianópolis? Foto: Acervo Iphan.
Registros
O lagunense Osvaldo Rodrigues Cabral, historiador-mor de Santa Catarina, escreveu sobre o fato em 1968, nos Anais do Instituto de Antropologia, págs. 91/100, com o título “A Pedra da Paixão”.
Já o padre João Alfredo Rohr no capítulo “Pré-História da Laguna”, págs. 34/36, do livro “Santo Antônio dos Anjos da Laguna – Seus Valores Históricos e Humanos”, 1976, Ioesc, também abordou o assunto.

O caso
A história é a seguinte: no ano já citado de 1887, visitava o Brasil a segunda expedição alemã ao Xingu, formada pelos cientistas Guilherme von den Steinen, Paulo Ehrenreich e Pedro Vogel.

Quem eram os exploradores
Steinen, além de explorador, era médico, etnólogo e antropólogo. Era pesquisador da Universidade de Berlim e presidente da Sociedade Geográfica nesta cidade, além de professor da Universidade de Marburg.
Em 1884, em sua primeira expedição ao Brasil, partindo de Cuiabá desceu pelo Rio Xingú indo até o Pará. Estudou as tribos indígenas dos Bacairis.
Dois anos depois publicou seus estudos na obra “Durch Central-Brasilien (Através do Brasil Central).
Em sua segunda expedição, em 1887, veio acompanhado do também etnólogo e antropólogo Paul Ehrenreich e de Pedro Vogel.
Por causa de uma epidemia de cólera no Paraguai a expedição teve que aguardar os meses de fevereiro e março para prosseguir viagem. Os cientistas, enquanto esperavam o vapor “Rio Apa” que entraria pelo Rio da Prata levando-os a Corumbá, fizeram uma escala em Santa Catarina, aqui visitando alguns sambaquis, como o da Armação da Piedade, Areias da Praia Grande (Tijuquinhas) e o da Ponta da Paixão na Laguna. 

Grande parte das duas expedições de Steinen foi custeada pelo Instituto Bibliográfico de Leipzig, mas também contou com recursos financeiros do Império Brasileiro. Estávamos, então, nos estertores do regime monárquico.
Capa do livro de Steinen contendo os estudos da 2ª expedição ao Brasil.
No ano seguinte retornou a Europa e em 1897 publicou os resultados dos estudos da 2ª expedição no livro “Unter den Naturvölkern Zentral-Brasiliens” (Entre os Povos do Brasil Central).

Nos sambaquis da Laguna
Chegaram a Laguna em 23 de março daquele ano, acompanhados de Gervásio Nunes Pires e Manoel Moreira da Silva. Imediatamente visitaram o Sambaqui da Ponta da Paixão, ou “das alminhas” como era mais conhecido, segundo Saul Ulysséa. Hoje o local é denominado Morro do Peralta. 

O significado da palavra Paixão
A palavra "Paixão", dizem os mais antigos na Laguna, seria um termo marítimo para argolas encrustadas nas pedras daquela ponta do Morro que servia como caminho para o então arrabalde Magalhães. As argolas eram utilizadas para fixar barcos e navios; há quem afirme que a palavra significaria o verdadeiros martírio que era antigamente atravessar o local devido aos ventos, pedregulhos e poeira. Fico com a primeira alternativa.
Em 1910, portanto 23 anos após esses acontecimentos, o caminho para o Magalhães, ainda sem o aterro e cais, que será construído por Arcângelo Bianchini. No centro da foto pode-se observar o casarão do capitão Francisco Fernandes Martins, onde hoje é o Colégio Stella Maris. À esquerda, a encosta do Morro, hoje chamado de Peralta, na rua Calheiros da Graça. Em seu final, a Ponta da Paixão e o sambaqui. Mais ao fundo a hoje Ponta das Pedras, ainda sem construções.
O objetivo da expedição era conhecer “curiosa pedra coberta de inscrições rupestres”, uma legítima Itacoatiara. (No tupi-guarani Ita=pedra, coatiara=pintado, gravado, escrito. Na ortografia vigente: Itaquatiara).
Ela, a pedra, havia sido descoberta dois anos antes pelo lagunense Augusto Carneiro dos Santos, que comunicou o achado ao juiz da Comarca da Laguna Dr. Manoel do Nascimento Fonseca Galvão, estudioso dos assuntos indígenas.
A comissão científica interessou-se pela pedra, logo tratando de providenciar sua retirada para levá-la para a Alemanha. Um bloqueiro foi contratado para efetuar o serviço.

Lagunenses protestam
Sabedores do que estava para acontecer, alguns cidadãos da Laguna protestaram junto ao presidente da Câmara de Vereadores, Luiz Nery Pacheco dos Reis, “que imediatamente deu ordem de suspender o serviço e deixar a pedra em seu lugar”. Em suma: embargou a retirada da pedra.

Ordens e contraordens
Mas aí surgiu uma contraordem do capitão dos portos que mandou prosseguir os serviços, já que a tal pedra encontrava-se em terreno de Marinha.
Entra na confusão Manuel da Costa Barreiros, delegado do Museu Nacional na Laguna (sim, sim, já tivemos esse cargo por aqui) que alerta por telegrama sobre os fatos o diretor do Museu Nacional, Ladislau de Souza Melo e Neto, já que a pedra estava prometida para compor o acervo daquele Museu, situado no Rio de Janeiro.
Rapidamente Ladislau telegrafa ao presidente da Câmara da Laguna nos seguintes termos:
“Remeta ao Museu Nacional trabalho indígena pago despesas serviço prestado ao Estado importante”.

Presidente da Província entra na confusão
O presidente da Câmara da Laguna, diante de tal impasse, recorre ao presidente da Província Catarinense, Francisco José da Rocha, narrando todos os fatos. Rocha dá a seguinte ordem:
“Entregue aos exploradores científicos ou a pessoas por eles autorizadas a pedra existente no lugar denominado Paixão”.

As ordens e contraordens, o leva e não leva, duraram uma semana, com várias trocas de telegramas entre as autoridades, inclusive falando da existência de mais duas pedras no local.

Jornal publica o desfecho
No dia 1º de abril, o jornal O Conservador, publicado em Desterro, trouxe a seguinte notícia:
“A Comissão de exploradores, dirigida pelo Sr. Dr. Von Den Steinen, voltou de sua excursão aos sambaquis da Laguna, onde fez grande colheita de preciosidades, que vão ser enviadas para a Europa”.

Ao fim e a cabo, a pedra foi entregue ao cientista alemão e levada para a Alemanha.
A Pedra da Paixão seria uma pedra com amoladores, a exemplo desta existente às margens do canal da Barra da Lagoa, na capital do estado? Foto: Valmir Guedes Jr.
Padre Rohr termina seu capítulo afirmando em 1976 - sem citar qualquer base para tal e por que chegou a esta conclusão - que a chamada Pedra da Paixão ou Pedra da Laguna “na realidade não era uma itacoatiara ou “pedra coberta com inscrições rupestres”, mas, sim, uma pedra com amoladores, em forma de pratos e frisos, onde os indígenas outrora amolavam e poliam os seus artefatos de pedra. São semelhantes a outras existente no litoral do Cabo de Santa Marta e na Praia da Galheta, na Laguna”.

Já Osvaldo Cabral finaliza nos Anais do Instituto de Antropologia: “Se os bombardeios da última guerra não destruíram o museu para onde a levaram, deve figurar em alguma vitrine da Europa, como testemunha de uma cultura extinta em nosso país”.

2 comentários:

  1. Laguna e suas histórias. Parabéns Valmir pela pesquisa .
    Geraldo de Jesus

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  2. Bom dia. Desconhecia essa história. Muito boa pesquisa inclusive citando fontes. Edison Silva

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