quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Manoel da Costa, o Lelé. Uma história de muito trabalho

Desde a infância todos o conhecem por Lelé. O apelido foi por causa de um tio chamado Lelé do Dindinho, morador lá do Ribeirão Grande.
Lelé, ou melhor, Manoel da Costa como registrado na Certidão de Nascimento, é casado com Elza da Silva Costa. O casal tem três filhas: Rosilane, Rosimar e Rosângela.
Prestes em completar 81 anos no próximo dia 30 de agosto, nascido, portanto, em 1938, Lelé continua na ativa até hoje, trabalhando e produzindo. E contando sempre muitas histórias.

“Lá no Ribeirão Grande, onde nasci, naqueles tempos quando a criança começava a andar já começava também a trabalhar", diz Lelé, começando a prosa e relembrando.
O filho da dª Áurea Maria de Jesus Costa e João Hipólito da Costa começou muito cedo, ajudando seu pai, agricultor no Ribeirão.

De canoa vindo do Ribeirão Grande
“Vinha desde criança com meu pai na canoa trazendo os produtos pra vender aqui nas Docas. A canoa era movida a remo e quando tinha vento, usava a vela. Meu pai também  trazia os produtos pra vender nas vendas do Zé Mendonça, do Lídio Correa, do Erlindo Amboni. Farinha, verduras, legumes, frutas como banana, goiaba, feijão, ovos, cachaça, uns doces em compota”.
Ele conta que as mulheres do Ribeirão faziam balaios, esteiras, ficavam em casa costurando, fazendo a comida, cuidando dos filhos, que sempre eram muitos.
“Elas faziam muita esteira, balaios, corda de boi, que a gente vendia. Muitas delas, as solteiras, na época da safra da cebola iam pra Tubarão trabalhar”.
 Seu Lelé diz que depois o pessoal passou a vender os produtos no meio da rua, defronte ao cais.

“A gente vendia nos tabuleiros, hoje é estrado da canoa, mas antes era chamado de paneiro que a gente botava em cima de duas caixas de querosene que ficavam em cima dos trilhos que passavam por ali. Era muita gente e o movimento muito bom. Lembro do Bráz do Zé, Chico Zé, Paulinho do João Miguel, Chio importe (pai do Orlando Ribeiro). Eram 10/12 canoas carregadas, que traziam umas trinta pessoas”.

E ele continua:
“Quando vinha chegando o trem ele apitava longe pra avisar pro pessoal tirar os tabuleiros pra ele passar em direção ao porto lá no Magalhães. Na volta era a mesma coisa. Era uma correria, minha nossa”. E Lelé imita os tipos de apito do trem, sons ainda guardados em sua memória.
Mercado Público no final da década de 1960, ainda com os trilhos em frente, retirados em 1973. Foto Bacha.
Em 1958 surgia um novo Mercado Público
Em 19 de janeiro de 1958 o prefeito Walmor de Oliveira inaugurava o novo Mercado Público. O antigo, situado um pouco mais à frente e ao lado, tinha sofrido um incêndio alguns anos antes (1939) e só restaram os escombros.

Lelé estava lá desde o início
“O prefeito Walmor construíu o Mercado em um ano. Ia vendendo os boxes e conseguindo dinheiro pra tocar a obra. Era muita gente instalada com tabuleiros pelos corredores do Mercado. Depois de um tempo e juntando meu dinheirinho, eu comprei com muito esforço, com papel passado na prefeitura, o box do João Ribeiro. Era o de número 11”.

Foi quando este box com vendas de verduras e frutas entra para a história do Mercado Público e passa a ser conhecido pelos lagunenses e visitantes como o “Box do Lelé”. E foram 56 anos vividos ali. Uma vida.
E ele relembra os primeiros donos de boxes: “O grego Flor foi o primeiro açougue, tinha também o Nardo, depois entrou o Hélio Flor, o Zé Effting, Manfredo e muitos outros que eu não me lembro agora”.

Mais tarde, já no final da década de 1960, o prefeito Juaci Ungaretti ampliou o Mercado, construindo mais uma ala em seu lado sul. Na verdade um grande salão.

A saída, após 56 anos
No ano de 2009, o projeto de restauração e revitalização do Mercado Público foi licitado e apresentado ao BNDES. Em 2013 a obra foi licitada. Em 2014 os comerciantes tiveram que deixar o Mercado.
Eis um assunto que ainda mexe com os sentimentos de Lelé e o deixa com os olhos lacrimejando, tristes.

“Não tenho mágoa, mas fiquei revoltado com a maneira como foi feito. Fomos despejados, saímos com uma mão na frente outra atrás. Tínhamos adquirido os boxes com nossas economias de uma vida, com papel passado na prefeitura. Foi muito triste, fiquei muito desgostoso por isso não tenho interesse em voltar pra lá”.

Histórias, receitas e segredos no plantar e no colher  
Lelé é cheio de histórias e receitas e modo de plantar e de colher e segredos hortifrutigranjeiros. E aquela receita de chá ou como reconhecer o fruto  maduro, a melhor verdura. Mereceria um livro seus ensinamentos e seus causos vividos, testemunhados e presenciados por ele nesses 81 anos de vida. E Lelé fala sempre a sério, que ninguém duvide de sua palavra. 

O dia que Lelé viu um lobisomem. Ou seria uma mula sem cabeça?

“Eu vi, juro que vi. Não sou homem de mentir. Era uma noite de sexta-feira quente, lua cheia. Naquela época o pessoal ficava na frente das casas, conversando. Era uma turma grande em frente da casa do meu avô. De repente muitos latidos de cachorros, vinham vindo, eles rodando, girando e no meio deles um bicho peludo, escuro. Com a barulheira correu todo mundo pra dentro de casa. Eu fiquei, não tive medo. Eu vi, no meio dos cachorros latindo ia um tipo de baio, um pequeno cavalo, mas só tinha o pescoço, não tinha cabeça. Eu fiquei parado, não fiz nada, só olhei. Eles passaram por mim e depois entraram num cafezal que ficava perto da pedra, o pessoal do Ribeirão sabe onde é, e desapareceram. Depois todos os cachorros voltaram, mas sem latir mais. Acho que era um lobisomem, só pode ser. Ou uma mula sem cabeça, mas o lobisomem se transforma”.

Outra história: O pulo do boto
“Tava começando a clarear o dia, vinha eu sozinho pro Mercado com minha canoa a motor lá do Ribeirão. Ali quase em frente à Figueira levei um susto. De repente um boto grande pulou por cima da canoa, por trás, antes do fim da popa. Foi um baita susto, nunca tinha visto isso, um boto passando por cima de mim, enorme. Acho que o coitado se assustou também comigo e com o barulho do motor, sei lá, mas eu também quase morri de susto”.

O cação voador
“Ia pra Santa Marta ou pra Carniça, não lembro bem, mas fazia muito frio. Comigo ia o Zé da Vó. A gente ia quieto, sem se falar por causa do vento e do frio. Mas aí nós dois olhamos ao mesmo tempo pra uma coisa que aconteceu. Um grande cação deu um voo e caiu dentro da nossa canoa, no fundo. Na época foi muito falada essa história aqui em Laguna. Acho que ficamos com tanta pena do peixe que pegamos ele e botamos de volta na água. Não tinha graça pescar assim. Foi um susto pra ele e pra nós”.

O Box ou o Varejão do Lelé hoje está situado no Largo do Rosário – Praça Jerônimo Coelho nº 55, no Centro Histórico, em casa alugada. 

Na porta, a mesma placa colorida utilizada em seu box no Mercado Público, que orientou tantos fregueses por mais de cinco décadas. Uma história vivida de muita dedicação e trabalho. Evoé, Lelé.

6 comentários:

  1. Ótima história. História de uma vida. Quem não conhece o Lelé não conhece Laguna. Parabéns pelo resgate.

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  2. Edison de Andrade8 de agosto de 2019 10:12

    E o Lelé nunca recebeu uma homenagem como comerciante mais antigo em atividade. Cadê a Acil? A Cdl?
    Parabéns Valmir pela reportagem.

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  3. Sr Lelé .Um ser iluminado .Uma pessoa gentil , querida e com muitas estórias à contar .Uma vida digna e abençoada . Que Deus lhe conceda muitos e muitos anos de vida .

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  4. Valmir, bonita a história de vida do seu Lelé. Me identifiquei com ela, na altura do relato do período do novo mercado público, hoje em reforma. Me encontrei também participando daquele momento de euforia na Laguna, pela conquista de um novo local, onde o povo passaria a ir na busca de produtos de primeira necessidade. Eu estava lá, como auxiliar de minha avó, Hortência e meu pai Manoel (chuchu) num box onde comercializávamos frutas e verduras, bem ao lado do box do Sr. Zabot. Tempo bom onde aliávamos trabalho, brincadeiras e estudo. Nada perdemos, pelo contrario, nos formamos para a vida. Parabéns para o seu Lelé por permitir tornar pública esta história linda e parabéns a você por nos proporcionar mais um relato fiel, contada por aquele que a viveu.
    Um grande abraço,
    Pedro Paulo da Silva

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  5. Gostei muito da história do Sr. Lelé. Passaria horas ouvindo os seus contos.
    Não o conheço pessoalmente, mas com certeza é uma pessoa que merece todas as homenagens.
    Parabéns pela reportagem.

    Luiz Carlos Guedes

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  6. PARABÉNS SENHOR LELÉ..... VC É UM HOMEM BATALHADOR MERECE ESSA HOMENAGEM.

    MARISTELA COSTA MAIATO E MARIO LUIZ MAIATO

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